carta de buenos aires
Bernardo Esteves, de Buenos Aires 22 Jul 2026
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“A seguir sofrendo”, anunciou o locutor Pablo Giralt ao fim do primeiro tempo da final da Copa do Mundo de 2026 entre Espanha e Argentina. A frase foi repetida algumas vezes durante a Copa por Giralt, que narrou o mundial para a Telefe, a maior rede de tevê aberta da Argentina. Não faltavam motivos para sofrer: o placar ainda estava 0 a 0, mas a seleção de Lionel Scaloni tinha sido totalmente envolvida pela equipe espanhola e não havia dado nenhum chute a gol.
O apagão era inédito, mas sofrer não era novidade para aquele time. A trajetória até a final foi um teste para as coronárias dos argentinos, com quatro vitórias dramáticas decididas nos instantes finais. Lionel Messi e companhia fizeram doze dos seus dezenove gols na Copa depois dos 30 minutos do segundo tempo. Nos mata-matas, em nenhum jogo a Argentina estava ganhando ao fim dos 90 minutos regulamentares. Contra Cabo Verde e a Suíça, o jogo terminou empatado e foi para a prorrogação; contra Egito e Inglaterra, foram viradas heroicas nos acréscimos.
Já no segundo jogo eliminatório a seleção argentina ganhou o apelido de Infartoneta – uma corruptela da Scaloneta, o ônibus conduzido por Scaloni com um time montado para fazer brilhar Messi em sua provável última Copa. A imprensa noticiou que dois homens morreram de ataque cardíaco na capital no dia da final. É difícil tirar qualquer conclusão desses relatos individuais, mas o time de Scaloni não ajudou a vida de quem estava com o coração fraco.
A primeira partida, ainda na fase de grupos, contra a Argélia, já trouxe sinais de que os torcedores não teriam sossego na Copa. A Argentina ganhou por 3 a 0 com um hat trick de Messi, dias antes de completar 39 anos. Antes disso, porém, os africanos haviam balançado as redes de Dibu Martínez aos 7 minutos do primeiro tempo, num gol que só foi anulado depois que o juiz foi alertado pelo VAR do impedimento milimétrico de Chaibi. A anulação foi comemorada como um gol pelos milhares de torcedores que se reuniram naquela noite fria de junho para assistir à estreia da alviceleste num telão gigante no bairro de Palermo, na Zona Norte de Buenos Aires.
A confiança de que a seleção de Messi poderia ganhar a Copa pela segunda vez cresceu junto com as vitórias. Antes do início do torneio, era difícil encontrar, entre comerciantes e motoristas de Buenos Aires, quem dissesse que a Scaloneta era favorita. Mas o que faltava em otimismo, sobrava em animação, e a cidade se encheu de bandeiras. No dia em que Messi completou 39 anos, os ônibus da linha 39, que liga os bairros de Barracas a Chacarita, circularam com mensagem de parabéns ao ídolo. Ele já tinha marcado outros dois gols contra a Áustria e era o artilheiro da competição.
“Pelas Malvinas, pelo Diego, pela última de Leo”: essas eram as maiores motivações dos argentinos para esta Copa, conforme enumera a canção La Cuarta Estrella, de Palmito Quintana, o hino da torcida alviceleste na Copa de 2026. O caso era homenagear os dois maiores ídolos nacionais do futebol, Maradona e Messi, mas também vingar, no campo, a derrota militar para os britânicos em 1982 na Guerra das Malvinas. Na ocasião, a ditadura argentina tentou recuperar do Reino Unido o arquipélago situado a 500 km da costa da Patagônia que os britânicos ocupam desde 1833, e a que chamam de Ilhas Falklands. A primeira-ministra Margaret Thatcher mandou as forças armadas britânicas para proteger o território e a tentativa argentina fracassou, o que acelerou o colapso da ditadura militar, além de deixar uma ferida aberta no sentimento nacional dos hermanos.
Essa ferida já havia motivado um capítulo memorável da história das Copas em 1986, quando Argentina e Inglaterra se enfrentaram pelas quartas de final no México quatro anos após a Guerra das Malvinas. A partida foi vencida por 2 a 1 pela Argentina, com dois gols antológicos de Maradona – um infame, o outro, sublime. Primeiro o da “Mão de Deus”, em que ele completa com a mão uma bola erguida na área sem ser impedido pelo juiz ou pelo auxiliar; e, quatro minutos depois, o “Gol do Século”, em que ele percorre mais de metade do campo com a bola nos pés e dribla vários ingleses antes de completar, já na pequena área.
A vitória de 1986, um pilar da identidade futebolística argentina, virou tema de El Partido (“A partida”), um documentário notável lançado poucas semanas antes da Copa. Dirigido por Juan Cabral e Santiago Franco, o filme reconstitui a partida e esmiúça a rivalidade esportiva e geopolítica entre argentinos e britânicos. Um ponto alto é recrutar protagonistas do confronto para revivê-lo quarenta anos depois, como Jorge Valdano e Julio Olarticoechea, do lado sul-americano, e Gary Lineker e Peter Shilton, dentre os europeus. Chama a atenção, na introdução do filme, uma sequência de depoimentos de técnicos e jogadores se apressando para desvincular o jogo da disputa militar ainda fresca na memória argentina. “É só futebol. E ponto”, resume Maradona.
Quis o destino que, mais uma vez, Argentina e Inglaterra se enfrentassem num mata-mata na Copa de 2026, o que motivou uma corrida aos cinemas de Buenos Aires às vésperas da semifinal para ver El Partido. Repetindo seus compatriotas de 1986, Scaloni tentou manter a rivalidade no âmbito esportivo: “É só uma partida de futebol”, disse ele, com semblante sério, durante uma coletiva de imprensa. Obviamente não era, em 1986 como em 2026, tanto que ele precisou repetir a frase quatro vezes.
Se fosse só uma partida de futebol, talvez os alvicelestes não tivessem entregado ali sua melhor performance em todo o torneio. A Argentina jogou um segundo tempo para ser estudado nas academias de futebol. Messi, que nunca tinha enfrentado a Inglaterra, teve uma atuação de gala e orquestrou a virada em sete minutos, com assistências para o empate de Enzo Fernández, aos 40 do segundo tempo, e para a virada de Lautaro Martínez, aos 2 minutos dos acréscimos, repetindo o placar de 1986.
Ao fim do jogo, torcedores jogaram no gramado uma bandeira com a frase “As Malvinas são argentinas”, escrita de improviso num lençol de hotel. A bandeira foi exibida para o mundo pelo meio-campista Giovani Lo Celso, burlando a proibição de mensagens políticas imposta pela Fifa. Em 2014, quando um episódio parecido aconteceu num amistoso antes da Copa no Brasil, a Associação do Futebol Argentino foi multada em cerca de 33 mil dólares (coisa de 250 mil reais em dinheiro de hoje). Até a publicação deste texto, a Fifa não havia anunciado punição aos argentinos.
Os torcedores capricharam num de seus cantos mais distintivos: Ya lo ve/ Ya lo ve/ El que no salta/ Es un inglés (“Já se vê/ Já se vê/ Quem não pula/ É inglês”). O grito é entoado nos estádios desde a época da Guerra das Malvinas e não se restringe aos jogos contra a Inglaterra – mas os torcedores enchem os pulmões quando são eles os rivais. No dia da semifinal, foi cantado durante a execução de God Save the King no estádio de Atlanta, atrapalhando que se ouvisse o hino britânico. Nas comemorações que se estenderam madrugada adentro após a vitória, foi o canto dominante entre dezenas de milhares de torcedores que se aglomeraram em torno do Obelisco, no Centro de Buenos Aires, ponto convergente das comemorações argentinas nas Copas.
Com quase 70 metros de altura, o Obelisco fica no cruzamento entre a Avenida Nove de Julho – que os portenhos se orgulham de ser a mais larga do mundo, com dezesseis pistas e 140 metros de um lado a outro – e a Avenida Corrientes, que tem a fama de ser “a rua que nunca dorme”, pela qual se espalham teatros, casas de tango, livrarias, cafés e restaurantes. O cruzamento já estava em clima de Copa mesmo semanas antes do início do torneio, já que os painéis publicitários de LED que enquadram o monumento foram dominados por anúncios temáticos. Este ano, o técnico e os jogadores da seleção argentina foram garotos-propaganda de cerveja, refrigerante, hambúrguer, batatas fritas, ração de cachorro e erva-mate para chimarrão, entre outros produtos e serviços (apenas Messi tinha 44 patrocínios globais ativos antes da Copa, de acordo com reportagem do jornal El Economista).
Assim como o Brasil, a Argentina também atravessa um período de profunda polarização política, que opõe os peronistas aos antiperonistas, que atualmente estão aglutinados em torno do presidente Javier Milei. Só que, diferentemente do que se viu no Brasil, onde o bolsonarismo buscou se identificar com as cores da bandeira e a camisa da seleção, na Argentina esses elementos não ficaram vinculados à direita, e a camisa alviceleste ainda parece um elemento simbólico unificador.
Outro ponto que unificou a torcida foi o sentimento de que havia uma campanha de ódio contra a Argentina na imprensa e nas redes sociais do resto do mundo. A percepção foi alimentada por sugestões de que a Argentina estava sendo favorecida pela arbitragem e de que teria comprado resultados – o que os argentinos prontamente rebateram com memes que ironizavam a crise econômica atravessada pelo país ou o sofrimento enfrentado a cada vitória. A situação também se inflamou devido a acusações de racismo a torcedores e atletas argentinos. O racismo na Argentina – como no Brasil – é real, e o debate sobre a questão pode e deve ser aprofundado, de preferência sem as simplificações redutoras das redes sociais e com as contribuições de movimentos sociais e intelectuais que vêm se dedicando à questão.
No domingo da final, só se viu o Sol em Buenos Aires nas bandeiras argentinas onipresentes nas ruas da capital. Mas o frio e a chuva fina não afugentaram os torcedores. Horas antes do início da partida, era difícil encontrar mesa nos bares e pizzarias tradicionais no entorno do Obelisco. Mais uma vez, o drama deu o tom da partida e da reação dos espectadores. Só que, desta vez, a Argentina não fez por onde dar esperança ao torcedor.
A Espanha, que na semifinal já tinha dado um nó tático na favorita França, não tomou conhecimento do time de Messi. A equipe ibérica teve praticamente o dobro da posse de bola e criou todas as chances de gol. Dibu Martínez fez onze defesas, contra nenhuma do espanhol Unai Simón. Quando Ferrán Torres enfim colocou a Espanha na frente, no começo do segundo tempo da prorrogação, houve quem apostasse na ressurreição da Infartoneta e na repetição de um gol salvador nos minutos finais que levasse a decisão para os pênaltis. A Argentina esboçou reação e só foi chutar a gol depois que estava perdendo. Mas, com Messi neutralizado e um jogador a menos desde a expulsão de Enzo Fernández no fim do tempo regulamentar, não ofereceu perigo. No fim, foi a Espanha quem conquistou mais uma estrela para seu uniforme, a segunda, que os iguala ao Uruguai e à França.
A derrota não impediu que os argentinos mais uma vez lotassem o Obelisco após o jogo. Um desavisado que chegasse ali sem saber do placar juraria que o time de Messi tinha levantado mais uma taça: houve fogos de artifício, projeções sobre o monumento e cantos da torcida. Era um adeus a Messi e um obrigado pelo ciclo vitorioso da equipe de Scaloni – que, além da Copa de 2022, ganhou duas Copas América e uma Finalíssima contra a Itália, então campeã da Europa. O apoio efusivo no dia da derrota – transformado em gratidão dias depois com a frase “Obrigado, seleção, por tanta dignidade” no letreiro do ônibus da linha 39 que homenageara Messi – era também a crença de que a Argentina voltará a brigar por títulos mesmo sem o seu principal jogador. Nisso, os argentinos pareciam encarnar a orientação do locutor Pablo Giralt, da Telefe, ao narrar o início do segundo tempo do derradeiro jogo da Copa: “A seguir sonhando.”