fabulações da transparência

FLÁVIO, O HOMEM DO POÇO

Em menos de uma semana, a versão do filho de Bolsonaro caiu peça por peça
Flávio quis fazer crer que, em pleno novembro de 2025, era o único político de Brasília desinformado sobre as falcatruas do Master - Crédito: Eduardo Anizelli/Folhapress
Flávio quis fazer crer que, em pleno novembro de 2025, era o único político de Brasília desinformado sobre as falcatruas do Master - Crédito: Eduardo Anizelli/Folhapress

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As versões de Flávio Bolsonaro sobre suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro caem pelo chão como folhas secas. De início, Flávio ridicularizou e ironizou o repórter que lhe perguntou, na tarde do dia 13 de maio, por que o banqueiro havia sido procurado para financiar a cinebiografia de seu pai. No mesmo dia, com a revelação do site Intercept Brasil, ele próprio era exposto ao ridículo. Teve que admitir que havia, sim, procurado o banqueiro para lhe pedir dinheiro. Mas fez uma ressalva: não sabia, àquela altura, que Daniel Vorcaro estava metido em fraudes.

Era uma mentira de origem. Em outubro de 2024, portanto quatro meses antes de Flávio pedir dinheiro ao banqueiro pela primeira vez, a piauí havia publicado uma longa reportagem sob o título Alta tensão, que trazia o seguinte subtítulo: “Em cinco anos, Daniel Vorcaro multiplicou o tamanho do Banco Master, com negócios de risco e parceiros explosivos. Até onde ele vai?” O texto contava as graves suspeitas em torno da atuação do banqueiro. Flávio sempre poderá dizer que não lê a piauí, mas isso não seria o suficiente para encobrir toda a mentira.

As conversas reveladas pelo Intercept Brasil, afinal, mostram que o candidato do bolsonarismo manteve contato com Vorcaro ao longo de 2025, quando o desmanche do Master não era mais hipotético – acontecia em praça pública. O áudio em que Flávio chama o banqueiro de “meu irmão” foi enviado em 8 de setembro daquele ano. Dias antes, em 3 de setembro, o Banco Central havia reprovado a compra do Master pelo BRB, constatando que o banco de Vorcaro não tinha solidez. O risco de calote aos credores do Master já era amplamente conhecido. Assim como era conhecido o esforço de próceres do Centrão e da direita para, apesar disso, forçar o Master goela abaixo do BRB, salvando Vorcaro da bancarrota. O próprio Flávio, na mensagem de voz, reconheceu o “momento dificílimo” vivido pelo banqueiro.

Nos meses seguintes, a situação se agravou ainda mais, mas Flávio pareceu não se importar. Em 16 de novembro, escreveu para Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!” No dia 17, o banqueiro foi preso pela Polícia Federal enquanto tentava fugir de jatinho para Malta. No dia 18, o Master foi finalmente liquidado pelo Banco Central.

A mentira de Flávio ficou ainda mais escancarada nesta terça-feira (19). O site Metrópoles revelou que o senador visitou Vorcaro em sua casa em São Paulo no final de 2025, quando o banqueiro, depois de passar doze dias na cadeia, havia ido para prisão domiciliar vestindo tornozeleira eletrônica. Flávio, que havia omitido o encontro até então, se viu forçado a confirmá-lo. Em um pronunciamento à imprensa (dessa vez, sem direito a perguntas de jornalistas), disse que visitou Vorcaro para “botar um ponto final” nas conversas sobre o financiamento do filme e “dizer que, se ele [Vorcaro] tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo”. Flávio quer fazer crer que, em novembro de 2025, era o único político de Brasília desinformado sobre as falcatruas do Master.

Flávio mentiu sobre o financiamento do filme e mentiu sobre o desconhecimento a respeito da biografia do banqueiro. Mas mentiu também sobre outras coisas. Disse que, nas suas conversas com Vorcaro, tratou de dinheiro privado, apenas dinheiro privado – dando a entender, com isso, que nada nessa história envolvia dinheiro público. Agora se sabe que Flávio tinha conhecimento das fraudes do banqueiro, tanto que o visitou quando usava tornozeleira. Portanto, é evidente que sabia que Vorcaro vinha arrebanhando dinheiro público para aplicar nas suas fraudes. Uma fonte de dinheiro público era a Rioprevidência, do amigo e correligionário Cláudio Castro (PL-RJ), que depositou 1 bilhão de reais dos aposentados nas fraudes do Master. Flávio também sabia da tentativa de compra do Master pelo BRB – uma transação que, se não tivesse sido barrada pelo Banco Central, poderia abrir um rombo no banco estatal de Brasília.

Com suas mentiras em série, Flávio tentou enquadrar sua relação com Vorcaro do seguinte modo: procurou um banqueiro que, até onde sabia, era inocente e correto, e limitou-se a pedir a ele uma contribuição privada para o filme do pai. Essa versão edulcorada desabou, peça por peça, em menos de uma semana. Na verdade, Flávio procurou um banqueiro sabendo que ele estava envolvido em megafraudes, inclusive com dinheiro público, pediu a ele uma verdadeira fortuna (134 milhões de reais) para bancar um filme – sem que se tenha até agora evidência de que o dinheiro chegou a esse filme –, cobrou repetidas vezes que o repasse fosse feito e até esteve em sua casa. O fundo do poço de Flávio Bolsonaro parece ser sempre mais fundo.


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Editor do site da piauí. Foi repórter da revista em Brasília e diretor do podcast Foro de Teresina