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ESCUTA DO DESESPERO

O serviço de prevenção ao suicídio criado por um octogenário
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
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Ao fim de um dia de trabalho, em 1978, o advogado Arthur Antônio Mondin chegou animado à sua casa, em São Paulo. Foi logo conversar com sua mulher sobre o anúncio de um curso “para quem quisesse aprender a ouvir”, sobre o qual lera no Jornal da Tarde. Por coincidência, Marilu Mondin ouvira o mesmo anúncio em um programa de rádio. Os dois decidiram fazer o curso.

Não se tratava de aulas para melhorar as habilidades sociais dos alunos. O objetivo era ensiná-los a ouvir pessoas no limite do desespero. Promovido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade de prevenção ao suicídio fundada em 1962 e ainda hoje em atividade, o curso capacitava voluntários para atender, por telefone, pessoas que cogitam se matar. 

A primeira aula foi num sábado à tarde. “A quantidade de pessoas era imensa”, recorda Arthur, com sua voz calma e pausada. “As portas se fechavam exatamente às 14 horas e não adiantava ficar batendo.” Para o advogado e Marilu, esse rigor serviu para confirmar a “seriedade do CVV”.

Depois do curso, o casal se voluntariou para atender as chamadas de quem buscava razões para não encerrar a vida. “A Marilu foi a melhor voluntária no atendimento por telefone que conheci. Sua voz transmitia ternura, acolhimento, compreensão. Não teria lugar hoje na CazéTV”, brinca o marido. 

Depois de algum tempo de experiência, o advogado se tornou instrutor dos cursos de formação e até assumiu a função de porta-voz do CVV. “Sempre que havia algum suicídio com maior repercussão, eu era incumbido de conversar com a imprensa”, diz. Por causa disso, foi entrevistado no programa do Jô Soares e chegou a aparecer na revista Veja. 

Arthur hoje tem 88 anos, e Marilu já completou 89. O casal deixou São Paulo em 2013. “Morávamos numa casa muito grande, uma casa que hoje seria inviável para nós, por causa das escadas”, explica o marido. Mudaram-se para Guarapuava, no Paraná, onde estão mais próximos dos filhos. 

Criado em São Paulo, o CVV hoje tem 82 postos em vinte unidades da federação – nenhum deles na cidade onde os Mondin se estabeleceram. Como eles desejavam continuar ouvindo quem mais precisa ser ouvido, decidiram criar seu próprio centro de prevenção ao suicídio: em 2019, nasceu o Guarapuava Salvando Vidas (GSV).

Formado em direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie na turma de 1960, Arthur Mondin passou 25 anos no departamento social da Volkswagen. Integrava uma equipe de advogados que tratava não de questões empresariais, mas de problemas pessoais dos funcionários. “Nós cuidávamos de divórcio, despejo, inventário, esse tipo de coisa”, recorda. Foi ali que se acostumou a ouvir conflitos cotidianos.

Em seus anos no CVV, Arthur preocupou-se em ampliar o alcance da escuta oferecida pela instituição. “Me sentia incomodado pelo fato de sermos muito pouco procurados por jovens”, conta. Em 2008, ele propôs que o centro, que até então trabalhava só por telefone, também atendesse online, por chat. “Começamos com cinco ou seis voluntários, fazendo plantões duas ou três vezes por semana.”

Jovens com ideação suicida, acreditava o advogado, se relacionariam melhor com uma ferramenta moderna. Hoje, no GSV, todos os atendimentos se dão por esse meio. Arthur acompanha de perto a faixa etária dos que buscam o chat. Entre os usuários que declaram a idade (todos têm liberdade de resguardar informações como essa), ele tem encontrado preocupantes casos precoces: “O fato é que hoje nós conversamos com crianças de 10, 11, 12 anos de idade, que já estão mencionando a ideia suicida.”

O GSV conta atualmente com doze voluntários, número insuficiente para os cerca de quarenta atendimentos realizados por dia, em média. Quando conversou com a piauí no escritório de sua casa, Arthur, metódico, tinha à mão os registros do GSV. De janeiro a junho deste ano, foram contabilizados 2 690 atendimentos completos – aqueles em que a conversa ultrapassa dez mensagens trocadas. No mesmo período, 2 565 pessoas iniciaram o contato durante os plantões, mas não conseguiram atendimento porque todos os voluntários estavam ocupados. Arthur estima que seriam necessários 21 voluntários para atender à demanda de forma adequada. 

Tanto quanto a falta de pessoal, a situação financeira do GSV preocupa seu fundador. As despesas são cobertas, em grande parte, por contribuições de 50 reais mensais feitas pelos próprios voluntários. Mas isso não é suficiente para pagar os cerca de 1,5 mil reais destinados todo mês ao Google – principal meio de divulgação do GSV, para que o serviço seja indicado quando alguém pesquisa “quero morrer” ou “preciso de ajuda”. E há ainda a assinatura da Jivo, plataforma que hospeda o chat. 

A cada ano, entre 14 mil e 15 mil pessoas tiram a própria vida no Brasil. De 2010 a 2021, a taxa de mortalidade por suicídio no país aumentou 42%, conforme o Boletim epidemiológico Nº 33 – Mortalidade por suicídio e notificações de lesões autoprovocadas no Brasil, publicado pelo Ministério da Saúde em 2024. O relatório aponta que, em 2021, o suicídio foi a terceira principal causa de óbito entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta entre jovens de 20 a 29 anos. Arthur Mondin conhece essas estatísticas e sabe que não poderia lhes fazer frente mesmo que o GSV tivesse o dobro de voluntários. 

Quando começou a atender pessoas em sofrimento, ele percebeu que ouvir era mais difícil do que aconselhar. No CVV, aprendeu que o voluntário não deve julgar, criticar ou tentar mudar as ideias de quem procura ajuda. “Temos uma postura de aceitação do outro, de aceitar o outro como ele é, e de não julgar de forma alguma”, explica. Arthur acredita que é justamente essa ausência de julgamento que dá a quem está do outro lado o sentimento de que foi compreendido.

O papel do voluntário, diz o advogado, não é oferecer respostas, mas permanecer ao lado das pessoas em seus dias mais sombrios: “Nós não resolvemos problemas. O que nós podemos fazer é estarmos juntos da outra pessoa naquele momento.” Ele acredita que, em um “mundo de tragédias, de desacertos, de angústias e desesperos”, a escuta é uma forma modesta mas poderosa de oferecer acolhimento. Muitas vezes, é o que basta para salvar uma vida.


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É estagiário de jornalismo na piauí