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A CAVALO ALIADO NÃO SE OLHA O ENTE

Moro, Dallagnol, Filipe Barros e a façanha de falar sobre corrupção em um evento de pré-campanha ao lado de Flávio Bolsonaro
Dallagnol (ao microfone), Moro e Flávio Bolsonaro (sentados lado a lado) dividiram o palanque em evento em Curitiba - Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters
Dallagnol (ao microfone), Moro e Flávio Bolsonaro (sentados lado a lado) dividiram o palanque em evento em Curitiba - Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters

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Assim que o mestre de cerimônias o anunciou, com entonação e trejeitos de um locutor de rodeio, Flávio Bolsonaro (PL) deu dois passos à frente e acenou, sorridente. Enquanto um de seus jingles de campanha ecoava em ritmo de funk, o pré-candidato à Presidência da República balançava o corpo de forma contida, ao compasso da música. Realizado em Curitiba, na última sexta-feira (29), aquele era o primeiro evento oficial de pré-campanha de que Flávio participava, após terem vindo à tona indícios de seu enrosco com o escândalo do Banco Master. O filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) discursou por cerca de 15 minutos. Até mencionou, tangencialmente, o tema da corrupção. Mas não falou uma palavra sobre algo que pudesse aludir ao caso.

Às cerca de 4 mil pessoas que, segundo os organizadores, participavam do evento, o pré-candidato não justificou sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro – explicitada em uma reportagem do site The Intercept Brasil. Tampouco explicou o financiamento do filme Dark Horse, sobre a história de seu pai (Flávio confirmou que havia um acordo para Vorcaro transferir 134 milhões de reais à produção, dos quais 61 milhões teriam sido, efetivamente, repassados). Quando falou sobre corrupção, o 01 a atrelou ao governo de Lula (PT), seu oponente nas eleições presidenciais – a se confirmarem as pré-candidaturas.

“O Lula roubou a esperança do povo brasileiro, o Lula roubou a esperança dos nossos jovens. E foi o mesmo governo Lula que, agora, tá roubando os aposentados do INSS”, discursou Flávio. Tratava-se de uma alusão a um esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões de milhões de beneficiários do INSS. Segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), as fraudes começaram em 2019 (no governo Bolsonaro) e se estenderam até 2024 (na gestão de Lula), quando foram identificadas pela Polícia Federal (PF) e pela CGU.

Trajado com um colete à prova de balas, Flávio usava uma camiseta azul-marinho, em que se lia “Curitiba prendeu. Brasília soltou”. Mais que uma indireta à prisão de Lula no âmbito da Operação Lava Jato, a inscrição caía como um afago aos anfitriões da noite: o ex-juiz Sergio Moro (PL-PR) e o ex-procurador Deltan Dallagnol (Novo-PR), cujas pré-candidaturas eram lançadas naquela noite – respectivamente, ao governo do Paraná e ao Senado. Principais expoentes da “República de Curitiba”, ambos empunham com fervor a bandeira anticorrupção, mas também não esmiuçaram ou relativizaram as denúncias envolvendo Flávio e o banco de Daniel Vorcaro.

Descrito por Flávio como “uma pessoa que é símbolo do combate à corrupção, símbolo de seriedade”, Moro não se fez de rogado. Disse que ninguém lutou mais contra a corrupção no país do que ele próprio. Mencionou que, se eleito governador do Paraná, pretende criar uma agência de inteligência anticorrupção – “a primeira do país”. Apesar de nada dizer sobre o caso Master, Moro prometeu intransigência contra desvios futuros.

“Nós vamos fazer do Paraná uma terra livre da corrupção”, afirmou, com pausas intercaladas entre as palavras. E acrescentou: “Não vamos deixar roubar na administração pública. E se alguém for denunciado fazendo isso, vai ser punido, certamente. Não vamos fechar os olhos para os crimes de corrupção aqui no Paraná.”

Deputado federal cassado por burlar a Lei da Ficha Limpa, Dallagnol não deixou por menos. Jogou confetes sobre a Lava Jato, dizendo que, “pela primeira vez na história, nós botamos corruptos atrás das grades no Brasil”, mas reclamou que o “o sistema passou a nos perseguir”. Em seguida, o ex-procurador até mencionou o Master, mas sem entrar em detalhes. De forma enigmática, vinculou o esquema a petistas, levantando a ilação de que teriam sido protegidos por ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

“Nós cortamos uma cabeça de um monstro, mas, como uma hidra, surgiram duas novas cabeças: o caso Master e o INSS”, disse Dallagnol. “E como disse o Flávio Bolsonaro, nós queremos que tudo seja investigado. Sabe quem foi investigado? O Lula, o Zé Dirceu, o Eduardo Cunha, o Cabral… Todos eles foram blindados pelo Supremo Tribunal Federal”, completou, tentando inverter as denúncias.

Outro pré-candidato ao Senado lançado no evento, o deputado federal Filipe Barros (PL-PR) seguiu a mesma tônica. Rememorou os tempos áureos da Lava Jato e louvou o “combate à corrupção, que esse governo Lula destruiu”. Chegou a apontar para Lulinha – filho do presidente Lula – “enrolado no INSS”. E jogou para a plateia: “Na época da Lava Jato tínhamos a famosa República de Curitiba. Agora teremos a República do Paraná, onde petista não se cria, onde a corrupção não se cria”, bradou.

Barros não mencionou o caso Master, embora tivesse motivos de sobra para se explicar. Apesar de não aparecer até o momento nas investigações, ele é autor do Projeto de Lei 4.395/2024, que beneficiaria diretamente o banco de Vorcaro. Ele propunha aumentar o limite de garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) dos atuais 250 mil para 1 milhão de reais por investidor. A medida favoreceria o Master, porque o banco tinha uma estratégia agressiva focada na oferta de CDB com rentabilidade acima da média de mercado. Para atrair investidores, o Master dependia, justamente, da garantia do FGC para socorrer o banco em caso de liquidação. A proposta de Barros tem o mesmo teor que a chamada “Emenda Master”, articulada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI). Se aprovado, o PL teria potencial de colapsar o mercado financeiro.


Apesar de acuado pelas investigações, Flávio e sua tropa de choque não ficaram só na defensiva. O 01 partiu para o ataque utilizando seu principal trunfo: o fato de, no dia anterior – em 28 de maio –, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter enquadrado as facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. O 01 focou seu discurso na segurança pública, indicando que deve explorar o tema como tentativa de reverter o desgaste provocado pelo caso Master em sua imagem ao longo das últimas duas semanas. E o pré-candidato foi incisivo.

“Em dois dias como pré-candidato à Presidência da República, nós já fizemos mais do que Lula e o PT nos últimos vinte anos”, disse Flávio. “Enquanto ele foi lá, lamber a bota do Trump pra fazer lobby pra CV [Comando Vermelho] e PCC [Primeiro Comando da Capital], pra defender marginais, nós fomos lá pedir que eles fossem tratados como terroristas, que é o que eles são”, acrescentou.

O pré-candidato não parou por aí e sugeriu que Lula tenha envolvimento com o crime organizado. Ele mencionou o fato de o petista conseguir transitar “em paz” e sem escolta pelo Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em áreas dominadas por facções, “onde vários policiais militares já morreram trocando tiros com marginais”. “Das duas, uma: ou ele [Lula] faz parte dessas organizações narcoterroristas, ou ele tá sendo ameaçado por elas”, disse Flávio. (O pré-candidato nada disse sobre sua relação com seu velho aliado Rodrigo Bacellar (União), deputado estadual preso na Operação Unha e Carne. A PF classificou Bacellar como “liderança do núcleo político” do Comando Vermelho.

Seguindo na ofensiva, o 01 distinguiu dois modelos em disputa na disputa presidencial: “[Essa eleição] vai ser sobre qual caminho o Brasil vai querer seguir: se o caminho de um presidente que diz que um traficante é vítima de usuário, de um presidente que diz que tá tudo bem roubar um celular, que é só pra tomar uma cervejinha; ou o caminho da prosperidade, o caminho de punir bandido, de reduzir a maioridade penal, de tratar PCC como terroristas.” Ele encerrou seu discurso ecoando o velho slogan de seu pai – “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” – e deixou o palco ao som de seu tema de campanha, a multidão o ovacionou.

Dallagnol, Barros e Moro engrossaram o coro e destinaram boa parte de seus discursos para abordar a segurança pública. Como um movimento combinado, todos disseram que Flávio já fez mais pela segurança do que Lula, aludindo à interlocução do pré-candidato para que Trump equiparasse as facções a organizações terroristas. “Alguém aqui ficou triste por isso? Alguém defende terrorista?”, perguntou Moro, retoricamente. “O Lula defende, ficou triste”, respondeu.

Moro também falou sobre o breve período em que foi ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Jair Bolsonaro. Disse que sempre enfatizou ao então presidente a necessidade de combater o crime organizado. O pré-candidato, no entanto, não mencionou os motivos que o fizeram abandonar o governo em abril de 2020 – menos de um ano e cinco meses após o início. Na ocasião, Moro alegou que Bolsonaro tentou interferir no comando da PF. Disse que o presidente queria trocar o comando da instituição para ter acesso a informações e relatórios de investigações sobre familiares e aliados. “O presidente me disse mais de uma vez, expressamente, que queria ter uma pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse ligar, que ele pudesse colher informações, que ele pudesse colher relatórios de inteligência, seja o diretor, seja superintendente… E, realmente, não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação”, disse Moro, no pronunciamento de sua exoneração.


Com o fim do ato, do lado de fora da porta dos fundos do salão, improvisou-se uma tumultuada e breve entrevista coletiva. Como as duas primeiras perguntas foram brandas – sobre o evento em si –, alguns repórteres passaram a gritar a Flávio perguntas como: “E o Vorcaro? E a prestação de contas do filme?” Referiam-se aos áudios e trocas de mensagens vazados pelo The Intercept, que sugerem uma relação de proximidade fraternal entre Vorcaro e Flávio. Na época da publicação, o 01 chegou a negar envolvimento com Vorcaro, mas, ante as provas, mudou sua versão, afirmando que havia um acordo de financiamento de Dark Horse. O contrato e a prestação de contas nunca foram apresentados.

Na expectativa de serem ouvidos, repórteres também passaram a questionar aos gritos se o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, havia mentido. Em entrevista à GloboNews, Costa Neto tinha afirmado que Flávio visitou Vorcaro em dezembro de 2025 para “ver se conseguia o restante do dinheiro” para o financiamento de Dark Horse. Na ocasião da visita, o banqueiro já havia sido preso pela primeira vez e era monitorado com tornozeleira eletrônica.

Com a insistência das perguntas, Flávio não se explicou, mas partiu para o ataque mais uma vez. “Eu acho que a gente tem que procurar saber cadê o Lulinha, que o Lulinha sumiu por aí. Ninguém sabe onde ele está, acusado de receber mensalinho do careca do INSS”, tergiversou. E insistiu: “O Lula tem muito a explicar, ainda, das reuniões secretas que ele fazia, inclusive não só com o Vorcaro, mas também com Augusto Lima, que ninguém falou nada, que lá começou na Bahia com esse esquema todo.”

Como os questionamentos relacionados ao Master continuaram, Moro, que estava ao lado de Flávio, interveio, com o semblante fechado. “Nós estamos juntos combatendo o governo mais corrupto da história do país, que fez ao Brasil o Mensalão, trouxe o Petrolão, é o responsável pelo escândalo do Banco Master e da roubalheira do INSS. Aliás, o Lula trocou o delegado da Polícia Federal responsável pela investigação. E hoje o Lula fez o impensável: ele defendeu terroristas.”

Como repórteres apontaram que a pergunta não era aquela, Moro e Flávio insistiram mais alguns segundos no tema da segurança pública, antes de interromperem definitivamente a entrevista – que durou cerca de três minutos e meio. Escoltados por seguranças, cada um enfiou-se em um carro e deixou o local por uma saída alternativa, pelos fundos, enquanto alguns dos militantes verde-amarelos ainda aguardavam em frente ao prédio, na expectativa de ver seus ídolos.


Para o público, o caso Master parecia pouco importar. Por um instante, o evento na capital paranaense reviveu os tempos de República de Curitiba. Havia vendedores de bandeiras do Brasil, camisetas e adereços verde-amarelos. Entre os carros que estacionavam no entorno, muitos tinham adesivos com frases como “Eu apoio a Lava Jato” e “República de Curitiba: aqui se cumpre a lei”. Logo chegaram ônibus de diversas regiões do Paraná, inclusive de Maringá, cidade natal de Moro, que fica a 420 km da capital paranaense.

De fora, já era possível ver que o prédio também havia sido decorado para a ocasião. Pontos de iluminação verticais projetavam fechos em verde e amarelo ao longo das paredes. Por dentro, além das luzes, colunas de bexigas também caracterizavam o espaço com as cores patriotas. Sob blusas e jaquetas dos militantes, prevaleciam camisetas com slogans ou alusivos a grupos específicos, como o Acorda Brasil e Tias do Zap. Algumas peças pareciam ter sido tiradas do guarda-roupas depois de tempos sem uso, como as com a silhueta do rosto de Moro (usadas na época da Lava Jato) e camisetas da campanha de Bolsonaro de 2018. Em um canto, havia fotos de Bolsonaro e de Flávio impressas em tamanho real. Poucos partidários, no entanto, se animaram a posar ao lado dos políticos de papelão.

Ao fim do evento, a empresária curitibana Patrícia Carneiro, de 50 anos, manifestava empolgação. “É claro que Flávio é o melhor”, dizia, convicta. Apesar disso, ela prevê uma eleição difícil. “No Paraná, ele é bem forte, com certeza. Mas o problema é no Nordeste. Infelizmente, as pessoas de classe baixa não têm tanta consciência”, aponta. Quando perguntada se não se importou com o fato de Flávio não ter se explicado sobre seu envolvimento com o caso Master, Carneiro saiu-se com essa: “Mas e o Lula? O que ele está fazendo?”

Um homem que não quis se identificar – “por não confiar em nenhum repórter” – recorreu aos argumentos que Flávio havia lançado para justificar suas relações com Vorcaro. “Ele pediu dinheiro para fazer o filme do pai. E daí? Qual o problema?”, questionou o militante, que usava uma camiseta amarela estampada com uma foto de Bolsonaro. “Vocês [da imprensa] podem falar o que quiserem. A gente sabe que a corrupção está do lado deles. A gente é da República de Curitiba e aqui bandido não se cria”, finalizou.


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É jornalista radicado em Curitiba. Autor do livro Waltel Branco - O maestro oculto (Banquinho Publicações)