questões pouco diplomáticas

OBAMA NAS ALTURAS

O Brasil ficou fora do radar da campanha da reeleição do presidente americano, e não é mau que continue assim
Imagem Obama nas alturas

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A famosa imagem mostra Franklin Roosevelt e Getúlio Vargas em Natal, às margens do rio Potengi, em janeiro de 1943. Os Estados Unidos começavam a ganhar a Segunda Guerra Mundial e a se fazerem senhores do mundo, e o Brasil entrava no conflito do lado certo. Com isso, iria começar a ganhar pontos importantes na busca da elevação de sua inserção internacional, processo longo e exigente no qual estamos ainda metidos.

O que os Estados Unidos queriam era poder dispor de uma grande base de operações no saliente do Nordeste brasileiro, e daí cruzar o Atlântico Sul e transferir tropas e equipamento para a campanha que logo se iniciaria para a conquista de todo o norte da África. Não era objetivo secundário ou acessório, mas parte essencial da própria viabilidade de uma imensa operação militar.

Éramos, assim, o alvo de uma política de contatos intensificados, pressões e seduções por parte do governo de Washington, a que se deu o nome de “Política da Boa Vizinhança”. Naqueles idos, Orson Welles veio filmar entre nós, Carmen Miranda foi filmar em Hollywood, o Pato Donald teve uma relação fraterna com o Zé Carioca, e Walt Disney desenhou esse personagem em nossa homenagem para uma de suas grandes produções. Até mesmo Bette Davis e Paul Henreid viviam um dos mais memoráveis romances do cinema americano em um Rio de Janeiro idealizado.

Os dois líderes estão unidos na fotografia – e contagiam os oficiais que os rodeiam – por um riso que parece espontâneo, expressão de um bom humor que era parte da imagem pública de cada um, e chamava a atenção naquela época de semblantes mais sisudos, marcada, no caso dos fascistas e dos nazistas, por uma teatralização ameaçadora de gestos, falas e uniformes.

Podiam ter saído ambos do set de Casablanca (Roosevelt, aliás, chegava da grande Conferência Internacional naquela cidade), e o que dá contexto adicional à fotografia, além dos ternos brancos e dos chapéus-panamá, é o Jeep (hoje para nós jipe) que lhes servirá de transporte, amável símbolo dos tempos da guerra e que a ela sobreviveu, em múltiplas reencarnações, pacíficas e guerreiras.

A guerra obrigava a um comportamento mais informal e a uma menor pompa e circunstância dos grandes atores políticos e militares, embora estivéssemos então ainda longe de ver nossos líderes abandonarem os carros abertos, que eram, por razões fáceis de entender, os veículos preferidos dos extremistas de todos os matizes para seus atentados, desde Sarajevo até Dallas. O Vaticano buscou encontrar a fórmula salvadora capaz de conciliar transparência e segurança e inventou o Papamóvel, até agora incólume, mercê de Deus, mas que a meus olhos deixa esteticamente a desejar e se assemelha um pouco a um aquário em movimento.

De lá para cá seria fácil encontrar boas imagens que resumiriam importantes etapas do trajeto entrelaçado dos Estados Unidos e do Brasil nos últimos setenta anos: Truman e Dutra; Eisenhower e JK; Geisel e Carter; Collor e Bush père; Lula e Bush fils; e sobretudo, por ser a relação mais fácil de compreender e a única que continuou e mesmo prosperou depois de terminada a circunstância presidencial de ambos, aquela que até hoje aproxima FHC e Bill Clinton. Chegaríamos, por fim, a Obama e Dilma, dos quais já existe uma ampla iconografia de momentos compartilhados em Brasília, Washington e alhures.

A visita de Obama a Brasília e ao Rio, em março de 2011, com a mulher e as filhas, não pode rivalizar, como registro histórico e como encruzilhada estratégica, com a visita de Roosevelt à futura base aliada de Natal, que seria chamada, com a hipérbole dos tempos de guerra, de “trampolim da vitória”. Eram agora outros os tempos, e a visita se enquadrou na já longa tradição de encontros entre os que nos governam e os que governam nossos poderosos vizinhos.

Liguei as duas pontas da história, a primeira e a mais recente visita de um presidente dos Estados Unidos a nós, para mostrar o caminho percorrido e também para acentuar que Roosevelt e Obama foram os únicos presidentes americanos a nos visitar antes que o nosso fizesse o mesmo percurso em sentido contrário para a visita regimental a Washington.

A diplomacia presidencial encontra em nós e nos americanos parceiros quase que ideais. Somos ambos povos e países vocacionados para esse tipo de exercício diplomático, em que líderes em geral carismáticos e com forte capacidade de interação afetiva encontram o terreno para serem eles mesmos, longe dos constrangimentos de uma diplomacia mais convencional controlada por agentes profissionais e submetida a uma coreografia que inibe gestos espontâneos.

Como testemunha de vários desses encontros, pude observar como os líderes, livres dos funcionários que os policiam e cerceiam, têm nesses encontros um quase que recreio e a possibilidade de fazerem aquilo que geralmente sabem fazer muito bem: atrair, seduzir e estimular contatos com intensa carga afetiva. Entre nós e os americanos nem mesmo as dificuldades de comunicação são um fator: George W. Bush e Lula provavelmente não entendiam uma só palavra do que o outro dizia, mas o relacionamento era manifestamente caloroso.

Tenho uma teoria que possivelmente não resistirá a qualquer forma de escrutínio: trata-se de exercícios de liberação de grandes animais políticos, que se reconhecem e que encontram nesse relacionamento informal, no mais alto nível, momentos raros e preciosos que lhes permitem ser eles mesmos.

Barack Hussein Obama – o Hussein costuma ser sublinhado por seus adversários para acentuar o exotismo de seu nome e as suspeitas nunca confirmadas, mas sempre ressuscitadas, sobre sua origem e lugar de nascimento – acaba de ser reeleito para um segundo mandato na Casa Branca, depois de uma campanha eleitoral intensa e acrimoniosa, na qual os dois campos mobilizaram todos os recursos e os eleitores disponíveis.

O processo eleitoral americano em safras recentes tem estado longe de ser exemplar. Os golpes entre os candidatos costumam ser dados abaixo da linha da cintura; a propaganda é, no mais das vezes, malévola e negativa, e o processo de apuração de votos, em alguns casos, pelo menos duvidoso. Além de não ser modelar, o jogo está cada vez mais caro, e as estimativas são de que esta última eleição custou cerca de 2 bilhões de dólares.

É importante repetir e repetir que o estamento americano absorveu com muita dificuldade a primeira eleição de Obama. O que tornava a pílula talvez um pouco menos difícil de engolir era a esperança de que as circunstâncias daquela hora fossem excepcionais – duas guerras longas e inconclusas e uma crise devastadora no âmago da economia dos Estados Unidos – a ponto de criar condições políticas que seriam seguramente momentâneas. Elas faziam ser possível tolerar – por apenas quatro anos – a vitória de um candidato que, por sua cor, origem e algumas de suas ideias, representava um desafio frontal aos grupos que desde sempre vinham conduzindo a vida dos americanos. Confiavam que, na segunda vez, Obama seria derrotado e a ordem natural das coisas, restabelecida.

Não há como comparar a natureza das reservas e desconfianças que existiam quando Lula foi eleito à rejeição de que foi e é objeto Obama. O Brasil, em termos políticos, não é uma casa dividida. Entre nós não há aquela clivagem com sabor fundamentalista que nos Estados Unidos separa hoje liberais e conservadores, e que está atrás da incapacidade de virtualmente metade dos americanos digerirem e metabolizarem Barack Obama.

Vale a pena ir buscar no fim do primeiro volume daquela obra imensa de Alexis de Tocqueville, A Democracia na América, que é ainda hoje uma luminosa descrição da nação americana, o papel que os negros e os índios representavam na tapeçaria da formação dos Estados Unidos. Excluídos uns, os negros, pela perda absoluta de autonomia e escolha que a escravidão representava, e os outros, os índios, inassimiláveis por uma indômita e desesperada devoção à liberdade, como a entendiam, ficavam ambos – e isso até pouco tempo atrás – fora do grande projeto da construção de uma sociedade democrática, que foi e ainda é a grande contribuição americana à história. A vitória de Obama é um dos mais extraordinários exemplos de inclusão e chegada ao poder de um grupo antes marginalizado.

Apenas uma vez, com Jack Kennedy, os Estados Unidos haviam se afastado da moldura protestante e anglo-saxônica e eleito um católico de ascendência irlandesa para a Presidência. Havia, assim, para os membros do grupo dominante, como que um direito virtual a ocupar a Casa Branca, e a eleição de Obama foi uma ruptura ainda difícil de avaliar em toda a sua extensão.

A vida política de Washington nos últimos quatro anos deve ser vista como um esforço tenaz e irredutível dos republicanos, hoje amplamente dominados pela extrema direita dentro do partido, para impedir que Obama tivesse sucesso e pudesse continuar na Casa Branca por mais um mandato. As questões que surgiam não costumavam ser julgadas em seus méritos, mas, essencialmente, à luz da avaliação de como seu tratamento poderia aumentar ou comprometer o prestígio de Obama e a sua futura viabilidade eleitoral.

A confiança republicana de que a história não se repetiria e as coisas voltariam a ser como eram antes se fortaleceu na medida em que a gestão Obama teve um êxito apenas moderado em retomar a economia, reduzir o desemprego e restabelecer a vitalidade do mercado imobiliário. Boa parte desse insucesso relativo se deveu à intransigência da oposição republicana e à própria fragilidade e instabilidade da economia internacional, especialmente na Europa.

Depois da empolgação de sua primeira campanha eleitoral, Obama, logo que eleito, pareceu buscar a formação de consensos que simplesmente não existiam, e atrair um segmento moderado do Partido Republicano – que existia, mas não ousava aparecer –, e teve finalmente com os grandes operadores de Wall Street uma política de atração e acomodação que desmotivou e desmobilizou muitos de seus apoiadores iniciais, que esperavam uma ação em alguma medida punitiva contra aqueles que haviam precipitado, por imprevidência e desejo descontrolado de lucro, a maior crise financeira desde a Grande Depressão dos anos 30.

Não é fácil rotular ou estereotipar Obama. É, com certeza, o melhor autor a ocupar a Casa Branca, e seu livro A Origem dos Meus Sonhos é muito mais importante como obra do que foi Why England Slept, ensaio de alguma maneira juvenil de Jack Kennedy, só publicado, em tempos menos exigentes, pelo desvelo paterno.

Talvez ninguém tenha chegado à Casa Branca com melhores credenciais acadêmicas do que Obama, com a possível exceção de Woodrow Wilson, quase um século antes. Seus títulos obtidos com louvores nas universidades Columbia e Harvard o colocam na aristocracia intelectual do país. Sua própria escolaridade anterior se deu na melhor escola particular do Havaí, sementeira de parte da elite do arquipélago e, também, alimentadora de talentos para algumas das principais universidades dos Estados Unidos continental.

A formação étnica do Havaí, tão diferente da tradição escravocrata do sul dos Estados Unidos, deve ter feito com que Obama, criado por avós brancos, se sentisse menos discriminado em Honolulu, onde cresceu e onde havia numerosos japoneses e chineses, além dos polinésios nativos daquele e de outros arquipélagos próximos, muito embora o poder residisse no segmento branco da população.

Faltou a Obama o que sobrava a sua futura mulher, Michelle, que tem credenciais universitárias (Princeton e Harvard) tão boas quanto as do marido. Por ter sido criada na margem sul da cidade de Chicago e testemunhado as lutas das comunidades não brancas para obter um lugar ao sol, ela não tinha dúvidas sobre as dificuldades do percurso. De certa forma, foi ao conhecer Michelle e ao se estabelecer em Chicago que Obama teve sua primeira experiência visceral direta dos problemas que deviam e devem enfrentar os negros norte-americanos.

O que procuro dizer é que a identidade negra de Obama não é sua companheira de infância e adolescência, mas uma aquisição consciente e deliberada de sua jovem maturidade, quando, longe do Havaí e da Indonésia (onde viveu com sua mãe por um breve tempo), começou a ter uma experiência direta do que era ser um não branco na América.

Outro grande problema que Obama enfrentou e continua a enfrentar é o de não saber transmitir a convicção – tão importante em qualquer jogo político – de que suas opiniões correspondem a arraigadas experiências e não são, apenas, o resultado de uma avaliação racional e informada do que pareça ser o melhor caminho a seguir.

O que verdadeiramente sensibiliza o eleitor é ver suas paixões e seus preconceitos refletidos no homem público que o vai representar. Um processo objetivo e informado de tomada de decisões não cria entre o líder e aqueles que o apoiam a confiança que só pode vir de sentimentos intensamente compartilhados. Obama parece incapaz de transmitir aos que o aprovam essa sensação de proximidade e intimidade. Pelo contrário, o seu processo de tomada de decisões se vai fazendo, com o passar do tempo e com o exercício do poder, de alguma forma mais distante e quase arrogante por sua propensão ao isolamento.

No fundo, estou sugerindo que Obama não me parece um político “natural”, de aguçados instintos para as relações interpessoais, mas é antes e sobretudo um intelectual e – só o tempo dirá – talvez um importante estadista, que deixará sua marca pela contenção e sobriedade de seus gestos e pela sabedoria e prudência de suas atitudes.

Com a segunda derrota consecutiva na luta pela Casa Branca, a direita americana entrou em um angustiado processo de reexame e autocrítica. Começa a projetar os dados demográficos que já existem e sua provável evolução como indicadores necessariamente desfavoráveis a seus interesses, e, nos piores cenários, como um obstáculo insuperável para uma eventual reconquista do poder. As projeções em política – sejam elas alvissareiras ou catastróficas – têm uma tendência a não se cumprir, e o futuro guarda para si o prazer de desmoralizar os profetas e desorientar os que buscam decifrar suas entranhas.

Esse fator demográfico pode ser descrito em poucas palavras: a premissa central é que os Estados Unidos serão cada vez mais um país em que os afrodescendentes (sejam eles nativos ou imigrantes), somados ao vasto mosaico dos chamados hispânicos e aos representantes cada vez mais numerosos de outras comunidades originárias do Oriente Médio ou do Extremo Oriente, formarão um conjunto de minorias. Somando-se a elas, os segmentos mais jovens e mais educados e uma parte do eleitorado feminino representarão, todos, de agora em diante, uma maioria automática que tenderá a se alinhar com os candidatos mais liberais e progressistas que, quase por definição, saem dos quadros do Partido Democrata.

Olhando para trás, já é possível ver que Obama teve, também, aquela mistura de sorte e virtude sem a qual o jogo político fica difícil de ser jogado. O momento mais emblemático, e seu maior triunfo, foi a operação que levou à morte de Osama Bin Laden – muito mais do que Saddam Hussein, o inimigo número 1 dos Estados Unidos –, cuja liquidação permite, como efeito secundário, que as tropas americanas possam deixar o Afeganistão de maneira não humilhante.

Logo depois de uma reeleição, o presidente dos Estados Unidos vive um momento mágico: as regras do jogo o libertam de ter de novamente enfrentar as urnas e ele pode governar pensando em seu lugar na história. Por outro lado, não chegou ainda o momento do poder declinante e do fim da festa, que não está longe e costuma se instaurar quando começam as manobras para a escolha de seu sucessor, o que automaticamente transforma o antes grande líder vitorioso naquela figura cruel da política americana: o lame duck, ou seja, o pato manco que já não pode voar.

Agora é o momento em que Obama vai procurar deixar sua marca e completar o desenho de sua Presidência. Os contornos do projeto já são fáceis de ver: a grande reforma do sistema de assistência de saúde, que seus adversários chamam de “Obamacare”, palavra que, com o tempo, perderá a notação pejorativa que lhe deram os detratores do programa e servirá de passaporte para o reconhecimento de dezenas de milhões de americanos que antes não podiam contar com essa forma de proteção; a liquidação das operações militares de combate no Iraque e no Afeganistão, o que deverá ser uma crescente relutância americana em se envolver em operações militares terrestres em países complexos e remotos; o saneamento das finanças americanas e a consolidação de um ordenamento que procurará evitar, no futuro, crises da extensão daquela que ainda nos afeta; a redução das tensões e dos desníveis de renda e oportunidade na sociedade americana, e algum progresso para diminuir a concentração do poder econômico em grupos muito pequenos da população, tendência que se acentuou muito nos últimos anos e atingiu patamares que são, no curto e no médio prazos, insustentáveis em uma sociedade democrática madura em que certos valores já estão incorporados.

Obama começa seu segundo mandato em uma situação bem mais confortável do que aquela com que se defrontou em 2008. A imensa capacidade de inovação e renovação dos Estados Unidos parece entrar em um novo ciclo que será, em parte, alimentado pela incorporação pela América do Norte de imensas reservas de gás de xisto, o que reduzirá sua dependência de fornecedores externos e alavancará o país para o que se imagina será uma robusta recuperação. A simbiose com a China deve continuar e o fim desse ciclo até agora virtuoso para ambos, que certamente virá, ainda não aparece na linha do meu horizonte.

O Brasil não figurou na campanha eleitoral, nem sequer no corpo do debate específico sobre política internacional. Nem mesmo como uma nota de pé de página. É natural que seja assim. Não aparecemos no radar das grandes preocupações norte-americanas. Nosso comportamento não nos coloca na lista dos que gravemente ameaçam a paz e a ordem mundiais, o meio ambiente, os direitos humanos ou a estabilidade dos mercados. Já estamos na short list dos grandes países emergentes, mas não somos objeto de uma preocupação prioritária de ninguém. Isso me parece bom para nós. Temos, em vários sentidos, amplos terrenos para continuar a crescer sem que nossa trajetória colida com os espaços ou as preocupações vitais de outros países. Temos a mais confortável das situações geoestratégicas.

É bom comemorar sempre a relativa invisibilidade brasileira nos radares de Washington. Quando um país latino-americano aparece com destaque durante uma campanha eleitoral, o contexto em que isso se dá é quase sempre negativo – seja por estar, alegadamente, exportando imigrantes demais, seja por estar queimando árvores demais ou controlando de menos o tráfico de drogas, seja por ter ofendido interesses corporativos ou estratégicos dos Estados Unidos, seja por ter ousado atitudes mais ou menos independentes.

Há dois países da nossa região que costumam ser alvo desse interesse sustentado e minucioso. Cuba e México seguramente teriam preferido manter um perfil mais baixo e nós, certamente, não desejaríamos estar no lugar deles.

O segundo mandato permite que o presidente reeleito assuma alguns riscos que não estaria normalmente disposto a aceitar no primeiro mandato. Pode fazer a depuração de seu primeiro gabinete e trazer sangue novo e ideias novas. Há, diante dele, uma agenda internacional muito sensível. Começa pelas relações tóxicas de Israel com seus vizinhos, passa pelas ambições nucleares iranianas e coreanas, e pela necessidade de reordenar as regras e prioridades do comércio internacional. Obama agora vai poder enfrentá-la com mais desafogo. É possível que novas prioridades apareçam e mesmo essa agenda do provável possa ser logo alterada. Não faço, assim, nem listas exaustivas nem pretendo ver muito adiante do meu nariz.

As coisas não costumam ser o que parecem e, como dizia meu velho chefe e mestre Guimarães Rosa, “o mundo é mágico”. Lembro uma visita que fiz, há anos, ao Sri Lanka – que já foi chamado de Ceilão pelos ingleses, por Camões nomeado de Taprobana, e por Simbad e pelos outros marinheiros árabes do Índico de Serendib –, a um templo na cidade de Kandy, onde se guarda um dente do Buda. Não vi o dente, que não me foi mostrado, mas, segundo me asseguravam, estava lá. Como deve continuar exposto em algum lugar o jipe do encontro Vargas-Roosevelt de 1943, que foi onde comecei a história.

Sei que esse jipe não é mais o mesmo do histórico encontro. Meu pai foi comandar por volta de 1950 a Base de Parnamirim. Naquela época não era a cidade de Natal que tinha uma grande base próxima, mas a base é que tinha anexa a mais encantadora das cidades. Como naquele e em muitos outros momentos que se seguiram, as vacas brasileiras eram magras, a necessidade levou a que o comando da base substituísse o jipe original, então exibido em lugar de prestígio, por outro gasto e rodado. E assim continuou a se fazer. É possível que, nesse processo de sucessivas permutas, o jipe original tenha voltado ao seu lugar de honra. Não é, contudo, provável, como não é provável que o dente guardado em Kandy seja uma relíquia preciosa de Buda. Mas, enfim, quem sabe?


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Diplomata, foi secretário-geral do Itamaraty e embaixador em Buenos Aires e Paris. É conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais.