questões vultosas

ENTRE 1920 E 2030

Partidos e imprensa tratam as eleições como se fossem destino, e não como o momento de projetar o futuro do Brasil
Página de A cartilha de Getúlio Vargas: o país mudou, mas seus símbolos, como a cordialidade brasileira, persistem, apesar de vivermos em um dos ambientes mais violentos do mundo - CRÉDITO: HISTORY & ART COLLECTION_ALAMY_FOTOARENA
Página de A cartilha de Getúlio Vargas: o país mudou, mas seus símbolos, como a cordialidade brasileira, persistem, apesar de vivermos em um dos ambientes mais violentos do mundo - CRÉDITO: HISTORY & ART COLLECTION_ALAMY_FOTOARENA

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Em 2026, o futebol, mais do que as eleições, resgatou a conversa necessária sobre identidade nacional. As semanas que se seguiram à eliminação para a Noruega geraram debates intensos em que se procurava responder a uma pergunta: “Quem é o culpado por tamanha humilhação futebolística?” As divergências surgem entre aqueles que apontam fatores mais conjunturais – o esquema tático de Ancelotti, a convocação de Neymar, o pênalti perdido por Bruno Guimarães – e aqueles que preferem explicações mais estruturais: a má gestão da CBF, a péssima organização dos clubes, as categorias de base abandonadas. Outros questionam razões ainda mais profundas, como a grande substituição religiosa ocorrida no Brasil nos últimos anos e seus impactos sobre a qualidade do jogo e o compromisso dos jogadores. 

Interesso-me menos pelas razões do que pela premissa. A premissa é a expectativa de que o Brasil pudesse – e devesse – ser campeão do mundo. É a cobrança que se faz a todo grupo de selecionados a cada quatro anos. Essa expectativa foi construída pelo nosso passado. Nós nos tornamos o país do futebol – e a Seleção, a Amarelinha, a expressão máxima de excelência e beleza nesse esporte.

Essa identidade remete aos momentos mágicos vividos entre 1958 e 1970 e, depois, entre 1994 e 2002. Remete também aos grandes craques que, mesmo sem conquistar uma Copa do Mundo, encantaram o país nos campeonatos de 1950 e 1982. Mas a Seleção já não significa isso há vinte anos. Desde 2006, não temos um time com grandes craques nem um futebol particularmente encantador ou eficiente. Mesmo assim, continuamos projetando sobre a Seleção expectativas que os jogadores de hoje simplesmente não têm condições de atender. Nossa frustração nasce menos do resultado do que do significado que ainda atribuímos à camisa amarela. Quando vemos aquele uniforme em campo, imaginamos que ele veste Garrincha, Rivelino, Romário, Ronaldo ou Ronaldinho. Na realidade, veste Casemiro, Paquetá, Vini Jr., Neymar Jr. e uma geração de bons jogadores, mas muito distante daquela que aprendemos a associar ao símbolo da Seleção.

É mais fácil culpar o treinador estrangeiro do que admitir que estamos com expectativas irrealizáveis. É por isso que a decepção parece sempre desproporcional. Somos taxidérmicos na nossa relação com o futebol e, sobretudo, com a Seleção Brasileira. Não adianta dizer que não deveríamos nos sentir humilhados. O fato é que nos sentimos. A confirmação de que já não somos o país do futebol dói. 

Quando dizemos que o Brasil é o país do futebol, do samba, do Carnaval ou da alegria, costumamos falar como se essas características existissem desde sempre. Não existiram. São o resultado de uma identidade nacional construída relativamente tarde. Na Europa, a maior parte das identidades nacionais foi forjada ao longo do século XIX. Nós demoramos muito mais. Até 1930, o Brasil era menos uma nação do que um acordo entre oligarquias regionais.

O regime inaugurado pela Revolução – ou golpe – de 1930 procurou inventar uma ideia de Brasil. Seu objetivo era desenvolver o país em ritmo acelerado. No plano econômico, isso significava, acima de tudo, responder à deterioração dos termos de troca que penalizavam as nações exportadoras de produtos primários. Era necessário, portanto, promover a industrialização – ainda que de forma tutelada, centralizada, e muitas vezes autoritária. E, para isso, o Estado assumiu o papel de condutor do processo: selecionou setores, ergueu uma burguesia nacional e, ao mesmo tempo, organizou o proletariado urbano, criando as bases de uma nova estrutura social. As leis trabalhistas nasceram nessa época, como parte desta construção estatal de uma economia moderna, que buscava reduzir a dependência da economia nacional à agricultura e ao sistema bancário, criando uma base industrial sólida. Não se tratava apenas de promover o crescimento econômico, mas de garantir ao Brasil um lugar menos periférico no sistema internacional – de fazer do país um ator, e não um mero objeto, no cenário global.

O projeto de 1930 não se limitou à economia. Era preciso fundar uma nação. E fundar uma nação significava construir a identidade nacional de um país profundamente marcado por divisões regionais, raciais e culturais. A multiplicidade de identidades que até então caracterizava o Brasil foi, a partir de 1930, submetida a um esforço de unificação simbólica e cultural sem precedentes. 

O Estado brasileiro incentivou a produção de duas grandes identidades nacionais, que durante quase um século organizariam nossa vida pública. Foram identidades extraordinariamente eficazes para unificar um país fragmentado, mas eram totalmente artificiais. Não descreviam o Brasil como ele era. Procuravam construir o Brasil que o Estado desejava que existisse. 

A primeira identidade inventada foi a de “raça brasileira”, uma atualização do conceito de “raça cósmica” do pensador e político mexicano José Vasconcelos (1882-1959). A miscigenação, antes tratada pelas elites como sinal de atraso, converteu-se, ao menos no plano do discurso, em virtude civilizatória. A ideia era que aqui as raças se misturavam harmonicamente, ao contrário dos Estados Unidos, onde os negros e indígenas eram segregados, ou da Europa, racialmente homogênea e etnocêntrica. O Brasil deveria então se apresentar como uma nação miscigenada, cordial, alegre, festiva – um país jovem com algo único a oferecer ao mundo. 

Elementos culturais antes criminalizados – sobretudo os da cultura afro-­brasileira nas cidades – passaram a ser elevados à condição de símbolos nacionais. O samba, antes perseguido, tornou-se a música oficial da brasilidade. O futebol, prática popular e desorganizada, foi transformado em paixão nacional e em expressão de uma suposta genialidade tropical. O Carnaval, com sua ambiguidade entre festa e desordem, passou a ser celebrado, institucionalizado, promovido pelo próprio Estado. E as festas do catolicismo popular, antes combatidas pela própria Igreja e pelas elites, foram absorvidas como parte do repertório oficial da cultura brasileira. Nossa Senhora Aparecida tornou-se padroeira do Brasil, tomando o lugar de São Pedro de Alcântara. Popular e “morena como todos os brasileiros”, nas palavras de Getúlio Vargas, a Virgem Aparecida condensava essa nova identidade nacional. 

Ao afirmar que todos eram mestiços e igualmente brasileiros, o Estado tentava apagar conflitos raciais muito concretos. A promessa da democracia racial produzia pertencimento, mas também ocultava hierarquias que continuaram organizando a sociedade brasileira. Não se pode descartar também a possibilidade de que o incentivo à miscigenação fosse na realidade uma etapa a mais do projeto de branqueamento da população que tinha marcado a Primeira República (1889-1930). 

A segunda identidade criada foi a do trabalhador. Não o trabalhador como sujeito da luta de classes, como imaginava o socialismo europeu, mas como uma categoria moral. Trabalhador era aquele brasileiro reconhecido pelo Estado como cidadão produtivo, disciplinado e merecedor de direitos. Não por acaso, o próprio Getúlio apresentou-se como o “primeiro trabalhador do Brasil” e recebeu simbolicamente a primeira carteira de trabalho emitida no país, em 1932. Logo ele, que não tinha nada de trabalhador, e sim de estancieiro. Saúde, previdência, proteção social e diversos direitos começaram a se tornar acessíveis, sobretudo àqueles reconhecidos oficialmente como trabalhadores, o que era na prática uma minoria da população ativa. 

As duas identidades compartilhavam a mesma lógica. Ser brasileiro e ser trabalhador não eram condições naturais; eram posições produzidas pelo Estado. O brasileiro tinha a missão de encarnar a promessa da democracia racial. O trabalhador, a missão de construir uma nação industrial, soberana e moderna. Foi uma operação política de enorme sucesso. Durante quase um século, o Brasil pensou a si mesmo a partir dessas duas categorias. Esse imaginário atravessou os regimes, sobreviveu às mudanças de governo e permanece como pano de fundo da identidade nacional. Se a criação dessas identidades criou sujeitos políticos, também ajudou a tornar outras identidades invisíveis. A criação do “trabalhador” rouba a visibilidade dos trabalhadores informais e os estigmatiza, da mesma forma que a criação de uma “raça brasileira” miscigenada tentou inviabilizar a identidade negra no Brasil. 

O país mudou, mas os símbolos permanecem. Continuamos repetindo que somos o país do futebol quando já não jogamos o melhor futebol do mundo há muito tempo. Continuamos nos apresentando como uma sociedade cordial quando temos um dos ambientes públicos mais violentos do planeta. Continuamos falando em democracia racial em uma sociedade profundamente atravessada e organizada pelo racismo. O presidente fala em carteira de trabalho, enquanto uma parcela crescente da população quer justamente não ter chefe.

Lula, aliás, talvez seja o produto mais acabado desse imaginário de Brasil. Um trabalhador, nordestino – que, embora branco, nunca foi considerado plenamente como branco pelas elites brasileiras –, cuja trajetória simboliza a promessa de ascensão social que organizou o imaginário nacional ao longo do século XX. Talvez seja justamente por isso que sua última eleição marque também o esgotamento desse imaginário. 

Vivemos, cem anos depois, uma estranha e inquietante repetição dos anos 1920. Como então, o Brasil de hoje parece prisioneiro de um tempo histórico ultrapassado, atrasado em relação ao compasso do mundo, desatento aos vetores de transformação tecnológica, econômica e cultural que já reconfiguram o século XXI. Embora um pouco menos que há cem anos, continuamos um país periférico. Uma república desarticulada, com instituições democráticas formalmente preservadas, mas substancialmente corroídas. Uma sociedade que importa seus símbolos, suas crenças, sua cultura e até mesmo seus conflitos. 

Antes da consolidação da legislação trabalhista, a remuneração pelo trabalho era frequentemente por tarefa realizada. O rendimento variava diariamente, a renda era imprevisível e todo o risco econômico recaía sobre o trabalhador. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que entrou em vigor em 1943, procurou justamente romper com essa lógica, ao instituir o salário mensal, a jornada de trabalho, as férias, o descanso remunerado e a proteção social. O século XXI, porém, parece caminhar na direção inversa. Motoristas de aplicativo são remunerados por corrida, entregadores por entrega, criadores de conteúdo por visualização. O pagamento por tarefa, que imaginávamos superado pela sociedade industrial, retorna como característica central da economia digital. 

No plano econômico, voltamos à condição primário-exportadora que os modernizadores de 1930 tentaram superar. O crescimento de nosso PIB se ancora, mais uma vez, na agricultura – e, ao contrário da retórica oficial, não se trata de uma agricultura de alto valor agregado, mas de um setor eminentemente extrativista, voltado à exportação de commodities com baixo conteúdo tecnológico e gerando muitas externalidades negativas. Um setor profundamente dependente do Estado, como já era na Primeira República. Enquanto isso, a indústria nacional mingua: desatualizada, pouco competitiva, tecnologicamente irrelevante, deixou de ser o motor do desenvolvimento. A Quarta Revolução Industrial acontece bem longe daqui. Não lideramos nenhuma fronteira em inteligência artificial, em biotecnologia, em inovação digital. Em vez disso, voltamos à condição de economia satélite, vendendo minério, soja e carne em troca de semicondutores, algoritmos e vacinas. 

Culturalmente, nos tornamos uma colônia. Nos anos 1920, copiávamos Paris e os códigos das elites europeias. Hoje, os Estados Unidos do Sul penetram cada aspecto da vida cotidiana brasileira: nos templos evangélicos inspirados nas megachurches; nas letras do agronejo, que reproduzem o éthos do country americano; nas festas de rodeio; no discurso meritocrático da “superação”; nos reality shows, nos modelos educacionais, nas roupas, nos jingles políticos, nos nomes próprios das crianças e até no léxico de movimentos sociais. 

Politicamente, a comparação se aplica. A Primeira República foi uma oligarquia sustentada por um pacto entre elites regionais, com uma democracia meramente formal e um Estado incapaz de integrar o país. Era como uma igreja sem missa e celebrações. Cem anos depois, voltamos a ter uma democracia esvaziada pelas oligarquias regionais e setoriais, que sequestraram o orçamento público. O Estado, como um todo, foi capturado por forças fragmentadas – corporações policiais, núcleos militares, milícias armadas, facções regionais, igrejas que disputam o poder e reinterpretam a Constituição como se fosse um apêndice da Bíblia. 

Alguns personagens de hoje correspondem muito ao perfil de políticos de então. Os ex-governadores e atuais candidatos à Presidência Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (PSD-GO) parecem figuras da República Velha. Ambos trabalham na defesa dos interesses setoriais das elites de seus estados. A identificação das elites com Zema é tamanha que ele consegue a extraordinária façanha de ter sido um dos governadores mais irresponsáveis do ponto de vista fiscal e mesmo assim ter o apoio de boa parte dos liberais que reclamam das gastanças do governo Lula.

Renan Santos (Missão) é, lamentavelmente, a única candidatura capaz de empolgar nesta campanha. Ele transformou o extremismo cibernético do Movimento Brasil Livre (MBL) em partido político e dentro da direita radical se destaca como um dos poucos que procura construir uma ideia de futuro para o país. Um futuro inexequível, que se perde em meio a metas e indicadores de difícil compreensão, mas que tem o mérito de oferecer à direita e à extrema direita um horizonte claro do país que deseja construir e de apresentá-lo explicitamente. Ao menos, Renan Santos não se apequena na defesa de interesses setoriais, como fazem Caiado e Zema, e tenta pensar um Brasil para além desses interesses. Ainda assim, o elitismo e excesso de paulistanidade de Renan Santos tendem a não convencer a maior parte do eleitorado da direita e da extrema direita brasileiras, que permanece fiel à família Bolsonaro. 

Embora não apresente uma visão de futuro, Flávio Bolsonaro é a expressão de uma sociedade avessa aos ideais formulados a partir de 1930 e que começa a se consolidar: individualista, violenta, hostil a compromissos éticos mais amplos e pouco preocupada com o outro. Acima de tudo, é profundamente confederada. Confederada na religiosidade, na visão de mundo, na compreensão do Estado, na forma de fazer política, nos padrões estéticos e até na maneira de consumir. 

Diante desse cenário, é urgente que nos perguntemos: como refundar a identidade nacional brasileira a partir de um novo projeto de país? Como formular um novo pacto que recupere o sentido de comunidade, de destino compartilhado, sem recair nas fórmulas esgotadas do nacional-desenvolvimentismo dos anos 1930-60 e do liberalismo dos anos 1990? Como criar um horizonte comum? Essas questões devem ser a obsessão do campo democrático pelos próximos anos. Pois, até o momento, só o mbl está pensando nisso.

A eleição de 2026, no campo da direita, é sobre 2030. O bolsonarismo dispõe de um número expressivo de figuras eleitoralmente viáveis: Michelle Bolsonaro, Cleitinho, Nikolas Ferreira e Tarcísio de Freitas. Se Flávio Bolsonaro vencer, esses nomes – potencialmente mais competitivos do que ele – perderão espaço, já que 2030 tenderá a ser uma campanha de reeleição. 

À margem desse campo, o MBL desempenha um papel semelhante ao que o PSDB exerceu em 2018, quando equiparou Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, desestimulando parte de seu eleitorado e de seus quadros históricos a apoiar Haddad. Da mesma forma, a crítica contundente de Renan Santos à família Bolsonaro contribui para afastar uma parcela da direita e da extrema direita do bolsonarismo, levando parte desses eleitores, eventualmente, ao voto nulo no segundo turno. O MBL quer disputar a direita de 2030. 

Para a esquerda, ao contrário, 2026 é uma disputa inteiramente voltada para o presente. Sacrifica-se tudo – inclusive 2030 – para não perder o Palácio do Planalto. O PT atua como vem atuando desde 2002: abre mão de ativos políticos importantes para preservar a Presidência. Sacrifica deputados federais que provavelmente seriam reeleitos para que eles disputem governos estaduais que dificilmente conquistarão. Desiste da construção de candidaturas a prefeituras em nome de neutralidades e palanques circunstanciais. Se Lula vencer, assistiremos provavelmente a quatro anos de disputa pela sucessão dentro do próprio governo. Uma luta fratricida para definir quem herdará seu espólio político – que, aliás, talvez acabe ficando fora do PT. O cenário lembra, em alguma medida, o último governo de Getúlio Vargas, quando diferentes correntes do trabalhismo disputavam sua sucessão e, ao final, o herdeiro improvável acabou sendo Juscelino Kubitschek, governador de Minas Gerais pelo PSD.

Seja no governo ou na oposição, as lideranças de esquerda precisarão construir uma visão de futuro – algo que, até agora, não foram capazes de fazer. Como também não o fizeram a direita democrática, os partidos políticos, os sindicatos, as elites e a sociedade civil organizada, todos ainda excessivamente presos às categorias e aos desafios do Brasil de 1930.

O Brasil de 2030 precisará enfrentar questões inteiramente novas. O trabalhador inventado em 1930 já não resiste à transformação do mundo do trabalho. A democracia enfrenta a multiplicação dos enclaves autoritários. O estado de direito vê seu monopólio da força ser progressivamente desafiado. O Estado-nação precisa responder a um novo colonialismo, exercido tanto fora quanto dentro dos países. A paisagem midiática foi capturada pela economia da atenção. E a crise climática esvazia nossas esperanças. Formular um novo horizonte político para o Brasil de 2030 exige uma reflexão profunda e necessariamente coletiva. 

Em primeiro lugar, o Brasil de 2030 precisa ser pensado levando em conta as mudanças climáticas. O clima tornou-se a condição a partir da qual todas as demais questões deverão ser pensadas. A extrema direita prefere negar essa preocupação. Parte da direita e da esquerda, por sua vez, reconhece o problema, mas insiste em tratá-lo como um tema confinado ao Ministério do Meio Ambiente, colocado ao lado de tantas outras agendas relevantes. É um erro de escala. As mudanças climáticas reorganizarão a saúde, a segurança alimentar, a infraestrutura, a energia, a política urbana, a agricultura, a defesa nacional e a própria desigualdade. 

Não faz sentido discutir o fortalecimento do SUS sem perguntar como preservar sua universalidade com a expansão das doenças infecciosas, das ondas de calor e da multiplicação dos desastres ambientais. Da mesma forma, a desigualdade deixará de ser apenas uma questão de renda. Cada vez mais, será uma questão de exposição ao risco, de acesso à água, ao ar-condicionado, à moradia segura, à mobilidade e, em última instância, à própria sobrevivência. As mudanças climáticas transformarão desigualdades econômicas em desigualdades biológicas. É por isso que o clima precisa deixar de ser mais um dos itens de política pública e passar a ser o princípio organizador de todas as políticas públicas. Os valores da social-democracia – universalidade, solidariedade e proteção social – continuam atuais. Mas já não faz sentido imaginar que possam ser implementados com uma arquitetura institucional concebida para um mundo cujo clima era relativamente estável.

Talvez a principal tarefa do Estado brasileiro nas próximas décadas seja o de transformar-se em um Estado climático. Isso significa reorganizar prioridades, orçamento, infraestrutura, saúde, defesa civil, planejamento urbano, agricultura, ciência e tecnologia a partir desta pergunta: “Como sobreviveremos em um país cujo clima já não é o mesmo?”

Há uma lição importante na história da construção dos Estados modernos. O sociólogo americano Charles Tilly argumenta que os Estados europeus se fortaleceram porque precisaram travar guerras. Guerras exigem arrecadação, burocracia, planejamento, coordenação nacional. Elas também desequilibram as relações de força dentro das sociedades nacionais. Em poucas palavras, exigem mobilização de recursos e capacidade estatal. A própria guerra teria produzido o Estado.

A América Latina percorreu outro caminho. Como observou o sociólogo cubano-americano Miguel Centeno, a região conheceu relativamente poucas guerras entre Estados, quando comparada à Europa. Os países passaram por revoluções, golpes, guerras civis e conflitos internos, mas raramente enfrentaram ameaças externas capazes de mobilizar toda a sociedade durante longo período. Em consequência, a construção de Estados fortes ocorreu de forma mais lenta, mais frágil e conservando as desigualdades internas dos países. 

A mudança climática pode desempenhar no século XXI o papel que a guerra teve nos séculos XIX e XX na Europa. Ela exige exatamente aquilo que as guerras exigiram dos Estados modernos: capacidade de planejamento, mobilização de recursos, coordenação nacional, investimento em ciência, reorganização da infraestrutura e disposição para exigir maiores contribuições daqueles que mais podem pagar.

O segundo ponto de partida para pensar o Brasil de 2030 diz respeito ao modelo da democracia representativa, que nos acostumamos a tratar como inevitável, mas que já não representa quase ninguém. Em nome da defesa da democracia, passamos a defender um regime que, na prática, se transformou no regime dos partidos políticos. Hoje convivemos com um arranjo institucional profundamente desequilibrado. O orçamento público foi pouco a pouco sequestrado pelo Parlamento. A produção normativa passou a depender, em larga medida, das decisões do Supremo Tribunal Federal. E o Poder Executivo, única instituição que efetivamente recebe um mandato nacional direto da população, tornou-se cada vez mais incapaz de governar, uma vez que o orçamento de investimento foi praticamente absorvido pelo Parlamento. Criamos um sistema no qual quem tem mais responsabilidade possui menos poder, e quem concentra mais poder responde cada vez menos aos eleitores.

O voto para presidente continua sendo, talvez, o único momento em que a vontade popular se expressa de forma clara. Já a eleição legislativa está profundamente condicionada pela capacidade de financiamento das campanhas, pela estrutura dos partidos e pela distribuição desigual dos recursos políticos. Não é por acaso que a principal preocupação de tantos partidos já não é vencer as eleições presidenciais ou defender um projeto de país. É ampliar suas bancadas. Quanto maior a bancada, maior o acesso ao fundo partidário, ao fundo eleitoral, aos cargos, ao orçamento e ao poder de negociação. E, quanto mais dinheiro, mais bancada. É um círculo extremamente vicioso. 

Quando os partidos deixam de depender de seus filiados para sobreviver e passam a depender fundamentalmente do Estado, deixam também de funcionar como partidos. Tornam-se repartições públicas. O financiamento público de campanhas foi criado com o objetivo de reduzir a desigualdade entre os candidatos, para que, em tese, os candidatos do capital não tivessem mais recursos que os do trabalho. Mas a consequência perversa desse financiamento público foi contribuir para o distanciamento dos partidos de suas bases. Se os partidos dependessem de suas bases, não existiria PP, União Brasil, Podemos, MDB ou PSD, legendas sem ideologia e de baixa representatividade. Eles existem por estarem ancorados no Estado.

 Uma simples reforma eleitoral não é suficiente para resgatar a democracia no Brasil. É o próprio modelo de representação que precisa ser reformado e perder força. Precisamos devolver poder à sociedade. Isso significa ampliar radicalmente os mecanismos de democracia participativa, descentralizar as decisões para os cidadãos e reduzir a intermediação exercida pelos aparelhos partidários. 

Essa pauta pode ter adesão popular, dado que grande parte do espectro político – em particular, a extrema direita e a esquerda – está cansada da casta política. Esse sentimento está presente mesmo nos discursos de candidatos, com outros nomes e alvos. Zema fala dos “intocáveis” do Judiciário, Flávio o personaliza nas figuras de alguns ministros do STF, em especial Alexandre de Moraes. Renan reclama do “sistema”. A esquerda fala no domínio da Faria Lima. 

É fácil formular esse diagnóstico. Muito mais difícil é executá-lo. Afinal, nenhuma elite política costuma abrir mão voluntariamente do próprio poder. Mas essa é a mãe de todas as reformas democráticas: que a democracia volte a pertencer aos cidadãos, e não às organizações que passaram a falar em nome deles.

U

m terceiro ponto de partida do Brasil de 2030 será enfrentar a multiplicação dos enclaves autoritários. Chamo de enclave autoritário todo espaço da vida social em que o poder deixa de ser exercido por instituições democráticas e passa a ser apropriado por organizações privadas capazes de impor normas, controlar comportamentos, arrecadar recursos e influenciar a vida coletiva sem qualquer responsabilização democrática. O caso mais evidente é o do crime organizado, que em inúmeras regiões do país já não se limita ao tráfico de drogas, mas administra territórios, resolve conflitos, cobra tributos e determina quem pode circular, empreender ou mesmo viver. 

O fenômeno, contudo, é muito mais amplo. O crescimento das plataformas de apostas revela o surgimento de um novo tipo de coronelismo. Já não se controla a população pela propriedade da terra, mas pelo controle da atenção. Ao concentrar recursos financeiros gigantescos e disputar o domínio sobre audiências específicas, as bets tornam-se financiadoras privilegiadas da comunicação de massa e passam a integrar os grupos de mídia. Hoje, praticamente todos os grandes grupos de mídia no país são donos de empresas de bets. Eles monetizam assim a audiência que lhes foi dada através de concessão pública para extrair os recursos que as pessoas têm e mesmo os que elas não têm. 

Questões éticas à parte, cabe ressaltar que isso pode vir a afetar o acesso à informação no país. Por exemplo, o fato de os veículos do Grupo Globo darem tão pouco destaque à epidemia de bets poderia estar associado ao fato de seus proprietários terem participação na BetMGM? É possível que seja só coincidência, mas vale prestar atenção. O desafio, portanto, não é apenas recuperar territórios dominados por facções criminosas. É impedir que diferentes formas de poder privado – armadas, econômicas ou comunicacionais – continuem ocupando funções que deveriam ser do Estado democrático. Cabe ao Estado, portanto, duas tarefas: identificar e enfraquecer enclaves autoritários e identificar e fortalecer enclaves democráticos. 

Isso passa pela proibição de empreendimentos de exploração econômica que capturam pessoas em situação de vulnerabilidade social, como fazem as bets e a jogatina online. Passa também pela identificação do modo como os enclaves autoritários – sejam eles facções criminosas, milícias ou estruturas privadas de poder econômico e comunicacional – se financiam, desorganizando sistematicamente suas fontes de receita. É preciso inviabilizar economicamente a existência desses enclaves.

Por outro lado, é preciso multiplicar enclaves democráticos. O Estado não pode ser o único produtor de vida pública. Universidades, Sistema S, federações empresariais, sindicatos, associações comunitárias, cooperativas, organizações religiosas, clubes, centros culturais e organizações da sociedade civil precisam ocupar o espaço público e exercer funções de interesse coletivo. 

Nesse ponto, o governo Lula tem cometido um erro recorrente. Sempre que precisa escolher entre fortalecer diretamente enclaves democráticos ou preservar o equilíbrio do regime de partidos políticos, ele acaba optando pela segunda alternativa. 

O quarto ponto de partida para a constituição de um novo horizonte político e social para o Brasil é se atentar para a produção do autoritarismo em outros países. Nos próximos anos, Estados Unidos e China aprofundarão a disputa por mercados, tecnologia, dados, minerais estratégicos, biodiversidade e influência geopolítica. O novo colonialismo passa pelo controle das plataformas digitais, das cadeias produtivas, da propriedade intelectual, dos fluxos financeiros, dos recursos naturais e dos modelos computacionais de inteligência artificial. O Brasil precisará responder a essa situação com uma agenda de soberania nacional. Isso passa por incentivar elites econômicas comprometidas com um projeto de país, e não apenas com interesses setoriais, por desenvolver infraestruturas públicas digitais capazes de reduzir nossa dependência tecnológica, e por proteger estrategicamente nossos ativos naturais, compreendendo que Amazônia, água, biodiversidade e minerais críticos deixaram de ser apenas riquezas econômicas para se tornarem ativos geopolíticos. 

A recente disputa comercial com os Estados Unidos tornou esse problema particularmente evidente. Se o Brasil dispusesse de elites econômicas verdadeiramente focadas no interesse nacional, suas principais lideranças econômicas teriam pressionado o governo a responder de forma firme às tarifas impostas ao país. Mas ocorreu o contrário. Multiplicaram-se vozes defendendo a acomodação, a concessão e a submissão, como se a defesa da soberania econômica fosse um luxo reservado aos países ricos. Para essas elites econômicas não se trata de proteger o Brasil, mas de preservar interesses setoriais.

Nossos setores produtivos não organizam sua atuação em favor da construção de um projeto nacional. Organizam-se para a captura permanente do Estado. Sua competitividade depende menos da inovação do que da obtenção de crédito subsidiado, incentivos fiscais, proteção regulatória, infraestrutura pública, pesquisa financiada pelo contribuinte e influência política suficiente para preservar esses privilégios. O agronegócio brasileiro é a expressão mais acabada dessa lógica. Consolidou-se no imaginário nacional como a grande locomotiva da economia. Pouco se discute, entretanto, o volume de recursos públicos que sustenta essa competitividade: pesquisa agropecuária financiada pelo Estado, crédito rural subsidiado, infraestrutura logística feita com dinheiro público, desonerações tributárias, assistência sanitária, previdência rural e um amplo conjunto de políticas que socializam parte importante de seus custos. Quem paga pelas doenças causadas pela contaminação de nossas águas pelos agrotóxicos? É o contribuinte, através do SUS. O agronegócio no Brasil apropria-se privadamente dos ganhos enquanto transfere ao conjunto da sociedade parte significativa dos custos necessários à sua produção. E o faz desde a época das políticas de valorização de café, no Convênio de Taubaté. 

Só podemos dizer que o agro sustenta o Brasil quando ele deixar de recorrer ao orçamento público e passar a fortalecê-lo. Um setor dessa dimensão deveria ser capaz de sustentar sua competitividade sem depender de uma captura permanente do erário. Ao longo das últimas décadas, consolidou-se uma poderosa fantasia segundo a qual os interesses do agronegócio seriam automaticamente os interesses do Brasil. Essa associação talvez seja o maior triunfo político do setor. Nenhum país se transformou em potência tendo como eixo dominante uma economia organizada em torno da produção primária. Todas as grandes experiências de desenvolvimento combinaram industrialização, inovação tecnológica, agregação de valor e formação de uma elite econômica capaz de pensar para além do próprio setor. Enquanto continuarmos subsidiando setores econômicos que já alcançaram escala suficiente para caminhar com as próprias pernas, faltará capacidade fiscal para investir justamente naquilo que diferencia países ricos de países exportadores de commodities: ciência, tecnologia, educação, infraestrutura, indústria e inovação.

Precisamos, além disso, construir soberania digital. Durante muito tempo, imaginamos que caberia ao Estado apenas regular as plataformas privadas. Essa agenda continua importante, mas tornou-se insuficiente. O século XXI exige que o Estado volte a produzir infraestrutura pública – desta vez, infraestrutura digital.

O sucesso do Pix mostrou que o Brasil possui capacidade técnica para construir plataformas públicas de escala nacional, eficientes, gratuitas e amplamente utilizáveis pela população. Em poucos anos, o Banco Central fez aquilo que nenhuma empresa privada havia conseguido: criou uma infraestrutura de pagamentos universal, interoperável e de baixíssimo custo. O Pix é uma inovação financeira espetacular e uma importante demonstração de capacidade estatal.

Se fomos capazes de construir o Pix, por que não somos capazes de construir outras infraestruturas públicas digitais? Por que a intermediação entre motoristas e passageiros, entre restaurantes e consumidores, entre profissionais e clientes ou entre cidadãos e serviços públicos precisa necessariamente estar nas mãos de plataformas estrangeiras? 

O aplicativo Taxi.Rio, desenvolvido pela Prefeitura do Rio de Janeiro durante a gestão de Marcelo Crivella, mostrou que mesmo governos locais conseguem criar soluções tecnológicas capazes de competir com plataformas privadas em determinados mercados. Plataformas de mobilidade, de entregas, de identidade digital, de logística, de serviços urbanos e de intermediação econômica podem constituir novos bens públicos. Não para eliminar a iniciativa privada, mas para impedir que funções essenciais da vida econômica fiquem integralmente subordinadas aos interesses de poucas empresas estrangeiras. A soberania do século XXI dependerá cada vez menos da propriedade do território e cada vez mais da propriedade das infraestruturas que organizam a vida cotidiana. Quem controla as plataformas controla os fluxos econômicos, os dados, a atenção e, em grande medida, o próprio tempo das pessoas. O Brasil não pode abrir mão dessa capacidade.

A quinta tarefa do Brasil de 2030 será reinventar os serviços públicos para um novo sujeito político. O Estado brasileiro continua organizado para atender o trabalhador forjado nos anos 1930. Esse tipo de trabalhador segue existindo, mas é cada vez menos prevalente. Vemos o surgimento do trabalhador de 2030, com rotina fragmentada, intermitente, sempre conectado, que alterna empregos, presta serviços por plataformas, trabalha de casa, muda de profissão ao longo da vida e vive sob uma lógica de disponibilidade permanente. Continuamos, porém, oferecendo a esse trabalhador instituições desenhadas para outro tempo, serviços públicos que no fundo só podem ser acessados quando ele é CLT. O SUS, por exemplo: para realizar uma consulta médica no Rio de Janeiro, o trabalhador precisa perder praticamente o dia inteiro. Se ele for CLT, não há grande problema: ele recebe um certificado do SUS que o dispensa do trabalho. Mas, se for um autônomo, ele perdeu os ganhos do dia. 

É preciso também repensar os serviços públicos de maneira radical para servir e cuidar do trabalhador de 2030. Mas, para repensá-los, precisamos estar mais abertos às críticas das nossas instituições de proteção social – ao complexo médico-hospitalar e ao complexo educacional – sem que qualquer abordagem crítica seja imediatamente tachada de obscurantista. Nosso apego não deve ser à escola, e sim ao aprendizado, à formação cívica. Nosso apego não deve ser ao hospital, e sim à cura e à promoção da saúde da população. A questão é saber quais serviços públicos uma sociedade pós-industrial precisa oferecer a um cidadão que já não vive, trabalha e adoece como o cidadão para quem essas instituições foram originalmente concebidas. 

Esses são apenas alguns pontos de partida. Estamos longe de construir uma “certa ideia do Brasil”, para usar a expressão do ex-ministro Pedro Malan, recordada pelo cientista político Sergio Fausto no artigo A reconquista do futuro, publicado na piauí_239, de agosto passado. O fato é que precisamos reinventar nossa identidade nacional, preservando aquilo que merece ser preservado, mas oferecendo um novo horizonte de expectativas ao qual os brasileiros possam voltar a aderir. Toda grande transformação política começa por uma transformação da imaginação.

As eleições deveriam ser justamente esse momento. O instante em que um país deixa de discutir apenas a administração do presente para disputar projetos de futuro. Mas basta abrir o noticiário para encontrar outra realidade. O candidato A subiu 1 ponto. O candidato B caiu 2. Um instituto detectou uma oscilação dentro da margem de erro. Outro identificou uma tendência. A política transformou-se numa sucessão de boletins estatísticos.

Imprensa, partidos e analistas passaram a tratar as eleições como se fossem destino, e não escolha. Como se as preferências já existissem, acabadas, esperando apenas que as sondagens eleitorais venham a revelá-las. As pesquisas converteram-se em oráculos contemporâneos. Nós as consultamos diariamente para descobrir quem vencerá, como os antigos recorriam ao Oráculo de Delfos para conhecer o próprio destino. 

Enquanto nos ocupamos em adivinhar o destino, deixamos de construir o futuro. E imaginar nosso futuro passa necessariamente por atribuir um novo sentido ao conceito de “brasileiro”. Talvez seja útil procurá-lo menos nas imagens de grandeza que historicamente projetamos sobre nós mesmos e mais na força que nasce da vulnerabilidade. Em Nossa Senhora Aparecida, uma santinha frágil, cuja cabeça e corpo foram separados, quebrados, mas que segue inteira. Nas culturas que sobreviveram às sucessivas tentativas de apagamento e branqueamento da população; nas florestas e nos biomas que resistem a séculos de exploração; nos batalhadores que todos os dias inventam formas de viver apesar da sociedade violenta, extrativista, corrupta e incompetente. 

Há uma potência brasileira que não vem da falta de adversidades, mas da capacidade de existir a despeito delas. Talvez seja essa a imagem de Brasil que precisamos recuperar. Não a do gigante deitado em berço esplêndido, mas a do mandacaru, que finca raízes onde parece não haver água, atravessa a seca e, quando tudo ao redor parece estéril, floresce.


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É cientista político e diretor executivo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps). Cofundador do Meu Rio e do Nossas, lecionou na Universidade Columbia e na Escola de Saúde Pública T.H. Chan da Universidade Harvard.