questões ornitológicas
Fernanda Ezabella piauí_241 08 Out 2026
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A bióloga Bianca Fernandes olhava angustiada para a maior responsabilidade de sua vida, apesar de o objeto de preocupação pesar apenas 2 gramas. Era um ovinho branco de uma das aves mais raras do mundo, que cismava em não eclodir naquele 21 de fevereiro de 2023. Com uma agulha de seringa na mão, ela enfiou o instrumento no ovo e levantou uma casquinha. Depois, devolveu o ovo à incubadora e esperou.
O embrião era de uma rolinha-do-planalto, da qual se estima que só existam hoje sete na natureza. De penas acastanhadas, seu charme está nos detalhes em azul-escuro nos olhos e nos pontinhos pintados nas asas que, dependendo da luz, parecem reluzir. O que saiu do ovo, no entanto, quatro horas depois, ainda estava longe disso.
“Foi o menor filhote que eu já vi na vida”, conta Fernandes, na época assistente de veterinária do Setor de Neonatologia do Parque das Aves, um zoológico e centro de conservação em Foz do Iguaçu, no Paraná. “Nasceu com os olhos fechados. Era um filhote bem mirradinho, com um tiquinho de plumagem.”
As rolinhas-do-planalto passaram mais de setenta anos sumidas, até alguns indivíduos serem encontrados ao acaso em 2015 numa região isolada de Botumirim, a cerca de 550 km ao Norte de Belo Horizonte. Desde então, para manter a espécie viva, uma corrida contra o tempo é liderada pela Save Brasil, uma ONG dedicada à preservação de aves e seus hábitats. Em 2018, o grupo montou a Reserva Natural Rolinha-do-planalto e apoiou a criação do Parque Estadual de Botumirim, com 36 mil hectares. Cinco anos depois, começou uma nova etapa: a formação de uma população de segurança ex situ, ou seja, mantida sob cuidados humanos fora do hábitat natural (in situ). O objetivo é diminuir o alto risco de extinção e, no futuro, soltar as aves na natureza.
Em agosto, a rolinha-do-planalto ganhou mais um empurrão ao ser incluída na lista do Phoenix Species Project, um fundo de 200 milhões de dólares (cerca de 1 bilhão de reais) para ajudar cem espécies criticamente ameaçadas de extinção. O projeto é da Bezos Earth Fund, um fundo ambiental bilionário criado por Jeff Bezos – o dono da Amazon – e a Re:wild, cofundada pelo ator Leonardo DiCaprio. Há outros quatro animais brasileiros na lista: o pássaro saíra-apunhalada, o macaco muriqui-do-norte, o sapinho-da-restinga e a perereca-pintada-do-rio-pomba.
Como restam tão poucas rolinhas-do-planalto, Bianca Fernandes sentiu naquele dia de fevereiro de 2023 que tinha nas mãos o futuro da espécie. Porém, tentou não se intimidar. No Parque das Aves desde 2017, a bióloga paulistana já havia aprendido muito no Setor de Neonatologia e presenciado o nascimento assistido – quando é necessária intervenção no ovo – de diversas aves, como flamingos e jacutingas. Depois do nascimento das rolinhas, ela foi promovida de assistente à supervisora do setor e, desde então, já ajudou na criação de outras espécies ameaçadas de extinção, como periquitos-cara-suja e urus-nordestinos. De certa forma, Fernandes virou uma espécie de doula – profissional que dá apoio às mulheres grávidas – de aves raras, trabalhando desde o pareamento dos casais até a incubação dos ovos e o cuidado dos filhotes.
Para obter sucesso com o ovo da rolinha-do-planalto, a bióloga primeiro treinou com a rolinha-roxa, uma espécie similar. Como nada se sabia a respeito da primeira, o plano era entender o desenvolvimento da segunda e criar um protocolo de reprodução ex situ para a rolinha-do-planalto.
A rolinha-roxa pode ser avistada de Norte a Sul do país, em centros urbanos e rurais, mas a rolinha-do-planalto só existe no Cerrado, um bioma castigado pelas pastagens e agriculturas extensivas. Ambas são prolíficas na reprodução, como as juritis e pombas, mas as rolinhas-do-planalto, além de pouco numerosas na natureza, costumam ter seus ovos predados com frequência, por motivos ainda pouco compreendidos. Mas, para Fernandes, até com a popular rolinha-roxa a tarefa de doula não foi tranquila. “Tivemos sérias dificuldades no começo para manter os filhotes”, lembra a bióloga, amparada na época por duas assistentes. “Infelizmente lidamos com perdas. Mentalmente, foi muito difícil para a equipe.”
A maior dificuldade foi a alimentação dos recém-nascidos. Na natureza, as rolinhas possuem “leite de papo”, uma secreção altamente nutritiva que machos e fêmeas produzem internamente no papo para dar aos filhotes nos primeiros dias de vida. Por fim, o zootecnista Henrique Tavares, colega de Fernandes no Parque das Aves, conseguiu elaborar uma papinha similar, que combinava fórmula pronta industrializada para aves com gema de ovo em pó e ingredientes de alto valor biológico. Os testes levaram dois anos e deram certo em seis filhotes de rolinha-roxa. A equipe estava pronta para o próximo desafio.
Dois ovos de rolinha-do-planalto foram então coletados no parque em Botumirim pelo biólogo Tony Bichinski, especialista em ninhos e consultor da Save Brasil. Ele havia passado três anos monitorando as aves. Com o segundo ovo da rolinha-do-planalto, Fernandes também precisou recorrer à agulha. Ela explica a técnica: além da clara e da gema, o ovo possui uma câmara de ar na base que aumenta com o desenvolvimento embrionário. Quando o embrião está pronto, ele rompe uma membrana interna para respirar na câmara de ar e depois fazer o furo na casca para nascer. Nos dois ovos da rolinha-do-planalto coletados, os embriões tinham rompido a membrana do lado oposto, ignorando a câmara de ar. “A gente ficou extremamente desesperado”, conta a bióloga. “É um problema, porque o primeiro ar que o indivíduo vai respirar vai ser o ar externo, e pode ser um impacto muito grande para o pulmão.”
O batimento cardíaco dos embriões começou a diminuir, sugerindo cansaço e sofrimento fetal. Foi a hora de dar uma mãozinha. “Eu me foquei em não me desequilibrar emocionalmente, entrei em modo de guerra”, relembra Fernandes. Sua trincheira era uma casa residencial transformada em hospital veterinário em Botumirim. Ela estava acompanhada dos biólogos Benjamin Phalan – irlandês que mora no Brasil há oito anos e era gerente de conservação do Parque das Aves na época – e Joe Wood, gerente de programas internacionais de conservação do Zoológico e Aquário de Toledo, nos Estados Unidos, um dos parceiros do projeto. O trio tinha ainda o apoio por telefone da médica veterinária Ligia Rigoleto Oliva, chefe da divisão de veterinária do Parque das Aves.
Phalan, hoje coordenador de ciência da Save Brasil, recorda o clima de tensão na sala. “Senti o peso da responsabilidade, mas também o privilégio de estar presente. Estávamos fazendo história para a espécie”, diz o biólogo de 48 anos, envolvido nos esforços de preservação da rolinha-do-planalto desde 2018. Naqueles dias de fevereiro de 2023, ele dormia na mesma sala da Unidade de Tratamento Animal (UTA) com as incubadoras e fazia a ovoscopia, colocando os ovos na luz para checar o desenvolvimento dos embriões. “Os ovos são muito frágeis, dá medo de esmagar, de tremer a mão e deixar cair.”
Com o nascimento bem-sucedido das duas rolinhas-do-planalto, uma em cada ovo, elas foram entregues aos cuidados humanos – pela primeira vez na história dessa espécie. Por quase dois meses, os filhotes ficaram com a equipe da Save Brasil em Botumirim, antes de serem enviados num voo particular da companhia Azul para o Parque das Aves, em Foz do Iguaçu. Dois anos depois, uma delas morreu de causas naturais. A segunda, hoje com 3 anos (a expectativa de vida das rolinhas em geral é de 6 a 10 anos), mora numa propriedade que é mantida em sigilo por questões de segurança. O espaço fica bem distante das 895 mil pessoas que visitam todo ano o zoológico, a segunda atração turística do Paraná depois das Cataratas do Iguaçu.
A piauí foi autorizada a conhecer o espaço secreto, sob o compromisso de não revelar sua localização. O recinto imita o hábitat das aves no Cerrado, que é um tanto diferente da Mata Atlântica de Foz do Iguaçu. O piso é aquecido, coberto de areia branca fina, onde as rolinhas-do-planalto gostam de passar o dia forrageando sementes. Elas dispõem de um laguinho raso e lâmpadas de aquecimento para amenizar as oscilações de temperatura da região, que vai dos 40°C no verão a perto de 0°C no inverno. Arbustos de buxinho foram plantados no local por lembrarem a vegetação do Cerrado mineiro e oferecerem boas forquilhas para a construção de ninhos.
Numa tarde abafada de maio passado, enquanto me conduz pelo local, Bianca Fernandes abre um sorriso enorme ao escutar um murmúrio compassado e melancólico. “É a minha primogênita”, ela diz, apontando para a primeira rolinha-do-planalto que havia ajudado a nascer em Botumirim. “Fico emocionada porque lembro da Bianca criança, que achava conservação lindo, que ia ser fácil. E não é”, continua, referindo-se a si mesma. “A conservação não te dá uma data de quando vai dar certo. Ela vai te dar o trabalho que você tem que fazer. E todo ano, eu garanto, vai ter trabalho.”
A rolinha primogênita acabou matriarca de uma grande família, ao lado de um macho que chegou ao local em 2024, também de um ovo incubado em Botumirim. A equipe do parque deu um empurrão no romance, e Fernandes chegou a costurar num buxinho um ninho desativado que foi coletado em Botumirim. O par de aves não aprovou a arquitetura, desconstruiu o ninho e montou um novo.
A postura de um ovo veio na sequência, e o primeiro filhote de rolinha-do-planalto de pais sob cuidados humanos nasceu em julho de 2025. Na época, rumores circularam no parque que um xeique árabe colecionador de pássaros havia feito uma proposta milionária pelas aves, que foi prontamente ignorada. Desde então, o casal já teve outros seis filhotes. “Eles demoraram para se reproduzir, mas depois que começaram foram muito bem”, diz Fernandes.
Com o número de aves ex situ maior do que o número in situ, a questão é saber quando elas poderão ser soltas na natureza, num processo chamado translocação de aves. A Save Brasil e o Parque das Aves avaliam a construção de recintos em Botumirim, onde as aves poderão se adaptar ao chegar de Foz do Iguaçu, antes de voarem com toda liberdade. Segundo Phalan, existe a possibilidade de libertar algumas com radiotransmissor para aprender sobre a movimentação da espécie e decifrar por que a população está diminuindo – em 2023, eram quinze na natureza, oito a mais que hoje – mesmo habitando uma região protegida, segundo o censo anual feito pelos biólogos.
O Parque das Aves foi fundado em 1994 por um casal de estrangeiros, a veterinária alemã Anna-Sophie Helene e o engenheiro sul-africano Dennis Croukamp. Com a morte do marido nos primeiros anos depois da abertura do parque, ela tomou as rédeas do negócio, mesmo sem falar quase nada de português. Pelas trilhas do zoo, todos a chamam de dra. Anna. Em 11 de agosto, ela completou 80 anos. Nesse dia, o parque fechou mais cedo, e a data foi celebrada com bolo e gincana pela família e os funcionários. De cabelos pintados de verde para a ocasião, Helene fez um discurso e brindou com champanhe.
Helene e Croukamp se conheceram na Namíbia, onde ela morou por dezessete anos. Amante das aves, ele vendeu suas minas no país para investir na nova vida no Brasil, comprando o terreno em frente às Cataratas do Iguaçu. O intuito era exibir pássaros do mundo todo. Em 2019, o zoo anunciou uma nova fase, focando exclusivamente nas aves da Mata Atlântica, um bioma hoje reduzido a cerca de 12% de sua formação original. Os pássaros exóticos que não faziam parte desse bioma foram enviados a outros zoológicos, e o número de espécies brasileiras no Parque das Aves subiu de 70% para mais de 90%. Hoje, são cerca de 1,4 mil animais de 130 espécies.
Embora zoológicos do país tenham áreas reservadas para pássaros, nada se compara ao tamanho do Parque das Aves. São 16 hectares e cerca de duzentos funcionários. A visita acontece por uma trilha de 2 km dentro da Mata Atlântica, com recintos ao longo do caminho. Há seis grandes viveiros de imersão, onde o visitante pode entrar no mesmo ambiente das aves. Um dos mais populares é o das araras, com mais de cem bichos, incluindo araras-vermelhas, araras-canindés e araras-azuis-grandes. O espaço, de 60 metros por 15 metros, tem 12 metros de altura.
Com a mudança para um foco conservacionista, o local virou base do braço brasileiro que planeja ações de recuperação de espécies ameaçadas dentro da União Internacional para a Conservação da Natureza, a mesma entidade que publica a Lista Vermelha, principal referência mundial sobre o risco de extinção de fauna e flora. O parque também fundou a ONG Instituto Claravis para ampliar os esforços de conservação.
Em 2015, o Parque das Aves já atuava na reprodução do mutum-de-alagoas, um bicho preto brilhante semelhante a um faisão, endêmico da Mata Atlântica nordestina e extinto na natureza desde a década de 1970. A jacutinga, outra ave de porte similar, porém mais colorida e extinta em certas regiões do Sudeste e Sul, também é outra história de sucesso – 26 jacutingas nascidas no parque desde 2016 já foram reintroduzidas nas matas da cidade paulista de São Francisco Xavier, em outro projeto liderado pela Save Brasil.
Nos bastidores do zoo, a piauí visitou três casinhas escondidas aos fundos do Cecropia, nome do maior viveiro de imersão do zoo, dedicado a mais de trezentos periquitos de quinze espécies. A maioria é composta de animais resgatados que não teriam chance de sobrevivência na natureza. Cada casinha guarda mais de sessenta ninhos artificiais feitos de caixas de madeira. As paredes das casinhas possuem buracos conectando o exterior aos ninhos, como entradas para os periquitos.
Os funcionários monitoram os ninhos, todos fechados a cadeado, e podem intervir se necessário. Quando um ovo aparece no ninho, uma câmera é instalada para identificar os pais. “Se for cruzamento de espécies diferentes, como periquitão com jandaia, por exemplo, isso não pode”, diz Fernandes, explicando que o parque não faz reprodução de híbridos. “Aí a gente troca o ovo por um falso para os indivíduos não perderem o comportamento reprodutivo.” Os ovos trocados são descartados antes do desenvolvimento embrionário, junto com outros materiais biológicos do parque.
Bianca Fernandes, de 32 anos, tem um jeito jovial e entusiasmado. Quando o assunto exige, ela adota um tom mais sério, ajeitando os óculos de tartaruga no rosto emoldurado por uma cabeleira densa e negra bem amarrada num coque. Nascida e criada na Zona Leste de São Paulo, ela descobriu cedo as delícias da natureza. Nas férias escolares, deixava a selva de pedra para curtir a casa dos avós em Ourinhos, a 370 km da capital paulista, na divisa com o Paraná. “Era uma alegria: andar no mato, tomar banho de rio, ver bicho”, recorda.
A garota era muito ligada ao avô, um bombeiro que gostava de contar histórias fantásticas de salvamentos. Ele também tinha muitos passarinhos no jardim, alguns em gaiolas. Eram agapornis, pequenos papagaios coloridos africanos, e calopsitas, pássaros muito sociáveis originários da Austrália. A bióloga acha que o avô também tinha um bicudo – um passarinho preto sem muita graça, porém cobiçado por gaioleiros por causa de seu extraordinário canto melódico. Ameaçado de extinção, o bicudo já desapareceu de diversas regiões do Brasil devido à perda de hábitat e captura ilegal. “Se meu avô estivesse vivo, ele ia levar umas belas broncas”, diz a neta.
Caçula da família, Fernandes foi a mais paparicada dos três irmãos, apesar de ser cheia de vontades próprias, como lembra sua mãe, a técnica de enfermagem Rita de Cássia Fernandes: “Ela nunca gostou de cachinhos, meia bordadinha e sapato de verniz, como eu fazia com a irmã dela. Bianca era natureza. Gostava de tudo muito prático, muito natural.”
A mãe se separou do marido quando a caçula ainda era criança e voltou a estudar aos 30 e poucos anos, enquanto criava os três filhos. “Bianca tem uma personalidade de pensar muito no outro. Seja animal, ser humano ou planta”, diz Rita de Cássia. Quando a avó materna da menina ficou doente, foi Fernandes que ajudou a cuidar dela. “Em vez de sair com as amigas, ela se ocupava da avó”, conta a mãe.
Bianca Fernandes cursou ciências biológicas com uma bolsa parcial na Universidade São Judas Tadeu. Em 2015, no terceiro ano da faculdade, fez o primeiro estágio no Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (CeMaCAS), mantido pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, no Parque Anhanguera, em Perus. O espaço funciona como um pronto-socorro e centro de reabilitação da fauna que é vítima de atropelamentos, choques elétricos na rede de energia, ataques de cães e linhas de pipa, comércio ilegal, entre outros tormentos. Por ano, o CeMaCAS recebe em média mais de 10 mil bichos – os grupos mais frequentes são gambás, saguis, pombas e sabiás. Destes, cerca de 4 mil costumam ser reabilitados e voltam à natureza. Nos últimos seis anos, mais de setecentos foram encaminhados para zoológicos, mantenedores de fauna, criadouros conservacionistas ou refúgios.
No CeMaCAS, Fernandes teve seu batismo de fogo. Oito urubus-de-cabeça-
preta, uma das maiores e mais comuns aves a cruzar os céus de São Paulo, estavam prestes a passar por uma última avaliação física antes de serem devolvidos à natureza. Na hora da contenção para os exames, os bichos regurgitaram e defecaram na estagiária. “Fiquei de boa, já sabia que essa era a vida. Estava de máscara, de luva.” No dia seguinte, ela começou a ter vômitos. Foi parar no hospital, com suspeita de infecção causada pelo contato com bactérias nas fezes dos urubus. Em dois dias, já estava melhor – e voltou ao estágio.
Aos poucos, Fernandes foi migrando para o que viria a ser sua especialidade: filhotes. A primeira experiência marcante foi com caturritas, pequenos periquitos verdes de peito cinza que habitam coletivamente grandes ninhos de gravetos no alto das árvores. Numa tempestade, um ninho gigante arrebentou, e a equipe do CeMaCAS recebeu meia dúzia de filhotes. Fernandes ficou responsável pela alimentação da turma, num cronograma a ser seguido rigidamente. Alguns bebês eram alimentados dez vezes ao dia.
Nem tudo eram aves. Um bebê de tamanduá-bandeira, resgatado depois do atropelamento de sua mãe, mexeu com a estudante. Com uma dieta complexa difícil de reproduzir, o filhote sofria de prolapso retal causado pelas crises de diarreia frequentes. Para reduzir o inchaço e ajudar na recuperação, Fernandes aplicava compressas de gelo na região. A equipe chegou a levar o pequeno até um formigueiro para ver se ele aprendia a se alimentar, mas o bicho acabou picado por uma formiga. “Ele saiu correndo e se agarrou na minha perna, travou na minha bota. Fez até um furo. Eu me sentia meio mãe”, diz Fernandes. “Foi feito de tudo. Fisioterapia, acupuntura, só que não teve jeito. Ele foi a óbito.”
Quando recebeu a notícia, Fernandes estava na faculdade e se refugiou no banheiro. “Eu chorava de soluçar. As pessoas batiam na porta para saber se estava tudo bem”, ela conta, meio envergonhada. “Mas saí do banheiro, me olhei no espelho e falei: ‘Você não vai mais se descabelar desse jeito, você tem que respirar fundo.’ Fiz esse acordo comigo mesma.”
A bióloga explica que, na criação de filhotes, sejam os de aves, mamíferos, répteis ou anfíbios, é imprescindível uma evolução muito rápida: o bichinho tem que ganhar peso, crescer logo, se desenvolver e estabilizar. “Se o começo for muito oscilante, vai ser difícil se recuperar. Foi o caso daquele tamanduazinho-bandeira.”
Outra lição ela aprendeu ao cuidar de dois irmãos de bugio, também chamado de guariba ou macaco barbado. O macho era ciumento e mal deixava a estagiária pegar a irmã para pesá-la ou dar mamadeira. “Eu tinha que fazer acordos, digamos assim”, ela recorda, rindo. “Eles foram um respiro para mim. Deu para ver o processo do começo ao fim. Vi que a resposta podia ser positiva. Eles ficaram bem.”
No estágio no CeMaCAS, Bianca Fernandes conheceu o mundo maravilhoso dos filhotes. No Parque das Aves, ela se voltou mais ainda para o início da vida: os ovos. O primeiro que viu eclodir foi o de um flamingo-rosado, cujos pais de primeira viagem botaram fora da estação e demonstraram pouco interesse no trabalho parental. “Filhote de flamingo é fofinho”, diz a bióloga. “Parece um ursinho de pelúcia.”
A espécie marcou seu início no novo emprego, numa nova cidade, Foz do Iguaçu. Ali, Fernandes aprendeu as manhas da incubação e reprodução, com ajuda da chefe da divisão de veterinária, Ligia Oliva – a colega que, seis anos depois, daria apoio por telefone no nascimento da rolinha-do-planalto em Botumirim. “Ela me ensinou a parte técnica mais raiz e me deu dois livros essenciais em inglês, que eu lia com a ajuda de um tradutor online do celular.”
Apesar da fofura, os flamingos foram vítimas de uma das piores tragédias em zoos no país. Em 2021, duas onças invadiram de madrugada o local onde as aves viviam e deixaram 172 flamingos mortos. Apenas quatro sobreviveram. Fernandes tomou conhecimento do que acontecera ao chegar no trabalho de manhã – o episódio é ainda uma ferida aberta, e ela evita recordar esse momento. As duas onças, uma fêmea e seu filhote, continuam a circular livremente no Parque Nacional do Iguaçu, colado ao Parque das Aves, e são monitoradas pelo Projeto Onças do Iguaçu. Hoje, o zoo está murado com cerca elétrica e dispõe de sensores de movimento e iluminação. Uma equipe de segurança também fica de olho para evitar a invasão de animais, incluindo humanos.
Fernandes chegou em Foz do Iguaçu no final de 2017, quando o parque começava a pensar na sua grande reestruturação voltada à Mata Atlântica. Além dos flamingos, ajudou na reprodução de diversas jacutingas, conhecidas como “jardineiras da Mata Atlântica”. Elas se alimentam da polpa de frutos carnosos e regurgitam ou defecam as sementes, dispersando assim mais de quarenta espécies de plantas nativas. Ao contrário dos ovos minúsculos de 2 gramas da rolinha-do-planalto, cujos filhotes nascem totalmente dependentes dos pais, a jacutinga bota ovos de até 96 gramas. Seus filhotes já nascem de olhos abertos, com plumagem e capacidade de se deslocar.
Desde o final de 2025, Bianca Fernandes foi promovida a coordenadora de manejo, função ainda vinculada ao Setor de Neonatologia. Ela agora lidera a equipe de catorze tratadores do zoo, responsáveis pelos cuidados diários com as aves, como alimentação, limpeza dos recintos, monitoramento e apoio nos procedimentos de manejo.
A diretora técnica do Parque das Aves, a veterinária Roberta Manacero, de 42 anos, entrou no zoo no mesmo ano que Fernandes e acompanhou de perto a evolução da colega, sempre cheia de ideias. “Ela deu um impulso enorme à nossa área de neonatologia”, conta Manacero, citando, como exemplo, as propostas para pareamento dos animais, observação dos casais e vistoria de ninhos. “Bianca inseriu ainda mais atividades, foi além de simplesmente ovos e filhotes.” No manejo, Fernandes acompanha as aves em todas as fases da vida, do nascimento à velhice, incluindo araras e papagaios com mais de 30 anos.
Pela trilha do zoológico, paramos num recinto de mata fechada, habitado por catorze recém-chegados. Eram todos periquitos-cara-suja, uma espécie simpática cujo nome vem do rosto de penas escuras, como se tivesse enfiado a cara num copo de vinho. Dentro do recinto, uma funcionária de binóculos observava o comportamento do grupo. As aves nasceram sob cuidados humanos no começo de 2026, depois que Fernandes passou o bastão da supervisão da neonatologia para a colega bióloga Analy Terme, uma de suas assistentes, que trabalha com a técnica Beatriz Arruda Gallonetti.
Terme e Gallonetti se revezaram na alimentação dos catorze periquitos, das 7 às 18 horas. Para evitar que aves criadas por humanos identifiquem a forma humana como fonte de alimentação e proteção – um processo chamado imprinting, algo como estampagem ou impressão –, as duas usam, para dar comida aos filhotes, um fantoche de cara-suja feito por uma artesã de Foz do Iguaçu. “A gente tenta diminuir esse imprinting. Principalmente quando temos a intenção de mandar os filhotes para projetos de soltura”, diz Terme, de 27 anos, que trabalha no parque há quase dez anos. “Facilita o processo quando o filhote precisar socializar com indivíduos da espécie.” Fernandes conta que o cara-suja tem a personalidade típica dos periquitos. “São todos virados na doideira, muito agitados”, diz. “Gritam o tempo todo e brincam bastante entre si.”
Foi com os periquitos-cara-suja que Bianca Fernandes conseguiu presenciar um ciclo completo de conservação, embora a 3,4 mil km de distância de Foz de Iguaçu.
Nativo da Mata Atlântica nordestina, essa ave foi considerada a espécie de periquito mais ameaçada das Américas, com menos de 250 indivíduos. Eles se concentram nas serras úmidas de altitude próximas a Fortaleza, um pedacinho delicado de floresta que parece flutuar no semiárido do Ceará, um estado coberto por quase 90% de Caatinga. Bianca Fernandes chegou ali em 2024 e logo sentiu o friozinho de Guaramiranga, principal vila da Serra de Baturité, a 100 km do mar, conhecida como a “Suíça cearense” por causa do clima ameno e dos fondues de queijo servidos na praça principal.
A bióloga havia sido convidada para o censo populacional do cara-suja, organizado pela Aquasis, uma ONG criada por universitários locais em 1994 para salvar mamíferos aquáticos, como o peixe-boi e o boto-cinza. Hoje, eles atuam também com aves ameaçadas, como o soldadinho-do-araripe, no Sul do estado. A ONG conseguiu tirar o cara-suja da beira da extinção, num projeto que começou em 2005. O plano foi atacar os principais desafios da espécie, como tráfico ilegal e falta de cavidades naturais para formação de ninhos, como ocos de árvores.
Em 2024, Fernandes foi um dos 230 voluntários do censo. Ela contou quinze caras-suja habitando uma das centenas de ninhos artificiais – caixas de madeira de 25 cm por 25 cm e 45 cm de altura – instalados pela Aquasis na Serra de Baturité, uma tática de sucesso para combater a falta de buracos naturais. O censo registrou um total de 1 238 indivíduos, um aumento significativo em relação aos 863 contados dois anos antes. Ela também deu uma palestra aos voluntários durante o evento, recapitulando suas aventuras com a rolinha-do-planalto e sua experiência em Foz do Iguaçu com o periquito-cara-suja.
Cinco anos antes, a Aquasis havia enviado ao Parque das Aves, doze caras-sujas resgatados do tráfico no Ceará. Alguns estavam tão debilitados que não aguentaram a viagem. Porém, em 2023, um casal botou dois ovos no zoo de Foz do Iguaçu. Com alguns meses de vida, os dois filhotes irmãos foram transferidos de avião para o programa de reintrodução da Aquasis nas serras cearenses. A dupla ganhou até apelido: Caju e Castanha. “Nasceram sozinhos, sem complicações”, diz Fernandes, que cuidou da dupla de perto, naquele cronograma intenso de alimentação.
O biólogo Fábio Nunes, de 48 anos, coordenador do projeto da Aquasis, ficou entusiasmado com a palestra da colega. “O que mais admiro na Bianca é a combinação de competência e generosidade”, diz ele. “Ela tem um conhecimento impressionante e está sempre disposta a compartilhar. É uma pessoa muito simples, acessível e apaixonada pelo que faz.”
Nunes começou um programa ambicioso de rewilding – renaturalização de áreas degradadas – da Serra da Aratanha, a cerca de 30 km de Fortaleza, reintroduzindo caras-suja no local. Ele espera trazer outros pássaros e conta com o apoio do Parque das Aves e de Fernandes. Um deles é o uru-nordestino, uma ave que lembra uma pequena codorna com uma máscara laranja nos olhos. Estima-se que haja menos de duzentos indivíduos em vida livre, a maioria na Serra de Baturité. Uma queda abrupta na população tem preocupado os biólogos, e a causa ainda é desconhecida. O Parque das Aves mantém três urus-nordestino enviados pela Aquasis em 2022, num local afastado do público. O bicho é conhecido por ser extremamente delicado: chega a se jogar contra a tela do recinto ou a grade da gaiola de transporte quando fica assustado.
Ele explica que retirar os urus-nordestino da natureza não foi uma decisão fácil. A ideia original era capturar ovos, como ocorreu com a rolinha-do-planalto, mas nenhum ninho foi encontrado. Numa das buscas, a equipe cruzou com um caçador que havia visto um uru no caminho. “Ele disse que só não matou porque estava sem sua arma”, conta Nunes. “Ia matar pra comer.”
Dos sete urus capturados, todos com as devidas licenças ambientais, dois morreram no processo de manejo. Uma das fêmeas chegou a botar um ovo no recinto enquanto aguardava transferência para o Parque das Aves. No entanto, o ovo não vingou. Entre os bichos enviados a Foz do Iguaçu, um filhote nasceu em 2025 com a mesma técnica de intervenção feita no ovo da rolinha-do-planalto, um marco para a conservação da espécie.
Na visita pelas serras cearenses, Fernandes aproveitou para saber mais sobre o hábitat do uru. “É muito importante quando o in situ conversa com o ex situ”, ela diz. “Olhar para o ambiente onde esse animal vive nos dá repertório para fazer o recinto, talvez com um substrato diferente, outro tipo de árvore. Peguei algumas sugestões.”
No dia da volta para Foz do Iguaçu, Nunes convidou Fernandes para conhecer o projeto de reintrodução do periquito-cara-suja na Serra da Aratanha. Seria um desvio do aeroporto em Fortaleza de umas duas horas, já que teriam que subir e descer de carro uma estradinha de terra bem maltratada. Acordaram às três da madrugada e chegaram ao topo da serra quando os periquitos já iniciavam a algazarra matinal.
Entre os bichos selvagens, estavam as duas crias do Parque das Aves, Caju e Castanha, cujos pais foram resgatados do tráfico. A dupla de caras-suja se diferenciava do restante por um corte feito numa pena da cauda para facilitar o monitoramento – e Fernandes conseguiu identificá-la durante uma revoada, com seu olhar arguto para aves. “Eu chorei, claro”, recorda a bióloga. “Deu pra ver a magnitude do resultado final do nosso trabalho.”
A pena cortada de um dos caras-suja caiu tempos depois e foi achada por um técnico de campo do projeto. Foi colocada num quadro e dado de presente a Bianca Fernandes, com uma mensagem poética dirigida ao dono da pena perdida: “Se seus pais pudessem falar, talvez sussurrassem: ‘Voem, pequenos, realizem o que não conseguimos, e levem no peito o sonho que carregamos.’”