festival piauí de jornalismo
Camille Lichotti 05 Set 2026
4 min de leitura
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Nas primeiras horas de 3 de janeiro de 2026, Luz Mely Reyes recebeu a notícia por meio de seu filho. “Estão bombardeando Caracas.” Exilada em Austin, nos Estados Unidos, a jornalista venezuelana, diretora e cofundadora do site Efecto Cocuyo, rapidamente mobilizou um grupo de jornalistas veteranos – alguns exilados, como ela, outros ainda na Venezuela. Cada integrante da redação virtual passou a verificar as informações enviadas por quem estava em Caracas. Os relatos incluíam drones lançando mísseis, prédios destruídos, pânico nas ruas. Um vídeo mostrava helicópteros sobrevoando a cidade – e, com auxílio dos colegas, Reyes confirmou que as aeronaves não eram venezuelanas.
“Uma das jornalistas me disse: ‘Precisamos entrar no ar agora’”, lembra Reyes. E assim teve início uma transmissão online que durou mais de 10 horas. Somente os jornalistas exilados apareceram diante das câmeras, para preservar a identidade daqueles que ainda vivem no país. A certa altura, um jornalista da equipe se deparou com o tuíte em que Donald Trump anunciou a captura de Nicolás Maduro. “Ele começou a ler no ar e ficou emocionado, não acreditou. Então li a notícia por ele. Nós demos em primeira mão.”
Desde então, a Venezuela vive em compasso de espera, como relatou Reyes ao participar, neste sábado (5), da primeira mesa do Festival piauí de Jornalismo. O evento, que chegou a sua décima edição, acontece na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, com o tema No olho do furacão – diretores de redação em tempos de tormenta. Com programação também neste domingo (6), o festival reúne oito jornalistas de sete países para sobre a experiência de comandar veículos importantes em momentos incandescentes do noticiário.
O Efecto Cocuyo foi criado em 2015, numa parceria de Reyes com as jornalistas Laura Weffer e Josefina Ruggiero. O financiamento do site se dá principalmente por meio de doações e editais públicos. Por sua cobertura crítica do governo Maduro, o Efecto Cocuyo foi bloqueado na Venezuela. Quem vive no país só pode acessá-lo por meio de VPN. Não se trata de uma exceção: o regime chavista nos últimos anos cassou a licença de dezenas de veículos de imprensa. Como Reyes, ao menos 470 jornalistas vivem hoje exilados. O quadro não mudou substancialmente desde que Delcy Rodríguez assumiu o poder.
Reyes contou que, apesar dos riscos à sua segurança, viajou recentemente à Venezuela para conferir, in loco, a situação do país. “Foi uma necessidade forte que senti”, disse na conversa com o editor da piauí Guilherme Henrique e com Flávia Marreiro, diretora do escritório da BBC Brasil em São Paulo. O país que encontrou, disse Reyes, é repleto de filhos sem pais, e avós sem filhos. “A faixa etária média foi embora do país.” A esperança da população por uma transição democrática, segundo ela, vem diminuindo a cada mês. “No 3 de janeiro havia pessoas exultantes [com a queda de Maduro]. Mas não demorou até perceberem que o avanço rumo à democracia não estava na agenda de Donald Trump.”
Sob Delcy Rodríguez, a repressão a veículos de imprensa continua sendo uma prática de governo, ainda que a situação tenha distensionado desde a captura de Maduro. “Os jornalistas não podem fazer perguntas diretas aos ministros e funcionários porque eles não respondem”, ela relatou. Reyes diz que ainda não vê condições de voltar a morar no país.
Em sua viagem à Venezuela, que durou 21 dias, a jornalista observou a destruição causada pelo terremoto que já matou mais de 6 mil pessoas. Numa região litorânea próxima a Caracas, 180 prédios de moradia social, que eram um dos símbolos do governo Chávez, foram destruídos, deixando milhares de pessoas desalojadas. Um acontecimento simbólico, a seu ver. “A imagem que isso me deu foi: Hugo Chávez morreu. O chavismo, como proposta, morreu.”
Hoje, segundo a jornalista, o que existe na Venezuela é o “rodrigato” – isto é, o regime de poder liderado por Delcy e seu irmão Jorge Rodríguez, que preside a Assembleia Nacional. “Eles são a esquerda caviar. Cresceram com boa educação e com bens. Têm um olhar que não vem dos movimentos populares, e entendem bem como lidar com o poder e a corrupção – e não só a venezuelana”, disse Reyes. Em defesa da revolução bolivariana restou apenas Diosdado Cabello, o antigo braço direito de Maduro que hoje é ministro do Interior, Justiça e Paz.
Reyes ressaltou que, embora Maduro fosse o maior obstáculo à democracia na Venezuela, ninguém deve se iludir com os planos de Trump. “Existe uma força imperial ocupando meu país, e essa presença vai se tornar cada vez mais física nos próximos anos”, disse a jornalista. “Não é só tutela. É exercício de força.” Em sua avaliação, a localização da Venezuela é estratégica para o governo americano, que sob Trump tem feito investidas militares na região do Caribe. “A Venezuela, hoje, está rumando para sofrer uma ocupação territorial”.