poesia

PORVENTURA

Que não se engane ninguém: ser um poeta é uma África
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O POETA LÍRICO

Não sei contar histórias. Minha prima,

Corina, que sabe fazê-lo, disse

ser esse defeito a causa ostensiva

do que, em falso tom de corriqueirice,

ela se deleita em qualificar

de “o óbvio malogro” das minhas lides

poéticas. Tive que concordar

pois, por não sei que artes de berliques

e berloques, ela me criticava

com um argumento do próprio Filósofo

– para ela anacrônico e monótono –

em cuja obra-prima eu mergulhara

há tanto tempo – e a fundo – e ela nada.

Eu morreria se tivesse um óbolo.

NIHIL

nada sustenta no nada esta terra

nada este ser que sou eu

nada a beleza que o dia descerra

nada a que a noite acendeu

nada esse sol que ilumina enquanto erra

pelas estradas do breu

nada o poema que breve se encerra

e que do nada nasceu

3:47 H

Bem que Horácio dizia

preferir dormir bem

a escrever poesia.

NA PRAIA

Na praia – parece que foi ontem –

ficávamos dentro d’água eu,

Roberto, Ibinho, Roberto Fontes

e Vinícius, a água era um céu,

e voávamos nas ondas transparentes,

deslizantes, do azul

mais profundo do fundo ciã

do oceano Atlântico do sul.

Mas era outro século: Roberto

morreu, morreu Vinícius, Roberto

Fontes nunca mais vi, e Ibinho

casou e mudou. Já não procuro

o azul. Os mares em que mergulho

são os homéricos, cor de vinho.

AS FLORES DA CIDADE

Há flores pelo caminho através

da cidade à cidade: naturais,

em canteiros e em árvores, talvez,

mas quase todas artificiais

nos cabelos dos bebês, em cachorros

mimados, em vitrines e revistas

femininas, em cartazes e outdoors,

e – de novo naturais – em floristas,

camelôs na calçada e, sobretudo,

nas mãos do entregador de flores, cujo

olhar esverdeado sobre as rosas

é puro absinto e tudo nos deslembra,

lançando-nos dúvidas hiperbólicas

sobre o próprio destino a uma hora dessas.

PRESENTE

Por que não me deitar sobre este

gramado, se o consente o tempo,

e há um cheiro de flores e verde

e um céu azul por firmamento

e a brisa displicentemente

acaricia-me os cabelos?

E por que não, por um momento,

nem me lembrar que há sofrimento

de um lado e de outro e atrás e à frente

e, ouvindo os pássaros ao vento

sem mais nem menos, de repente,

antes que a idade breve leve

cabelos sonhos devaneios,

dar a mim mesmo este presente?

O POETA MARGINAL

Em meio às ondas da hora

e às tempestades urbanas

conectarei as palavras

que trovarão novas trovas.

Lerei poemas na esquina,

darei presentes de grego;

a cochilar com Homero,

farei negócios da China.

Exporei tudo na rede

sem ganhar nem um vintém:

a vaidade, a fome, a sede,

certo truque, rara mágica.

Que não se engane ninguém:

ser um poeta é uma África.


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Antonio Cicero é poeta, filósofo, escritor e compositor. Autor do livro Porventura, da Record.