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URBANISTA ACIDENTAL

As obsessões e os dilemas de Philip Yang, o empresário que pretende reinventar o Centro de São Paulo
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Por volta das 22 horas do dia 5 de outubro de 2012, antevéspera do primeiro turno da eleição municipal, dezenas de militantes políticos começaram a chegar à região da praça da República, no Centro de São Paulo.

Embora fossem todos integrantes do MMPT, o Movimento de Moradia Para Todos, uma das organizações que reivindicam habitação popular na capital paulista, não levavam faixas ou bandeiras. Tampouco gritavam palavras de ordem. Era imperativo não chamar a atenção dos transeuntes, cada vez mais raros naquela noite de sexta-feira. Era preciso, sobretudo, que a polícia não os notasse.

Estavam divididos numa dezena de pequenos grupos. Cada núcleo, composto por dez a quinze pessoas, guardava distância dos demais, dispersos nos arredores da tradicional avenida São Luís – uma área agradável, com praças, ruas exclusivas para pedestres, galerias comerciais e espigões projetados por renomados arquitetos em meados do século passado. Esperavam a oportunidade certa para arrombar as portas de um prédio comercial abandonado – um amplo edifício de doze andares, com inúmeras salas inutilizadas. Um dos muitos imóveis desse tipo no Centro da cidade.

A comunicação entre os diversos grupos era feita por Welita Alves Caetano. Uma das principais lideranças do MMPT, ali ela coordenava cerca de 150 pessoas. Seria ela quem passaria a todos o comando de avançar, quando a vanguarda do movimento, uma “linha de frente” de menos de dez pessoas, munida de marreta e pé de cabra, desse o sinal.

Welita é uma moça magra, de aparência frágil. Tem 28 anos, cabelos pretos cacheados e mede 1,56 metro de altura. Fez com os pais a viagem de Goiás, onde nasceu, para a capital paulista, pouco antes de completar 10 anos, em meados da década de 90.

No Centro-Oeste, o pai trabalhava na roça. “Eu passei a infância na fazenda. Um dia ele resolveu vender tudo e vir viver uma aventura.” Queria ficar rico em São Paulo. Trouxe a mulher, a filha Welita e o caçula, um ano mais novo. Moravam em pensão. Nos dias de visita aos presos, o pai enchia um isopor e ia vender refrigerantes na porta da Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru. A família o acompanhava.

Num dos finais de semana, já no caminho de volta para casa, parou numa banca de jogo. Eram três cumbucas, com as bocas voltadas para baixo, sobre a mesinha de madeira. Um sujeito escondia a esfera de metal sob uma delas e, com gestos rápidos, movia os copinhos plásticos. O apostador tinha que adivinhar onde estava a bolinha. Confiante, o pai de Welita jogou 50 reais. Uma fortuna. “Perdeu”, ela disse. “Quis recuperar. Perdeu de novo. A gente junto. Minha mãe pedia pra ele parar. Mas meu pai é orgulhoso, ele vinha para fazer fortuna, não queria voltar para Goiás com uma mão na frente e outra atrás.”

Segundo Welita, estavam em São Paulo havia apenas cinco meses e, em poucos minutos, não tinham mais dinheiro para pagar o aluguel ou para renovar o estoque de refrigerantes. Foram morar num albergue. Nos finais de semana, o abrigo público fechava, e a família passava a noite na praça da Sé. “Meu pai ficava acordado, vigiando, para a gente poder dormir.”

Acabaram conseguindo vaga numa ocupação – uma invasão, do ponto de vista do proprietário, mesmo para um imóvel desocupado – promovida por um dos muitos movimentos de moradia. Ela fez ali a sua formação política. Estudou e se graduou em administração de empresas numa universidade particular. Hoje cursa direito. Diz ter perdido a conta de quantas ocupações já promoveu.

As imagens tremidas captadas pelo celular de um dos integrantes do MMPT mostram o momento em que a “linha de frente” correu em direção ao portão de ferro, na rua Marconi, uma via exclusiva para pedestres. Já eram quase duas da manhã do dia 6 de outubro.

Quem não é da liderança do movimento não sabe qual edifício será objeto do arrombamento inicial. Recebem instruções sobre o que levar. Em geral, pouca coisa: uma mochila, um colchonete fino, o suficiente para dois ou três dias. “É o pior período, quando a polícia pode agir. Depois disso, só com mandado judicial”, explicou Welita.

Naquele dia, nem tudo saiu como planejado. “A regra é a gente levar entre um e dois minutos para entrar no prédio. Aqui a gente gastou quase quatro minutos.” Com a demora, os grupos na retaguarda se precipitaram, antes de receberem o comando para avançar. Em volta do portão, as pessoas gritavam, numa mistura de incentivo e desespero: “Vai! Vai! Abre! Abre!” Finalmente a porta cedeu. Os militantes, muitos de boné ou de gorro, passaram pelo vão correndo, tropeçando.

Começava a segunda etapa, já treinada, do momento de invasão: fazer uma barricada para bloquear o acesso da polícia. Uma mesa pesada foi rapidamente deslizada até a porta. Grupos subiram, às pressas, as escadas do prédio e trouxeram o que encontravam pela frente. Cadeiras, pedaços de madeira, tudo foi sendo empilhado. Antes mesmo de concluírem a ação, já havia quem comemorasse.

O MMPT havia naquele instante encontrado uma solução provisória, à força, para um problema que nem o Estado nem o mercado imobiliário têm sido capazes de resolver.

Dos 6 milhões de domicílios espalhados pela região metropolitana de São Paulo, pouco mais de 510 mil foram incluídos na conta do déficit habitacional em 2008. Quando uma moradia é inserida nessa lista, não basta realizar ajustes. Os problemas são tão graves que em geral só o provimento de um novo imóvel é capaz de solucioná-los. Outros 840 mil tinham, naquele ano, algum tipo de inadequação remediável – como ausência de cobertura de água, luz ou esgoto.

O mesmo levantamento oficial registrava, contudo, um aparente paradoxo. Havia, então, 640 mil domicílios vagos na maior metrópole do país, 130 mil a mais do que a necessidade de oferta de novas moradias.

Mais de 80% do déficit habitacional na região metropolitana de São Paulo afeta famílias que ganham até três salários mínimos. Não à toa, metade do contingente total do déficit paulistano foi contabilizado em 2008 sob a rubrica “ônus excessivo com aluguel”. Em números, isso significa que um cidadão de baixa renda gasta mais de 30% do salário para ter um teto.

Era esse o caso de Cícero Rodrigues de Lima, um agente de saúde cearense, antes que fosse morar no prédio da rua Marconi. Rodrigues de Lima tem 42 anos e é funcionário de uma ONG que presta serviços para a prefeitura. Trabalha no Centro. Ao chegar à cidade, em 2010, fixou residência no Campo Limpo. Passava três horas dentro de ônibus, a cada dia, para ir e voltar do serviço. Recebia 800 reais por mês e gastava 400 com aluguel.

Mudou-se para o Centro quando já auferia 1 200 reais mensais. Na região central, contudo, passou a despender 800 com moradia. Em novembro passado, decidiu procurar o pessoal do MMPT, movimento para o qual ele hoje contribui com 120 reais mensais. Recebeu um quarto na ocupação, com o seu nome gravado na porta. Quando nos encontramos, no início de junho, ele descia as escadas do edifício, de banho tomado e cabelo penteado, a caminho do trabalho.

Em outro dormitório, no mesmo prédio, o ítalo-brasileiro Manuel Moruzzi mostrou na tela do computador uma lista com a localização de parte dos edifícios vagos da cidade. O levantamento havia sido preparado por um aluno da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAU-USP.

Moruzzi tem 31 anos. Nasceu em Bolonha, filho de pai italiano e de mãe pernambucana, mas optou por viver no Brasil. Na Itália trabalhava com cinema, fazendo assistência de direção. Procurou o MMPT disposto a realizar um documentário sobre o movimento. Ofereceram-lhe um quarto, e ele, aos poucos, passou a assumir tarefas de organização do prédio.

Muitos dos imóveis no levantamento a que o MMPT teve acesso, hoje vagos, foram abandonados como resultado do processo de expansão da cidade nas últimas décadas. Terrenos e aluguéis mais baratos levaram a classe média baixa e os pobres para as franjas cada vez mais largas da metrópole. Por idêntica razão, o poder público sempre construiu conjuntos habitacionais na periferia.

O uso do automóvel, o traçado de grandes vias expressas e o erguimento de casas e condomínios em bairros residenciais, que se pretendiam exclusivos e segregados, afastaram também as famílias mais ricas do Centro de São Paulo. Sem os grupos de alto poder aquisitivo por perto, parte do comércio e do setor de serviços das regiões centrais definhou. Aos poucos, a desindustrialização também deixou fábricas e galpões vazios, próximos à linha férrea.

Philip Yang, um paulistano de 50 anos, filho de pai e mãe chineses, chegou a pé ao restaurante localizado no andar térreo do Edifício Copan, o sinuoso cartão-postal de São Paulo projetado por Oscar Niemeyer. Vinha de uma reunião com representantes do governo do estado. Sorriu, colocou os dois celulares sobre a mesa e chamou o garçom. Pediu salada e água mineral.

Ex-pianista e ex-diplomata, Yang ficou muito rico há pouco mais de dois anos. A empresa de que é sócio, a Petra Energia, é hoje a maior concessionária de blocos de petróleo e gás em terra no Brasil.

Quando todas as outras empresas do setor seguiam a Petrobras em direção ao mar e à exploração offshore, Philip Yang e o sócio, o pernambucano Roberto Viana, fizeram lances por áreas no Amazonas, no Maranhão e em Minas Gerais, em leilões promovidos pela Agência Nacional do Petróleo em 2005 e 2007. Mais tarde, venderam concessões na bacia do rio Solimões para uma empresa russa, e a maior parte do que tinham no Maranhão para Eike Batista. Em 2011, a empresa registrou lucro de 1,1 bilhão de reais.

As cifras e os projetos vultosos contrastam com a voz baixa de Yang, projetada de maneira suave, muitas vezes próxima do sussurro. Ao falar de si, se refere a dois objetivos que disse ter sempre perseguido. O primeiro era o de “não precisar mais fazer contas” – um eufemismo para a ambição de ficar rico. O segundo é o de vir a “fazer uma grande contribuição” pública.

O discurso é acompanhado de sorrisos constantes, que estreitam ainda mais os olhos orientais. Alto, mede 1,84 metro, tem o rosto anguloso e usa óculos de lentes retangulares e design moderno. Quando veste terno, o paletó é sem colarinho, abotoado pouco abaixo do nó da gravata.

Até quase os 30 anos, Yang perseguiu uma carreira de pianista e compositor, abandonada quando se deu conta de que “jamais seria um Nelson Freire”. “Há certas profissões no mundo que não dão margem nenhuma para a mediocridade”, explicou. Entre os 30 e os 40 anos, foi diplomata. Mas o Itamaraty não era o lugar em que, na sua avaliação, “pudesse contribuir para uma decisão histórica”.

Essa possibilidade parece ter sido aberta, afinal, com o dinheiro conquistado na Petra. Em 2011, Yang fundou o Urbem, o Instituto de Urbanismo e de Estudos para a Metrópole. No restaurante aos pés do Copan, ele falou das razões que o levaram a criar a organização. “Eu tinha percebido esse hiato entre o pensamento urbanístico que temos no Brasil, de um lado, e o poder econômico dessa cidade, de outro. Estranhamente, você nunca viu uma conversa entre esses dois mundos. Quando a gente começou a falar do Urbem, eu tinha a sensação de que só fazia sentido se fizéssemos projetos urbanísticos em grande escala. Se ficasse só montando prédios não ia dar certo.”

A primeira oportunidade para colocar em prática suas ambições surgiu menos de um ano depois da criação do instituto. No início de 2012, o governo do tucano Geraldo Alckmin anunciou a intenção de realizar uma PPP, a parceria público-privada, para a construção de moradias populares na capital paulista. Era uma iniciativa inédita. Até então, esse tipo de empreitada, no estado, tinha sempre dependido de dinheiro público.

O projeto previa a princípio 10 mil unidades habitacionais destinadas à população com renda de até dez salários mínimos. Metade desses imóveis deveria atender quem ganha até três salários mínimos, ou pouco mais de 2 mil reais. Gente como a que reside no edifício da rua Marconi e que engrossa as fileiras dos movimentos por moradia.

A localização dos empreendimentos também é incomum. Em vez de conjuntos habitacionais na periferia, a PPP planeja erguer prédios na região central da cidade, em bairros tradicionais, como Mooca, Brás e Bom Retiro. A proposta difere de tentativas anteriores de intervenção no Centro, como o famigerado Projeto Nova Luz, cuja tônica estava na “revitalização” de uma região contínua de 500 mil metros quadrados – o equivalente a 60 campos de futebol. O atual projeto afeta terrenos que, somados, podem alcançar área equivalente. Mas a ênfase agora está na construção de prédios residenciais em quarteirões espalhados por doze distritos do centro expandido da cidade, uma região delimitada pelos rios Tietê e Pinheiros, e por grandes avenidas, já na Zona Leste.

O “retorno ao Centro”, iniciativa há décadas defendida por urbanistas, resultou sobretudo do cálculo econômico. Em 2008, a Secretaria de Planejamento do estado contabilizou, pela primeira vez, os custos totais para a construção de moradias nas franjas da cidade. Descobriu que já não era mais vantajoso fazer empreendimentos na periferia.

“Se eu faço um projeto habitacional no Centro, o terreno custa mais, mas o entorno já está mais equipado, com infraestrutura, asfaltamento, redes de água, luz, transporte público”, disse Antonio Márcio Fernandes da Costa, consultor da Secretaria de Habitação e um dos idealizadores da PPP. “Fazer os conjuntos na periferia, considerando todos os custos, ficava três vezes mais caro do que na região central.”

No restaurante, Yang contou que, ao ter notícia da iniciativa, se deu conta de que aquela era uma “oportunidade extraordinária”. Projetos urbanísticos, ele disse, podem ser “a expressão espacial do que a gente quer como sociedade”.

Na primeira etapa da PPP, o governo pediu às empresas que apresentassem modelos de intervenção na região central. Quem se dispusesse a participar deveria descrever como deveriam ser feitos os prédios, qual sua relação com o espaço público e que outros “equipamentos”, como praças, passarelas e bulevares, deveriam ser construídos. Precisariam também indicar um modelo financeiro que tornasse o negócio viável.

Em outubro de 2012, as propostas chegaram. Embora mais de 30 empresas tivessem se cadastrado para responder ao “chamamento”, apenas cinco apresentaram projetos. Uma única proposta ofereceu ideias para todas as áreas delimitadas pelo estado – a do Urbem.

Antes do início do processo, ninguém na administração pública tinha ouvido falar “daquele chinês” e de sua ONG. Foi uma surpresa que ele manifestasse mais apetite que qualquer grande construtora.

O apartamento em que Philip Yang mora com a família ocupa um andar inteiro de um prédio na avenida Higienópolis, uma região da cidade coalhada de edifícios em estilo modernista, que começaram a dar a cara do bairro nos anos 40. Dentro do imóvel, as poltronas e sofás, brancos ou pretos, têm linhas simples e modernas. O que se destaca na sala é a dupla de pianos de cauda, dois Steinways negros, um deles, segundo Yang, próprio para concertos. Sua mulher, Patrícia Vanzella, é pianista profissional.

Em junho, o resultado tangível das propostas do Urbem ao governo do estado encontrava-se à mostra, para os visitantes, na mesa de centro da sala de estar. Uma dúzia de grandes volumes coloridos, bem editados, em papel de primeira qualidade, parecidos com livros de arte. “São doze tomos de 300 páginas cada, formato A3, fonte 11”, enumerou Yang. “Um negócio de classe mundial”, gabou-se.

Seu projeto para mudar o centro de São Paulo representa cerca de 60% das regras, definidas pelo estado, que o vencedor da PPP deverá seguir. A licitação deve acontecer até o fim do ano. Por seu trabalho, o Urbem tem cerca de 5 milhões de reais a receber. O empresário disse ter investido, no processo de elaboração das propostas, o dobro disso.

Mais de setenta pessoas foram mobilizadas, em escritórios de arquitetura, bancas de advocacia e consultorias financeiras, para chegar ao resultado que enfeita a sala de Yang. “É o coffee table book mais caro da minha vida.” O processo foi comandado por gente que poderia ganhar muito dinheiro em outras áreas, como o mercado financeiro, frisou o empresário.

É o caso do engenheiro civil Homero Neves, de 36 anos, responsável por coordenar as finanças dos projetos do instituto e encontrar meios para torná-los viáveis. Especialista em concessões públicas, o engenheiro gaúcho tem aparência de alemão e prosódia inconfundível. “Costumo dizer que tenho sotaque até escrevendo.”

Antes de se juntar ao Urbem, Neves trabalhou em banco, na ANTT, a Agência Nacional de Transportes Terrestres, e numa concessionária de rodovias. “Isso aqui não é um bando de poetas, um bando de arquitetos-poetas”, asseverou. O responsável pela elaboração do modelo urbanístico adotado pela PPP também não é nenhum “arquiteto-poeta”, Neves fez questão de dizer. Doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e sócio do MMBB, um dos principais escritórios de arquitetura do país, Fernando de Mello Franco era o curador de projetos do Urbem até o final do ano passado.

Em meados de 2012, ele e Neves acompanharam Philip Yang em visitas aos principais candidatos à Prefeitura de São Paulo. A parceria público-privada havia sido lançada pelo governo Alckmin, mas ninguém ignorava que sem o apoio do município, responsável por regular e aprovar projetos imobiliários, dificilmente ela iria adiante.

José Serra, então candidato do PSDB, “fez pouco caso” do que ouvia, segundo Homero Neves. “A gente se encontrou com ele duas vezes. Numa delas, ele tirou a palavra do Fernando e ficou falando, falando. Não deixou ninguém mais abrir a boca. E a gente é que tinha ido fazer a apresentação. Eu quase me levantei. Não me levantei por educação.”

As coisas correram de forma diferente com o candidato petista, Fernando Haddad. “Desde o início, ele se mostrou um cara muito mais interessado”, explicou Neves na sede do Urbem – a mesma da Petra –, uma casa branca de dois andares localizada na praça Buenos Aires, em Higienópolis.

“O Haddad veio aqui, nesta sala. O Fernando de Mello Franco deu uma daquelas aulas dele, fez uma leitura da cidade.” Deve ter causado boa impressão. Vencida a disputa eleitoral, o prefeito eleito ligou para Yang. “Eu estava junto”, contou o engenheiro gaúcho. “O Haddad avisou que ia fazer o convite ao Fernando. Foi correto de avisar. Ele conheceu o Fernando pelo Philip, conheceu pelo Urbem. Aí o Philip veio aqui, nesta sala, estávamos em reunião. Chamou o Fernando para dar a notícia.”

O curador do instituto criado por Yang aceitou se tornar assim secretário de Desenvolvimento Urbano de São Paulo. Sua função no Urbem foi assumida por outro sócio do MMBB, o arquiteto Milton Braga. O governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad sentaram-se lado a lado numa das cerimônias de lançamento da PPP, em abril deste ano. Ao público presente, Mello Franco disse que a iniciativa do estado, cujo desenho final ele ajudou a definir, é “uma proposta inovadora que merece total adesão” da administração municipal.

O interior do táxi, um pequeno Corsa Sedan, rescendia a cigarro. O motorista fazia um discurso confuso sobre a falta de machos no mundo atual, agravada pela escassez de mulheres femininas. Apertado no banco de trás, Philip Yang sorria, educadamente, enquanto tentava chamar a minha atenção para a desoladora paisagem urbana do lado de fora. O carro cruzava ruas nas cercanias da Radial Leste, um dos principais eixos viários da cidade.

“Olha só o cenário; é muita feiura”, disse Yang, apontando para casas cinza com as fachadas pichadas. “Minha primeira inconformidade é com a feiura”, explicou o ex-pianista. “Depois eu racionalizo. Por que é assim? Uma cidade tão ineficiente? Com tanto trânsito? Então você descobre que tudo faz parte da mesma equação.”

Urbanistas descrevem essa “equação” como uma degeneração do projeto modernista, que vigorou no planejamento de grandes cidades até pelo menos a década de 60. Desde o final do século XIX, propugnava-se uma metrópole racional e compartimentalizada, com bairros residenciais separados das regiões de comércio e trabalho, em que os automóveis facilitariam a circulação urbana. Brasília é o exemplo mais radical dessa utopia planificadora.

Associada ao desejo da classe média de se distanciar dos pobres, tal lógica também redundou em lugares como o Morumbi ou Alphaville, em São Paulo, e a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Bairros residenciais em que os pedestres têm dificuldade de se locomover. Áreas em que a necessidade de acesso por carro prometia manter afastado quem não morava ali.

Aclimatado à lógica excludente da urbanização brasileira, o ideário modernista serviu também para justificar conjuntos habitacionais na periferia, sem comércio ou serviços por perto. Fora das pranchetas, a aplicação de seus preceitos ordenadores gerou quase sempre uma cidade árida, um número menor de pessoas nas ruas, trânsito congestionado em longas vias, áreas mortas em determinados horários do dia, espaços vazios e ambientes propícios para a violência.

Em 1961, um modelo alternativo surgiu. A ensaísta americana Jane Jacobs tinha como objetivo prático deter a construção de novas highways no sul da ilha de Manhattan, onde morava. Foi para a rua com o intuito de observar o que tornava mais vivos, ou mais degradados, os bairros ao redor. Publicou então Morte e Vida de Grandes Cidades. A obra foi responsável por uma virada no discurso de arquitetos e urbanistas.

O que mantém uma cidade viva, segundo Jacobs, é o uso intenso, constante, em todas as horas do dia, de suas ruas e calçadas. Espaços ermos são convidativos à violência e induzem à deterioração. O projeto modernista, no urbanismo, promoveu esses espaços vazios, ao buscar separar áreas de trabalho de bairros residenciais. Jacobs defende, ao contrário, que a qualidade da moradia e a presença do comércio se sustentam mutuamente. Um sem o outro perde força.

Em seu projeto o Urbem seguiu a receita de Jacobs. Ali estão previstos edifícios de moradia popular com uso misto: os térreos, sempre que possível, serão destinados ao comércio. As calçadas são largas, e os prédios dão para a rua, sem muros. Os empreendimentos se concentram em raios de até 600 metros de estações de trem ou metrô, estimulando os percursos a pé. Novas passarelas tentam integrar áreas separadas pelas vias férreas que cortam parte dos bairros centrais da cidade. Há praças e áreas comuns para diferentes condomínios. “A ideia foi criar espaço público”, disse Yang.

Saímos do táxi. O idealizador do Urbem me conduziu até o meio de uma passarela na Radial Leste, erguida sobre o trânsito intenso que, naquela hora, ainda fluía veloz. Apontou para construções numa das laterais da avenida, separadas da via expressa por uma estreita calçada. Eram sobrados, casas deterioradas e galpões, quase tudo pichado. “Está vendo como é abandonado?”, ele disse. “Está tudo fechado, mesmo numa segunda-feira.”

Descendo da passarela era possível notar uma pequena rua paralela à via movimentada, atrás do casario que o empresário havia indicado. Nos planos da PPP, aquelas construções todas, espremidas entre a ruela de trás e a avenida, devem ser derrubadas, num grande quarteirão de quase 100 metros de frente. O espaço que elas hoje ocupam virará, disse Yang, um bulevar, com gramados, árvores e grandes calçadas. Lá atrás, depois da ruela, seriam erguidos prédios de quase vinte andares, com comércio no térreo. “Não vai ter muro. O prédio dá para a calçada e para o bulevar, que serve como um buffer verde entre as moradias e a estrutura viária.”

Os prédios altos na região central, com inúmeros apartamentos, pretendem tornar a cidade mais “densa”. A ideia é aumentar o número de pessoas que moram no Centro e que trabalham por lá, diminuindo a necessidade de uso de carros e ônibus. “A ideia é dar vida. É a anti-Brasília”, sintetizou Yang.

Em seus discursos, ele também preconiza a mistura de classes sociais. “Para não formar guetos”, argumenta. Em sua proposta, o Urbem defendeu o aumento do número total de imóveis, acompanhado de uma elevação na parcela de domicílios destinados às faixas mais altas de renda. Outros participantes, interessados em construir apartamentos para a classe média no Centro, fizeram propostas semelhantes. Foram atendidos, e o projeto dobrou de tamanho. O teto de renda das famílias atendidas pela PPP foi elevado de dez para dezesseis salários mínimos. Os imóveis para quem ganha entre seis e dezesseis salários mínimos – entre 4 mil e 11 mil reais – passaram a representar 40% das 20 mil unidades projetadas.

Talvez por causa do barulho do tráfego, Philip Yang falava mais alto, e com entusiasmo, ao descrever o projeto. Com seu instituto, ele afirma ter afinal encontrado uma “voz” própria.

“Eu não tenho nenhum dom de oratória. Não tenho o dom de me comunicar espontaneamente. Ao longo desses anos todos, como diplomata e como empresário, eu nunca me vi portador de uma grande mensagem. De repente, esse negócio do Urbem veio com tamanha força que eu me percebo passando mensagens. Há conteúdos que eu aprendi com os urbanistas, mas que consigo passar com mais vigor e clareza. Adquiri um desprendimento que nunca tive. Nunca toquei piano com desprendimento. É a primeira vez, em cinquenta anos, que eu sinto isso.”

Philip Yang nasceu no dia 3 de outubro de 1962, em São Paulo, sete anos depois da chegada de sua família ao Brasil. Seu pai, Yang Yun Chu, havia feito fortuna na China durante a década de 40, estabelecendo negócios com o Japão. Os dois países travavam guerra desde os anos 30, com a tomada de partes do nordeste chinês pelas tropas inimigas. O conflito só foi encerrado com as bombas atômicas e o final da Segunda Guerra.

O irmão mais velho de Philip, Yang Mon Yu, se refere sobretudo ao período posterior ao conflito sino-japonês, ao falar do pai. Diz apenas que, quando jovem, Yun Chu, nascido em 1917, já atuava como empresário em Xangai. “No ramo do comércio exterior, e bastante bem-sucedido”, ele me disse no Rio de Janeiro, onde estava a trabalho, em junho. “Meu pai comercializava com o povo japonês. Com o Plano Marshall, depois de 1945, tinha muita oportunidade. Ele aproveitou a trégua e prosperou.”

De toda forma, Mon Yu assinalou que já em 1946, ano em que nasceu, o pai estava preso. “Não sei qual delito ele cometeu. Talvez fosse por causa da proximidade com os japoneses. Era visto como suspeito.”

Ao ser solto, fugiu do país e se estabeleceu na nação vizinha e rival. Mais tarde, às vésperas da revolução comunista de 1949, a mãe e Mon Yu também conseguiram escapar da China. Encontraram-se com Yun Chu em Tóquio. O casamento, contudo, não durou. Mon Yu ficou com o pai. Ainda no Japão, Yun Chu se casou com a mãe de Philip, Shum Nga Yee, conhecida como Nancy, uma moça de Hong Kong.

Mon Yu se lembra de maneira vívida da infância abastada, nessa época. “Meu pai era influente dentro do governo japonês. Morávamos numa casa grande. Para o padrão da época, era uma coisa de outro mundo. Num bairro rico, dois andares, duas empregadas, chofer e carro importado. Um Pontiac.”

A vinda para o Brasil, em 1955, também parece enevoada em algum mistério. O irmão mais velho de Philip contou que o pai “temia ser capturado pelos chineses, mesmo em Tóquio”. “Pelas atividades que exercia. Não só ele, acho. Os amigos também.”

Em São Paulo, a família continuou a levar uma vida confortável. O pai montou uma fábrica de rádios transistorizados, que não vingou. Viviam sobretudo de renda. Quando Philip nasceu, o padrão já não era o mesmo. Não passavam por privações, mas duas irmãs mais velhas tiveram que trabalhar no comércio. Mon Yu, ao se formar em engenharia pela Universidade de São Paulo, se tornou arrimo de família.

“Meus quatro irmãos foram educados com muita abundância”, disse-me Philip Yang, em seu apartamento. “Era uma casa cheia de criados. Quando você via as fotos, era decididamente uma família abastada. Casa grande, motorista, carros bonitos. Eu só peguei a fase final disso. Quando eu nasci, já era o declínio. Mas o anseio do meu pai de manter um certo padrão de vida fez com que, ainda assim, eu frequentasse uma escola de classe média. Eu estudei no Pio XII. Que é uma instituição de classe média abastada do Morumbi.”

São do tempo de colégio as recordações mais marcantes de decadência financeira da família. Yang se lembra de seus colegas chegarem em carros vistosos, para as aulas, e ele de Fusca. “E teve também uma coisa muito embaraçosa”, disse, depois de uma pausa. “Na escola, quando a família não pagava alguma mensalidade, vinha uma freira na frente da sala entregar uma notificação para a criança. Isso é um constrangimento enorme. Aconteceu muitas vezes comigo. E com meus irmãos todos. Eles têm trauma disso até hoje. A vontade de não querer nunca mais fazer conta tem a ver com isso.”

A necessidade de “fazer conta”, de toda forma, não impediu que Yang tivesse aulas de piano desde a infância. O gosto pela música fez com que ele viesse a ser aluno, no fim da adolescência, de Sebastian Benda, pianista suíço radicado no Brasil que, nas palavras de Yang, “só dava aulas para alunos avançados”. Nessa mesma época, fez um curso de composição com Hans-Joachim Koellreutter, que havia sido professor de compositores como Guerra Peixe, Edino Krieger e Tom Jobim.

“O Koellreutter abriu um universo de reflexão para mim”, disse Yang. “Ele fazia analogias históricas, falava das correspondências entre a arquitetura e a música. Falava de física e de filosofia.”

Por exigência do pai, Yang chegou a cursar um ano de engenharia, na USP, mas logo em seguida se transferiu para a graduação em música. Lá conheceu Patrícia Vanzella, sua mulher. Ao final da faculdade, na segunda metade dos anos 80, os dois concorreram ao mestrado na prestigiosa Academia Superior de Música Franz Liszt, em Budapeste, capital da Hungria comunista. Patrícia foi aceita para o curso de piano; Yang, para o de composição.

Quase no fim do mestrado, Patrícia ficou grávida. Yang se angustiou com a perspectiva de sustentar a família, na Europa, trabalhando como músico. Do convívio com diplomatas, em Budapeste, veio o interesse pela possibilidade de integrar os quadros do Itamaraty. Além disso, a nova carreira tinha um atrativo a mais: o emprego vitalício.

Não demorou muito para que Yang, já no Ministério das Relações Exteriores, fosse designado para servir na China. Argumentaram que fazia sentido ele ir para Pequim, por causa de sua ascendência. Já tinha conhecimento do dialeto de Xangai, ouvido em casa, e aprendeu a falar também o mandarim. Diz ser capaz de se comunicar, em ambas as línguas, “como uma criança de 4 anos”.

No país, entusiasmou-se com o rápido processo de transformação por que passavam a sociedade e a economia chinesas, em meados dos anos 90. “Adoramos Pequim.”

Washington foi o posto seguinte de sua carreira diplomática. Nos Estados Unidos, já no segundo governo Fernando Henrique, foi designado para acompanhar, numa visita de trabalho, Roberto Giannetti da Fonseca, à época secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior, a Camex, ligada ao Ministério do Desenvolvimento.

“Qual não é a minha surpresa quando eu conheço, na viagem a Washington, um diplomata brasileiro descendente de primeira geração de chineses, que havia morado na China e falava mandarim”, recordou Giannetti da Fonseca, numa conversa em seu escritório. “Falei: é esse o cara.” Àquela altura, ele já visava “aprimorar” a relação comercial do Brasil com a China. “Os chineses ainda tinham uma participação pequena na pauta brasileira, mas já eram uma força emergente e, ao mesmo tempo, preocupante.”

Feito o convite para que trabalhasse na Camex, Yang não hesitou. Às sextas-feiras, ele e seu novo chefe despachavam no escritório do Ministério do Desenvolvimento em São Paulo. “Um dia eu estava lá quando me aparece, sem avisar, um amigo, o empresário Roberto Viana”, recordou Giannetti da Fonseca. “Eu estava muito atribulado, pedi para o Philip ir almoçar com ele.”

Roberto Viana, o empresário que impressionou Yang por entrar na sala de seu chefe sem bater, nasceu em 1958, em Timbaúba, zona da mata pernambucana. Formado em economia, estudou em Cambridge nos anos 80, na mesma época em que o economista e escritor Eduardo Giannetti da Fonseca, irmão de Roberto, fazia por lá seu doutorado.

Ao descreverem Yang, os irmãos Giannetti da Fonseca o contrapõem a Viana. “O Roberto é extrovertido e emocional. O Philip é ponderado, muito zen, dificilmente se emociona. A capacidade dele de se manter imperturbável em meio ao caos é muito marcante”, definiu Eduardo.

Viana voltou do Reino Unido em 1989, convidado a participar da elaboração do plano de governo e da campanha de Leonel Brizola à Presidência. Foi secretário de Infraestrutura em Pernambuco, retornou a Londres para trabalhar no mercado financeiro e lá se interessou pelo setor de petróleo e gás.

Voltou ao Brasil em 2001. Em outubro do mesmo ano, conheceu Philip Yang. O convite para que fizessem empreendimentos juntos surgiu já naquele primeiro encontro. “A gente brinca que esse é um almoço de 1 bilhão de dólares”, comentou, em seu escritório, Roberto Giannetti da Fonseca.

A entrada do prédio do MMPT, na rua Marconi, está sempre fechada. Por uma fresta na porta, o encarregado de turno na portaria procura saber o que o visitante deseja, antes de abri-la. O fluxo dos moradores também é controlado.

Ao lado do portão que dá para a rua há um cartaz branco, com pequenas fotografias 3×4 coladas sob a palavra “excluídos”, escrita em letra de fôrma. Eram cinco fotos, da primeira vez que visitei o prédio. Mais de 400 pessoas moram na ocupação. “As regras são rígidas”, explicou Manuel Moruzzi, o cineasta ítalo-brasileiro que se tornou uma espécie de gerente do edifício. “E têm de ser. Isso aqui é um campo de batalha, não é brincadeira.” Quem insiste em desobedecê-las deve sair.

É proibido beber dentro do prédio. “Se chegar bêbado, espera o efeito passar, do lado de fora”, ele disse. Não pode jogar lixo nas áreas comuns, nem pela janela. Não pode agredir nem ameaçar fisicamente ninguém. Não pode “ter preconceito”. “Xingou alguém de veado, está fora”, exemplificou Moruzzi.

“Todo o trabalho que a gente faz é para que as pessoas se reestruturem”, comentou Welita, numa manhã fria do inverno, enquanto oferecia café no seu dormitório.

Duas portas adiante, no mesmo andar, funciona uma espécie de quarto de hóspedes. Convidados podem passar alguns dias ali sem pagar. Manuel Moruzzi, que também tomava café, apontou para a porta, indicando o corredor, ao falar sobre Philip Yang. “Uma pessoa que vive com milhões a cada mês não tem como saber qual é a nossa realidade. A não ser que ele queira ficar no quarto aí ao lado. Eu faço a ele esse convite”, disse.

Na conversa que se seguiu, Moruzzi enumerou as críticas dos movimentos sociais à PPP proposta pelo governo do estado. “Se 80% do déficit habitacional está concentrado nas famílias que ganham até três salários mínimos, por que as unidades destinadas a essa faixa de renda representam menos de 30% do total?”, questionou.

O Urbem argumenta que é preciso misturar classes sociais, e não formar guetos para os mais pobres. Antonio Márcio Fernandes da Costa, consultor da Secretaria de Habitação, alega que um número maior de moradias para as faixas mais altas de renda é necessário para viabilizar a construção das que são destinadas aos mais pobres. “Tal como foi concebido o projeto, parte do lucro que o empreendedor tem com os imóveis mais caros é usada como um subsídio, e ajuda a pagar as unidades para quem ganha menos. Assim, diminui o total que o estado precisa repassar ao parceiro privado. Se você reduzisse o número de imóveis mais caros, você acabaria fazendo também um menor número de moradias de interesse social, mantida a mesma contribuição do estado.”

O projeto prevê ainda que 80% das vagas na PPP serão destinadas a quem hoje trabalha no Centro, mas não reside em nenhum dos bairros que sofrerão intervenções. “A prioridade máxima deveria ser para as pessoas que já moram no Centro, em más condições”, questionou Moruzzi. “O objetivo dessa PPP não é resolver todos os problemas de moradia da cidade, nem isso seria possível”, argumentou Fernandes da Costa. “Mas a Secretaria de Habitação já tem um compromisso com os movimentos sociais de fazer novos empreendimentos no Centro, para quem mora lá.”

Além do governo do estado e dos movimentos sociais, a iniciativa privada também está “voltando a sua atenção para bairros antigos” na região central da cidade. É o que diz João da Rocha-Lima Júnior, professor da Escola Politécnica da USP, especialista em mercado imobiliário.

A razão do interesse reside nos obstáculos cada vez maiores encontrados pelas grandes construtoras nos bairros tradicionais de classe média e média alta de São Paulo. Uma legislação que remonta aos anos 70 impõe limites de construção de até quatro vezes o tamanho dos terrenos nessas áreas. Com o tempo, tal estoque foi sendo consumido.

“A cidade de São Paulo tem cada vez menos terrenos adequados para continuar a atividade dos empreendedores”, disse Lima Júnior. “Se você considerar os bairros tradicionais, os lugares tradicionais para operar, os terrenos estão escasseando, e as dificuldades para construir estão cada vez maiores.”

É no Centro, esvaziado, que ainda podem ser encontrados os terrenos que interessam à construção civil e aos empreendimentos voltados para a classe média. Há, contudo, um entrave legal para a atuação privada ali, do ponto de vista das construtoras. O Plano Diretor da cidade de São Paulo elaborado em 2002 destinou áreas da região central, denominadas “Zeis” – Zonas Especiais de Interesse Social –, para fins de “recuperação urbanística” e construção de moradias populares. A legislação municipal prevê que pelo menos 40% de sua área construída deve ser ocupada por habitações de interesse social, para quem ganha até seis salários mínimos. O projeto do novo Plano Diretor da prefeitura eleva essa fatia para 50%.

“O problema é que a iniciativa privada não enxerga esse grupo de renda mais baixa como parte da demanda por imóveis”, afirmou Fernandes da Costa. Praticamente não há empreendimentos imobiliários voltados para esse grupo social. A PPP cria essa demanda, defende o consultor, ao oferecer subsídios para a compra dos apartamentos. Além de orientar a oferta de imóveis na cidade para as áreas de Zeis, antes subutilizadas.

A construção nas zonas especiais, com as garantias que o estado oferece, traz outros benefícios para a iniciativa privada. Nessas áreas, as empreiteiras podem construir prédios mais altos sem a necessidade de pagamento de taxas extras, cobradas em outras regiões da cidade. Os empresários conseguem, assim, diluir o preço da compra de um terreno em um número maior de apartamentos.

A isso se soma a possibilidade, que só o poder público tem, de determinar a desapropriação de terrenos por interesse social, para a construção de moradia popular. Até o fim de agosto cerca de 900 imóveis haviam sido listados com esse objetivo.

No caso da PPP, o governo emite os decretos indicando quais áreas poderão ser desapropriadas, mas confere ao parceiro privado a possibilidade de negociar com os donos dos imóveis o valor com que serão ressarcidos. Ao proprietário resta uma escolha de Sofia: enfrentar processos na Justiça ou fazer negócio com o empreendedor imobiliário. Governo e construtoras se associam para baratear e acelerar a transferência dos terrenos visados.

A fórmula não deixa de surpreender: Estado e iniciativa privada conceberam uma maneira de usar a legislação social, voltada às demandas dos grupos mais pobres, para garantir que empreendedores imobiliários ganhem dinheiro. O que era um “mico” virou uma vantagem. Ao fim e ao cabo, justificam, os mais carentes serão atendidos com a construção de moradias que o estado, sozinho, não seria capaz de prover.

“Isso vai vir de fato para o interesse público, para a população pobre? Essa é a nossa indagação em relação à PPP”, me disse a defensora Sabrina Nasser de Carvalho, do Núcleo de Habitação e Urbanismo da Defensoria Pública de São Paulo. Sabrina tem 31 anos e cabelos pretos compridos, que contrastam com a pele clara. Usa óculos retangulares, de armação vermelha. Fala com calma, sem se exaltar ou fazer discursos. Divide os trabalhos com Anaí Arantes Rodrigues, uma paulistana de 32 anos.

As duas defensoras chamaram a atenção para o fato de que existe um número determinado de Zeis. Apesar da flexibilidade para construção nessas áreas, há um limite físico para os benefícios oferecidos à construção de habitação social, traçado no mapa da cidade. O projeto ameaça consumir parte desse estoque com moradias para a classe média.

“O governo diz que, no futuro, vai fazer novos projetos, criar novas unidades de habitação de interesse social”, lembrou Anaí. “Bom, mas já está fazendo esse. Qual é a demanda? Se 80% dos que precisam estão nas faixas mais baixas de renda, então você está fazendo uma política pública que não está adequada à real demanda daquela população. Faz sentido, do ponto de vista do interesse público?”

Confrontada com o argumento do Urbem sobre a necessidade de evitar a criação de guetos e misturar classes sociais, Sabrina respondeu: “São áreas centrais. Dificilmente você vai criar um gueto ali. Ao contrário, você vai trazer uma população para uma área onde já tem transporte, infraestrutura, cultura. Você cria gueto é na periferia.”

No restaurante aos pés do Edifício Copan, Philip Yang disse que vivia um dilema. Vinha sendo procurado por grandes construtoras, interessadas em participar da licitação da PPP. Empresários o exortavam a tomar parte no negócio, associando-se a eles. Ele próprio considerava a ideia oportuna.

“As pessoas das construtoras me dizem: se isso é tão bom mesmo, põe o seu dinheiro aí.” Isso por um lado. Por outro, “a esquerda diz: você vai perder a sua credibilidade se entrar num investimento e começar a ganhar dinheiro com ele. Aí terá havido um conflito de interesses brutal.”

Yang se mostrou inclinado a participar do processo licitatório. “Se eu fizer esse investimento, é para dizer que confio no projeto. Para ajudar, para induzir e também para ter uma voz. Para garantir que o projeto vai ser bem-feito, tal como foi concebido.”

O arquiteto Milton Braga, atual curador do Urbem, não vê “um risco muito grande” de o projeto fugir às diretrizes idealizadas pelo instituto. “Tecnicamente, é uma aposta viável. O que existe é o risco, por falta de controle do poder público, de os concessionários optarem por fazer uma coisa ruim, para melhorar suas contas. Pegam vários terrenos, arrasam, cercam, enchem com várias torres lá dentro – todas iguaizinhas, para fazer economia de escala.”

A arquiteta Simone Gatti, especialista em Zeis, argumenta que já existe um instrumento legal para controlar a execução de um projeto como o proposto pelo governo: os conselhos gestores. A mesma legislação que permitiu ao estado e seus parceiros privados desenhar um modelo de negócio lucrativo nas Zeis exige que qualquer plano de urbanização nas zonas especiais “garanta a participação da população moradora em todas as etapas de planejamento e implementação das ações”. O modo de fazê-lo, também previsto na lei, é a instalação de conselhos compostos por representantes do poder público e da sociedade civil, entre eles moradores.

“A gente sabe que a velocidade do mercado imobiliário é uma coisa que ninguém segura”, comentou Simone. “Por isso você precisa ter mecanismos de controle social, que acompanhem essas intervenções. Para garantir que todas as faixas de renda vão ser atendidas, para que o plano de não ter muro, de não fazer gueto, que são diretrizes interessantes, seja cumprido. Se você não tem isso, o mercado toma conta e faz o que quiser. A experiência diz que é isso o que acontece.”

“Tem que ter conselho gestor e ponto”, declarou, em sua sala, no centro de São Paulo, a defensora Sabrina Nasser de Carvalho. O prego no caixão do Projeto Nova Luz, cujo perímetro abarcava uma área de Zeis, resultou de uma ação movida pela Defensoria Pública que questionava a falta de participação popular na elaboração de suas diretrizes. Embora um conselho gestor tenha sido criado para discuti-las, as propostas feitas pela sociedade civil, no conselho, teriam sido ignoradas na elaboração do empreendimento. No início deste ano, a Justiça deu ganho de causa à defensoria e determinou que o plano de intervenção do Nova Luz deveria ser refeito. O prefeito Fernando Haddad engavetou o projeto. Haviam se passado oito anos desde que a gestão de José Serra anunciara a intervenção urbanística como solução para a Cracolândia.

“Os conselhos gestores dificultam o processo de licitação, claro”, afirmou a arquiteta Simone Gatti. “Para a iniciativa privada, tempo é dinheiro. Esse tempo de debate desmonta a lógica deles, que têm pressa.”

Compete à prefeitura paulistana, controlada pelo Partido dos Trabalhadores, a instalação dos conselhos. A gestão de Fernando Haddad, no entanto, tem evitado o assunto. “Não houve nenhuma manifestação por parte deles, até agora”, disse Simone, no final do mês passado.

Desde maio, piauí tentou, sem sucesso, entrevistar o prefeito Fernando Haddad e o secretário de Desenvolvimento Urbano de São Paulo, Fernando de Mello Franco, sobre a PPP.

“Eles estão muito em cima do muro”, comentou a defensora Sabrina. “Eles não falam nada. Não sei se o município já tomou uma posição política e quer deixar o ônus com o estado, sobretudo em relação aos movimentos sociais, ou se de fato eles estão em dúvida sobre os instrumentos usados nesta PPP, como a desapropriação feita pela iniciativa privada. Realmente não sei.”

Ao lado da Radial Leste, no Brás, Philip Yang apontava para o casario decadente e descrevia o bulevar verde que surgiria ali. Poucos metros adiante, no mesmo quarteirão, um sujeito alto, aparentando ter por volta de 30 anos, usava um rolo de tinta preso a uma longa haste para pintar a fachada de um sobrado. Sua roupa estava salpicada de tinta, da gola da camisa listrada à barra da calça jeans. Declarou ser grafiteiro e se identificou apenas como Alexandre.

Com forte sotaque italianado, disse ter tido notícia de que a casa de seus pais, onde a família mora há trinta anos, seria desapropriada pelo estado “para fazerem conjuntos habitacionais”. “Os políticos vêm na Festa de São Vito, mas não fazem nada pela região”, reclamou.

A escolha dos imóveis a serem desapropriados foi feita com base num estudo de 2008 que identificava prédios e galpões subutilizados. A ideia era afetar o menor número possível de pessoas, argumentou o consultor Antonio Márcio Fernandes da Costa. O levantamento foi atualizado em 2011. Antes da emissão dos decretos permitindo a desapropriação, em junho deste ano, o Urbem estimava que 400 famílias teriam que ser removidas.

Desde julho, o lançamento do edital de licitação da PPP vinha sendo adiado. Em meados de agosto, Philip Yang parecia preocupado. Falou em “montanha-russa psicológica”. Insistiu no quanto o Urbem, que apostou na parceria público-privada, era importante para ele: “É onde me vejo. Sou eu lá.”

Em algum momento, pareceu relevante o risco de a parceria público-privada não sair do papel. No final do mês, o fundador do Urbem disse estar mais confiante. “Estamos recebendo sinais de que há interesse do setor privado”, afirmou. “O risco de inviabilidade diminuiu muito.”

Em junho, no Copan, eu já o havia questionado sobre a possibilidade de a PPP não vingar. O jantar tinha chegado ao fim, e o restaurante estava vazio. “Acho que atingiu um ponto de não retorno”, ele disse. “Mas tudo é possível, no Brasil. Só vou lamentar. Fiz isso com tamanha vontade, com tanto desapego…” Fez uma rápida pausa e retomou: “Se as cidades são expressões do que a sociedade quer, vou achar que a sociedade não está preparada nem mesmo para receber generosidade.”


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Jornalista, foi editor da piauí. Publicou Adeus, Senhor Portugal: Crise do Absolutismo e a Independência do Brasil (Companhia das Letras), em coautoria com Thales Zamberlan Pereira