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CRUCIGRAMAS QUEER

Uma revista de palavras cruzadas para a comunidade LGBTQIAPN+
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026

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Os 4 km de areia da Praia de Copacabana estavam quase totalmente ocupados por gente de todas as tribos da comunidade queer, refugiada sob guarda-sóis: ursos (peludos), barbies (bombados), twinks (jovens e magros) e cacuras (os mais velhos). Era 2 de maio de 2025, a sexta-feira do feriadão do Dia do Trabalho. Alguns tinham vindo de perto, dos subúrbios do Rio de Janeiro. Outros precisaram cruzar estados para assistir ao show gratuito da cantora Lady Gaga, que, naquela tarde, se escondia numa suíte presidencial no sexto andar do Copacabana Palace. 

O designer Luiz Lula (homônimo do presidente), hoje com 36 anos, e o diretor de arte Victor Amirabile, com 33, tinham vindo de São Paulo e se reunido com os amigos para pegar Sol à beira-­mar. Lula alternava o olhar entre as sungas e uma revistinha de palavras cruzadas. Às vezes, lia em voz alta as pistas oferecidas pela revista Coquetel e pedia a ajuda de Amirabile para descobrir a palavra certa. História, ciências, nomes de jogadores de futebol e de vencedores do Nobel: as palavras que apareceriam no diagrama não tinham nada a ver com os motivos que faziam os seus amigos se divertirem ali na praia. 

“Já pensou se tivesse uma cruzada temática da Gaga ou da Madonna?”, Lula perguntou a Amirabile. E pelo resto da viagem eles não pensaram em outra coisa. Depois do show de Lady Gaga – bem melhor que o de Madonna no ano anterior, fato que Amirabile se recusa a admitir por ser fã da Material girl –, os dois retornaram a São Paulo e passaram meses quebrando a cabeça para aprender o cruciverbalismo, o complicado trabalho de criar crucigramas, ou palavras cruzadas. 

Luiz Lula e Victor Amirabile se conheceram ainda jovens, trabalhando na revista Casa e Jardim. “Victor era meu estagiário”, diz Lula. “Ele saiu da empresa, mas depois voltou, e daí viramos a dupla que cuidava das artes da revista.” 

Veio a pandemia, e eles alugaram um apartamento no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, onde moraram por quase dois anos. A proximidade ajudou Lula e Amirabile a realizarem um plano antigo de se experimentarem como drag queens. Isolados em casa, compraram maquiagens, perucas e vestidos, e nas horas vagas se montavam. Assim nasceram Loola Andrade e Vamira, suas personagens. 

A escolha de Lula por Loola dispensa explicações. Amirabile escolheu Vamira porque, certa vez, uma assessora de imprensa leu seu endereço de e-mail corporativo (vamirabile@...) e lhe escreveu: “Bom dia, Vamira.” Os dois também costumam se referir um ao outro usando pronomes femininos – hábito comum na comunidade gay.

Ainda na pandemia, os amigos usavam os conhecimentos em design para produzir cartões à moda antiga e enviá-los a uma pequena lista de amigos. Eles deixaram de morar juntos, mas ainda se reúnem de tempos em tempos para produzir os cartões. 

Em setembro de 2025, para o Dia da Árvore, os amigos de Lula e Amirabile receberam pelo correio um cartão com os dizeres: “Abrace uma árvore.” Na imagem, no lugar das árvores, Vamira e Loola apareciam lado a lado, sob um fundo verde, como criaturas estranhas da natureza. No final de 2023, eles foram fotografados como dois corações gigantes para desejar boas-festas. 

A brincadeira despretensiosa com os cartões os fez perceber que se divertiam trabalhando juntos, de modo que não tinham por que hesitar quando pintou a ideia de fazer uma revistinha de palavras cruzadas. Lula deu o pontapé inicial. Numa planilha, fez uma cruzada temática da Madonna, com dicas sobre a vida da cantora, fáceis para qualquer fã mais ou menos informado: “A filha mais velha da rainha” (a resposta é Lourdes Maria Leon), “O que ela era para Jean Paul Gaultier” (resposta: diva) e, levando em conta os comentários sobre a aparência atual da cantora, “Preconceito por idade” (resposta: etarismo). 

Lula enviou a planilha para Amirabile, que logo estava de olhos franzidos diante do computador, tentando resolver a cruzada. Viram que a ideia funcionava e passaram a estudar as revistas Coquetel para entender a lógica dos crucigramas. “É bem mais matemático do que parece”, diz Amirabile. “A gente começa com palavras soltas e, a partir de determinado momento, procura termos relacionados, contando letra por letra, para que tudo se encaixe.” No começo, chegaram a passar uma semana esquentando a cabeça para construir um jogo apenas. 

Logo se ocuparam de criar caça-palavras, liga os pontos e sudokus (que eles chamam também de sudokuzinhos). Decidiriam, então, levar adiante o projeto imaginado em Copacabana e fazer uma revista inteira de jogos para a comunidade queer e outras pessoas interessadas na cultura pop. Batizaram a revista de Sabichonas. Em dezembro de 2025, anunciaram no Instagram uma campanha de financiamento para imprimir os exemplares e receberam o apoio de 205 doadores. Os primeiros leitores gostaram, recomendaram a outros e, quando Lula e Amirabile se deram conta, já tinham imprimido 5 mil revistas. 

Os jogos da Sabichonas não exigem apenas familiaridade com temas de interesse da comunidade queer. Para resolvê-los, também é preciso ser um pouco sacana e estar a par de discussões do meio que acontecem na internet. 

Numa das cruzadas, por exemplo, a dica é: “A segunda maior drag queen do mundo.” A resposta é RuPaul, nome da apresentadora do reality show RuPaul’s Drag Race e sem dúvida a drag mais famosa do planeta. Mas, para matar a charada, é preciso saber que, no Brasil, ela é tida como a segunda drag do mundo, porque, para os gays brasileiros, a primeira é Pabllo Vittar – que tem muito mais seguidores no Instagram que a americana. Por vários anos, os brasileiros irritaram RuPaul na internet, pedindo que ela reconhecesse a superioridade de Vittar. “Algumas respostas são baseadas apenas na nossa subjetividade”, diverte-se Amirabile.

Em outra cruzada, a dica é: “Óbvio (gíria).” E a resposta é Old, termo recorrente no léxico digital queer para designar alguma coisa já conhecida. O leitor precisa saber, ou pelo menos imaginar, quem os gays costumam adjetivar de “bezerras” para responder sobre uma prática sexual predileta deles. “A gente tentou aumentar o nível de dificuldade”, diz Lula. No segundo volume da revista, lançado em agosto e que vendeu 3,8 mil exemplares ao preço de 29,90 reais cada, alguns desafios receberam o selo “Mente de titânio”, por serem especialmente desafiadores.

O fim do ano está aí, e Amirabile e Lula vão precisar fazer, além do habitual cartão de boas festas, o terceiro volume da Sabichonas e um jornalzinho de jogos que será vendido na Delícia Impressa, uma feira de publicações independentes no Rio. Uma grande editora os procurou neste ano para contratar um livro deles, com mais jogos para bichas sabidas.


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Repórter da piauí, é autor do livro Filho (Companhia das Letras)