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A IMPRENSA UNIDA É MAIS FORTE

Ex-editor do The Guardian Alan Rusbridger defende a importância crucial de veículos midiáticos colaborarem entre si
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Na segunda mesa do 10º Festival Piauí de Jornalismo, Celso Rocha de Barros (piauí) e a jornalista Natalia Viana (Agência Pública) mediaram uma conversa com o jornalista britânico Alan Rusbridger, ex-editor do The Guardian e atual membro do Oversight Board – um comitê de supervisão independente para as redes sociais da Meta, analisando e emitindo recomendações sobre quais conteúdos devem ser mantidos ou removidos do Facebook, Instagram e Threads.

Um dos temas abordados por Rocha de Barros foi a influência das big techs na política externa atual do governo americano sob Donald Trump. Argumentando que as tarifas de comércio aplicadas ao Brasil e a outros países servem como instrumento de pressão para desregular o setor em favor das gigantes tecnológicas americanas, perguntou a Rusbridger que medidas a Oversight Board tem tomado para impedir interferências indevidas no ambiente das eleições brasileiras.

“No comitê, temos abordado a pressão exercida pelos governos e pelas big techs. E a relação entre governos e big techs. As big techs precisam agir sob o escrutínio das legislações locais” Rusbridger respondeu. Sem especificar que medidas concretas o comitê tinha tomado nesse sentido, o ex-editor do The Guardian ressaltou a necessidade de os veículos de imprensa serem mais colaborativos entre si num momento desafiador. “As empresas de mídia precisam se juntar e apresentar uma frente unida. Fazer uma cobertura agressiva, e discutir os termos dessas relações.” A jornalista Natalia Viana também questionou Rusbridger sobre os impactos tangíveis do conselho na atuação da Meta. Rusbridger admitiu que o efeito do comitê é limitado, mas defendeu a necessidade desse tipo de instituição. “É indesejável que os governos regulem os conteúdos do que é permitido ou não nas redes. Assim como é indesejável que Zuckerberg ou Musk sejam esses árbitros. Por isso é importante o trabalho da Oversight Board que junta editores, advogados, juízes, gente da academia, professores, ativistas de direitos humanos, ajudando a Meta a formular que tipo de discurso é válido ou não.”



O foco de Rusbridger no jornalismo colaborativo vem de longa data. Um dos grandes marcos de sua gestão no The Guardian foram as denúncias do analista de sistema Edward Snowden contra o governo americano. Publicadas em 5 de junho de 2013 e corroboradas por 1,7 milhão de documentos, elas revelavam a extensão e a densidade da rede de monitoramento de dados e invasão de privacidade montada pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos contra cidadãos comuns americanos. Para Rusbridger, essas revelações têm um peso histórico incalculável. A partir delas, passamos a compreender melhor a real dimensão do poder de vigilância global em massa do governo americano em parceria com as grandes empresas tecnológicas.

 “O que fizemos na época nunca havia sido feito antes. Foi um ato inédito uma organização de mídia trabalhar com milhões de documentos sensíveis e confidenciais que precisavam de um cuidado imenso. [...] Meu interesse maior naquilo foram as parcerias com outros veículos. Cinco jornais poderiam processar melhor aquela quantidade imensa de informações do que sozinhos. [...] Hoje, já é normal lidar com tantos dados e tecnologias nas redações, mas naquela época era completamente novo.”

A publicação das denúncias colocou o jornal em confronto com o governo britânico.  “Tecnicamente, jornalisticamente, moralmente, judicialmente era um embate para o qual a gente não estava preparado.” Comparando o caso de Snowden com o de Julian Assange – o ativista e hacker responsável pelos vazamentos do Wikileaks, que revelou centenas de milhares de documentos militares americanos e cabos diplomáticos sensíveis – Rusbridger traçou algumas diferenças:

“O Estado britânico no caso do Assange ficou na dele. No caso do Snowden, eles disseram: vocês têm que parar. E não cabe ao Estado dizer pra um editor quando parar”, disse Rusbridger.  “Uma semana disseram: agora você vai parar, se não parar, vamos fazer você parar. Eu sabia que esse momento viria.” Sob pressão e supervisão de agentes de inteligência britânica, Rusbridger autorizou a destruição dos discos rígidos que guardavam cópias dos documentos na redação (àquela altura, o material já havia sido duplicado e parte da operação transferida para os Estados Unidos e o Brasil). Os pedaços dos computadores – destruídos então por uma esmerilhadeira – foram expostos noVictoria & Albert Museum, de Londres, em 2015.

O episódio se tornou um dos casos mais conhecidos de embates entre imprensa e Estado na era digital, e manifesta um dos temas mais caros a Rusbridger: a relação entre jornalismo, poder e confiança pública. Ele é um defensor do chamado “jornalismo aberto”, segundo o qual os veículos devem expor suas evidências, dialogar com os leitores e reconhecer publicamente seus erros. A ideia foi desenvolvida no seu livro News and How to Use It (“As notícias em como usá-las”, em tradução livre), publicado em 2020, num momento em que a confiança de parte do público com a imprensa estava abalada. O britânico reconheceu que o jornalismo passa por um período de descrença por parte das pessoas e defende o fortalecimento das empresas de jornalismo para enfrentar o poder.

“As empresas precisam defender os repórteres. Quando você enfrenta gente do mal e com dinheiro sujo, é importante ter uma grande instituição, uma empresa por trás para te apoiar. A força institucional de uma empresa de mídia não pode ser subestimada.”


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Repórter da piauí e roteirista de cinema