ficção
J.M. Coetzee piauí_241 08 Out 2026
23 min de leitura
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I
Seu nome é José Eduardo, mas é conhecido pelos amigos como Pepe. Ele mora com sua mãe em um apartamento antigo e confortável em Madri, no barrio de Salamanca. Teve mulheres em sua vida ao longo dos anos, mas nunca se casou. Agora, prestes a completar 45 anos, começa a se perguntar se isso foi um erro.
Na escola sempre foi estudioso, mas nunca brilhante. Filho único, esperavam que seguisse os passos do pai (seu pai, um advogado bem-sucedido, morreu quando ele tinha 12 anos). Quando chegou a hora, obediente, matriculou-se na faculdade de direito, mas já no segundo ano achava os estudos tão tediosos que convenceu sua mãe a deixá-lo desistir. Desde então, segue um caminho acidental: foi camareiro em um navio de cruzeiro, motorista de um ônibus escolar, professor de línguas e vez ou outra fez bicos como jardineiro.
Durante um curso de desenho de modelo vivo (para o qual tem um leve talento) no Instituto de Arte, ele conhece um homem que trabalha como guarda no Museu do Prado. Há vagas na equipe, o homem diz. Como ele gosta de arte, talvez deva se candidatar. O trabalho não é desgastante, e sempre há garotas bonitas passando por ali.
Ele se candidata, passa na prova com facilidade e aceita a posição de vigilante de sala, para começar dia 1º de julho. Acha o trabalho agradável, gosta dos colegas, que também gostam dele. Considera as tardes de inverno as melhores, quando o Sol se põe cedo, e as galerias ficam quase sem vida, a não ser pelas pinturas.
Ele encontrou seu nicho na vida, reflete, o nicho que uma Providência benevolente preparou para cada um de nós se conseguirmos trilhar nosso caminho até lá.
Em junho de 2019, trabalhando nas salas de Goya, ele observa uma mulher sentada diante de uma de suas pinturas conhecida como O três de maio de 1808, que retrata cidadãos de Madri sendo executados por um pelotão francês de fuzilamento. Ela passa a tarde toda sentada ali; quando toca o sinal para o fechamento das salas, se levanta e, movendo-se com agilidade surpreendente para alguém da sua idade – ela tem 60 e tantos anos, ele estima, talvez até mais – desaparece na multidão.
Na tarde seguinte está lá novamente, sentada desta vez não diante de O três de maio de 1808, mas diante do cão se afogando. Ele a estuda de longe. Ela se senta com as costas retas feito um soldado, seus olhos fixos na tela, como uma câmera antiga de fotografia.
O dia está quente. Ele se senta ao lado dela e, sem dizer uma palavra, estende uma garrafa de água. Sem dizer uma palavra, ela pega a garrafa, desrosqueia a tampa, toma um longo gole e a devolve.
“Está bem, você?”, ele diz em inglês.
“Sim, estou bem”, ela responde em inglês. “Obrigada.”
O museu não tem uma política específica quanto à socialização entre funcionários e público. Não há nenhuma razão para não oferecer uma bebida a uma visitante estrangeira, nenhuma razão para não mostrar preocupação em um dia escaldante de verão. Então se sentam lado a lado, amigavelmente, até chegar o momento de ele recomeçar suas rondas.
No terceiro dia, ela está lá novamente. Ele apresenta seu crachá para que ela examine. “Esse é quem eu sou”, diz. “Sou um guarda no Museu, mas também sou um ser humano.”
Há um silêncio calculado entre eles.
“Eu também sou um ser humano”, diz a mulher. “Satisfação.”
Satisfação: Well met, ela disse. O inglês dele é bom, mas as nuances que Well met traz ele não alcança.
“Goya para você tem um significado?”, ele diz.
“Um significado? Sim, tem um significado. De um jeito complicado.”
Sua voz é firme, toda sua atitude é firme, considerando sua idade. Então, se ela escolhe passar seu tempo sentada nas salas de Goya, deve ter suas razões. Não é preciso se preocupar mais com ela.
“Você quer que eu fale sobre ele – sobre o significado?”, ela diz, e sorri para ele, não o que ele poderia chamar de um sorriso amigável, mas ainda assim um sorriso. Ela não usa óculos. Por que ele não notou isso antes? Os olhos, as pequenas aberturas por onde ela absorve o mundo, estão nus, desprotegidos. Já ele, ele usa óculos desde sempre.
“Os significados que essas pinturas têm para mim, quer que eu te conte?”, ela repete. “Já que você perguntou.”
Ele se levanta, se curva. “Senhora”, ele diz, “sinto muito, mas tenho trabalho a fazer.” E se retira.
Homens assim como José Eduardo (Pepe) ainda podem ser encontrados hoje em dia em Madri? Sim, aparentemente sim.
II
Ele a vê uma última vez. Está quase indo embora ao fim do seu turno quando a avista sentada sozinha no café do museu. Ela também o vê, acena com a cabeça em sua direção. Ele se encaminha até a mesa, a cumprimenta. “Teve um bom dia hoje? Você é uma visitante frequente do museu, quase uma cidadã. Precisamos te dar um passaporte como o meu.”
“Sente-se”, ela diz. “Eu sei que você está curioso. Quer ouvir a história inteira? Por que eu estou aqui, por que eu sou quase uma cidadã do seu museu?”
Ele assente ressabiado.
“Visitei o Prado pela primeira vez em 2008. Vim com meu marido. Não passávamos por uma fase muito boa, mas estávamos de férias, só tínhamos a companhia um do outro, então tentamos fazer o melhor possível. Retrato de um casamento. Você é casado?”
“Eu? Não.”
“Já foi casado?”
“Não.”
“Interessante. Meu marido queria ver as pinturas de Goya. Eu o deixei com Goya enquanto fui explorar outras salas. Quando voltei ele estava num humor sombrio, não queria conversa. Passamos o resto do dia em silêncio. Na manhã seguinte, seguindo nossa programação, fomos de carro para o Sul, até Carboneras, onde tínhamos reservado um hotel. Meu marido anunciou que iria nadar; eu não fui, fiquei descansando. Uma das praias perto de Carboneras se chama Playa de los Muertos, você deve saber qual é. Apesar do nome, é uma praia totalmente segura. Meu marido nadou em direção ao fundo e, de acordo com os registros policiais, morreu afogado. Em inglês dizemos morreu afogado, mas também dizemos se afogou – os significados são diferentes, não sei como é em espanhol. O fato é que ele nadou até o fundo e se afogou. Ele não era um bom nadador. Não teria se aventurado tão longe se pretendesse voltar.”
O café se esvazia conforme os últimos visitantes do dia vão embora.
“Eu ainda estou tentando entender o que se passava pela cabeça dele”, ela diz. “Afogar-se para escapar de uma esposa que deixou de amar – isso parece um ato excessivo. Eu não sou uma pessoa fácil de conviver, mas não sou insuportável. Eu não enveneno a existência.”
Poison. Veneno. A postura ereta, o tom uniforme, as mãos espalmadas à sua frente na mesa (sem anel, sem adorno): ele a analisa atentamente, tentando imaginar como teria sido ser casado com ela, ou com uma versão mais jovem dela. Em si mesmo, em seu corpo físico, ele não detecta nem sinal de interesse. Ela não faz seu tipo, simples assim (pensando bem, onde raios é que dá para encontrar seu tipo?).
“Não vejo sentido”, ele diz... “Não vejo sentido em várias coisas. Primeiro, não vejo sentido em você me contar essa história, já que não sou ninguém para você. E também não vejo sentido na relação entre a morte do seu marido e o Prado. Mas o museu está fechando, hora de ir embora.”
“Permita que eu termine”, ela diz, e oferece a ele um segundo sorriso, e pousa a mão na manga de sua jaqueta. “Tudo vai ficar claro. Eu prometo.”
Eles se sentam lado a lado nos degraus mornos do lado de fora, em frente à entrada do museu.
“Você é o homem que toma conta dos Goya, el vigilante dos Goya”, ela diz. “O dia todo está com eles. Eles certamente devem ter se infiltrado em você, no seu sangue.”
Os Goya se infiltraram nele? Ele não sabe. Acha que não. Foi parar nas salas de Goya por puro acaso, no mês em que esta mulher – cujo nome ele ainda não sabe – escolheu fazer sua visita.
Ela se aproxima mais, fala em voz baixa. “Eu sou assombrada pela visão”, ela diz. “Os anos passam e a visão não esmaece. A praia ensolarada, a água plácida, o homem caminhando, seu corpo submergindo... O que passava por sua mente? Era um ato de vingança, um plano para me deixar com o fardo da culpa e do remorso? Você entende? Ou ele morreu por alguma coisa que viu em Goya? Há pessoas em quem Goya tem este efeito? O que você acha?”
Será que Goya afeta algumas pessoas a ponto de fazer com que se afoguem? Será que ele, o expert improvisado em Goya, deve fazer algum pronunciamento?
“Nunca seu marido falou com você sobre Goya?”
“Nós não estávamos nos falando quando chegamos a Madri. Quer dizer, éramos educados um com o outro, mas tínhamos parado de falar sobre qualquer coisa importante. Acontece em alguns casamentos. As cortinas se fecham e nunca mais se abrem. Você não é casado, então não sabe como é.”
Ele ignora a provocação. “Conhece o quadro do cachorro no mar?”
“Sim.”
“Sabe a história do quadro?”
“Eu sei que Goya o pintou em seus últimos anos. Sei que ele não deu um título, então não sabemos que cachorro era ou por que ele escolheu pintá-lo. Sei que ele pintou diretamente sobre uma parede da casa em que vivia. O que mais devo saber?”
“Olhamos para esta pintura e pensamos que o cão vai morrer afogado. Mas, de acordo com uma história, a pintura que vemos está incompleta. Parte dela nunca foi transferida da parede da casa porque era frágil demais. E agora essa parte se foi. Desapareceu.”
“É mesmo?”
“De acordo com essa história, a parte desaparecida mostra um pássaro em uma árvore. O cachorro estava olhando para cima, para o pássaro. É apenas isso. Essa é a história.”
“Então você afirma que o cão não estava na vastidão do oceano, morrendo afogado. Se Goya tivesse pintado um segundo painel, teria mostrado o cão saindo do mar, chacoalhando a água e latindo para o pássaro na árvore.”
“Talvez. É só uma história. Nós não temos que acreditar nela.”
“Mas fato é: nós não temos o segundo painel do pássaro no galho e o cão latindo, o painel da salvação. Só temos o cão em meio às ondas. Só temos o que temos. Não temos o que não temos.”
Surge um silêncio entre eles. O calor do Sol, armazenado no mármore, sobe por suas nádegas e coxas. Isso causa nele um prazer real, mesmo que o preço a pagar seja dividi-lo com uma estranha aflita, e ter que pensar em como encerrar a conversa entre eles.
“Isso é tudo que eu posso oferecer”, ele diz, “a história do pássaro. Quanto ao cachorro, eu o vejo todos os dias no meu trabalho. O cachorro está morrendo afogado? Não está? Não sei. Mas acreditar que o cachorro está morrendo afogado não me faria entrar no mar e me afogar. Certamente não. Claro que eu não sou seu marido. Nós todos somos diferentes.”
“O que – se me permite a pergunta – seria suficiente para fazer você entrar no mar e se afogar?”
Suicídio: parece um assunto muito íntimo para ser discutido por dois desconhecidos numa tarde de verão. Ele nunca considerou a possibilidade de se matar, nem por um segundo. Ele ama a vida. Ele gostaria de viver para sempre se fosse possível.
Ele pensa no marido perdido, o homem para quem essa mulher tinha fechado as cortinas, pensa nele indo para o mar, mergulhando a cabeça sob a primeira onda, aspirando a primeira respiração de água do mar em seus pulmões. Playa de los Muertos. Tão simples. Tão fácil de fazer. Mas poucos de nós o fazem. Por que não? Porque amamos a vida. Porque queremos viver. Viver! Como o cachorro na pintura, nadando, não morrendo afogado. Nadando por sua vida. Como o pássaro na árvore, cantando.
“Você é novo no museu, não é?”, ela diz. “Dá para perceber. Não é o trabalho da sua vida, proteger pinturas de vândalos. Ou de pessoas como eu. Vou te falar uma coisa, somos muitos – não os vândalos, mas as pessoas loucas. Você vai ter que se acostumar conosco.” Dá um tapinha na manga da jaqueta dele. “Você não vai me ver novamente, pode ficar tranquilo. Amanhã pela manhã pego um trem e depois um ônibus para Carboneras e a praia fatal.”
“Você sente saudade dele. Devia amar seu marido, apesar do todo.”
“Amava? Não sei. Talvez. Talvez não. O que conta no fim não é o que você sente nas profundezas do seu coração, mas o que está preparado para dar – se eu tivesse dado mais ao meu marido, ele teria ido para o mar? Duvido. Mas, assim como você não é um expert em Goya, eu não sou uma expert no amor. Ele me achava opressiva. Uma presença opressiva.”
Se ela espera mais alguma coisa dele, se quer ouvi-lo dizer que não consegue imaginar como algum homem pode achá-la opressiva, vai se decepcionar. É hora de se libertar. Chega de se expor às intimidades do coração de uma estranha – um coração bem frio, lhe parece. Há um certo mau gosto nessa coisa de confidências, de contar seus segredos a estranhos. Ele se levanta. “Preciso pegar o ônibus”, ele diz, “sinto muito, não posso ajudá-la com mais nada.”
III
Diante da faixa de pedestre na Calle Serrano ele para, esperando que a luz mude. Um arrepio percorre seu corpo. Como aquelas bruxas de Goya, pensa. Ou aquelas outras três bruxas... Qual é o nome delas... Aquelas que cortam o fio da vida. A luz muda para verde. Ele desce da calçada, direto para a rota de uma scooter pilotada por uma jovem. A scooter o acerta na altura do quadril, vira bruscamente na direção do tráfego. Ele tropeça e cai, batendo a cabeça no asfalto. Seus óculos se espatifam. Clotho?, pensa. Atropos? Então tudo fica preto.
A multidão está, por enquanto, menos preocupada com ele do que com a moça na scooter – na verdade não é uma moça, mas uma garota de 16 anos – que por algum milagre não se feriu e está totalmente pálida em pé, no meio da avenida larga, carros zunindo dos dois lados. Quanto à scooter, ninguém liga, pode virar lixo. A garota está salva, é isso que importa. Ela se reunirá com seus pais, o que poderia ter sido uma tragédia termina bem.
Há uma longa espera até que a ambulância chegue para transportar o homem deitado na calçada para o hospital La Princesa, para Urgencias. Quando chega lá, já recobrou a consciência e está falando racionalmente. Seus ferimentos parecem ser leves: hematomas na face, um corte onde a armação plástica dos óculos se incrustou na sua bochecha, um joelho luxado. Ele é mantido em observação durante a noite, e então, por sua própria insistência, autorizado a pegar um táxi para casa.
Depois de 48 horas, ele volta, mancando com uma bengala, acompanhado pela cozinheira de sua mãe (ela viajou para o Leste): ele está reclamando de dor de cabeça, diz a cozinheira, e também se comportando de um jeito esquisito, gritando com ela sem razão, não deixando que encoste nele, se recusando a comer.
Ele é readmitido ao hospital, onde novos exames mostram que seus ferimentos são mais sérios do que pareciam. Especificamente, ele sofreu um grau de trauma no cérebro, no córtex pré-frontal, o que provavelmente vai obrigá-lo a uma longa reabilitação, que talvez dure a vida toda.
Sua mãe encurta a viagem para visitá-lo no La Princesa, depois faz uma consulta privada com o neuropsicólogo residente. Conclusão: seu filho é liberado sob seus cuidados e volta para o apartamento em Salamanca, aguardando uma vaga na clínica em Hortaleza, que a equipe médica recomendou.
De volta a Salamanca, ela vê seu filho, que sempre fora tranquilo, transformado em outra pessoa: mal-humorado, irritadiço, teimoso nas suas demandas com ela e com os funcionários da casa, difícil de conviver.
“Certamente ele está bem o suficiente para voltar ao museu”, comenta com a terapeuta que o visita duas vezes por semana. “O trabalho não é desgastante, vai fazer bem a ele se cercar de pessoas novamente.”
A terapeuta balança a cabeça. “Muito cedo para isso”, diz.
Finalmente chega a ligação de Hortaleza, da clínica de reabilitação: há uma vaga para seu filho, mas ela precisa decidir imediatamente, há uma lista de espera. “Eu aceito”, diz. “Estaremos aí amanhã cedo.”
Assim, José (ou Pepe) muda-se do apartamento antigo e confortável em Salamanca para as dependências bem menos confortáveis no Norte da cidade, no barrio Palomas, onde a parede cinza de sua suíte compacta no segundo andar (quarto, banheiro, armário embutido) é aliviada apenas pela imagem emoldurada de dois gatinhos brincando com uma bola de lã. Ele passa seus primeiros dias imóvel, sentado em seu quarto, olhando pela janela que dá para um parque arborizado, seu coração cheio de ressentimento pelo que sua mãe fez com ele. Quando ela vem para sua primeira visita, se recusa a vê-la. Nas refeições, se mantém afastado dos outros pacientes.
A única pessoa com quem se dá bem é a fisioterapeuta. Ele conta histórias longas e tortuosas sobre sua vida pregressa, em particular sobre sua carreira como vigilante no grande museu; mostra a ela seu crachá (que ele guardou), que lhe permite acessar todas as dependências do museu. Do acidente com a scooter ele não tem memória nenhuma, mas se lembra perfeitamente da senhora vestida de preto que se sentou nas salas de Goya como uma aranha esperando por sua presa, que capturou sua mente (sua mente boa, como ele diz) e o mandou para este purgatório.
IV
Passam-se meses, sua condição melhora continuamente, ainda que devagar. Ele cria laços com outra paciente da clínica, uma mulher mais nova que ele. Será amor, um laço de amor?, se pergunta. Não tem certeza. Mas quando ele e ela (seu nome é Rita) se sentam juntos num banco no parque (eles têm um banco preferido), de mãos dadas, desfrutando o frescor da brisa, o cheiro de grama cortada, bem que poderiam ser amantes.
Rita também tem que ouvir dos lábios dele a história da mulher de preto das salas de Goya: Clotilde é o nome que ele atribui a ela, um nome feio. Juntos eles pegam o metrô para o Prado – seu crachá ainda está válido, ele e sua acompanhante são convidados com um gesto a entrar – e ele aponta o lugar exato onde a mulher de preto se sentou esperando que ele chegasse e caísse em seu feitiço.
Rita não é nenhuma criança – está na casa dos 30 –, mas usa roupas simples, infantis – blusas brancas, saias cinza, sapatos pretos confortáveis – que não valorizam sua silhueta e lhe dão um aspecto esquisito. Já ele, ele tem óculos novos que fazem seus olhos parecerem bolas de gude no fundo de um lago. Será que são um casal estranho para os outros? Ele não sabe, não se importa. Madri é uma cidade grande. Há milhares de pessoas em Madri mais estranhas que ele, mais estranhas que Rita, mais estranhas que os dois juntos.
Nos velhos tempos ele lia muito, mas agora não lê mais: tem sempre alguma coisa piscando em sua mente, não consegue se concentrar, não consegue se lembrar do que aconteceu há duas páginas. Ainda assim, leva Rita para visitar as bancas na Cuesta de Moyano, onde os vendedores de livros desembalam sua mercadoria. Já na primeira banca seu olhar é sequestrado por uma imagem na capa de um livro: a mulher de preto, a própria, olhando friamente para a lente da câmera.
Cuentos escogidos é o título do livro, contos escolhidos, e o nome da mulher: Elizabeth Costello. “É ela!”, cochicha para Rita, batendo os nós dos dedos no livro. Ele é tomado por uma fúria repentina, como uma tempestade de verão.
“Calma”, diz Rita. “Shhhh, shhhh, shhhh.”
Ele compra o livro; quando entrega o dinheiro, percebe que sua mão está tremendo.
No trem de volta a Hortaleza, Rita folheia o livro. “Olha”, diz: “El vigilante de sala. Talvez seja sobre você.”
Ele tenta ler o primeiro parágrafo do conto, mas o movimento do trem e sua visão deteriorada o impedem. Precisam esperar até que cheguem à clínica. Lá, sentados lado a lado na cama do quarto de Rita (onde a figura emoldurada na parede não é de gatinhos, mas de patos-do-mato voando em formação), ela lê em voz alta o conto que a mulher escreveu sobre o vigilante de sala.
V
Ela (ella, seu nome próprio nunca é divulgado) está de pé em frente a uma pintura no Prado, mergulhada em um estado de contemplação familiar, agradável, que pode ser a principal razão que a faz ir a exposições. Procurando alguma coisa em sua mente que se compare a tal sensação, ela se fixa em uma memória de quando tinha 6 anos num daqueles antigos cafés gregos que agora sumiram da face da Terra, solenemente absorta em um sundae de chocolate, arrebatada, imersa nos sabores e texturas, desejando que ela nunca acabe, esta experiência íntima, enquanto sua mãe, na memória, sorri uma aprovação doce. Lá está em pé, perdida no passado, quando por trás uma voz fala de perto, em um inglês áspero: “Horrível, no? Que homem-porco!”
Por um momento, não acredita que estão falando com ela. Franzindo o rosto, vira-se e dá de cara com um homenzinho elegante vestindo o uniforme de guarda do museu.
“Perdone?”, ela diz no tom mais frio que consegue.
“É uma pintura dos seus primeiros anos”, diz o homem, sem mudar a postura. “De quando ele era um artista da moda. Francisco Goya. Quando pintava cenas campestres para seus mecenas.”
O que a desconcerta é que o homem fala como se houvesse algum tipo de acordo entre eles, como se ela tivesse contratado seus serviços para dar explicações sobre os quadros, uma função que ele agora exerce alegremente. Será possível que ele não seja um guarda real, apesar do uniforme e do distintivo, mas um patife vagueando pelo museu atrás de visitantes?
“Sempre ele fica do lado da mulher”, o homem prossegue, e dessa vez suas palavras chegam a ela em uma rajada de hálito de peixe; ele deve ter almoçado bacalao, com um copo de vinho para ajudar a descer, isso explicaria seu comportamento, sua audácia, como as pessoas costumavam dizer. “Goya”, ele repete, como se ela fosse uma tapada, como se tudo tivesse que ser explicado duas vezes. “Sempre do lado da mulher.”
Goya do lado da mulher? Ela conhece seus trabalhos tardios melhor do que estas cenas campestres de fase inicial, mas consegue pensar em várias mulheres, condessas inclusive, a quem Goya destinou um olhar crudelíssimo. Ela não teria gostado de posar para Goya. Nunca teria aceitado, na verdade. Teria que ser arrastada, como se fosse para o pelotão de fuzilamento. Uma época de execuções, a época de Goya. Para as massas, um passatempo recém-descoberto. Começou na França. Carroças cheias de aristocratas, em toda sua elegância emporcalhada, retumbando em direção ao sítio fatal, sem conseguir acreditar que aquilo está acontecendo com eles. Rogai por nós, agora e na hora da nossa morte. França, e então Espanha. Alinhar as pessoas: Parem de se mexer. Fiquem parados. Virem para a frente. Bang. Atire em seus seios, suas virilhas, na cara, onde quiser. Uma galeria de tiros. Desastres da guerra.
Ela dá as costas para o camarada folgado com hálito de peixe. Quando olha de novo, ele, graças a Deus, se foi.
Será que estava dando em cima dela? Que bobagem! Vista de fora (ela nunca teve dificuldade em se olhar de fora, ver as coisas de fora é seu ofício na vida, como era o de Goya), como mulher, parte do sexo mais belo, não poderia ser mais desinteressante. Velha demais, gasta demais, taciturna demais. Então o que ele achou que estava fazendo? Tentando ofendê-la? Insultá-la? Ele perambula pelo museu semibêbado, insultando visitantes ao léu? Por que os guardas permitem isso, os guardas de verdade?
Ou talvez ele seja um louco, saído do mundo de Goya, alguém que acorda de manhã, veste seu uniforme de guarda do museu e parte para o Prado para atormentar as pessoas. Ou um ator, um ator pago para atrair clientes para o museu atuando como um louco de Goya. Mas um museu tão respeitável precisa contratar atores para divulgar suas obras? Será que as belas-artes caíram assim de nível?
Ela está no café do térreo, uma ou duas horas mais tarde, quando ele aparece pela segunda vez. Sem ser convidado, se senta em sua mesa. “O casamento”, ele diz. “Estávamos discutindo o casamento desigual que vemos em O casamento de Goya.”
“Me deixe em paz”, ela diz em voz baixa, séria. “Não quero confusão, mas se você não me deixar em paz, vou chamar as autoridades. Llamaré a las autoridades.”
“O homem no quadro, ele é um homem-porco, mas não percebe”, o guarda, verdadeiro ou falso, continua ignorando as palavras dela. Ela está começando a entender o tipo de loucura que a confronta: não apenas aquele homem não tem a menor ideia de quem ela seja, como ele não liga a mínima, ela poderia ser qualquer pessoa, escolhida aleatoriamente, qualquer pessoa a quem ele possa dirigir seu fluxo de palavras. “Ele não vê o que nós vemos. O que nós vemos? Vemos que ele lembra um porco, repulsivo. Goya não é um pintor sutil, no? Então esta jovem no quadro, ela está se casando com um porco.” E então, sem transição, no mesmo zumbido insistente: “Eu sei quem a senhora é. A senhora é uma escritora famosa visitando o Prado para ver algumas pinturas. Vem para as pinturas, mas acaba aqui comigo. Então me diga” – ele inclina sua cabeça para a frente, para que ela inspecione, rotacionando seu queixo escanhoado de lado a lado – “Eu sou um porco? Um homem-porco? Não, eu não sou.”
Há, quem diria, lágrimas se acumulando atrás das lentes grossas dos seus óculos. Como entender o que se passa naquela mente atormentada? Ele não é um homem-porco, diz. E chora quando as pessoas o chamam de homem-porco, ele, que nem lembra um porco, ou talvez só um pouco.
“Isso é verdade?”, diz Rita, pondo o livro de lado. “É você esse homem?”
“Não, não, não”, diz Pepe, vigilante aposentado. “É uma história! Ela está inventando uma história!” Ele cerra e abre os punhos.
Rita volta ao livro de contos.
Ela (ella novamente) encosta a mão reconfortante no braço do homem. “Você não é um homem-porco. Ninguém diria que você é um homem-porco. Me conte por que isso. O que aconteceu?”
Do bolso interno o homem saca um lenço branco e limpo e assoa o nariz de um jeito teatral. “Então eu devo contar a história da minha vida, é isso que a senhora me pede. Como Sherlock Holmes. Você se senta no trem e um estranho, um homem que você nunca tinha visto antes, conta os segredos mais profundos. É um assassino, ele diz a você. Ou um ladrão de banco. Então o trem chega ao seu destino e o assassino, o ladrão de banco, o homem sem nome desaparece na neblina e você nunca mais o vê. Mas você é Sherlock, tem essa história, é tudo que precisa. Você corre para casa e pega papel e caneta e escreve o conto sobre como se sentou no trem e um estranho foi até você e te contou seus segredos e depois desapareceu. Sim? Você tem a história, mas agora percebe que falta um fim. Onde vai encontrar um final, se você é Sherlock? Onde? Você me diga.”
Ele encosta na cadeira, cruza os braços, olha para ela. Nem sinal de lágrimas. Lágrimas extintas.
“Primeiro”, ela diz, “Sherlock – o famoso Sherlock – não era um escritor. Era um detetive. E não um detetive real, um inventado, um personagem em um livro. Então vamos tirar o Sherlock da frente. Sherlock não é relevante.”
“Segundo, o homem no trem confessa seu segredo. Ele conta a Sherlock que é um assassino, depois desaparece na neblina, como você diz. Ele atinge seu propósito. Qual era seu propósito? Seu propósito era a confissão. Ao confessar, ele é libertado, é um homem livre, se livrou de um fardo devastador – é nisso que acredita. Mas você, señor vigilante, você não está confessando. Não está revelando nenhum segredo. Eu não represento o Sherlock da sua história. Sou apenas uma mulher que você acossou aqui no museu.”
“Acha que eu não tenho segredos?”
“Claro que tem segredos. Todos temos segredos. Mas você não tem um grande segredo. Você não é um assassino. Dá para ver que não. Você não é um ladrão de banco.”
“Eu sou o homem-porco. No quadro. Eu sou o homem-porco.”
“Não entendo bem essa coisa de homem-porco. O que você quer dizer exatamente com homem-porco?”
“Ele se casa com a garota. É o que o quadro mostra, como o homem-porco se casa com a garota.”
“E?”
“Ele se casa com ela, mas ela não o quer. Ela é jovem e bela, mas ele é um porco.”
“E daí?”
Ele não responde. Balançando de leve para a frente e para trás na cadeira, com seus braços apertados, cruzados no peito, ele a confronta com seu rosto, um rosto humano insignificante.
Ela se levanta, pendura sua bolsa no braço. “Não quero ouvir o resto da sua história”, diz. “Não quero ouvir seus segredos. Não tenho tempo para isso. Ache outra pessoa para contar.” E vai embora.
VI
Rita fecha o livro. “Termina assim?”, diz ele, Pepe.
Ela assente com a cabeça.
“É mentira, do começo ao fim. Nada disso é verdade. Você acredita em mim?”
Ela assente mais uma vez. “Claro. É só um conto bobo.” Ela estica o braço e coloca a mão fria na testa dele. “Quer guardar o livro ou jogamos fora?”
Ele toma o livro dela e, de uma vez, com força, rasga em dois de comprido, capa e tudo.
Ela pega as partes dele e joga no lixo. “Pronto. Acabou. Estamos livres de novo.”
Tradução de Patrícia Ditolvo.
O conto acima – inédito no Brasil e originalmente publicado em espanhol e inglês com o título El vigilante de sala/The museum guard – foi escrito com o apoio do programa de bolsa Writing the Prado/Escribir el Prado, uma iniciativa do Museu do Prado de Madri e da Fundação Loewe, em colaboração com a revista Granta espanhola. Copyright © 2024 J. M. Coetzee. Os direitos mundiais de reprodução são do autor. Os da publicação em português foram adquiridos em acordo com Peter Lampack Agency, Inc.