anais da música

A REALIDADE É UMA VERDADEIRA ALUCINAÇÃO

Por que o disco mais famoso de Belchior, lançado há 50 anos, ainda soa atual
Alucinação, de Belchior, é reflete desilusão política, comportamental e libertária dos anos 1970 - Cicero O. Neto/Folhapress
Alucinação, de Belchior, é reflete desilusão política, comportamental e libertária dos anos 1970 - Cicero O. Neto/Folhapress

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O disco Alucinação é para ser ouvido inteiro, de cabo a rabo. A ordem das músicas constrói um roteiro elaborado e cria um contexto maior. Os arranjos, pensados de forma a construir uma unidade narrativa, ajudam a criar uma atmosfera que permeia todo o disco. Uma experiência completa.

Tudo isso contribui para que o ouvinte embarque numa viagem pela desilusão política, comportamental e libertária que acometeu a geração dos anos 1970 e que ecoa em ondas até hoje. O discurso, coeso, é encadeado faixa a faixa, desde a primeira até a décima.

De cara, em Apenas um Rapaz Latino-Americano (faixa 1), Belchior se apresenta: este disco é narrado a partir do ponto de vista de um cidadão periférico, empurrado para a metrópole. O migrante ganha uma expressão maior: é todo aquele que chega a um lugar que não reconhece como familiar. E enfrenta um mundo grande e impessoal. Belchior constrói um personagem deslocado, que não se adequa ao seu tempo e ao seu lugar. Um personagem que vai narrar tudo que vem a seguir.

Na canção seguinte, Velha roupa colorida, sua utopia é apresentada. Belchior escreve sobre “uma nova mudança” que “vai acontecer”. É o espírito de mudança que caracterizou os anos 1960 e consolidou novas formas coletivas de construir a sociedade: os beatniks, os hippies, o mundo pop, o rock’n’roll, a injeção de juventude. A crônica aqui passa, aos poucos, do pessoal para o geral.

O choque de realidade vem logo com a antológica Como nossos pais, que mostra, de maneira realista e dolorosa, que a utopia não aconteceu. E aponta alguns dilemas complexos. Contrapõe os sonhos juvenis com o pragmatismo da vida adulta: a necessidade de enriquecer e a dificuldade de lidar com dinheiro, de competir, de criar os filhos.

Belchior acusa o tiro, mas não a morte definitiva da utopia em Sujeito de sorte: “Ano passado eu morri/mas esse ano eu não morro.” Aqui o espírito coletivo começa a se erguer novamente após a profunda desilusão. A busca do prazer pessoal, o vigor juvenil, sexual, o renascimento de uma juventude nos anos 1970. Está posta a dinâmica que vai ser a alma do disco: aquele personagem deslocado descreve o embate entre os sonhadores e os conservadores. Entre o jovem e o velho.

Em Como o diabo gosta, o espírito jovem de “sempre desobedecer, nunca reverenciar” é potencializado. Um sentimento de renovação constante de criação de novas utopias. Questionamentos das regras mais amplas, comportamentais, religiosas, sociais.

A faixa seguinte, Alucinação, é uma espécie de decantação de uma utopia coletiva para valores mais terrenos: “Amar e mudar as coisas me interessa mais.” Tudo a partir de uma visão mais pragmática do cotidiano: os humilhados do parque, um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha, a solidão das pessoas das capitais.

Em “Não leve flores”, Belchior faz a síntese do embate entre o velho e o novo. Primeiro, narra o enterro da utopia coletiva. Venceu o vil metal, venceu o establishment, a gravata, a correção, a tradição. Os jovens entram no mercado de trabalho, ingressam na vida adulta. Aderem ao senso de profissionalismo. Cabelos começam a ser podados. Mas a esperança resiste, pois “as lágrimas dos jovens são fortes como um segredo, podem fazer renascer um mal antigo”.

Belchior descreve A palo seco como uma música “para depois do sonho”. Com o título inspirado em João Cabral de Melo Neto, ele marca o fim de um ciclo. O fim dos sonhos da geração forjada pela utopia de 1968 é narrado de forma contundente: “Se você vier me perguntar por onde andei/No tempo em que você sonhava/De olhos abertos, lhe direi/Amigo, eu me desesperava” e termina rascante em “Eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês”.

O arco narrativo do disco então se volta para Belchior novamente. A música Fotografia 3x4 é autobiográfica. Termina a viagem do rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco. Transformado pela desilusão de um sonho coletivo frustrado, marcado pela chegada à vida adulta. O tempo, implacável, que embrutece os ideais juvenis. A pobreza brasileira, latino-americana, escancarada, insolúvel, são a marca mais evidente do fracasso dessa utopia. A falta de amor, de empatia. Versos finais são ditos diretamente para o espectador: “Eu sou como você.”

A última música, Antes do fim, funciona como uma despedida:

Quero desejar, antes do fim,
pra mim e os meus amigos,
muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais.

Nos bastidores do Hollywood Rock, em 1990, Gilberto Gil apresentou Belchior a Bob Dylan: “Esse é o Dylan brasileiro”, disse. E Dylan, generoso, respondeu: “Talvez eu seja sua versão americana.”

A alusão a Bob Dylan tem fundamento. Os dois são frequentemente apontados como cronistas de uma juventude que quis mudar o mundo. Mas essa é uma descrição limitada. As músicas de ambos têm uma força poética capaz de embaralhar as fronteiras entre passado e futuro. Suas obras ganham novos significados ao longo do tempo. Parecem aumentar sua importância.


A celebração latino-americana é o ponto central da música que abre o disco Alucinação. Uma celebração do poder de renovação de países que resistem à enorme influência dos Estados Unidos. Além do cinema, do rock, dos chicletes e das calças jeans, os norte-americanos apoiaram ditaduras militares em vários países nas décadas de 1960 e 1970. Belchior cria uma teia de ideias que enchem o rapaz latino-americano de significados. Segue um trecho da entrevista que ele deu a Ricardo Guilherme no programa Caminhos da Cultura”, da Rádio Universitária, do Ceará, em 1983:

Essa afirmação enfática de ser um latino-americano, portanto uma pessoa na esquina do mundo, uma pessoa do Terceiro Mundo, uma pessoa na expectativa, uma pessoa, assim, dependente economicamente do resto do mundo, mas com uma capacidade enorme de desdobramento vital, de resistência, de rebeldia, de espírito, de novidade, de transformação, de poder novo, enfim. Então assumir o fato de sermos latino-americanos, sendo brasileiros, sendo cearenses, sendo de Sobral, é justamente você participar da fraternidade latino-americana e isso diz muito de perto, diz respeito ao que eu falo em muitas outras músicas: esse sentido de desinsular a cultura, de fazer com que a cultura seja penetrante, troque energias com todos os espaços.

Ao mesmo tempo que faz uma crônica do jovem brasileiro na periferia no mundo, Belchior também acrescenta uma série de elementos autobiográficos na canção.

Nascido na cidade de Sobral, no Ceará, em 1946, Antonio Carlos Belchior veio de uma família numerosa. Seus pais não eram ricos, mas tinham curiosidade pelas artes e condição de investir na educação dos filhos. Da infância e adolescência, Belchior guardou o gosto pela música, pela poesia, pela literatura e pela religião.

Muito cedo, ele também se apaixonou pelos livros. Decorou versos de Baudelaire, Rimbaud, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto. Sua juventude foi cercada pelo instinto da novidade. Seu avô paterno era dono de uma bodega que servia como ponto de encontro na cidade. Era o local onde a população ia ouvir notícias, fazer compras e deixar recados. O avô foi uma figura marcante na sua formação artística. Belchior o via como uma espécie de coronel. Em algumas entrevistas, definiu a casa do avô como “um pouso de cigano”. Por lá, passaram muitos cantadores que ficaram gravados em sua memória.

Seu pai, Otávio Belchior, era uma figura importante em Sobral e exerceu as profissões de delegado e juiz. Sua mãe, Dolores Gomes Fontenelle Fernandes, cantava no coro da igreja, o que levou Belchior a decorar algumas canções religiosas que nunca esqueceu. A figura de Padre Cícero era muito presente em sua cidade. Sobre a religiosidade que marcou seus primeiros anos, Belchior falou ao programa MPB Especial, da TV Cultura:

Todo nordestino é muito influenciado pela igreja. A igreja influenciou tudo. Ela influenciou também o sentimento estético do povo. Então, as pessoas identificam o sublime com o religioso, identificam o lírico com o religioso, identificam a música com o religioso. E também identificam a Verdade, a Verdade Final, eles identificam com a Igreja. Então a Igreja marca ainda hoje no Nordeste, todo o messianismo marca o Nordeste: a esperança do outro mundo, a esperança do paraíso. E isso não deixou de influenciar também a minha música. Eu cantei muito tempo em igreja. Então isso me influenciou muito. Essa coisa de salmo é somente o canto. O canto vocal é coisa de procissão, coisa de novena, essa coisa toda de festa religiosa em que todo mundo canta.

Nem todas as casas tinham aparelhos de rádios, e os ventos de Sobral sopravam as músicas pelos sistemas de alto-falantes. Algo muito comum nas cidades interioranas brasileiras na primeira metade do século XX. Além de Belchior, Gilberto Gil também se lembrou dos primeiros contatos com a música pelo serviço de alto-falantes em Ituaçu, no interior da Bahia, onde passou a infância. O repertório musical era variado: Luiz Gonzaga, Paul Anka, Billie Holiday, Jackson do Pandeiro.

Aos poucos, Belchior começava a impressionar os colegas de colégio com seus conhecimentos sobre a Bíblia, literatura e música. Alternava momentos de introspecção, estudo e leituras densas com momentos de rebeldia. No Colégio Estadual Liceu do Ceará, formou um grupo de amigos que estimulava seus dotes culturais e criativos. A amizade mais proeminente foi com Fausto Nilo, que se tornaria um compositor importante no futuro e parceiro de algumas de suas canções.

Para surpresa de muitos, em 1964, aos 18 anos, Belchior se recolheu no Mosteiro dos Capuchinhos, em Guaramiranga, no interior do Ceará. O claustro durou três anos. Conviveu com frades italianos, vivia longos períodos de meditação e silêncio. Afastado do mundo, aproveitou o período para estudar italiano, latim e canto gregoriano.

Os mundos interiores de Belchior eram riquíssimos e seguiam órbitas de colisão. A província e a visão cosmopolita. A religiosidade e o gozo. Havia um sentido de transcendência que unia a literatura e a Bíblia na esperança de encontrar resposta para as grandes perguntas. O que conectava tudo isso era uma busca exigente por aperfeiçoamento.

Em 1966, em mais uma mudança brusca, passou em primeiro lugar para a Faculdade de Medicina. Quando saiu do retiro religioso, Belchior foi sacudido por uma Fortaleza efervescente: cineclubes, exposições artísticas e uma cena musical bastante fértil e original. Em entrevista ao apresentador Miele, em 2003, ele contou:

Eu entrei para a escola de medicina na Universidade Federal do Ceará. Àquela altura, a universidade era não apenas uma perspectiva futura de excelência profissional, mas era também um viveiro muito grande de utopias, de sonhos juvenis. Todos eles ligados com a ideia de transformar o Brasil, de fazer também uma arte que representasse o sonhador utópico do qual havia um pano de fundo grande na música internacional com o surgimento do Bob Dylan, com Beatles, Rolling Stones, os grandes conjuntos americanos, enfim, esse tipo de pano de fundo. E assim levava a um sonho de você fazer um tipo de música que fosse uma espécie de inclusão do Brasil na contemporaneidade, dando continuidade àquele sonho da bossa nova, enfim, dos grandes momentos da música em que o Brasil teve um lugar reconhecido no meu conceito de nação.

Retomou o contato com Fausto Nilo e notou que os amigos tinham aderido à revolução tropicalista. O período de isolamento ajudou a sedimentar um olhar distanciado, como quem adquire um ponto de vista para observar o todo com mais nitidez.


Nos anos 1970, os caminhos para o sucesso eram estreitos e se concentravam no Rio de Janeiro e São Paulo. Belchior pousou no Rio depois de pegar carona num avião de carga. Levou uma vida duríssima, sem dinheiro, sem contatos, sem atalhos.

A vitória no Festival Universitário da Tupi com Hora do almoço e a projeção de músicas como Mucuripe e A palo seco abriram caminho para o primeiro disco. Em 1974, Belchior lançou o cultuado Mote e glosa, um disco bastante criativo, que mesclava elementos da poesia concreta com a busca de renovação da tradição nordestina. Mas não conseguiu realizar a difícil alquimia da vanguarda e do pop que o tropicalismo, por exemplo, alcançou. Belchior buscava uma ruptura que reverberasse novamente a criação artística. Mas o disco não teve sucesso de público. 

Tudo mudou quando Elis Regina escolheu Como nossos pais e Velha roupa colorida para o célebre disco Falso brilhante, em 1976. E foi por meio de Elis que uma fita K7 encontrou o produtor Marco Mazzola da gravadora Polygram. Quando ligou para Belchior, Mazzola ouviu a dura realidade. O cantor estava incrédulo com o convite para entrar no estúdio, mas ansiava por encontrá-lo. Não tinha, porém, dinheiro para a passagem. Mazzola pagou as despesas e providenciou o encontro. Frente a frente com Belchior, percebeu que estava diante de um artista genial.

Mas não seria fácil convencer a gravadora a apostar naquele ilustre desconhecido: na primeira reunião, os executivos da Polygram ouviram Apenas um rapaz latino-americano. Como era praxe na época, Mazzola havia levado para mostrar a eles uma fotografia de Belchior, porque a aparência dos cantores era levada em conta pelos executivos. Resultado: eles rejeitaram a imagem de Belchior e implicaram com sua voz anasalada.

Mazzola não desistiu e marcou uma reunião com André Midani, presidente da gravadora. A reação de Midani foi completamente inesperada. Antes de ouvir qualquer explicação, ele anunciou que estava trocando de gravadora e queria levar Mazzola com ele. Fecharam um acordo: o produtor acompanhava Midani, que, antes de sair, autorizaria a produção do disco de Belchior pela Polygram.

Como a produção tinha sido inicialmente rejeitada pelos executivos, Mazzola tinha que fazer um trabalho impecável com baixo orçamento. Seu plano era colocar Belchior e os músicos no estúdio a fim de que os arranjos fossem desenvolvidos na hora. Para que isso acontecesse de um jeito satisfatório, só havia um caminho: os músicos tinham que ser excepcionais.

A seleção começou por Pedrinho Bateria, que havia tocado com Jorge Benjor e Raul Seixas. Era o baterista de confiança de Mazzola. No baixo, Paulo César Barros, um dos fundadores da banda Renato e seus Blue Caps. Na guitarra e no violão de doze cordas, Antenor Gandra, que havia se destacado no disco Novo aeon, de Raul Seixas. Nos vocais, Evinha, Maritza e Regina. A escalação dos sonhos ficou completa com a chegada de José Roberto Bertrami, líder do Azimuth, a primeira banda brasileira a tocar no Festival de Montreux, na Suíça. Bertrami estaria nos teclados e seria responsável pela concepção dos arranjos. Um timaço. Outros músicos fizeram participações em algumas faixas, como Rick Ferreira (viola caipira e pedal steel), Lui (viola caipira e harmônica), Orlando Silveira (acordeon) e Ariovaldo Contesini (percussão).

Os ensaios duraram dois dias e a gravação mais dois dias. “A minha experiência com Belchior no estúdio foi bastante bacana porque ele tocava um violão bonito. Era uma mistura de rock com folk e com blues. Algumas pessoas diziam: esse é o novo Bob Dylan, aquelas coisas que as pessoas criam. Mas, enfim, no estúdio, ele era um cara extremamente organizado. E, junto com os músicos que eu tinha convidado, tudo encaixou. Então o resultado de Alucinação é esse encaixe musical”, lembrou Mazzola.


Os primeiros acordes de Apenas um rapaz latino-americano trazem alguns elementos típicos dos anos 1960. Uma gaita, à moda de Bob Dylan, sopra as primeiras notas na introdução. Em seguida, o coro de vozes femininas, que remete a atmosfera da emblemática versão do Joe Cocker de With a little help from my friends, que posteriormente foi adotada na íntegra por Raul Seixas em Metamorfose ambulante. Está pronta a ambientação da música para que Belchior comece sua mensagem.

Depois da introdução, a canção é organizada basicamente a partir de duas partes musicais – A e B. Os primeiros versos apresentam o próprio Belchior como um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior. A melodia, de caráter melancólico, toma corpo gradativamente. Enquanto se apresenta, Belchior enfatiza o termo “latino-americano”. Para isso, salta para a nota mais aguda da primeira parte da música e, em seguida, caminha para notas graves em um movimento descendente:

Eu sou apenas um rapaz latino-americano

Sem dinheiro no banco

Sem parentes importantes

E vindo do interior [...]

A melodia volta a subir gradativamente, intensificando e encaixa na mensagem contida na letra. Apesar da falta de credenciais, o personagem não se entrega ao derrotismo, traz consigo uma esperança:

Mas trago de cabeça uma canção do rádio

Em que um antigo compositor baiano me dizia

Tudo é divino

Tudo é maravilhoso.

A referência a Divino, maravilhoso, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, não é gratuita. O movimento tropicalista, liderado por Caetano e Gil, começou em 1967 com o lançamento de Alegria alegria e Domingo no parque no III Festival da Record. A apresentação das duas músicas iniciou uma revolução que plugou a cultura brasileira na vanguarda internacional.

O movimento reuniu músicos, poetas, cineastas, artistas plásticos, escritores e grupos de teatro. O Tropicalismo deu novo significado às raízes culturais brasileiras e recolocou o país no mundo contemporâneo. Mudou comportamentos, valorizou elementos regionais, trouxe a liberdade e a criatividade como faróis. Criou uma nova linguagem popular, moderna e ambiciosa: o Brasil se preparava para dar uma palavra nova ao mundo. O que Belchior reconheceu, em entrevista ao programa MPB Especial, da TV Cultura:

O que foi mais importante em termos de deflagrar coisas assim foi realmente o movimento da Tropicália. Era toda a loucura colorida dos trópicos, dos tristes trópicos. E isso deflagrou um movimento muito grande. No Ceará, eu tive metido mesmo dentro desse movimento no fogo de 1968. Porque todos nós que estávamos fazendo arte naquele tempo no interior do Ceará, onde eu, Augusto, Ednardo, a gente tinha consciência de que a província necessitava de uma outra espécie de cultura, uma cultura que desprovinianizasse. Todo mundo compreende a arte como uma coisa que não pode obedecer a nenhum cânone, nem que seja de beleza mesmo. A gente estava partindo pra uma coisa inventiva, de objetividade, de contemporaneidade, e todo mundo estava interessado nisso. Então, o tropicalismo teve esse valor de dar um grito na hora certa.

Referir a Caetano e Gil como “antigos” não é uma provocação nem uma ironia. Belchior admirava os dois. Em entrevista ao Pasquim, disse que Caetano era “o autor da modernidade musical no Brasil”. O que Belchior propõe é uma convocação ao diálogo e um chamado de renovação constante, o que o próprio tropicalismo postulava. Com essa provocação, ele propõe que a indústria musical da época se reinvente, que ela se abra a vertentes diferentes da Tropicália. Vertentes das quais ele fazia parte, como disse no programa Vox Populi, em 1983:

Eu acho que essa é uma forma muito interessante de criar, porque é uma forma que que prevê a arte anterior, que recicla essa arte, que põe em crise, põe em xeque aquilo que já está feito e também acompanha o sentido de beleza, o sentido de força, o sentido de importância que aquela canção citada possa eventualmente ter tido. No caso da música, Apenas um rapaz latino-americano, que tem uma citação de Caetano e de Gil, aquela letra não era uma declaração contrária, mas uma declaração complementar. É importante dizer que “tudo é divino, tudo é maravilhoso”. É igualmente sincero dizer se que “nada é divino e nada é maravilhoso”. Eu acho uma citação muito respeitosa ao talento e a tudo o que o Caetano Veloso fez e vem fazendo pela música popular brasileira.

Pelos caminhos de uma melodia melancólica, Belchior continua sua narrativa descrevendo sua busca por uma identidade, um caminho próprio:

Tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas

Caminhado meu caminho, papo, som, dentro da noite

E não tenho um amigo sequer

Que ainda acredite nisso, não, tudo muda

E com toda razão.

Esses versos refletem sobre a necessidade de revitalizar o pensamento crítico, de abrir caminho para o novo. Um tema central de Alucinação. Belchior sabia que a contracultura, para não ser engolida, precisava produzir novas ideias. E apontava para a necessidade de criar uma linguagem mais conectada com o mundo globalizado que se consolidava nos anos 1970. Uma arte que estava ciente dos poderes sedutores do mercado.

O arranjo musical de Bertrami amplifica o contraste emocional expresso na estrofe acima. Durante sua primeira metade, a melodia melancólica de Belchior é acompanhada de forma econômica pela banda, que toca acordes jogados, guiada por uma bateria discreta. Esse estilo que se aproxima de um rock balada, proporciona bastante espaço para uma reflexão sobre o que é cantado.

Logo em seguida, quando Belchior expressa sua crítica, subitamente a música muda de caráter. Especificamente nos versos “E com toda razão”, o arranjo cresce e entra numa parte instrumental que se avoluma num estilo de rock que recebe influências de Jimi Hendrix. Em um crescendo, o canto fica mais agressivo, alcançando uma nota mais aguda, até então não cantada por Belchior nesta canção.

Agora, todos os instrumentos tocam juntos de forma agressiva, usando ritmos semelhantes. A bateria marca o tempo constantemente em seu prato de ataque. Como o próprio nome indica, esse prato tem uma sonoridade cheia de vigor, sendo geralmente usado apenas para pontuar certos momentos, como, por exemplo, finalizações de viradas ou frases. Os instrumentos de base harmônica seguem a bateria, marcando o tempo. A guitarra, com um pedal de distorção, engrossa o caldo, tocando de forma econômica e alternadamente, preparando-se para um longo comentário melódico com influências do blues elétrico ao final da estrofe:

Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve

Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve

Sons, palavras, são navalhas

E eu não posso cantar como convém

Sem querer ferir ninguém

Mas não se preocupe, meu amigo,

Com os horrores que eu lhe digo

Isto é somente uma canção

A vida realmente é diferente, quer dizer

Ao vivo é muito pior.

Belchior volta ao refrão, trazendo novidades na letra e na melodia. Com ironia o narrador coloca-se em um saloon do velho Oeste, lugar onde a lei do mais forte prevalece, e a vida vale muito pouco. Com essas informações, adiciona novos elementos que caracterizam o seu personagem, que além de não ter as credenciais necessárias para o sucesso, vive em uma realidade austera.

No final da música, diminuindo subitamente a dinâmica musical, Belchior e banda, aos poucos, crescem a intensidade da performance. Agora, o rapaz periférico e sem credenciais, faz questão de mostrar sua lucidez, e conclui apresentando seu ponto de vista cético em relação ao mundo em que vive:

Mas sei que nada é divino

Nada, nada é maravilhoso

Nada, nada é secreto

Nada, nada é misterioso, não.

Depois de um último rompante de energia, o canto se acalma gerando um tom de conformidade para o término da música. Para acentuar o sentimento de resignação, Belchior termina a música com uma sequência de acordes conhecida como cadência plagal. Muito usada para terminar músicas sacras, como hinos de igreja, essa sequência de acordes produz um repouso suave. Para acentuar essa atmosfera, Bertrami utiliza uma condução de vozes no coro feminino, que no acorde final remete o ouvinte ao ambiente sonoro e um coro de igreja.


Tárik de Souza, crítico musical do prestigiado Jornal do Brasil, escreveu, em 1976, que o disco Alucinação era “o manifesto mais lúcido já ouvido nos últimos tempos na MPB”. Em janeiro do ano seguinte, Aloysio Reis comentou no Jornal da Música: “Foi o disco brasileiro mais badalado de 1976. Afinal, já estamos desacostumados a ver alguém chegar falando abertamente, discursivamente, sem rodeios retóricos e sem muitas imagens simbólicas. Belchior atraiu para si o sucesso a fúria de muitos críticos”.

Perguntado sobre o título do seu disco, Belchior respondeu: “A realidade é uma verdadeira alucinação”. Seu olhar atento mirava nas angústias cotidianas das pessoas comuns num momento histórico em que as grandes cidades se transformaram em megalópoles. A ditadura militar trombeteava seu milagre econômico que, na prática, concentrou renda e aumentou as desigualdades sociais. Enquanto os centros urbanos cresciam de forma desordenada, a população pobre era empurrada para as periferias e favelas.

Mesmo depois que o sucesso lhe rendeu uma possibilidade de viver de sua arte, Belchior manteve o olhar atento. Em 1977, fez questão de armar os seus shows em cidades pequenas onde podia conversar com as pessoas, medir o pulso das periferias e se informar. Alguns veículos de imprensa batizaram essa postura como um “músico repórter”. Numa entrevista para a revista Pop, Belchior costurou uma frase que explicaria diversos momentos de sua vida, inclusive seus anos finais. “As pessoas exigem de mim um comportamento de superstar, mas eu prefiro seguir os ensinamentos da estrada”.

Alucinação foi lançado em 1976, num momento em que as ondas de transformação coletiva se erguiam em sequência. Nos anos 1960, uma nova personalidade jovem despontou. Um jeito renovado de ver o mundo. Ideias arejadas sobre comportamento, cultura, sociedade e família ganharam forma e se integraram à sociedade. Nos anos 1970, a busca por uma nova combinação entre liberdade individual e coletiva subiu de patamar. Cabelos grandes, roupas coloridas, experimentações sexuais, lisérgicas ou místicas buscavam a expansão da consciência do corpo. Mudanças estruturais também aconteceram.

A cultura dialogava com essas novas ideias e criava um sentimento coletivo de mudança. Todo esse caldo, no Brasil, dava a sensação de que havia um projeto de país em construção que apontava para o futuro.

As perguntas que ficam são várias: quando esse projeto coletivo de país se desarticulou? Quando abandonamos o hábito de olhar para a frente, arejar as ideias e articular desejos que mirem o futuro? Quando paramos de pensar em utopias e passamos a falar em distopias?

Belchior foi redescoberto pelos jovens depois de sua morte em 2017. Talvez porque ainda ecoe um desejo latente por ondas que possam se erguer novamente.


*Este texto foi escrito a partir do livro e do documentário Alucinação, sobre o disco do mesmo nome lançado por Belchior. O filme foi dirigido por Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caetano e será lançado ainda neste ano, assim como o livro, escrito por Renato Terra e Rodrigo Salgado, e editado pela Cobogó.


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Documentarista e escritor. Dirigiu O Canto Livre de Nara Leão, Narciso em Férias, Uma Noite em 67, entre outros. Escreve o Diário do Geraldo na piauí