anais do antropoceno

O TRIUNFO DAS BARATAS

A resiliência de um inseto que ninguém quer por perto
Baratas enforcadas em foto da artista visual Catherine Chalmers: esses insetos são usados no mundo todo para combater várias doenças, inclusive insuficiência cardíaca, tuberculose e câncer - CRÉDITO: CATHERINE CHALMERS_BARATA AMERICANA, EXECUÇÕES_ENFORCAMENTO_2003
Baratas enforcadas em foto da artista visual Catherine Chalmers: esses insetos são usados no mundo todo para combater várias doenças, inclusive insuficiência cardíaca, tuberculose e câncer - CRÉDITO: CATHERINE CHALMERS_BARATA AMERICANA, EXECUÇÕES_ENFORCAMENTO_2003

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Durante as enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, quando o Rio Guaíba subiu mais de 5 metros e deixou boa parte de Porto Alegre debaixo d’água, não foram poucos os relatos do encontro de moradores com legiões de baratas. Desalojadas dos esgotos onde viviam, elas saíram aos montes dos bueiros, invadiram as ruas e imóveis da cidade. Estavam fugindo da água e buscando refúgio, como os humanos. A auxiliar de serviços gerais Marizania Boteleiro e seu marido foram assediados por uma horda de baratas e outros bichos, que tentaram escalar o corpo deles quando entraram em sua casa com a água pelo pescoço para resgatar documentos, como ela contou ao jornal Zero Hora. Pelo visto, era preciso mais do que uma inundação de proporções bíblicas para intimidar o inseto.

Quem jogar uma barata na privada notará que ela boia, graças a uma carapaça revestida por substâncias que repelem a água. Se ainda estiver viva, não vai se afogar facilmente, mesmo depois da descarga, e provavelmente será devolvida ao seu hábitat natural, o esgoto. Esse e outros insetos não respiram pelo nariz, como a maioria dos animais vertebrados, mas por uma série de pequenos orifícios distribuídos pelas laterais do corpo. “Elas têm mecanismos de controle que permitem abrir e fechar esses espiráculos”, explicou à piauí o entomologista Luis Francisco Alves, de 58 anos, que faz pesquisas sobre baratas na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Mas elas não são insetos aquáticos, ressaltou Alves. “Se a gente as forçar a ficar submersas, elas vão acabar se afogando.”

As baratas são também exímias nadadoras e podem se deslocar pela água a uma velocidade de até 10 cm por segundo. Num estudo publicado em 1965, o entomologista John W. H. Lawson, da Universidade de Glasgow, no Reino Unido, observou como elas reagiam quando colocadas numa ilha artificial criada em laboratório – uma pequena plataforma de madeira cercada por água. A maior parte dos animais adultos testados levou menos de 10 minutos para escapar nadando. Algumas foram mais cautelosas e entraram na água pé ante pé, mas a maioria se jogou de uma vez. 

Mas não foram só os dotes para a natação que ajudaram as baratas a sobreviver durante as enchentes no Rio Grande do Sul. O corpo achatado delas permite que se escondam da água em frestas inacessíveis para outros insetos. “É um bicho que consegue se encaixar em qualquer lugar”, continuou Alves. “Numa enchente, qualquer buraquinho em que a barata se insere é uma mansão.”

A imagem que vem à mente quando se pensa em barata provavelmente é a da Periplaneta americana, a barata de esgoto. É um dos animais que mais despertam repulsa aos humanos. O inseto tem cor amarronzada com casca grossa e brilhante e patas cheias de espinhos que saem de coxas grossas. A cabeça fica protegida por uma espécie de escudo encouraçado de borda amarelada, e dela saem longas antenas que não param de se mexer. É um inseto grande, que pode passar de 5 cm e ocasionalmente voar, ainda que não de forma elegante.

Seu método de deslocamento preferido é a corrida. Trata-se de um dos animais mais rápidos que se conhece, ao menos em termos relativos. Ela consegue percorrer cinquenta vezes o seu comprimento em um segundo – por esse critério, é quatro vezes mais ligeira que o guepardo, o mais veloz dos animais terrestres em termos absolutos, chegando a correr 120 km/h (a barata alcança pouco mais de 5 km/h). Dois biólogos da Universidade da Califórnia em Berkeley soltaram oito baratas numa pista de corrida e fizeram vídeos com até 300 quadros por segundo para estudar seus movimentos. Num artigo publicado em 1991 no Journal of Experimental Biology, eles mostraram que, no auge da corrida, ela ergue o corpo e corre como se fosse bípede, usando apenas as longas patas traseiras. 

A barata é um bicho furtivo que evita o contato com os humanos e prefere sair à noite em busca de alimento (seu nome vem do latim blatta, que designa insetos avessos à luz). O biólogo Marcial Corrêa Cárcamo, que estudou baratas no mestrado e no doutorado e é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul), em Pelotas, usou uma palavra difícil para caracterizá-la: “A barata tem hábitos abscônditos”, disse ele à piauí. Isso quer dizer que o inseto gosta de ficar escondido e se deslocar sempre pelos cantos. “Ela não atravessa a sala pelo meio, vai sempre encostada na parede, sentindo com as antenas.” 

Além de ajudar na percepção do espaço e na locomoção, as antenas abrigam receptores que permitem encontrar comida e seus pares (as baratas são insetos gregários, que gostam de viver junto umas das outras, mas não formam colônias). Na outra extremidade do corpo, na ponta do abdome, possuem estruturas parecidas com pequenos chifres – os cercos – capazes de perceber pequenas variações no deslocamento do ar e reagir com presteza. “Elas se antecipam à nossa percepção e desaparecem”, resume Luis Francisco Alves, da Unioeste. O movimento de fuga pode começar meros 11 milissegundos após o instante em que o ar chega aos cercos: quando você levanta o chinelo, a barata já vai longe. A medição foi feita por dois cientistas da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e relatada num artigo de 1981 no Journal of Comparative Physiology. 

Outra espécie muito comum que vive nas aglomerações humanas é a Blattella germanica, a barata de cozinha. É um inseto menor, que não passa de 1,5 cm. Por se alimentar de restos de comida, lixo e dejetos de todo tipo, ela – assim como a barata de esgoto – pode transportar micro-organismos causadores de várias doenças e ovos de vermes, além de provocarem episódios de asma, rinite e dermatite, principalmente em crianças. Há um punhado de outras baratas que representam problemas sérios de saúde pública. Mas, dentre as mais de 4 mil espécies conhecidas de baratas, as portadoras de pragas não passam de dez. 

Em seu laboratório, Alves já fez experimentos para determinar quanto tempo as Periplaneta americana são capazes de sobreviver sem a cabeça. Ele explicou que os insetos não morreram imediatamente porque têm o sistema nervoso descentralizado. “Elas conseguem cicatrizar a ferida, bloquear a hemorragia e continuar vivas, porque outras funções, como os movimentos peristálticos ou o controle do sistema excretor e da musculatura esquelética, continuam funcionando”, disse o entomologista. Sem olhos ou antenas para determinar aonde ir, as baratas decapitadas ficavam paradas e acabaram morrendo por falta de água e nutrientes. Sobreviveram por cerca de quinze dias, disse ele.

Alves cria baratas de esgoto numa pequena sala com cerca de 10 m² que faz parte do Laboratório de Biotecnologia Agrícola, no campus de Cascavel da Unioeste. Conta com a ajuda de dois estudantes de mestrado orientados por ele – Ana Júlia Barboza Moreira e João Vitor Catto Cochinski. O ambiente tem condições controladas de luz, temperatura e umidade. As baratas vivem em caixas de plástico e aquários (do mesmo tipo usado para criar peixes, só que tampados e sem água) dispostos em estantes metálicas. São classificadas por idade, com os adultos separados dos indivíduos mais jovens, chamados ninfas. Uma ninhada tinha eclodido na primeira semana de setembro, quando a piauí visitou a criação de baratas, e as ninfas não passavam de meio centímetro. 

A comida é servida numa placa de Petri, uma espécie de pires de vidro usado em laboratório. “É ração para cachorro que a gente tritura no liquidificador até virar um pozinho, mistura com leite em pó e germe de trigo”, explicou Ana Júlia Moreira. Já a água, embebida em algodões, é administrada em bebedouros para passarinho. Dentro dos aquários, os pesquisadores colocam pedaços de papelão e caixas de ovo que simulam o tipo de nichos e abrigos em que as baratas gostam de ficar quando soltas. Os insetos acabam por comer o material, que precisa ser trocado de vez em quando. Os alunos de mestrado trocam a água e a ração e fazem a manutenção da criação. “Nossas baratas são limpinhas e bem cuidadas”, disse a bióloga. O truque para evitar que elas escapem durante a manipulação é aplicar uma camada de vaselina na parte superior do aquário. Os bichos que tentam escalar as paredes começam a patinar de lado quando chegam na área com vaselina e acabam deslizando de volta para o fundo do recipiente. 

Cada aquário ou caixa tem uma etiqueta onde é anotado o número original de insetos, seguido pela quantidade de entradas ou retiradas de indivíduos para a realização de algum experimento, por exemplo. Naquela semana, a caixa mais povoada abrigava 823 baratas. O número total de adultos no laboratório era de cerca de 5 mil, e os pesquisadores estimavam um número igual de ninfas. O ambiente é dominado pelo cheiro forte e rançoso característico da barata, que é causado pela mistura de um conjunto de substâncias secretadas pela espécie. O odor é ainda mais intenso nas caixas com as ninfas que estão quase virando adultos, devido à maior quantidade de hormônios, explicou Cochinski. Embora nem todas as pessoas sejam capazes de identificar o cheiro da Periplaneta americana, num ambiente como aquele, com milhares de indivíduos, ele é inconfundível.

Luis Francisco Alves, um paulista de Santo André, deu início à sua criação de baratas em 1998, ao se tornar professor da Unioeste. Os primeiros insetos vieram da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba, onde ele estava fazendo seu doutorado. Ao se mudar para Cascavel, o próprio pesquisador levou-as em seu carro, dentro de caixas de plástico. No princípio eram algumas dezenas de indivíduos, que ele criava com a finalidade de usar nas aulas práticas de zoologia (a criação só ganhou escala há três anos, quando Alves passou a orientar pesquisas sobre a Periplaneta americana). Por seu tamanho avantajado, as baratas são um modelo muito usado no estudo da anatomia interna dos insetos. O dia de dissecar barata em laboratório é sempre marcante, mas alguns alunos se recusam a participar, contou o professor. “Tem gente que passa mal, cai a pressão, desmaia, tem ânsia, vomita.” 

As baratas são encontradas em todo tipo de nicho ecológico, e a Antártica é o único continente em que elas não se estabeleceram. Embora as espécies selvagens muitas vezes sejam contaminadas pela má vontade que os humanos dirigem às suas primas que viraram pragas urbanas, há baratas de admirável beleza. A Ellipsidion australe tem asas elegantes de padrão delicado. A Prosoplecta, redonda e pintada, mais parece uma joaninha (ela imita esse inseto como estratégia para se defender de predadores). Há baratas polinizadoras, como a Paratropes bilunata, que ajuda na reprodução de uma árvore tropical na Costa Rica, e outras que brilham no escuro, como a Lucihormetica fenestrata, que vive no interior de bromélias nas florestas tropicais brasileiras. Algumas espécies têm cuidado com a prole – o caso mais notável é o da Diploptera punctata, que alimenta os filhotes no útero com uma substância produzida por ela própria, como se fosse leite de barata.

A maior de todas – a Megaloblatta longipennis – vive nas florestas tropicais do Peru, Equador e Colômbia. Com quase 10 cm de comprimento, sem contar a antena, e 20 cm de envergadura, ela mal cabe na palma da mão. Nem a barata-rinoceronte, da Austrália, chega a tanto – tem 8,5 cm –, mas pesa mais de 30 gramas, o mesmo que um pequeno ovo de galinha. Já a menor que se conhece, a Attaphila fungicola, tem menos de 3 mm de comprimento e costuma pegar carona com formigas aladas quando quer expandir seu território. 

A diversidade é a marca desse grupo de extraordinário sucesso evolutivo. Insetos que apresentavam formato de corpo muito parecido com o das baratas atuais existiram há pelo menos 315 milhões de anos. Essa é a idade aproximada da Qilianiblatta namurensis, que tinha cerca de 2,5 cm de comprimento e viveu na região onde hoje fica o noroeste da China. O Carbonífero, período geológico em que ela viveu, já foi chamado de “a era das baratas”, tamanha a quantidade de fósseis de ancestrais da Periplaneta e da Blattella já encontrados. A linhagem desses insetos atravessou três das cinco grandes extinções em massa que marcaram a história da vida na Terra: eles sobreviveram ao fim do Permiano, há cerca de 252 milhões de anos, ao fim do Triássico, por volta de 201 milhões de anos atrás, e ao fim do Cretáceo, quando desapareceram os dinossauros e a maior parte dos animais terrestres, há cerca de 66 milhões de anos. 

Ao que tudo indica, as baratas vão passar incólumes também pela sexta grande extinção, que atualmente está em curso. Isso parece certo ao menos para as espécies que se acostumaram a viver em torno dos humanos (que são os grandes responsáveis pela sexta extinção). O Homo sapiens criou ambientes propícios para a proliferação desses bichos, desde que passou a acumular alimentos e viver em aglomerações. Nas cidades que construímos, elas encontraram abrigo, calor, água e comida abundantes.

As baratas são onívoras e comerão praticamente tudo o que encontrarem pela frente, como se lê em Cockroaches: ecology, behavior, and natural history (Baratas: ecologia, comportamento e história natural), o manual de referência dos estudiosos desses insetos. Elas são por definição insetos detritívoros, que se alimentam de restos e dejetos de todo tipo. Nas florestas, comem madeira e matéria orgânica em decomposição, excrementos e restos de bichos mortos. Nas cidades, as espécies que se associaram aos humanos podem se fartar com fezes nos esgotos e cadáveres nos cemitérios. Baratas já foram flagradas petiscando feridas humanas, cera de ouvido, caspa, remela e meleca. Podem comer até sabão, cola ou isolamento de fios, na falta de algo mais saboroso.

Poucas baratas tiraram tanta vantagem do convívio com os humanos quanto a Blattella germanica. Um grupo liderado pelo geneticista Qian Tang, que na época estava vinculado à Universidade Nacional de Cingapura, analisou o genoma de centenas de baratas de cozinha coletadas pelo mundo afora para explicar como a espécie conquistou o globo. Os cientistas mostraram que a espécie surgiu no Sul da Ásia, provavelmente na região onde hoje está a Índia ou Mianmar, pouco mais de 2 mil anos atrás, como descreveram num artigo publicado em 2024 na revista especializada Pnas. Derivada da barata-asiática (Blattella asahinai), essa nova espécie se adaptou aos assentamentos humanos e ambientes domésticos e se tornou totalmente dependente das edificações feitas pelo Homo sapiens, tanto que não existe em hábitats naturais. Quando os humanos começaram a viajar pelo globo, as baratas foram junto. Migraram primeiro para o Oriente Médio e o Sudeste Asiático, até chegarem à Europa no século XVIII, de onde foram levadas de navio até as Américas. Algumas tecnologias humanas foram cruciais para a sua globalização, como o aquecimento interno e as redes de água encanada e esgoto nos edifícios, que permitiram ao bicho prosperar em latitudes onde não resistiria às condições climáticas.

A Blattella germanica não é de origem alemã, como acreditava o naturalista sueco Carl Linnӕus (ou simplesmente Lineu), o pai da classificação moderna dos seres vivos, que descreveu a espécie em 1767 (na própria Alemanha, houve quem a chamasse de “barata russa”). Lineu errou também no caso da Periplaneta americana, que tem origem na África, e ele pensou ser proveniente das Américas quando a batizou em 1758. Sua dispersão não foi estudada com tanta minúcia quanto a da Blattella germanica, mas é certo que a barata de esgoto chegou às Américas trazida pelos humanos quando os europeus colonizaram o continente a partir do século XVI.

À medida que as baratas se espalharam pelos continentes, espalhou-se também o medo e a repulsa por esses insetos. Há uma possível alusão a elas no Livro dos mortos, uma compilação das orações e encantamentos que os antigos egípcios faziam para guiar os mortos em sua jornada até o submundo. Com cerca de 3,5 mil anos de idade, o texto inclui um feitiço para afastar um inseto devorador de cadáveres, que em algumas traduções aparece designado como uma barata (mas muitos egiptólogos sustentam que se trata de um besouro). Há ainda registros de aversão às baratas em textos da Grécia e da Roma antiga, como em peças de Aristófanes e nos escritos de Plínio, o Velho. Mas, também nesses casos, há incerteza quanto ao inseto exato referido nas obras.

Se a repugnância pelo bicho vem de longe, ela não deixa de ter algo de paradoxal, como notou Luis Francisco Alves. “Nós acumulamos lixo, vivemos aglomerados e criamos condições favoráveis para as baratas, e depois falamos mal delas”, diz o biólogo. “Elas só estão usufruindo do que a gente criou.”

Os especialistas gostam de dizer que as baratas estarão à vontade onde quer que encontrem os quatro As: água, alimento, abrigo e acesso ao ambiente doméstico, como explicou à piauí o entomologista Francisco Zorzenon. Um problema, no caso, é que o A de “alimento” pode ser encontrado em qualquer lugar. Zorzenon é o diretor técnico da Unidade Laboratorial de Referência em Pragas Urbanas do Instituto Biológico, que fica na Vila Mariana, em São Paulo, e o responsável pelas baratas criadas na instituição. As Periplaneta americana estão entre as mais numerosas do acervo, mas há também algumas espécies selvagens, incluindo a barata-de-madagáscar, um inseto grande e desengonçado que é frequentemente criado como bicho de estimação e chama a atenção por emitir sons pelos espiráculos na lateral do abdome, uma estratégia a que recorre para espantar predadores. As baratas sob a supervisão de Zorzenon comem bem. “Trago cenoura e batata-doce para elas”, contou (as iguarias servem de suplemento à ração de gato ou cachorro). O entomologista já foi acusado por sua mulher de guardar as melhores laranjas para as baratas. “A gente cuida delas com carinho.”

A principal finalidade das baratas criadas no Instituto Biológico é servirem de cobaias para testes que avaliam inseticidas químicos. Zorzenon disse que segue um protocolo estabelecido pela Anvisa para a realização dos ensaios. Ele deixa dez insetos durante 10 minutos num azulejo pulverizado com o produto e observa o comportamento deles nas 72 horas seguintes, anotando quanto tempo levaram para morrer. O procedimento é repetido dez vezes. “Para uma estatística robusta, quanto mais insetos tiver, melhor”, disse o diretor. “Por isso temos que ter uma quantidade grande de insetos para poder suprir a demanda.”

Zorzenon não sabe dizer quantas baratas há no total nas criações do Instituto Biológico, mas seguramente chegam à casa dos milhares. “Tem muito bicho”, disse ele, quando levou a piauí para conhecer os insetos. Quando lhe perguntei se não havia perigo de alguma barata escapar, uma Blattella germanica saltou da caixa que ele estava manipulando. “Cai sempre uma, e aí tchau”, disse Zorzenon, logo após pisar no inseto com agilidade, apesar do zelo com que cuida delas. “Não tem jeito, sempre escapa uma ou outra.” Mas ressaltou que o laboratório é cheio de armadilhas para eliminar as fujonas.

Com frequência, quem estuda baratas está em busca da melhor forma de exterminá-las. No laboratório de Luis Francisco Alves, na Unioeste, a estratégia escolhida é o controle biológico: os cientistas tentam infectar o inseto com vermes ou fungos que acabam por matá-lo. Essa abordagem oferece uma alternativa ao controle químico com inseticidas, que deixa resíduos tóxicos no ambiente, sem falar no aumento da resistência dos insetos a esses produtos.

Em sua pesquisa de mestrado, Ana Júlia Moreira está desenvolvendo um dispositivo para atrair baratas para comer uma isca à base de açúcar contaminado com conídios, equivalentes a sementes do fungo Beauveria bassiana. A bióloga explicou que, quando a barata entra em contato com um conídio, ele adere à sua superfície corporal, germina e prolifera, liberando toxinas letais. “A partir desse momento, começa a consumir o inseto e usa seus tecidos como um meio de cultura para se reproduzir.” A barata vai aos poucos ganhando a aparência de um morango mofado. “Ela fica toda branca por fora, parecendo uma pipoquinha”, diz Moreira. 

O outro orientando de Alves na Unioeste, João Vitor Cochinski, está trabalhando com um tipo de organismo diferente: ele tenta infectar baratas com nematoides, que são vermes cilíndricos microscópicos. “São parentes das lombrigas”, disse. Eles penetram no organismo da barata e liberam em seu sistema circulatório bactérias que se multiplicam e a matam por dentro. Cochinski testou quinze amostras diferentes de nematoides para avaliar sua eficácia. Agora, está testando a produtividade – no caso, qual nematoide mata mais baratas. Para isso, faz experimentos em que expõe os insetos aos vermes. Antes de serem manipuladas, as baratas selecionadas são colocadas no freezer por pouco mais de 2 minutos para que haja uma desaceleração de seu metabolismo, evitando que elas fujam durante a realização do ensaio. 

Um obstáculo que os pesquisadores vêm encontrando nos testes feitos tanto com fungos quanto com vermes é a reação dos insetos ao perceberem que entraram em contato com algum organismo estranho: eles começam a esfregar as pernas e antenas, levando-as à boca para se limparem. As duas pesquisas ainda estão em andamento e não tiveram resultados preliminares publicados. A expectativa é que possam contribuir para o desenvolvimento de algum produto capaz de fazer parte do arsenal para combater as baratas de esgoto. Moreira estava animada com o que já observou nos seus experimentos: em algumas amostras, a mortalidade bate em até 60% dos insetos testados com o dispositivo desenvolvido por ela. 

Apesar dos resultados promissores obtidos em laboratório, a aplicação dos micro-organismos para exterminar baratas em maior escala enfrenta desafios como a menor eficácia em ambientes de baixa umidade ou o tempo de vida curto dos fungos. Com exceção de um inseticida a base da espécie Metarhizium anisopliae usado na Guatemala, não há outras iniciativas de controle biológico de baratas em escala comercial. Enquanto isso, as armas químicas continuam sendo as preferidas na guerra contra esses insetos.

O controle com fungos é mais eficaz na Blattella germanica do que na Periplaneta americana, como concluiu a bióloga argentina Alejandra Gutiérrez, que é professora da Universidade Nacional de La Plata e trabalha no Centro de Estudos Parasitológicos e de Vetores (Cepave), em La Plata, a 57 km de Buenos Aires. Depois de testar várias cepas de fungos sobre diferentes espécies de baratas, ela constatou que as Periplaneta não eram muito suscetíveis a esses organismos, talvez por causa de substâncias antifúngicas que têm em sua camada externa. “É muito difícil superar os 20% ou 30% de mortalidade usando fungos contra a Periplaneta, e isso é uma porcentagem muito baixa para controlar a população”, disse Gutiérrez. “Já as Blattella são muito suscetíveis aos fungos: no laboratório a mortalidade passa de 90%.”

Para sua tese de doutorado, defendida em 2015, Gutiérrez criou colônias de baratas de várias espécies a partir de insetos coletados em La Plata e na Região Metropolitana de Buenos Aires, que constituíram a base das coleções que ela mantém até hoje no Cepave. Quando recebeu a piauí para uma entrevista em agosto, a bióloga preparou placas de Petri com alguns representantes de diferentes espécies, que ela ia manipulando à medida que falava de cada uma. Gutiérrez pegou o recipiente com as Blattella germanica, a barata de cozinha, e disse que muita gente acha que elas são filhotes da Periplaneta americana, a barata de esgoto. “As pessoas não sabem que já são adultas.”

Uma diferença crucial entre as duas espécies é que a Periplaneta americana vive em torno das residências humanas, mas fora delas – quando encontramos uma em casa, ela provavelmente veio da rua ou da rede de esgoto. Já a Blattella germanica se estabelece dentro de casa, em lugares escuros, quentes e úmidos próximos a fontes de água e comida, frequentemente atrás da geladeira, do fogão ou de armários. É essa espécie que costuma infestar restaurantes, hospitais, fábricas de alimentos e outros ambientes onde encontram comida abundante. “A Blattella germanica é a barata que representa o maior problema de saúde pública no mundo”, disse a pesquisadora argentina. A começar por sua capacidade fenomenal de reprodução: a barata de cozinha põe dezenas de ovos a cada vez, protegidos por um estojo que os cientistas chamam de ooteca. “Ela tem um ciclo de vida de seis meses, e as fêmeas põem uma ooteca a cada quinze dias”, disse Gutiérrez, que já contou 45 indivíduos numa única ninhada. A Periplaneta americana, por sua vez, não coloca tantos ovos: são de 12 a 16 por ooteca. 

A bióloga argentina disse que o controle com fungos é uma boa opção para ambientes com restrição à aplicação de inseticidas químicos, como zoológicos, laboratórios, bibliotecas e museus. Ela diz evitar o uso de inseticidas químicos em casa, mas os considera uma arma importante de se ter à mão, desde que usada da forma correta. “Se aparece alguma em casa, eu piso nela”, contou. Quando se depara com uma Periplaneta, ela tenta entender por onde o bicho entrou e caprichar na limpeza do ambiente. “Mas se você tiver Blattella germanica dentro de casa tem que procurar o controle, porque é um problema.”

A Periplaneta americana tem seus recursos para enfrentar situações de estresse extremo. As fêmeas são capazes de se reproduzir por partenogênese, mesmo que não sejam fecundadas por um macho. O inseto pode sobreviver por semanas sem comer e até sem tomar água. Nesse caso, ele desacelera o metabolismo e vai aos poucos queimando suas reservas de gordura e massa muscular e consumindo água dos tecidos e do sangue, que nos insetos se chama hemolinfa. 

Na década passada, pesquisadores brasileiros fizeram experimentos para testar os limites da resistência das baratas ao estresse. O estudo foi feito na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no laboratório do entomologista Paulo Bretanha Ribeiro, que se aposentou desde então. Em seu trabalho de conclusão de graduação em biologia, Jucelio Peter Duarte fez experimentos para determinar quanto tempo a Periplaneta americana era capaz de sobreviver em laboratório sem água ou comida. O trabalho mostrou que, em condições de umidade elevada (em torno de 70%), os machos adultos sobrevivem em média 48 dias, e as fêmeas, 55 – o indivíduo mais resistente registrado no estudo aguentou por mais de cem dias.

No mestrado, Duarte monitorou as células de defesa no sangue das baratas e constatou que a privação de água e comida não levou à diminuição da quantidade dessas células. Os resultados foram divulgados em 2018 no Brazilian Journal of Biology. “As baratas são insetos conhecidos por resistir bastante a condições adversas”, disse Cárcamo, que orientou o trabalho de Duarte na graduação e é coautor do artigo. Ele ressaltou que os cientistas escolheram a espécie como um modelo para testar se o estresse alimentar e hídrico interferia na imunidade dos insetos em geral. “A Periplaneta é um bicho fácil de criar no laboratório, que a gente alimenta com coisas banais e que se reproduz loucamente”, afirmou Cárcamo, que fez mestrado e doutorado sob orientação de Bretanha e hoje é professor no IFSul. 

Para evitar que as baratas se agitassem durante a manipulação, ele fazia a manutenção da gaiola durante o dia e debaixo de muita luz. “Se fizer assim, você pode trocar a água e a comida que elas vão ficar quietinhas, sem se mexer.” Cárcamo ainda guarda no laboratório cerca de 150 baratas que cria para usar nas aulas práticas, mas já não faz mais pesquisa com os bichos. “É uma dificuldade achar alguém para trabalhar com barata”, contou o biólogo, que hoje é casado com Duarte.

As baratas têm a fama de serem capazes de sobreviver a uma explosão nuclear, mas a afirmativa é discutível. O mito remonta ao início da Guerra Fria, pouco depois das bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão. A ideia se difundiu a ponto de ser testada por um casal de cientistas de um centro de pesquisas vinculado ao Exército americano. A dupla expôs os insetos à radiação ionizante em laboratório e relatou os resultados do experimento num artigo publicado em 1959 na revista especializada Radiation Research. Eles mostraram que as baratas de fato resistem mais à radiação do que os humanos, mas são significativamente mais sensíveis que outros insetos, como moscas, vespas ou besouros. Os resultados não bastaram para impedir a circulação da lenda da resistência da barata, tanto que, em 2008, o programa de tevê Mythbusters: os caçadores de mitos, do Discovery, se deu ao trabalho de refazer os testes, chegando a resultados compatíveis com o dos experimentos dos anos 1950.

Assim como outros insetos, as baratas são capazes de suportar doses maiores de radiação do que os mamíferos. Isso acontece em parte porque, nos insetos adultos, a taxa de divisão celular é bem mais baixa do que nos mamíferos, e as células que estão se dividindo são particularmente vulneráveis aos efeitos letais da radiação. “De todo modo, as baratas seriam impactadas pela onda de choque e de calor gerada por uma explosão nuclear”, acrescentou Cárcamo.

Outra fragilidade do mito da barata resistente ao holocausto atômico está em desconsiderar que os organismos vivem em cadeias de equilíbrio delicado, marcadas por relações de profunda dependência uns dos outros. Por isso, a extinção de algumas espécies pode gerar efeitos em cascata e afetar todo o ecossistema. As baratas que vivem associadas aos humanos certamente teriam dificuldades para sobreviver caso a nossa espécie fosse extinta numa guerra nuclear. 

Os desdobramentos de outro experimento do Exército americano em que baratas foram expostas à radiação aterrorizaram os moradores de Natick, uma cidade de cerca de 37 mil habitantes no interior do Massachusetts, onde ficava um conjunto de laboratórios do Exército. Entre eles, o de entomologia, que era liderado por Louis Roth, talvez a maior autoridade científica no estudo das baratas no século XX.

Nesse experimento, feito em 1974, baratas-de-madagáscar – da espécie que virou bicho de estimação – foram bombardeadas com radiação ultravioleta e, em seguida, descartadas no lixão da cidade em sacos plásticos borrifados com inseticida químico. “Alguém deve ter se esquecido que o tetracloreto de carbono derrete o plástico, mas não tem nenhum efeito sobre as ootecas”, escreveu a professora de literatura Marion Copeland ao relatar o episódio no livro Cockroach (Barata, sem tradução para o português). O experimento era secreto, mas foi revelado pelo jornal The Boston Globe. A substância química acabou derretendo as embalagens, os ovos das baratas eclodiram e os insetos escaparam, invadindo residências e provocando o que um ativista local batizou de “o ataque das baratas mutantes gigantes”. Segundo o relato de Copeland, o próprio Exército se encarregou de erradicar os insetos com o pesticida DDT, o que só conseguiu nove meses após o início da infestação. 

No dia em que a piauí visitou o Laboratório de Biotecnologia Agrícola, em Cascavel, os alunos do entomologista Luis Francisco Alves mostraram como se disseca uma Periplaneta americana. Ana Júlia Moreira se aproximou de uma barata deitada de costas numa placa de Petri. O animal ficara 2 minutos no freezer e depois tinha sido embebido no éter etílico. Deveria estar morto, mas suas patas ainda estavam se mexendo tropegamente. “Vamos cortar as perninhas primeiro”, anunciou a bióloga, antes de manipular o inseto com uma tesoura. Ela lamentou ter se esquecido de alimentar a barata na véspera com suco de morango em pó. “Deixa o sistema digestório inteirinho vermelho.”

A bióloga se preparou para a incisão. “A gente vai abrindo com cuidado para não furar os órgãos, que é o que queremos ver.” Ela fez o corte pelo ventre do animal, de forma a poder observar seus órgãos digestivos (se, em vez disso, quisesse ver o sistema nervoso, faria a incisão pelo dorso). Em seguida, fixou a barata aberta com alfinetes. Não era possível distinguir muita coisa de suas entranhas, que estavam envoltas numa gosma clara. “Esse monte de coisa branca é gordura”, esclareceu Moreira, que foi à pia para lavar a barata. Só depois de tirado o excesso de gordura foi possível ver diferentes partes do sistema digestivo e os ovários daquele inseto, uma fêmea. 

É justamente a massa de gordura que hipnotiza a protagonista do romance A paixão segundo g.h., de Clarice Lispector, talvez o mais intenso encontro entre um humano e uma barata já descrito na literatura. Na cena, uma dona de casa depara com uma barata saindo do armário do quarto da empregada e a mata fechando a porta sobre o bicho. Impressionada com a “matéria grossa, esbranquiçada, lenta, [que] crescia para fora como de uma bisnaga de pasta de dentes”, G.H. se lança num turbilhão mental, enquanto contempla o inseto morto, até que se vê impelida a comê-lo, como se fosse uma lagosta. Muito hábil ao narrar o gesto inominável, a autora envolve o leitor no delírio da protagonista e, quando ele se dá conta, G.H. já engoliu a barata.

“Clarice explora a esfera da abjeção e do nojo, mas extrai disso algo da ordem do sublime, como se enfrentar o horror que a barata traz pudesse nos levar a alcançar outra coisa”, disse à piauí a escritora e ensaísta Maria Esther Maciel, professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e estudiosa da presença dos animais na literatura. Maciel notou que G.H. alcança uma espécie de revelação depois de ingerir a matéria branca no interior do inseto. “É como uma hóstia”, afirmou a escritora, que analisou a presença das baratas na obra de Lispector no livro Animalidades: zooliteratura e os limites do humano, de 2023. Maciel contou que morria de pavor de barata e, da primeira vez que leu A paixão segundo G.H., foi pulando os trechos em que aparecia o inseto. “A literatura me ajudou a enfrentar esse medo.”

Baratas aparecem de maneira recorrente na obra de Lispector, que, no conto A quinta história, incluído no volume A legião estrangeira, discorre longamente sobre a melhor forma de matá-las. Elas também são figuras centrais em crônicas de Carlos Drummond de Andrade e Antônio Maria, além de fazerem aparições marcantes na obra de muitos outros autores. O título de barata mais famosa da literatura costuma ser dado – injustamente – ao “inseto monstruoso” em que se transforma Gregor Samsa, o protagonista de A metamorfose, após uma noite de sonhos intranquilos. É injusta porque Franz Kafka tomou o cuidado de não nomear o inseto em seu romance, e há bons argumentos para defender que se trata de outro bicho. O entomologista Rogerio Biaggioni Lopes, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, estudou a Blattella germanica em seu doutorado e disse à piauí que uma barata jamais ficaria de cabeça para baixo sem conseguir se levantar, como acontece com Samsa. “A barata é um inseto extremamente ágil”, avaliou. “A descrição que Kafka faz está muito mais ligada a um besouro.” 

Baratas são usadas pelo mundo afora para combater dezenas de enfermidades diferentes, incluindo doenças gastrointestinais e hepáticas, insuficiência cardíaca e hipertensão, tuberculose, amigdalite e mais de uma forma de câncer. As espécies que vivem associadas aos humanos são as mais promissoras para uso medicinal. Isso porque elas dispõem de um arsenal natural de antibióticos e outras armas para fazerem frente ao grande número de agentes causadores de doenças aos quais estão expostas no lixo e no esgoto.

Na China, um extrato alcoólico preparado a partir da Periplaneta americana deu origem a um medicamento de amplo uso indicado para a cicatrização de queimaduras, feridas e úlceras gástricas, o Kangfuxin. Derivado da medicina tradicional, o medicamento foi aprovado por agências regulatórias e integrado à prática clínica. No país, há fazendas de criação intensiva de Periplaneta americana para obtenção da matéria-prima para a fabricação do Kangfuxin – algumas delas chegam a contar bilhões de insetos.

Em outras fazendas, não menos surpreendentes, são criadas baratas alimentadas com restos de comida e lixo orgânico de todo tipo. Com a ajuda de micro-organismos que abrigam em seu sistema digestivo, elas conseguem digerir celulose, algo que poucos animais fazem. Com isso, são capazes de reciclar biomassa, incorporando ao seu organismo os dejetos de que se alimentam. Quando morrem, são trituradas e transformadas numa farinha de alto teor proteico que serve de ração para aves ou peixes. “Esses bichos pegam uma montoeira de lixo orgânico, que é uma coisa cara de processar, e transformam em lipídios e proteína de alta qualidade e baixíssimo custo”, explicou o biólogo Ednildo de Alcantara Machado, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “E o cocô das baratas ainda vira adubo. Isso é que é economia circular.” 

Machado passou dez anos estudando baratas em seu laboratório da UFRJ, com a finalidade de caracterizar as enzimas envolvidas na digestão desses insetos, de olho nas possíveis aplicações tecnológicas. Ele começou estudando cupins, que também são capazes de digerir celulose, como bem sabe quem já teve infestação desses insetos em casa. (Tecnicamente, os cupins são baratas de comportamento social: eles passaram a ser considerados um subconjunto da ordem que reúne as baratas depois de uma reviravolta taxonômica ocorrida na primeira década deste século.) Como as Periplaneta americana são muito mais fáceis que os cupins de se criar em laboratório, Machado decidiu trabalhar com elas. Ultimamente, porém, está investigando espécies de mosca e besouro. Ele deixou de criar baratas em seu laboratório, mas não perdeu a capacidade de se espantar com elas. Se alguém pragueja contra o bicho ao seu lado, ele retruca: “Não fale mal desses insetos que me deram minha casa, meu emprego e tudo que tenho.”

Baratas gostam de calor e umidade. Por causa da emergência climática, um futuro com mais calor e mais umidade é o que está contratado para muitas localidades ao redor do globo. Em teoria, espera-se que, ao menos nesses lugares, o número de baratas vá aumentar nos próximos anos. Mas os fenômenos biológicos dependem de muitas variáveis e não foram feitos estudos que permitam afirmar como a população desses insetos vai evoluir nos diferentes cenários de aquecimento global. 

Em 2024, um grupo de pesquisadores do Reino Unido e da Índia se debruçou sobre as evidências disponíveis a respeito da forma como eventos meteorológicos afetam baratas e moscas domésticas, e discutiram como esses bichos poderiam ser impactados pelas mudanças climáticas. Um artigo publicado pelo grupo na revista especializada Medical and Veterinary Entomology afirma que o aumento da temperatura pode intensificar a velocidade com que as baratas se reproduzem, provocar alterações em seu comportamento, levar ao aumento de invasões domiciliares e estimular que elas voem com mais frequência, uma perspectiva que deve provocar calafrios em muita gente.

Os autores examinaram de que forma eventos climáticos extremos específicos poderiam afetar as baratas. As chuvas torrenciais e inundações são os fenômenos de maior impacto no curto prazo. O estudo descreve como as espécies que vivem nas redes de esgoto e galerias pluviais – como a Periplaneta americana – são desalojadas durante as tempestades, exatamente como se viu em Porto Alegre. Além disso, mostra como o colapso do saneamento motivado pelas enchentes costuma levar ao acúmulo de lixo e entulho orgânico, criando locais onde as baratas podem prosperar. 

Ao comentar os resultados do estudo, Ednildo Machado notou que o pior cenário para os humanos, no que diz respeito aos insetos, é a combinação de calor e umidade. “Só o calor muitas vezes não é suficiente para a proliferação deles”, disse o biólogo. Mas ele lembrou que mesmo um cenário de seca extrema – em princípio não ideal para as baratas – pode favorecer os encontros entre elas e os humanos. “A seca desorganiza as habitações humanas”, explicou. Elas podem motivar a migração de pessoas de áreas que ficaram impróprias para a habitação ou a atividade agrícola e estimular a sua aglomeração em novas áreas em condições que favorecem a proliferação do inseto.

Em setembro, a ONU reconheceu que, ainda nesta década, o aquecimento global deve ultrapassar 1,5°C em relação à temperatura média de antes da era industrial, frustrando um objetivo importante do Acordo de Paris. Os apelos que os cientistas e ambientalistas vêm fazendo há décadas aos governantes para que deixem de lançar na atmosfera os gases que estão esquentando o planeta claramente não vêm surtindo efeito. Talvez não seja a melhor estratégia. A ameaça de que o aquecimento global pode causar uma explosão da população de baratas, um inseto que tanta aversão desperta entre os humanos, talvez seja mais eficaz para motivar os líderes mundiais a levar a sério as suas metas de redução das emissões de carbono.


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Repórter da piauí, é apresentador do podcast A Terra é Redonda (Mesmo) e autor dos livros Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas (Companhia das Letras) e Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)