carta do Marrocos
João de Sousa Cardoso piauí_240 02 Set 2026
19 min de leitura
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Em fevereiro de 1966, o estilista Yves Saint Laurent e seu companheiro e empresário, Pierre Bergé, desembarcaram pela primeira vez em Marrakech, no Marrocos. Estavam de férias e se hospedaram no famoso hotel La Mamounia, cenário do filme O homem que sabia demais, realizado por Alfred Hitchcock uma década antes. Durante os primeiros dias da viagem, o casal ficou praticamente confinado ao hotel, porque choveu sem parar. Até que o Sol finalmente surgiu, revelando a intensidade das cores das construções da medina – a parte antiga da cidade – e a vista surpreendente das montanhas nevadas do Atlas, a cordilheira ali perto.
Arrebatados pelo ambiente, Saint Laurent e Bergé decidiram naqueles dias que iriam comprar uma propriedade em Marrakech. No mesmo ano, adquiriram uma habitação modesta no coração da medina, perto da Mesquita Bab Doukkala. Batizaram a moradia de Dar el-Hanch (Casa da Serpente) e a decoraram de maneira simples, com mesas e cadeiras de palha que compraram nos souks (mercados) locais.
Marrakech ficava a pouco mais de três horas de voo de Paris e passou a significar para o casal o melhor contraponto à agitação da capital francesa, onde o estilista vivia uma rotina profissional rígida, acossado pelas mil solicitações do seu famoso ateliê de costura e a pressão do mundo da moda. A partir de então, o estilista estabeleceu o hábito que manteria para o resto da vida: viajar para Marrakech duas vezes por ano (em junho e dezembro), a fim de desenhar as suas coleções em absolutos isolamento e concentração.
A estadia num outro continente, rodeado de outra cultura, outra arquitetura, outros sons e perfumes, permitiu a Saint Laurent explorar novos repertórios estéticos. Ao descobrir a tradição da azulejaria (zelliges), o pitoresco dos mercados de rua e os códigos vestimentários do Marrocos, ele adotou uma extroversão cromática inédita nas suas coleções e em geral evitada na velha Europa. Em 1983, ele resumiu o que o ligava a Marrakech numa entrevista para o jornal Le Monde: “Foi então que me tornei mais sensível à luz e às cores, e que notei, acima de tudo, a luz sobre as cores [...]; em cada esquina de Marrakech, nos deparamos com grupos impressionantes de intensidade e relevo, homens e mulheres, onde se misturam caftãs rosa, violeta, azuis e verdes.” Antes de Marrakech, imperava o preto em suas coleções. A cidade ensinou a cor ao estilista.
Marrakech foi uma descoberta para Saint Laurent, mas não se pode dizer que o Norte da África fosse um mundo novo para ele. Filho de pais franceses, o estilista nasceu em 1º de agosto de 1936 em Oran, na Argélia, que era então uma colônia francesa (nessa mesma época, o Marrocos era um protetorado da França, com mais autonomia política). Ele viveu em Oran até os 17 anos, mudou-se para Paris, onde foi contratado pela maison de Christian Dior.
Mas sua decisão de fincar um pé em Marrakech nos anos 1960 tinha outros motivos além das reminiscências da infância em Oran. A cidade marroquina vinha atraindo jovens da alta sociedade internacional associados ao estilo burguês-chique, desde que o milionário John Paul Getty Jr. e sua mulher, a modelo Talitha, haviam se instalado lá. Rapidamente, a pequena casa de Saint Laurent e Bergé na medina se tornou o ponto de encontro de artistas, músicos e modelos, entre eles Andy Warhol, Mick Jagger, a cantora Marianne Faithfull e a modelo franco-brasileira Betty Catroux, além do casal Getty. Acompanhando as mudanças em sua vida e as transformações culturais da época, o estilista trocou os cabelos bem aparados e os ternos sóbrios que costumava usar por uma cabelereira longa e túnicas tradicionais marroquinas e indianas. Também se permitiu toda uma descontração física e sensorial que não conhecera antes.
O romance de Saint Laurent, Bergé e Marrakech não parou na Casa da Serpente. Nos anos 1980, o casal aprofundou suas relações com a cidade, adquirindo uma antiga propriedade do pintor orientalista francês Jacques Majorelle (1886-1962), que incluía uma villa, um ateliê e um jardim. O capítulo mais suntuoso da vida do casal no Marrocos aconteceu nesse lugar – o mesmo que hoje abriga o Museu Yves Saint Laurent. É para lá que sigo agora, às dez da manhã, atravessando as ruas estreitas e emaranhadas da parte antiga de Marrakech.
Vou na direção do bairro de Gueliz, que fica além da muralha que cerca a medina. De celular na mão, atravesso os muros e deparo com o trânsito agitado de uma avenida moderna, ladeada por altos edifícios e ornada com palmeiras-imperiais. Passo por Jnane El Harti, um jardim público arborizado, e logo percebo uma concentração de turistas, com roupas claras, bermudas, chapéus e óculos de sol. Cheguei ao Gueliz, também conhecido como ville nouvelle (cidade nova), por sua atmosfera ocidentalizada.
A entrada do bairro é, justamente, a Rua Yves Saint Laurent. Edifícios baixos que misturam o modernismo marroquino com o estilo tradicional do país se enfileiram pela via, tudo em tons ocre, rosa-escuro e salmão – não à toa Marrakech é chamada de “cidade vermelha”. Nas lojas no térreo, há um comércio agitado, com galerias de arte, butiques e cafés. Percorro um longo muro cego e alto e estou dentro do Jardim Majorelle. Mais alguns passos e chego à villa onde o estilista e seu companheiro se estabeleceram em 1980.
O jardim foi criado por Jacques Majorelle em um terreno que ele comprou em 1923 e onde, nos anos seguintes, também construiu sua casa e seu ateliê – duas edificações diferentes. A casa de dois pavimentos seguiu sobretudo o estilo da arquitetura marroquina. O ateliê mesclou esse estilo com o art déco e sua fachada foi pintada com um exuberante tom de azul (entre o cobalto e o royal), que acabou ganhando o nome do pintor: azul Majorelle. No jardim de 9 mil m² (pouco mais que um campo de futebol), o artista plantou várias espécies botânicas representativas dos cinco continentes. Depois de sua morte em 1962, a propriedade ficou abandonada e entrou, pouco a pouco, em estado de ruína.
Em 1980, Saint Laurent e Bergé tomaram conhecimento que aquele jardim desamparado, o ateliê e a casa corriam o risco de serem demolidos para dar lugar a um complexo hoteleiro. Os dois decidiram comprar o conjunto. Para devolver a glória à propriedade, o casal recrutou uma equipe de arquitetos e decoradores, entre eles o designer de interiores americano Bill Willis e o decorador Jacques Grange, amigos do casal. O desejo era manter o legado de Majorelle, agregando toques marroquinos, mediterrâneos e orientais. O local foi o refúgio íntimo de Saint Laurent, até sua morte, em 1º de junho de 2008, em Paris, aos 71 anos. Cumprindo o último desejo do estilista, as suas cinzas foram dispersas no roseiral do jardim. Bergé continuou a gerir e proteger o espaço através da Fondation Jardin Majorelle, até falecer quase uma década depois, em 8 de setembro de 2017, aos 86 anos.
Dois anos antes, o empresário havia iniciado no local a construção do Museu Yves Saint Laurent, que só foi inaugurado em 14 de outubro de 2017, um mês depois de sua morte. Atualmente, todo esse conjunto forma um dos principais espaços culturais de Marrakech: o museu, o Jardim Majorelle, a Villa Oasis – a residência do casal – e o antigo ateliê, transformado no Museu Pierre Bergé de Artes Berberes. Tudo está aberto ao público, exceto a Villa Oasis, que permanece resguardada, abrindo suas portas apenas a visitas exclusivas.
Bergé foi cremado e as suas cinzas depositadas junto de um pequeno memorial que celebra no jardim da Villa Oasis a sua união com Saint Laurent: uma coluna romana trazida de Tânger, cidade costeira do Marrocos, com uma placa onde foram gravados os nomes dos dois. Perto dali, na entrada do museu, encontro o curador francês Alexis Sornin, diretor da instituição. Ele logo me conta que o Museu Yves Saint Laurent em Marrakech foi inaugurado duas semanas depois da abertura de um museu do mesmo nome em Paris. “Pierre Bergé pretendia que houvesse dois lugares: um dedicado à inspiração, que é o de Marrakech; outro, à produção da obra de Saint Laurent, que é o de Paris”, diz Sornin, que trabalhou anteriormente na Coleção Pinault, em Veneza, e na Villa Medici, em Roma.
Com 4 mil m² e três pisos, o museu em Marrakech, por sua sobriedade, contrasta bastante com o ateliê azul e a Villa Oasis. Seu projeto arquitetônico, encomendado por Bergé ao Studio ko, de Paris, é um jogo entre blocos curvos e retos, inspirados tanto na estética de Saint Laurent quanto na construção tradicional marroquina. As paredes foram revestidas de tijolos de terracota trazidos de Tetuán, uma região ao Norte do Marrocos, numa trama decorativa que lembra os têxteis artesanais do país.
Seguimos para o pátio interno. Em forma circular, ele é um desafio ao modelo quadrangular dos pátios dos riads, a casa tradicional marroquina. Foi decorado com um conjunto de vitrais do reputado Ateliers Duchemin, de Paris, sem nenhuma imagem figurativa, somente a exposição da luz e das cores. “É um espaço à la James Turrell”, define o diretor do museu, referindo-se ao artista minimalista americano conhecido por suas instalações imersivas com luzes e cores.
Passada a porta de entrada do museu, avisto, pousada sobre um pedestal de concreto, a imponente escultura de uma ave em madeira do povo Senufo (que vive numa região que engloba parte de Burkina Faso, Costa do Marfim e Mali, na África Ocidental). A ave é uma espécie de guardiã do museu, exposta junto a uma fonte revestida de azulejos verde-esmeralda. A escultura – conhecida como o “pássaro senufo” – representa um animal mítico, estilizado numa síntese geométrica, com um longo bico e asas abertas. “Veio de Paris para acolher os visitantes, como um símbolo de fertilidade”, comenta o diretor. Como foi a primeira peça de arte adquirida por Saint Laurent e Bergé, em 1960, a obra do povo Senufo guarda este outro significado especial: é também um símbolo da relação do estilista e do empresário, que durou meio século.
No piso térreo do museu, além da livraria, do café e do auditório, ficam as três salas de exposição: a permanente (sempre dedicada à obra do estilista), a temporária e uma galeria voltada à fotografia. No andar superior, localizam-se a biblioteca e os escritórios. No subsolo, estão as salas de conservação e outras áreas de trabalho. De acesso público e gratuito, a biblioteca conta atualmente com cerca de 5 mil títulos, segundo o diretor, com destaque para livros sobre Saint Laurent, as artes berberes, paisagismo, botânica e jardinagem.
Eram três as exposições em cartaz no final de fevereiro passado, quando estive no museu. Na sala dedicada ao estilista – uma “caixa de veludo preto”, na definição do diretor – estava em cartaz Yves Saint Laurent en scène, apresentando figurinos, croquis e cenários que o estilista criou para peças, balés e musicais. A montagem da exposição (que vai até janeiro do ano que vem) segue à risca o tema, criando uma ambientação bastante teatral para a exibição dos figurinos que o estilista desenhou para diretores como Jean-Louis Barrault (As bodas de Fígaro, peça de Beaumarchais) e Claude Régy (A cavalgada sobre o lago de Constança, do austríaco Peter Handke). Estão expostos também os trajes criados para os balés do coreógrafo Roland Petit (com quem Saint Laurent manteve uma colaboração de décadas), além de indumentárias para os bailarinos Rudolf Nureyev, Margot Fonteyn e Maia Plissetskaia, a mítica primeira-bailarina do Bolshoi.
Na sala de fotografia, havia uma retrospectiva das imagens que o fotógrafo americano David Seidner fez para as campanhas publicitárias da casa de alta-costura YSL entre 1983 e 1995. Na sala com a exposição temporária, Yves Saint Laurent et ses chiens (Yves Saint Laurent e seus cães) focava na cumplicidade do estilista com seus companheiros de quatro patas, através de fotografias pessoais e desenhos. Ele era apaixonado por buldogues franceses. O primeiro que adotou, nos anos 1960, foi batizado de Moujik. Os que vieram depois receberam o mesmo nome, com diferentes números, como uma aristocracia canina: Moujik II, Moujik III e Moujik IV.
O Marrocos é uma monarquia constitucional, com o poder bastante concentrado nas mãos do atual rei Muhammad VI. Organizações internacionais apontam com certa frequência as sérias limitações à liberdade política e de opinião no país. Sornin, entretanto, garante que a instituição nunca sofreu restrições. “O museu celebra a união de dois homens, e foi a princesa Lalla Salma, a mulher do rei Mohammed [de quem ela se separou em 2018] que o inaugurou. Nunca houve qualquer forma de censura, segundo um trabalho feito na base de respeito mútuo”, ele diz.
Em uma entrevista telefônica, a jornalista Marie-Dominique Lelièvre, autora da biografia não autorizada Saint Laurent, mauvais garçon (garoto mau, mas traduzida no Brasil como Saint Laurent: a arte da elegância) me conta que o museu contribui para uma “importante e avultada entrada de divisas no país, com o turismo ocidental”. Sornin disse que o Jardim Majorelle teve mais de 1 milhão de visitantes em 2025 – e o museu, cerca de metade disso. “Estamos vendo aqui a passagem do modelo tradicional de uma empresa familiar para um modelo com escala de uma corporação”, ele diz, sobre a nova situação do museu. A instituição é mantida pela Fondation Jardin Majorelle, em colaboração com a Fondation Pierre Bergé – Yves Saint Laurent, em Paris. Não tem nenhuma participação da marca Yves Saint Laurent, que hoje pertence ao grupo de luxo francês Kering (da família Pinault, dona também das grifes Gucci e Balenciaga).
O diretor me leva até o antigo ateliê de Majorelle, hoje o Museu Pierre Bergé das Artes Berberes. A construção é uma pequena preciosidade, com seu azul faiscante na fachada. Em frente, cactos de diferentes espécies se alongam em composição com as colunas finas do imóvel. O percurso da exposição fixa se faz exclusivamente no térreo, já que o piso superior do edifício é um espaço reservado à equipe técnica. A coleção de objetos dos povos berberes (ou imazighen) se acerca do maravilhoso, de tanto que impressionam as esplêndidas joalherias, vestuário, tapetes, cerâmicas, cestarias, armas, ferramentas agrícolas e instrumentos musicais.
Depois me aproximo da Villa Oasis, preservada dos olhares indiscretos atrás de uma alta vedação de bambus. A casa está fechada ao público, mas álbuns de fotos a revelam em toda sua exuberância. Levou anos até que terminasse a sua decoração, para a qual se recorreu aos melhores ofícios islâmicos tradicionais, como magníficos tetos de madeira de cedro esculpidos e pintados à mão (zouak), paredes de gesso cinzelado, azulejos com motivos geométricos complexos (zelliges) em estilo indo-islâmico e portas em arco neomourisco.
Os decoradores Willis e Grange, com a participação de Saint Laurent, cobriram as salas com paredes vermelhas, amarelas e verdes – que depois seriam povoadas com antiguidades do século XIX –, tapetes persas, lustres de cristal franceses, candelabros russos e espelhos venezianos. Uma biblioteca de traço mourisco guarda exemplares raros de arte, literatura e botânica. Os banheiros, revestidos de mármore italiano, torneiras de latão dourado e zelliges evocam os banhos turcos (hammams). Suítes secundárias acolhiam amigos como Betty Catroux e a também modelo Loulou de la Falaise, cada quarto decorado numa única cor, como o azul Majorelle ou o amarelo-açafrão. Diversas peças pintadas pelo próprio Majorelle nos anos 1920, incluindo um console, foram mantidas intactas, assim como várias portas originais. No topo da Villa Oasis, com uma vista inspiradora do jardim da propriedade, Saint Laurent passava horas isolado, lendo ou desenhando suas futuras coleções, sentado a uma mesa de bambu francesa oitocentista.
Chegou a hora de passear pelo Jardim Majorelle, serpenteando entre mais de trezentas espécies vegetais provenientes de todo o mundo. Saint Laurent e Bergé, assim como Majorelle, viram nesse jardim uma metáfora do entendimento universal no concerto da sua exuberante diversidade. Os vários ambientes botânicos reúnem cactos e suculentas da África e da América, palmeiras (anãs e gigantes), plantas aquáticas como lótus e nenúfares, buganvílias (especialmente as de cor rosa), hibiscos, mandiocas, daturas, jasmins, coqueiros, bananeiras, alfarrobeiras, agaves e ciprestes, uma alameda de aloés e duas matas de bambus asiáticos, entre outras espécies.
Algumas plantas em potes de barro pintados com cores vibrantes (amarelo, azul, laranja) pontuam o jardim, os lagos e as várias pérgolas onde se pode sentar em bancos, protegido do Sol. O jardim é mantido por uma equipe de vinte jardineiros que circulam, de uniforme, entre os visitantes. Tudo ali parece onírico, como uma miragem irreal no calor da tarde.
Todo esse excepcional conjunto arquitetônico e museológico leva a crer que a vida de Saint Laurent e Pierre Bergé em Marrakech foi como uma estada no paraíso. Mas a biógrafa Marie-Dominique Lelièvre diz que nem tudo foi “um rio tranquilo” para eles. Segundo ela, o estilista passava muitos dias só em Marrakech, “consumindo cocaína, álcool e comprimidos todo dia”. Antes de suas temporadas marroquinas, ele não tinha qualquer relação com drogas ou álcool. Mas a comunidade ociosa e hedonista da alta sociedade instalada em Marrakech e Tânger, nos anos 1960, não gostava de estabelecer limites ao seu consumo de alucinógenos. Talitha Getty viria, aliás, a morrer de overdose em 1971 no seu apartamento em Roma, com apenas 30 anos.
Lelièvre avalia que Marrakech representou para Saint Laurent uma maneira de se religar às suas origens, mas sem enfrentar o obstáculo dos terríveis conflitos coloniais, como os ocorridos na Argélia, seu país natal. Foi ali também que ele encontrou um esteio à sua atração por homens do Norte da África, que remonta, segundo ela, “ao seu primeiro amante, um argelino, empregado na casa dos pais” e às deambulações na idade adulta ao longo dos cais do Sena, procurando homens para encontros sexuais, “na maioria dessa origem”.
A biógrafa esclarece que a lei vigente no Marrocos contra a homossexualidade – que ainda hoje é punida com penas de 6 meses a 3 anos de prisão – “são dirigidas aos marroquinos”, mas sabe-se que também são aplicáveis a cidadãos estrangeiros. A comunidade internacional privilegiada vivia, porém, nos anos 1960 e 1970, de certo modo, à margem da lei, sendo conhecidas as “interações íntimas entre Saint Laurent e jovens rapazes locais”. Mas Lelièvre ressalva que é necessário localizar historicamente tudo isso, pois aquele foi um período marcadamente liberal em termos sexuais.
Na biografia Yves Saint Laurent: a arte da elegância, baseada em entrevistas e depoimentos com amigos e colaboradores, Lelièvre desmistificou a imagem do “gênio frágil” e expôs a bipolaridade do estilista e o seu estilo tirânico, com ataques de fúria contra os mais próximos e sua equipe. Em momentos de estresse ou frustração, chegava mesmo a lançar ao chão cinzeiros pesados, jarras, tesouras, rolos de tecido e os seus próprios croquis. Em outros momentos, os lançava contra a parede ou algum dos colaboradores. Apesar desse caráter tempestuoso, ele tinha profundo e sincero respeito pelos artesãos especializados e de talento que trabalhavam em sua maison, “capazes de interpretar os desenhos de um costureiro e de lhe devolverem o seu gênio”, nas palavras da biógrafa.
Yves Saint Laurent iniciou o seu percurso na moda em 1955. Nesse ano, o então diretor da Vogue francesa, Michel de Brunhoff, viu nos croquis do jovem de 18 anos um traço idêntico ao de Christian Dior, então com 50 anos, e marcou um encontro entre os dois. Logo em seguida, Dior contratou Saint Laurent como seu assistente pessoal. Em outubro de 1957, Christian Dior morreu, vítima de um ataque cardíaco. Cumprindo um desejo manifestado pelo próprio fundador, Saint Laurent assumiu a direção criativa da maison com apenas 21 anos.
A sua coleção de estreia, em janeiro de 1958, foi um sucesso estrondoso e salvou a Dior da falência iminente. Chamada de Ligne Trapèze, a coleção amenizou as estruturas rígidas e cinturadas do New Look – o estilo lançado por Dior no pós-Segunda Guerra Mundial –, introduzindo uma silhueta mais fluida e arejada. Em julho de 1960, Saint Laurent apresentou a coleção que ficou conhecida como Beat, em que teve a ousadia de desafiar o luxuoso design da Maison Dior com roupas inspiradas no estilo rebelde dos beatniks e existencialistas, com casacos de couro e golas rulês, tudo em preto e outras cores escuras. Foi um choque para a alta-costura e para a própria Dior, mas um sucesso de crítica.
No mesmo ano, Saint Laurent foi recrutado pelo Exército francês para lutar na Guerra da Argélia (que durou até 1962, quando o país conquistou sua independência). Devido à enorme pressão e à sua fragilidade psicológica, sofreu um esgotamento nervoso e foi internado num hospital militar. Com a desculpa de sua ausência e devido ao desconforto causado na maison pelas coleções irreverentes, a direção da Dior o substituiu em 1960 no comando da casa pelo estilista Marc Bohan.
Ao se recuperar, Saint Laurent – com apoio de seu parceiro Pierre Bergé – processou a Dior por quebra de contrato. Venceu a ação judicial e com a indenização recebida fundou, em 1961, aos 25 anos, a casa de alta-costura com seu nome próprio: a Yves Saint Laurent, tornada célebre pelas iniciais YSL. Em 1965, lançou a coleção Mondrian, que o consagrou com as composições geométricas inspiradas no pintor holandês. Ele não deixaria, a partir de então, de conversar com a obra de artistas, como Picasso, Van Gogh e Matisse. Também se inspiraria nas culturas não europeias, como as africanas (na coleção Bambara, de 1967), a russa (na coleção Opéras – Ballets russes, de 1976) e a oriental (na coleção Les chinoises, de 1977), que coincidiu com o polêmico lançamento do perfume Opium, cujo vidro foi inspirado nos frascos de guardar ópio na China. Pierre Bergé costumava dizer: “A moda não é uma arte, mas é preciso um artista para fazer moda.”
Maior transformação veio, no plano econômico e social, quando Saint Laurent se tornou o primeiro grande estilista francês a adotar o prêt-à-porter (pronto para vestir). Em setembro de 1966, inaugurou em Paris a boutique Saint Laurent Rive Gauche, localizada na Rua de Tournon, rompendo o monopólio elitista da alta-costura (que produzia modelos exclusivos e únicos) e redefinindo a forma de consumo da moda de alta qualidade. Até então, o prêt-à-porter não passava de cópias de baixo custo dos modelos de alta-costura dos grandes costureiros. Saint Laurent desenhou uma coleção inteiramente nova para a Saint Laurent Rive Gauche, pensada para ser produzida industrialmente em larga escala, mas mantendo a originalidade do design, o rigor na modelagem e a qualidade dos tecidos e materiais.
Além disso, a escolha da região da Rive Gauche (margem esquerda do Sena) para localização da primeira loja prêt-à-porter foi um manifesto político e estético. Afastada dos salões dourados da margem direita do Sena (área tradicional da alta-costura), a nova boutique fixou-se no bairro boêmio de Saint-Germain-des-Prés, cercada por artistas, estudantes e a juventude insubmissa e americanizada que ditava a cultura da época.
Saint Laurent percebeu também que o estatuto da mulher na sociedade estava em franca transformação. E que a moda precisava acompanhar essa mudança, adaptando-se a uma mulher que trabalhava, buscava praticidade no cotidiano e liberdade para sua vida, expandindo seu poder. O sucesso da loja foi imediato, com longa fila no dia da inauguração e uma penca de clientes célebres, como a atriz Catherine Deneuve, que emergira havia pouco como estrela do cinema francês. A linha Rive Gauche popularizou peças inovadoras, que empoderaram as mulheres, como o Le Smoking (baseado no austero traje de festa masculino) e a Saharienne, uma jaqueta safári inspirada na roupa dos exploradores da África.
De volta ao hotel em Marrakech, revejo no computador as fotos de Saint Laurent, ainda jovem, na “cidade vermelha”. Ele se encontra geralmente só, mesmo quando fotografado entre a multidão. Em uma foto na Praça Jemaa el-Fna, a principal da cidade, o estilista está de pé, braços cruzados, todo de branco, sorrindo perto de uma banca com flores, pássaros e panelas de metal. Em outra, está perto de um homem que atravessa a praça carregando um fardo às costas e rodeado de crianças, sorrindo diante do espetáculo de um encantador de serpentes. Em certas imagens, aparece em situações domésticas na Villa Oasis, vestindo um caftã djellaba (ou jelaba, uma túnica comprida com capuz), calçando sandálias, bebendo chá e fumando, algumas vezes alongado em sofás, outras sentado no chão ou deitado sobre panos com motivos geométricos, sob a luz magrebina coada pela vegetação. Parece descontraído, com o olhar quase feliz, numa geografia a que se sente pertencer.
Em 1993, Saint Laurent e Bergé venderam sua grife. O estilista manteve, porém, o controle sobre a criação das coleções de alta-costura, trabalho do qual só se aposentou em 2002. Na despedida oficial na maison da Avenida Marceau, ele discursou durante cerca de 15 minutos para um pequeno público e a imprensa. “Escolhi dizer hoje adeus a esta profissão que eu amei tanto”, disse.
O estilista enfrentava problemas de depressão, ansiedade e dependência química. No mesmo discurso de despedida da alta-costura, ele não escondeu sua depressão nervosa ao dizer: “Marcel Proust me ensinou que ‘a magnífica e lamentável família dos nervosos é o sal da terra’. Eu, sem saber, fiz parte dessa família.”
A aposentadoria de Yves Saint Laurent encerrou a época de ouro da alta-
costura francesa e todo um tempo de sofisticação e glamour do qual ele foi um dos principais símbolos. Suas estadias em Marrakech foram ficando mais longas, marcadas pelo isolamento melancólico. Durante as temporadas de inverno, Saint Laurent e Bergé quebravam a solidão organizando jantares requintados na Villa Oasis, essa morada que eles também chamavam Dar Es Saada, a casa da serenidade e da felicidade.