diário

ENTRE A FÉ E O CETICISMO

Meu regresso do exílio à Venezuela, onde a ditadura não termina de morrer

PIAUÍ_222

A autora no bairro de Petare, em Caracas: nas regiões populares, um dos sonhos mais recorrentes é ter de volta os jovens que imigraram da Venezuela por causa da crise política e econômica - CRÉDITO: DANIEL HERNÁNDEZ_2026

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A palavra-chave nestes dias na Venezuela é liminaridade. Eu já a conhecia de leituras teóricas, mas acho que só agora, neste meu regresso ao país, depois de três anos fora daqui entendi de verdade seu significado. 

Enquanto percorro várias regiões do país, carrego uma sensação difícil de nomear: o peso de viver num limiar em que a ditadura não termina de morrer e a democracia não termina de nascer. Convivemos com uma economia de algoritmos e preços inexplicáveis. O estado de espírito oscila entre o medo sufocado e a esperança numa mudança política que traga a prosperidade.

As pessoas me perguntam o que estou achando da Venezuela. É como um status do Facebook: complicado.

Em apenas 28 anos, nós, venezuelanos, vivemos o que muitos países não atravessam em um século: uma revolução que seduziu o mundo; a morte no poder de um dos líderes mais carismáticos do século xxi; o desmonte sistemático da democracia e sua substituição por um autoritarismo corrupto e ineficiente; o colapso do abastecimento de alimentos e produtos básicos; um cerco de sanções internacionais; uma emigração forçada que expulsou milhões; um presidente de fantasia; uma hiperinflação que pulverizou recordes; uma fraude eleitoral monumental; a remoção de um ditador de dentro do país por militares americanos; dois terremotos devastadores em sequência; e, para arrematar, um regime que passou da retórica anti-imperialista a protetorado tutelado do século xxi. E mesmo assim continuamos vivos.

Escrevo este diário na cidade de Maturín, no Leste do país. Vim com meu marido visitar a filha e o genro dele, depois de cinco anos sem podermos nos abraçar. A alegria do reencontro devolve luz à minha pele; meus olhos brilham como se eu tivesse pingado colírio. Minhas pupilas se saturam do verde das árvores recortadas contra o azul do céu, e o paladar redescobre os sabores essenciais: arepas de milho pilado, peixe frito, cachapas com queijo de mão, café recém-coado. 

Apesar de tudo, não vou publicar uma única fotografia nas minhas redes sociais, porque não posso expor meus familiares a nenhuma retaliação ou perseguição por causa do que penso e escrevo. Todos entendemos a regra tácita: a ameaça não prescreveu, muito menos para quem ficou.

10 DE SETEMBRO, QUINTA-FEIRA_Logo que cheguei ao meu apartamento, no Centro de Caracas, corri imediatamente para a biblioteca. Minha irmã e meu cunhado tinham conseguido reorganizar os meus queridos livros, que foram arremessados ​​durante o duplo terremoto que atingiu a Venezuela, em 24 de junho. Felizmente, ao contrário do que ocorreu com outros amigos, não houve danos materiais na minha casa.

Embarquei para Caracas depois de viajar de Austin, onde estou morando, para São Paulo, a fim de participar do Festival piauí entre os dias 5 e 6 de setembro. Encarei essa rápida passagem pelo Brasil como um bom presságio, já que este país me serviu de refúgio quando precisei deixar a Venezuela pela segunda vez, em 2019. Vivi a pandemia no Rio de Janeiro. Depois, me mudei para os Estados Unidos. Em 2021, consegui voltar à Venezuela, mas no dia 20 de dezembro de 2023 tive que deixar meu país outra vez, agora sem passagem de volta. Meu passaporte foi cancelado e passei a integrar uma lista de jornalistas e ativistas na mira da repressão. 

Neste ano, consegui vir em julho passado por alguns poucos dias. Estive apenas em Caracas e La Guaira. Desta vez, estou decidida a ir a outras regiões e passar um tempo mais longo com as pessoas.

Meu exílio começou na noite em que entendi que, na Venezuela, nunca mais poderia deitar a cabeça no travesseiro e dormir a noite inteira. Deixei o país em 2019, quando uma mensagem de WhatsApp bastava para antever que a polícia política arrombaria a porta da minha casa, como fez com tantas outras pessoas. Foi uma expulsão gradual.

No dia 8 de outubro de 2018, o vereador Fernando Albán caiu do décimo andar da sede do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin). Ele havia sido preso três dias antes, ao regressar do exílio. O Ministério Público informou que o alegado suicídio ocorreu quando Albán pediu para ir ao banheiro e suas algemas foram retiradas. Na versão oficial, ele “se atirou no vazio”. 

Assim que soube do que ocorrera, eu me perguntei o que Albán estava fazendo naquele andar. As celas do Sebin ficam no subsolo, num lugar chamado La Tumba. Consultei a planta do edifício depois de ser alertada por uma fonte de que os banheiros não tinham janelas. Na minha conta no X, fiz três perguntas, questionando a versão oficial: O que o preso estava fazendo no décimo andar? Como ele conseguiu pular de uma janela basculante que só abre uns poucos graus? O que foi registrado pelas câmeras de segurança?

Em resposta às minhas perguntas, recebi uma ameaça de prisão e o aviso de que qualquer pessoa que duvidasse da versão oficial seria denunciada. Para escapar à perseguição, organizações de direitos humanos me aconselharam a deixar o país por algum tempo. Fui para Bogotá e fiquei dois meses fora.

Em março de 2019, depois de cobrir um apagão de mais de cem horas na Venezuela e revelar a prisão arbitrária de um jornalista, tive que sair do país de novo. Viajei novamente para Bogotá. Foi quando entendi que nunca mais conseguiria dormir em paz. Como disse, retornei em 2021. Mas em dezembro de 2023, saí definitivamente, depois de o governo venezuelano ter cancelado meu passaporte e ameaçado prender a mim ou a algum membro da minha família. 

Nunca temi pela minha própria vida, mas não me orgulho dessa falta de temor, porque ela colocou em risco as pessoas que me são próximas. O jornalismo no qual acredito cobrou um alto preço: primeiro saí eu do país, depois meu marido e, mais tarde, meu filho. Os repórteres e editores da minha equipe deixaram de assinar suas matérias no Efecto Cocuyo (Efeito Vagalume), o veículo jornalístico que, em 2015, criei na internet com duas sócias. A despeito daquela temeridade, aprendi a ser cautelosa. Apesar das perseguições, o Efecto Cocuyo continua investigando e documentando a Venezuela.

13 DE SETEMBRO, DOMINGO_Nesses primeiros dias na Venezuela, não tenho conseguido dormir direito. No condomínio onde fica meu apartamento – um lugar concebido para profissionais liberais de classe média –, a vida continua regida por um cronograma de racionamento de água. Só nos fins de semana posso abrir a torneira e sentir a pressão no encanamento. De segunda a sexta, impera a disciplina do balde, o cálculo de cada litro, os garrafões alinhados como testemunhas do racionamento.

Já estou há alguns dias sem poder lavar a cabeça. Nem pude tomar banho de três minutos, como recomendou Hugo Chávez em 2009. Tomava banho de cuia, como quando era menina, mas não estou cheirando mal. E, apesar de tudo isso, o cheiro dos banheiros já não é tão insuportável como alguns anos atrás, quando a falta de água impregnava o apartamento de um fedor de urina e desinfetante.

Também fiquei sem internet em casa, e a maioria dos meus amigos não pode me receber porque mora em prédios cujas paredes desabaram durante os terremotos. Mas uma das minhas amigas, María Fernanda Madriz, me ofereceu abrigo. Fui lavar minhas roupas lá e escrever. Ela acaba de chegar de Paris. Aproveitamos para comer um ceviche e tomar vinho. Buscamos um pouco de conforto em meio ao luto coletivo que ainda se vive no país – pelo menos 6,5 mil pessoas morreram nos terremotos do Dia de São João. Também veio outra amiga, Yaya Andueza, e conversamos sobre a Venezuela com a qual sonhamos. 

Meu marido vai para Puerto Ordaz, no Sul do país. Ele precisa organizar todos os seus documentos, verificar como está sua casa e visitar um dos filhos. Enquanto isso, vou me preparando para os dias que virão.

15 DE SETEMBRO, TERÇA-FEIRA_Em Caracas, a ideia de liminaridade ganha forma física. A capital, que fica num vale a 20 minutos do mar, sempre foi uma cidade de contrastes. De um lado, os morros cheios de casas sem reboco e telhados de zinco. De outro, os bairros mais ricos, com prédios modernos e casas de telhado vermelho. É um horizonte que lembra, em certos trechos, algumas paisagens cariocas.

De alguns setores de Caracas não se avista favela alguma. Com esse enquadramento, você quase acredita que está numa filial do Paraíso: a silhueta do Cerro El Ávila – uma montanha com mais de 2 mil metros de altura e milhares de hectares de mata –, o céu que se faz sempre visível, mesmo nos dias chuvosos, os traços de nuvens que lembram leite derramado e o calor caribenho que, entretanto, não queima, porque a altitude e as árvores o atenuam.

Ao longe, araras-azuis-e-amarelas agitam o ar com sua algazarra, enquanto urubus planam em círculos silenciosos, à espera da próxima carcaça. Ninguém sabe como as aves amazônicas chegaram a esta cidade a 20 minutos do Caribe nem como os urubus proliferaram. Hoje as duas espécies dividem o espaço aéreo.

Durante os anos da fome, entre 2016 e 2020, resisti à caderneta virtual de racionamento implantada pelo governo. Nunca usei os “benefícios” que eram concedidos à população, por várias razões. Entre elas, por não querer que tivessem acesso a todos os meus dados, porque considerava aquilo uma violação das minhas liberdades. Mas, assim como a maioria, tive que me adaptar à sobrevivência doméstica. E, como todos, também comemoro quando a água jorra pela manhã e posso tomar um banho de chuveiro e usar xampu e condicionador.

Da minha janela, que tem uma bela vista de um pedaço do Cerro El Ávila, o balé de araras e urubus me lembra onde estou.

16 DE SETEMBRO, QUARTA-FEIRA_Vim para Maturín, capital do estado de Monagas, a cerca de 500 km de Caracas. De avião, a viagem dura uns 45 minutos. Estavam à minha espera meu marido – que viajou por terra saindo de Puerto Ordaz –, sua filha, María, e seu genro, José. Eu considero María e José como meus filhos. Fazia mais de cinco anos que eu não os via.

Em Caracas, está prestes a começar a segunda rodada de diálogo entre a ditadura e uma delegação da oposição – diálogo tutelado pelos Estados Unidos.

Há outra notícia que, teoricamente, merece ser festejada: depois de nove anos de censura sistemática, o governo suspendeu o bloqueio digital do Efecto Cocuyo e de outros dezessete portais independentes. A medida, no entanto, manteve o silenciamento de importantes sites de jornalismo investigativo, como Armando.info. É a velha cartilha da dominação: a lógica do sequestrador que obriga um refém a atirar em outro para romper a solidariedade básica.

Em vez de festejar, eu me senti como um meme da atriz mexicana Victoria Ruffo, que a exibe saindo da prisão em uma cena da novela A madrasta: ela não sabe se chora ou se sorri amarelo quando lhe perguntam o que está sentindo ao recuperar a liberdade.

Passamos cinco anos exigindo que o governo apresentasse o processo administrativo que justificasse o bloqueio dos veículos jornalísticos. Nunca existiu uma ordem legal – apenas telefonemas e mensagens de WhatsApp enviadas pela Comissão Nacional de Telecomunicações da Venezuela (Conatel), o órgão regulador, para as operadoras. Os veículos jornalísticos digitais foram nossa última trincheira, e o cerco foi suspenso com a mesma arbitrariedade com que foi imposto.

Aqui, agora, tudo parece mudar na superfície. Ao ligar o rádio, já não nos atordoam com os velhos bordões anti-­imperialistas nem os insultos. O volume das vozes baixou até nas emissoras governistas. Contudo, na televisão estatal ainda sobrevive o programa noturno do ministro do Interior Diosdado Cabello, umas das figuras centrais do chavismo, principal executor da perseguição e da nefasta Operação Tun Tun, que intimidou, reprimiu e prendeu numerosos manifestantes e críticos do governo. 

No estado de Monagas, onde estou, fica a segunda maior reserva de petróleo do país. Em Maturín, na fachada de uma unidade da estatal Petróleos de Venezuela S.A (PDVSA), há um imenso painel. Nele se vê um operário vigiando o horizonte e o lema “Soberania energética”. Hoje, essa soberania não existe: nem a nacional, muito menos a popular. Passaram-se nove meses desde a defenestração de Nicolás Maduro do poder por forças americanas que invadiram a Venezuela e da posse de Delcy Rodríguez, a vice-presidente de Maduro, como governante interina. São nove meses de ostensiva tutela dos Estados Unidos.

Algumas das povoações de Monagas cresceram no embalo da febre do ouro negro, e várias delas morreram quando já não havia mais óleo para extrair. Nesse território ficam alguns campos explorados já faz algum tempo pela Chevron, em parceria estratégica com a estatal PDVSA. É também aqui que se encontra uma parte de bilhões de outros barris que foram recentemente negociados pelo governo dos Estados Unidos e uma empresa de capital privado venezuelano. Conforme o acordo anunciado por Donald Trump, os americanos irão explorar dezessete campos de petróleo na Venezuela – oito deles entre Monagas e o estado vizinho de Anzoátegui, na faixa petrolífera do Rio Orinoco denominada Hugo Chávez.

Em fevereiro de 2026, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, visitou as instalações da Petroindependencia, uma empresa mista operada pela PDVSA e a Chevron. Durante a visita, ergueu um cubo de vidro contendo amostras dos tipos de petróleo ali extraídos. Ele o levantou como se fosse o troféu da Copa do Mundo e o beijou. Com esse gesto foi selada a política do Drill, baby, drill (Perfure, baby, perfure), o slogan de Trump em defesa da exploração petrolífera. Essa política foi mais tarde deliberadamente inscrita no livro de visitas do Palácio de Miraflores, sede do governo federal venezuelano, quando Jarrod Agen, assessor de Energia dos Estados Unidos, copiou ali a frase (conforme registrou o portal Politico, de Washington D.C.).

A ironia não poderia ser mais evidente. Chávez promoveu uma diplomacia do petróleo na região e se afastou dos Estados Unidos como principal comprador. Hoje, a faixa petrolífera que leva seu nome será perfurada pelas brocas do império que ele tanto combateu.

A exemplo de outras cidades venezuelanas, Maturín é marcada por contrastes. Há cafés pretensiosos ao estilo dos estabelecimentos franceses, shop­ping centers com lojas abarrotadas de produtos importados da China, alguns automóveis de último modelo – elementos que permitem identificar a nova elite –, mas também casebres de madeira sem eletricidade nem água encanada, com crianças de olhos grandes e nariz escorrendo. 

Aqui impera a sensação de que as coisas podem melhorar. Entretanto, por se tratar de uma região habituada a viver do petróleo, essa expectativa está atrelada à ideia de que tudo acontecerá de modo muito lento.

17 DE SETEMBRO, QUINTA-FEIRA_Em 10 de setembro, o dólar oficial estava cotado a 832 bolívares. Hoje, uma semana depois, já beira os 848 bolívares (o dólar paralelo chega a 900 bolívares). 

A economia da Venezuela funciona, no mínimo, com três referências: a cotação do dólar fixada pelo Banco Central, o dólar paralelo das casas de câmbio e a cotação do circuito informal e de criptomoedas. Comprar qualquer coisa exige um cálculo aritmético imediato. Mas, ainda que todos os preços na Venezuela estejam atrelados ao dólar americano, o governo prefere usar a cotação do euro como referência. O euro está a 974 bolívares. 

Para pagar num estabelecimento formal, é preciso calcular o valor mentalmente em euros, submeter-se ao Biopago – o sistema em que a pessoa autoriza, com a impressão digital, um determinado pagamento, descontado de sua conta bancária – ou recorrer ao PagoMóvil – sistema de transferência bancária por celular, parecido com o Pix. 

Há também o Cashea, com o qual é possível comprar a prazo e sem juros. Nas vitrines das lojas, abarrotadas de bugigangas importadas da China, destaca-se a publicidade desse aplicativo que, como as rifas da Divina Providência em Cem anos de solidão, veio ressuscitar o crédito num país cujo sistema bancário sobrevive fazendo mágicas, enquanto a própria população inventa novas estratégias de sobrevivência cotidiana. 

Entender a política também não é uma tarefa simples. Todas as pesquisas mostram que, numa hipotética eleição presidencial, a exilada María Corina Machado continua à frente, e não há no horizonte outro líder capaz de competir com ela.

A volta iminente de María Corina é a notícia que domina as conversas nos bares. Os pronunciamentos que ela faz no Panamá – transformado em seu santuário, depois da sua escapada intempestiva para receber o Nobel da Paz em 2025, em Oslo, prêmio que depois ela ofereceu a Trump – soam como pregações de uma congregação que aguarda a segunda vinda de Cristo.

Outros líderes têm regressado do desterro nos últimos meses. Nenhum deles entra no país à maneira do Ulisses da Odisseia, com seu silêncio tático: quase todos preferem a estridência do microfone e do palanque.

Eu também voltei, mas em dois tempos. Minha estadia é provisória. Eu bem que gostaria de me restabelecer logo de uma vez no país, mas ainda não enxergo condições estáveis. Agora, pelo menos, tenho um passaporte válido, renovei a cédula de identidade e estou me preparando para enfrentar a inércia burocrática dos bancos e ressuscitar minhas contas congeladas. No exílio, perdi a estabilidade econômica. É o preço que se costuma pagar por insistir em manter o jornalismo independente durante tempos mais sombrios.

Nas ruas, escuto conversas que se equilibram entre um precário otimismo e o cinismo escaldado de quem viu definhar muitas primaveras. As pessoas falam um pouco mais à vontade na padaria e nos mercados cheios de vendedores ambulantes. Em outros espaços, baixam a voz, medem os adjetivos e evitam questionar a política dos Estados Unidos. Seja como for, a Venezuela está se movendo, embora ainda não se saiba ao certo em que direção.

Por vezes eu me sinto no set de filmagens do longa O show de Truman: um gigantesco tanque onde algumas liberdades são concedidas, mas a plena liberdade continua sendo apenas um cenário.

18 DE SETEMBRO, SEXTA-FEIRA_Por estes dias, a jornalista e historiadora americana Anne Applebaum, conhecida por seus livros sobre a história do comunismo e por sua crítica militante contra os estados autoritários, e uma delegação da ONG Human Rights Watch estiveram em Caracas. Na penúltima vez em que a HRW visitou o país, dezoito anos atrás, seu diretor da divisão das Américas, José Miguel Vivanco, foi imediatamente expulso.

Conversei com Federico Borello, vice-diretor da ONG. A duras penas disfarcei meu espanto quando ele contou – como se relatasse um gesto de boa vontade – que o governo interino de Delcy Rodríguez lhes solicitou uma lista detalhada dos casos documentados de denúncias de violações de direitos humanos. Ouvi, perplexa, essa demonstração de imensa ingenuidade burocrática. 

Dois dias atrás, em 16 de setembro, a Missão Internacional Independente de Apuração dos Fatos da ONU divulgou seu relatório em Genebra: as violações dos direitos humanos não cessaram na Venezuela e mantêm o padrão repressivo aperfeiçoado depois da fraude de 2024, quando Nicolás Maduro declarou-se reeleito, mas não publicou as atas eleitorais necessárias para confirmar sua vitória.

A Missão constatou uma queda das prisões em massa depois da captura e da retirada de Maduro do país em 3 de janeiro pelas forças americanas, mas advertiu que as medidas de distensão são “parciais, condicionais e, na melhor das hipóteses, reversíveis”. Apesar das recentes libertações, centenas de pessoas continuam arbitrariamente privadas de liberdade, em centros onde a tortura segue endêmica. Na estimativa de ONGs, há entre 379 e 500 pessoas presas por motivos políticos, números equiparáveis à situação anterior à eleição presidencial de 2024 na Venezuela.

O relatório conta sobre a tragédia recente de uma mãe de 82 anos que procurou incansavelmente o filho nas penitenciárias. Todas as autoridades negaram que ele estivesse ali. O rapaz foi encontrado numa vala comum. A mãe morreu dez dias depois de resgatar os restos do filho.

20 DE SETEMBRO, DOMINGO_María, a filha de meu marido, entrou no quarto feito um furacão. Viu os botões do ar-condicionado acesos e desligou o aparelho imediatamente. Eram duas e meia da madrugada. Pensei que fosse outro terremoto, mas ela me explicou com paciência: havia problemas com a corrente de 110 volts, e o aparelho não tinha proteção.

Assim como não compreendo bem as taxas de câmbio e as transações com diferentes sistemas digitais, tampouco entendo as oscilações elétricas. Só sei da indignação que sinto quando tudo fica às escuras e sem conexão com a internet. Nos bairros de Maturín, é comum encontrar casas com geradores. Foi uma das medidas que muitos tomaram por conta própria para ter energia durante os frequentes apagões.

Nesse fim de semana, foram mais de doze horas sem eletricidade. “É o normal”, disse José, marido de María. Antes houve um período de 48 horas sem luz. A frase, dita sem dramaticidade, resume o país melhor do que qualquer relatório técnico: aqui, o extraordinário virou rotina. Os venezuelanos, em muitos casos, se adaptaram à crise elétrica que vivem desde 2010.

Vejo uma fila de velhos veículos de transporte público. Estão esperando para abastecer com gasolina a preço subsidiado. Houve um tempo, não muito distante, em que 1 litro de gasolina venezuelana era mais barato que uma bala doce. Com menos de 1 dólar, era possível encher um tanque. Isso mudou em junho de 2020, quando Maduro reajustou o preço do combustível a patamares que, desde 1989, eram tabu. 

Em 1989, no governo do social-democrata Carlos Andrés Pérez, a Venezuela estreou um pacote de ajustes econômicos chamado A Grande Virada. Continha medidas acordadas com o Fundo Monetário Internacional (fmi) que incluíam o aumento das tarifas do transporte público urbano e do preço da gasolina. Em poucos dias, Caracas pegou fogo. Houve uma onda de protestos e uma repressão sem precedentes. As forças de segurança mataram centenas de pessoas (276 é a cifra oficial). O medo coletivo se instalou não apenas entre a população, mas também nas lideranças políticas, que desde então preferiram mexer em qualquer coisa, menos no preço do combustível.

Quando Maduro aplicou o aumento, o preço do litro subiu para 0,50 dólar, mas com um programa de subsídios. As pessoas não questionaram por que, entre 2013 e 2019, também aconteceu algo insólito no país: faltou gasolina. Agora, para ter acesso a esse benefício, o usuário deve usar o dedo para acionar o Biopago. Esse tipo de biometria me horroriza, mas na Venezuela foi aceito como algo natural.

21 DE SETEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_No aeroporto, a caminho de Caracas, li que Delcy Rodríguez chegou a Nova York e foi recebida pelo encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos na Venezuela, John Barrett. Ela se prepara para a grande limpeza de sua imagem na ONU.

No aeroporto, só restam dois vestígios visuais do antigo regime. Um painel com uma composição gráfica reunindo o rosto de Simón Bolívar, o pai libertador da pátria, e o de Hugo Chávez. “Nós, patriotas, somos obrigados a voar com Bolívar nesta era, que é uma nova era republicana, uma nova era bolivariana”, diz a frase que acompanha o quadro. Foi pronunciada por Chávez em 5 de agosto de 1999, ao instalar a Assembleia Constituinte que iria refundar a República.

Numa parede lateral, há uma foto de Nicolás Maduro.

A taxa de embarque para voos domésticos é de 10 euros. Paga-se à moda antiga. Ou seja, à parte, pois não está incluída na passagem. Se a pessoa resolve pagar em bolívares, o preço é um; em dólares, é outro. Meu marido, que durante nossa visita já conseguiu restabelecer sua vida bancária, estreou aqui seu cartão de débito.

Pegar um voo na Venezuela ficou mais simples do que na última vez que estive aqui. A única exigência agora é ter a carteira de identidade – mesmo vencida – e, claro, o dinheiro. Se você é venezuelano, não pode viajar dentro do país com o passaporte: a identidade é obrigatória.

A viagem de ida e volta entre Caracas e quase todas as cidades venezuelanas fica aproximadamente em 200 dólares. Não há ofertas nem preços de última hora. Há cinco anos, uma passagem não chegava a 50 dólares, mas naquela época era crime fazer transações em moeda estrangeira. 

23 DE SETEMBRO, QUARTA-FEIRA_Dois assuntos dominam o dia. O primeiro: já é fato que María Corina Machado não consegue voltar ao país. Dois jornalistas de sua confiança revelaram que viajaram ao Panamá para documentar seu regresso frustrado. Disseram que ela tentou sete vezes; quatro dessas tentativas foram abortadas em menos de 24 horas.

O segundo assunto é o paradoxo político do momento. Enquanto María Corina tropeça nas barreiras para voltar à Venezuela, sua arquirrival, Delcy Rodríguez, conseguiu o que até janeiro parecia impensável. Compareceu à Assembleia da ONU e também ouviu Donald Trump dizer na tribuna que Maduro era um criminoso e apresentar a Venezuela como espólio de guerra. Mesmo assim, teve um encontro privado com o presidente americano. Em seguida, Rodríguez fez um discurso agradecendo a Trump pela nova etapa das relações. Deixou claro que na Venezuela não há um prazo estipulado para novas eleições. A poucos quilômetros dali, Maduro está numa cela, acusado de narcotráfico e tortura.

A essa altura, estou exausta por causa do calor, dos encontros, das entrevistas e dos deslocamentos. Mas ainda me restam alguns dias na Venezuela. Planejei uma série de conversas com especialistas para entender o momento político que o país está vivendo. A jornalista María Martín, do El País, escreveu há poucos dias um artigo que retrata a autocensura de figuras públicas, que evitam criticar os Estados Unidos. Eu mesma pude constatar esse fato em alguns círculos que frequento. Como no filme de animação Encanto (2021), aqui não se fala do Bruno.

25 DE SETEMBRO, SEXTA-FEIRA_Os lugares dos quais tive mais saudade no exílio foram as praias venezuelanas. Às vezes se esquece que este é um país caribenho: embora não pretenda competir com destinos de luxo na mesma região, a água é morna e os tons de azul são extraordinários. Nós, caraquenhos, crescemos indo a La Guaira para tomar banho de mar. As praias do litoral central ficam a 20 minutos da capital. Mas, por causa dos dois terremotos seguidos que devastaram essa região em junho, não posso ir até lá.

Planejamos ir de carro até o litoral Leste, a umas cinco horas de Caracas. Não vejo a hora de chegar ao Parque Nacional Mochima. É a única viagem de lazer que consegui planejar e, de certo modo, foi um passeio para aliviar minha alma. Durante a viagem, me acompanharam fragmentos do livro El interior, em que o jornalista Martín Caparrós reuniu relatos, reflexões e entrevistas para tentar entender o seu país, a Argentina.

Quando meu cunhado José pegou a estrada, já eram quatro da tarde. Eu me atrasei porque estava gravando um programa e depois tive um almoço de trabalho seguido de longa conversa. Minha irmã Yolly estava uma fera. Contra-ataquei com chamegos: nos poucos dias que posso passar com ela, não quero perder um minuto sequer brigando.

Pensei que fosse exagero dela dizer que o marido não iria dirigir à noite porque tinha problemas de visão. Além disso, eu achava que meu marido poderia revezar ao volante. Na Venezuela, muita gente deixou de viajar à noite porque, além da escuridão, dos buracos na pista e da escassez de combustível, havia o risco de ataques criminosos: os ladrões costumavam jogar pregos e pedras para deter os carros e assaltar os passageiros. Isso mudou, mas não as condições das estradas, que continuam sem sinalização e mal pavimentadas, o que pode causar acidentes.

Quando começou a escurecer, fiquei nervosa. Estávamos numa rodovia que parecia uma boca de lobo. Já viajei centenas de vezes nessa estrada, mas nem a Lua – que parecia uma imensa arepa – conseguia iluminar o asfalto. Paramos no primeiro vilarejo do caminho: Boca de Uchire. Chegamos às oito da noite e logo encontramos uma pousada simples onde pernoitar.

O atraso está aumentando minha ansiedade para chegar ao meu destino.

26 DE SETEMBRO, SÁBADO_Eu mesma planejei a viagem com cuidado. Escolhi um apartamento em Lechería, uma cidade que concentra todo o luxo de Miami ou Cancún, mas em versão venezuelana. O custo da diária é 20 dólares por pessoa. O imóvel, com dois quartos espaçosos, tem vista para o mar.

Antes de chegar lá, eu, como uma criança, pedi ao meu cunhado que parasse num local à beira da estrada. Queria provar uma empanada típica, comer uma cachapa – aquela arepa doce de milho –, me empanturrar de queijos frescos. Naquele momento, queria ter quatro estômagos para comer tudo o que minha memória associava ao prazer.

Quando finalmente chegamos à nossa hospedagem, o anfitrião me reconheceu. É um leitor de Efecto Cocuyo e acompanha as nossas transmissões por streaming. Com a humildade à flor da pele, pediu desculpas antecipadas caso ficássemos sem eletricidade. “Durante a semana, costumam cortar o fornecimento por várias horas. Mas têm nos poupado nos fins de semana. Deve ser porque querem reativar o turismo”, explicou.

Eu só queria mergulhar no mar, que é como um quintal deste condomínio onde estamos, construído nos anos mais prósperos da economia venezuelana.

Foi um artesão que vendia suas peças na praia quem me deu a melhor aula de microeconomia. Ele me explicou que eu sempre devia pagar em bolívares, pela cotação do Banco Central, porque aquele preço era menor do que o do mercado paralelo; assim, sempre sairia ganhando com a diferença cambial. Como ainda não tenho conta bancária, minha irmã fez as pequenas transações.

À tarde, no supermercado, descobri outras verdades. Decidi cozinhar para minha família, e fomos a um comércio onde havia todos os produtos que, durante os anos da fome, chegaram a ficar em falta no país. Minha irmã assistiu, horrorizada, ao modo como eu escolhia os ingredientes: meio quilo de camarões congelados custava 12 dólares; meio quilo de fettuccine, 4 dólares.

Eu tinha economizado para essa viagem e queria preparar um bom jantar caseiro. Os preços eram semelhantes aos dos Estados Unidos, onde moro, alguns mais altos, como o meio quilo de café comum, que custa uns 12 dólares. Sem ofertas nem concorrência, os preços parecem evidentemente cartelizados.

Minha irmã insistiu tanto em conferir os preços que eu já estava incomodada. Até ela me dar uma pedrada: “Meu salário é de 1 dólar por mês”, disse. Senti vergonha da minha atitude.

Ela, que nunca se queixa, apesar do gênio terrível, tem que lidar não só com a dor da minha ausência e da nossa distância forçada, mas também com a indignação cotidiana de um salário de fome, que o governo compensa com bônus de uns 250 dólares.

27 DE SETEMBRO, DOMINGO_Daqui a alguns dias, vou ter que ir embora. Em Lechería, fiz o que eu mais desejava: entrei no mar. Percorremos várias ilhotas próximas e, numa delas, passamos quatro horas. Havia iates e embarcações particulares. Na ilha maior – com uns 200 metros de praia –, não faltavam restaurantes de diferentes preços. Ali, recebi uma nova aula de economia cotidiana.

Um rapaz vendia água de coco fresca em garrafas recicladas. “Cinco mil bolívares”, disse ele. Meu marido, que já não tinha bolívares na conta bancária recém-reativada, perguntou quanto custaria se pagasse em dólares. “Cinco dólares”, respondeu o rapaz. Meu marido insistiu: “E se eu pagar com uma nota de dez dólares?” O rapaz não hesitou: “Dou duas garrafas.”

Quando você organiza uma viagem à Venezuela, os amigos avisam: traga dinheiro trocado. Uma vez, levei 200 dólares em notas de 2. Em muitos lugares, se recusavam a aceitá-las porque achavam que não existiam. Dessa vez, só conseguimos levar notas de 10 dólares, mas, na maioria das transações, embora seja possível pagar com elas, o troco costuma vir em bolívares. Como não há muitas cédulas da moeda venezuelana em circulação, a maioria das transações são bancárias, feitas pela modalidade Pago Móvil.

30 DE SETEMBRO, QUARTA-FEIRA_Voltei a Caracas porque no dia 3 de outubro vou ter que sair do país. Por estes dias, está sendo celebrada uma cúpula de petróleo e gás, com dezenas de participantes vindos dos Estados Unidos, do Equador, do Brasil, da Espanha e de outros países que avaliam como participar da promessa venezuelana. Durante o evento, em meio a toda aquela energia empresarial, às análises e às expectativas positivas, paradoxalmente faltou luz. Embora o hotel Marriott, onde era realizado o encontro, tivesse gerador, o apagão funcionou como um lembrete dos desafios para a reconstrução da infraestrutura da Venezuela.

Ao mesmo tempo, há protestos em diversos pontos do país onde os apagões atingiram níveis críticos. Acabei de passar por áreas em que as pessoas ficam oito horas por dia no escuro. Tenho recebido alertas por e-mail sobre as manifestações. 

Conversei com um dos especialistas presentes na cúpula em um café perto do Marriott. Já o havia encontrado em Washington D.C., num café cubano, em 2023, poucos dias antes de eu publicar uma reportagem sobre os Acordos de Barbados – um pacto entre Nicolás Maduro e a oposição venezuelana, em que o presidente se comprometia a realizar eleições em 2024, o que levou o presidente americano Joe Biden a flexibilizar as sanções contra o regime chavista.

O especialista me disse algo que resume, com precisão cirúrgica, o limbo em que nos encontramos na Venezuela: “O marco da transição foi definido com clareza por Marco Rubio [secretário de Estado americano], quando citou como exemplos as transições espanhola e paraguaia. Não houve engano.” Ele fazia referência ao que ocorreu na Espanha depois da morte do ditador Francisco Franco, em 1975, e no Paraguai depois da queda do também ditador Alfredo Stroessner, em 1989. Em um caso e outro, a estratégia é o insider, ou seja, realizar as mudanças no governo e na administração do país recorrendo a pessoas que já fazem parte do sistema político. Para tanto, o prazo estimado é de cerca de três anos. 

Acrescento outro elemento, cujo roteiro foi exposto por Delcy Rodríguez na ONU. Em seu pronunciamento, ela exibiu as cartas do que estamos vendo agora na Venezuela: o pós-chavismo ou, para dar a isso um nome e sobrenome corretos, o autoritarismo chique.

Assim vão passando estes dias, nos quais também reina um pragmatismo onde já não cabem as nostalgias revolucionárias.

1º DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_Nesta viagem, preferi ficar perto das pessoas comuns. Isso me reconectou com meus anos de repórter. Por isso, pouco antes da minha partida, fui visitar o bairro popular de Petare, em Caracas. É uma favela da Rocinha venezuelana. Eu cresci ali. Minha mãe, uma mulher que mal conseguia escrever o próprio nome, mas era leitora assídua, me incutiu o amor pelo estudo. Naquele tempo, experimentei a dor da pobreza e da exclusão na própria pele, mas sem por isso sentir a vergonha que tentavam nos inocular em vários círculos.

Enquanto eu percorria o centro colonial e o mercado, aquela outra Venezuela – a que sempre procurou um jeito de sobreviver a tantos embates – aflorava a cada instante. Uma vendedora de legumes, Yoselin, mãe de quatro filhos, três deles emigrados para os Estados Unidos e a Colômbia, explicou seu modelo de negócio: “Eu vendo para as pessoas mais velhas. Deixo que escolham as batatas, que são de má qualidade, por isso mais baratas, os tomates e outros legumes. Elas ganham muito pouco, por isso não cobro por sacola, mas por peso.” A sacola tem um conteúdo escolhido pelo vendedor, e o cliente não pode revisar o que está comprando.

Enquanto ela conversava comigo, um senhor encurvado, apoiado numa bengala, escolhia com a precisão da escassez: uma batata, dois tomates, um inhame, uma cebola e uma mandioca. O custo total não passava de 2 mil bolívares (2 dólares no câmbio paralelo). Yoselin perguntou com voz amável se ele preferia levar na mochila ou na mão. Ela o ajudou a guardar tudo e continuou trabalhando.

Perto dali, fica a escola onde minha mãe votava em todas as eleições. Em uma praça, conversei com motoristas de uma linha de táxi popular chamada Baloa. Quando perguntei a Jorge, um dos taxistas, quais eram suas expectativas sobre a Venezuela, ele disse que esperava que tudo voltasse a ser como antes.

– Antes quando?

– Como na época em que eu tinha 30 anos.

Olhei para ele e calculei que tivesse uns 50, mas ele me corrigiu: “Tenho 60.” O que significa que gostaria de voltar a meados dos anos 1990, antes da posse de Hugo Chávez.

Naquela caminhada, vi crianças cuja estatura parecia abaixo do esperado para a idade, e mulheres e homens com dentes faltando. Vi também muitos idosos com crianças pequenas – eram “os netos”, como me alertou uma amiga jornalista. Nesses dias na Venezuela, vi uma nação de avós sem filhos e filhos sem pais. A terra não engoliu os filhos: eles fazem parte da parcela de venezuelanos que foi obrigada a deixar o país. Pelo menos 8 milhões de venezuelanos saíram daqui desde 2015. Muitos foram acolhidos na Colômbia, na Argentina, no Peru, no Chile e no Brasil. Os que foram para os Estados Unidos agora vivem se escondendo para evitar as batidas do ICE. 

A Venezuela é hoje um país espalhado pelo mundo. Nos bairros populares, um dos sonhos mais recorrentes é ter esses jovens de volta. Os venezuelanos nunca tiveram vocação para emigrar. Ao contrário, era seu país que recebia imigrantes.

Passei a manhã inteira no lugar onde cresci. Minhas memórias se alvoroçaram. Recordei dias de luta, de penúria, mas também de muito amor familiar. 

Encontrei duas crianças tagarelas. A menina tinha 6 anos, mas aparentava 4, e me disse que já sabia ler e queria ser escritora. Pedi a Daniel Hernández, o fotógrafo que me acompanhava, que fizesse um registro dela. Alguns quarteirões adiante, vi um menininho. Devia ter uns 8 anos. Estava vestido de Homem-Aranha. Quando lhe perguntei de que outro super-herói ele gostava, respondeu Super-Homem. Meu colega Jonathan Gutierrez, que também me acompanhava, comentou que tanto o Homem-Aranha quanto o Super-Homem são jornalistas na sua vida convencional fictícia. O menino fez uma cara de perplexidade, como se tentasse processar o que acabara de ouvir. Então perguntei a ele se sabia o que era um jornalista. Respondeu que não. Quando indaguei o que ele queria ser quando crescesse, respondeu sem hesitar: “Quero ser um super-­herói.” E saiu pulando entre as bancas do mercado onde sua mãe é vendedora.

3 DE OUTUBRO, SÁBADO_Dizem que os aeroportos são o espaço liminar por excelência. Estamos sempre de passagem para algum lugar. Durante a espera, já não nos sentimos no lugar onde estamos e devemos ter paciência, por mais que ansiemos por chegar ao destino, sobretudo quando voltamos para casa.

Os dois terremotos seguidos na Venezuela inutilizaram o principal aeroporto do país, Maiquetía. Em poucas semanas, porém, foram erguidas instalações provisórias com o apoio dos Estados Unidos. São tendas gigantescas, com ar-condicionado, cinco postos de imigração, controle alfandegário e barreiras de inspeção e segurança. Há telas de informação, câmeras de vigilância, máquinas de salgadinhos e refrigerantes, além de algumas lanchonetes.

Enquanto o agente da Guarda Nacional me interrogava sobre o motivo da minha visita à Venezuela e me olhava com expressão inquisidora, um velho temor despertou em mim. Mas logo me tranquilizei. Disse a mim mesma que, embora persista certa economia da repressão (deduzi que o agente esperava uma propina), o momento era outro, diferente de antes, quando tive de ir embora do país para não ser presa. Por um instante, temi que o policial da imigração retivesse meu passaporte, como aconteceu com tantas pessoas, ou simplesmente dissesse: “Seu documento não serve para viajar.” Mas nada disso aconteceu.

Na sala de espera, um homem de uns 35 anos se aproximou. Com timidez, disse que conhecia meu trabalho e sempre lia meus artigos, especialmente os que publico no jornal espanhol El País. Conversamos. O homem contou que é venezuelano, mas vive há onze anos no Rio de Janeiro, onde trabalha para uma empresa de petróleo. Estava no país porque a companhia o enviara à cúpula de petróleo e gás.

Imediatamente, passamos a analisar a situação da Venezuela. Ele me disse que, durante a conferência, esteve com um ex-diplomata venezuelano cujas afirmações seriam motivo para um processo no Brasil: ele atacou as mulheres, os negros e, sobretudo, os gays. “Não quero viver num país onde pensar assim e dizer isso em público seja aceito”, disse o meu interlocutor. Olhei para ele e entendi.

Fiquei profundamente comovida ao ver tanta gente fazendo um esforço tão grande para sobreviver. Em alguns momentos, fiquei arrasada ao ver as condições de vida de alguns. Amei meu país mais do que nunca.

Numa noite de ceviche e rum em Caracas, ouvi minha amiga María Fernanda Madriz, professora e pesquisadora especializada em comunicação, dizer algo que me marcou: ela me disse que sua fé no futuro não depende do que virá de fora, mas das capacidades que o venezuelano aprendeu a cultivar dentro de si.

Vamos superar tudo isso, não tenho dúvidas. Porque, se ainda somos um povo que ri, dança, pesca, planta e colhe – com a ternura de quem decidiu continuar vivendo, apesar de tudo –, seremos um país imenso na hora que nos reerguermos. Até lá, continuo onde estou: com emoções conflitantes, a indignação à flor da pele e a confiança intacta em nossa transformação.

25 DE OUTUBRO, DOMINGO_A Venezuela nunca para de me surpreender. Hoje, um post no X, curto e preciso, despertou um país que na superfície parecia adormecido, exausto, mas que não deixou de ter esperanças: “Estou aqui, com vocês”, avisava a mensagem na conta de María Corina Machado.

“A líder chegou”, diziam nos grupos de WhatsApp. “Luz querida. Estou muito emocionada. Estão dizendo que ela está aqui perto e que vai à igreja de Santa Rosa”, escreveu uma leitora na minha conta do Instagram. Eram 11h16, poucos minutos antes de a notícia se espalhar. E, de fato, a Prêmio Nobel da Paz estava em Barquisimeto, uma cidade no Centro do país, a cerca de 350 km de Caracas.

Sua primeira atividade pública foi mesmo ir à igreja de Santa Rosa. Ali é venerada Nossa Senhora Divina Pastora. Uma devoção católica que atrai milhões de fiéis todo 14 de janeiro.

María Corina estava vestida com sua clássica roupa de campanha: camiseta branca de mangas compridas, calças skinny. O cabelo, solto. Ali na igreja começou seu banho de povo. Terminado o ofício religioso, iniciou a peregrinação até Caracas. Demorou quase dez horas para chegar. Às 21h46, passou pelo primeiro pedágio.

Em cada parada ao longo da Rodovia Regional do Centro, uma das vias que ligam a capital venezuelana à região Oeste do país, as pessoas gritavam: “Te amamos”, “Traz nossos filhos de volta”, “Liberdade”, “Queremos eleições livres”, “Bem-vinda, presidente”.

Enquanto isso, seu pescoço foi se enchendo de terços. Quando chegou a Caracas, tinha dezenas pendurados. Sua entrada na capital foi festejada com uma algazarra de gritos. “Digam ao presidente Trump que agora sim estamos dançando”, muitos brincavam. Alguns cartazes diziam: “O petróleo é nosso.”

María Corina seguia num veículo 4x4 com teto solar, por cuja abertura ela acenava. Levava as mãos ao peito em sinal de agradecimento. As emissoras de rádio e tevê noticiaram timidamente seu regresso. Pois é. A piada sobre ela virou realidade. Era como se tudo tivesse sido ensaiado para evocar a entrada de um messias.

Ela quase não falou. Numa das paradas, os jornalistas conseguiram arrancar esta frase curta de María Corina: “Nunca vi nada igual.”

Durante o dia, soube-se que essa era sua nona tentativa de voltar. Não se sabe ao certo qual foi o papel dos Estados Unidos nisso. Os analistas concordam que as autoridades americanas estavam informadas desse regresso. Se não o apoiaram, pelo menos não o impediram, como parece ter ocorrido anteriormente.

Foi bom vê-la chegar. Ela e todos nós merecemos ter um país aonde voltar.


Tradução de Sérgio Molina.

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Diretora e cofundadora do site jornalístico venezuelano Efecto Cocuyo, é colunista do El País. Este ano recebeu a Medalha de Ouro do Prêmio Maria Moors Cabot, concedida pela Universidade Columbia, nos Estados Unidos.