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Maitê Silveira piauí_242 05 Nov 2026
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Nem os pingos grossos da chuva, nem as rajadas geladas ao cair da tarde impediram que os estudantes se aglomerassem em frente à reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis. O ato convocado para às 19 horas de 16 de outubro passado prometia reunir os “vingadores da virada” de Santa Catarina, em apoio à reeleição de Lula.
Num palco desmontável, quatro cadeiras brancas de plástico aguardavam vazias pelos convidados. Uma jovem do movimento estudantil ocupava o quinto lugar e animava a plateia ansiosa. Gritos de guerra acompanhavam a bateria.
Quarenta minutos depois do previsto, chegaram os “vingadores”: a deputada federal recém-eleita Giovana Mondardo (PCdoB-SC), o deputado estadual reeleito Marquito e sua suplente em exercício Carolline Sardá (ambos do Psol-SC) e o deputado federal Guilherme Cortez (Psol-SP).
A primeira a discursar foi Mondardo. Diante de milhares de universitários, ela lançou um desafio: “Vamos mostrar que Santa Catarina não é território de fascista. Aqui tem muita gente com sangue, suor e energia para fazer diferente. Vamos à luta até a vitória, com a força da juventude e dos estudantes.”
Dos dezesseis deputados federais escolhidos pelos catarinenses para a próxima legislatura, sete são do PL. Somente três são de esquerda. Os petistas Ana Paula Lima e Pedro Uczai – segundo e terceiro candidatos mais votados – conseguiram a reeleição. Mondardo, que obteve inesperados 114,8 mil votos, é a primeira comunista eleita para a bancada de Santa Catarina em Brasília. A candidata que chegou mais perto desse feito foi Angela Albino, em 2014, então no PCdoB (hoje no PDT), suplente de Cesar Souza (PSD) que assumiu a cadeira entre outubro de 2015 e janeiro de 2017.
“Aqui está a deputada que vai botar a tiarinha pra correr”, assegurou a estudante, quando chamou Mondardo ao microfone. Ela fazia referência à deputada federal Júlia Zanatta, do PL catarinense, que costuma usar uma tiara florida nas sessões da Câmara e foi reeleita em outubro com 560 mil votos – a maior votação de Santa Catarina. A provocação da estudante vinha do próprio jingle da campanha da comunista, que prometeu aos eleitores ser “o terror da tiarinha”. As duas são naturais de Criciúma, cidade de 215 mil habitantes, mas nunca dividiram a mesma tribuna.
Giovanna Mondardo, de 33 anos, trilhou sua carreira profissional e política em Criciúma. Formou-se cirurgiã-dentista e fez mestrado em saúde coletiva na Universidade do Extremo Sul Catarinense. Em 2011, quando ainda estava na graduação, conheceu a União da Juventude Socialista, organização vinculada ao PCdoB, ao qual se filiou em seguida.
Antes disso, enfrentou um forte dilema: declarar-se comunista em uma família de direita. No começo dos anos 2000, o seu pai foi eleito vereador pelo PPB (agora PP) em Nova Veneza, município próximo de Criciúma. Mas eram tempos menos polarizados, e a diferença ideológica não criou grandes conflitos. Ao contrário. “Eu aprendi com o meu pai que a política serve para ajudar os que mais precisam”, diz Mondardo à piauí. “Na época, a direita tradicional representava esse desejo de melhoria de vida. Isso se perdeu com a ascensão da extrema direita.”
Polo carbonífero e industrial que cresceu muito entre 1960 e 1990, Criciúma ainda tem uma forte presença operária, mas vem sofrendo uma drástica desindustrialização. Em 2020, centrando seu discurso eleitoral no desenvolvimento econômico e na melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, Mondardo tornou-se, aos 27 anos, a vereadora mais jovem de sua cidade natal.
Na pandemia, ela conduziu a campanha pelas redes sociais – sobretudo, no Instagram, onde fazia reuniões virtuais com a população. Voltou-se, em particular, para os jovens que votavam pela primeira vez. Em 2022, lançou sua candidatura a deputada federal, sem sucesso. Acabou participando da equipe de transição do governo Lula, integrando o Conselho Consultivo, no qual se dedicou ao tema da juventude. Em 2024, reelegeu-se como a vereadora mais votada de Criciúma.
Em seis anos de mandato, aprovou 29 leis. Orgulha-se de ter ampliado o acesso gratuito à canábis medicinal no município e de ter trabalhado pela criação de uma casa de apoio a mulheres vítimas de violência. Bissexual, como se declara, ela também levou a Parada LGBTQIAPN+ à cidade.
Na campanha deste ano, a experiência no Instagram ajudou Mondardo a disputar “a narrativa e a consciência das pessoas nas redes e nas ruas”, nas suas palavras. “Unimos a irreverência da juventude com a experiência da maturidade.” A campanha valeu-se do humor para responder às críticas de opositores – em particular, de Júlia Zanatta.
A rivalidade entre a comunista e a bolsonarista de 41 anos resultou em oito processos movidos por ambas as partes no Tribunal de Justiça de Santa Catarina, com resultados favoráveis ora a Zanatta, ora a Mondardo. Na campanha deste ano, o Tribunal Regional Eleitoral rejeitou duas ações do PL contra anúncios em que Mondardo criticava Zanatta. A comunista ataca: “Ela faz a política de trampolim financeiro e impõe o simbolismo da perversidade nas narrativas.” Procurada pela piauí, Zanatta não quis comentar as críticas.
Uma semana antes do evento na UFSC, Giovanna Mondardo esteve em Brasília, integrando o grupo de jovens deputados federais da esquerda que se reuniu com o presidente Lula para, na expressão dela, “atualizar a mensagem política, mudar a cara da campanha presidencial e dominar as redes”. Da reunião também participaram os recém-eleitos Jones Manoel (Psol-PE), Pedro Rousseff (PT-MG), Guilherme Cortez (Psol-SP), Rick Azevedo (Psol-RJ) e Ana Elisa (PT-MG) – a mais jovem já votada para a Câmara, aos 21 anos.
Depois desse encontro em 7 de outubro, Mondardo foi derrubada por uma virose. Apesar da exaustão, não quis cancelar o ato na universidade. Falou aos estudantes por 8 minutos. “Tentam fazer da gente o laboratório do bolsonarismo. Nós não vamos aceitar. A gente já deu o recado na urna”, disse na manifestação. Não demorou para a multidão puxar, uníssona: “Ô tiarinha, vai se fuder, a Gi Mondardo é melhor do que você!” A ousadia fez Guilherme Cortez arregalar os olhos e Mondardo sorrir.
A deputada comunista garante que Santa Catarina não é bolsonarista – apenas está bolsonarista. No segundo turno das eleições de outubro, Flávio Bolsonaro teve 69,42% dos votos válidos no estado, contra apenas 30,58% de Lula. Em 2002, no entanto, a maioria dos catarinenses seguiu os eleitores de grande parte do país e optou por Lula, que obteve 64,14% dos votos no segundo turno, contra 35,86% do tucano José Serra.
Mondardo também faz um aceno ao campo político oposto: “Considero que atrair a direita civilizada para a grande política pode ajudar a superar o extremismo.” É claro que ela não coloca Zanatta na conta da direita civilizada. Mas espera ser bem mais do que “o terror da tiarinha” na Câmara dos Deputados. “Vou ser lembrada pela disposição em fazer da política um lugar para todos”, diz. “Quero dialogar com quem quer um Brasil forte, independente e soberano.”