questões ludopédicas

SANGRE ALBICELESTE

Em 22 de junho de 1986, diante da Inglaterra, a Argentina era uma nação encarnada num homem. Um nanico que mudou a história das Copas
O goleiro Peter Shilton à procura da bola que a mão de Maradona empurrou para a rede - Crédito: S&G/PA Images via Getty Images
O goleiro Peter Shilton à procura da bola que a mão de Maradona empurrou para a rede - Crédito: S&G/PA Images via Getty Images

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Texto publicado originalmente em 2006 sob o título Argentina, em Guia cult para a Copa do Mundo, da editora Rocco.

O rosto era a um tempo magro e flácido. O olhar, mapeado de rugas, combinava com os cabelos desgrenhados e o cigarro torto no canto da boca. Aquele homem não dormia bem há várias noites. Assim era, ou me pareceu ser pela televisão, o famoso El Flaco, apelido do técnico argentino César Luis Menotti. O técnico brasileiro era Cláudio Coutinho, gaúcho de Dom Pedrito. Coutinho era um sujeito sério, mais ou menos da mesma idade que seu rival Menotti, e exibia sem remorso um daqueles estranhos penteados em moda nos anos 1970. Em campo, os argentinos tinham o cabeludo Mario Kempes; nós tínhamos o encaracolado Roberto Dinamite. A Argentina, além da vigorosa teimosia de seus atletas, contava com a vantagem de ser o país-sede da Copa. Era junho de 1978. Em maio, no Brasil, haviam estourado as primeiras greves de metalúrgicos da região do ABC paulista. Em julho, nasceria Louise Brown, a primeira criança concebida in vitro. Em agosto, Albino Luciani, graças, quem sabe, a seu sorriso de vovô, ia se tornar sucessor do sorumbático Paulo VI, com o nome de João Paulo I. Em outubro, João Paulo II, o Papa pop-star, sucederia o brevíssimo Luciani. Em dezembro, o egípcio Anwar Al-Sadat e o israelense Menachem Begin ganhariam juntos o Nobel da Paz, prenunciando uma era de concórdia e tolerância para o Oriente Médio, a qual, infelizmente, jamais aconteceu. Também naquele fim de ano, o ditador brasileiro, general Ernesto Geisel, aquele que tinha cara de Boris Karloff, enviaria uma emenda ao Congresso para acabar com o Ato Institucional Número 5, o famoso AI-5, que durante uma década serviu como desculpa jurídica para os militares torturarem e matarem qualquer cidadão que não lhes parecesse simpático e bonzinho. A Argentina, por sua vez, sofria havia um par de anos com o ditador Jorge Videla, que assumira o poder com um golpe de Estado, como era o costume na América Latina daqueles tempos. Eu tinha nove anos, manifestava tendências esquerdistas que meu pai julgava perigosas e, no dia 18 de junho de 1978, vi, pela primeira vez na vida, numa tevê de catorze polegadas, a camisa canarinho do Brasil enfrentar a albiceleste argentina.

A partida terminou em zero a zero.

Carajo! Eu queria gols. Queria ao menos uma boa briga. Algum osso quebrado. Queria sangre! Perdi o interesse pela Copa e nem quis ver a final, entre a albiceleste e os laranjinhas holandeses. Vencendo na prorrogação, a Argentina tornou-se, pela primeira vez, campeã do mundo. Quanto ao Brasil, apesar de não ter perdido nenhum jogo, ficou em terceiro, derrubado por conta de uma devastadora vitória de 6 a 0 dos argentinos contra a seleção do Peru. Cláudio Coutinho alardeou que o Brasil era “campeão moral” daquela Copa. E assim, antes dos meus dez anos, aprendi que esse negócio de moral não queria dizer grande coisa. Foi uma lição errada, acho, mas é por causa de memórias como essa que frequento um psicanalista.



Nasci na Zona Sul de uma cidade ao Sul de um país do hemisfério Sul. E minha referência cultural estava mais ao Sul ainda, em Buenos Aires. Ia-se, da Porto Alegre onde nasci e vivi minha longa pós-adolescência, até Buenos Aires pagando uma passagem aérea mais barata do que de Porto Alegre a São Paulo. Desde minha primeira visita, aprendi a amar e a invejar as livrarias e os bares portenhos.

Só quando vim morar no Rio de Janeiro percebi a existência da famosa rivalidade entre brasileiros e argentinos. Uma rivalidade que, brasileiramente, se expressa através da gaiatice. Os cariocas e paulistas têm uma adorável coleção de anedotas de argentino. Algumas são bastante boas; todas se referem a um suposto caráter vaidoso e egomaníaco de nossos hermanitos. Embora engraçadas, as piadas não são de todo verdadeiras. O personagem retratado nelas corresponde ao estereótipo, não do argentino, mas talvez de alguns portenhos, e isso apenas porque Buenos Aires é uma metrópole latino-americana que foi pensada nos moldes europeus: o urbanóide blasé, arrogante, ensimesmado e fóbico diante de turistas pode ser encontrado em Buenos Aires com a mesma frequência que em Paris, Londres ou Madri.

Mas eu estaria sendo injusto ou, no mínimo, incorreto, se não admitisse que nós, do Rio Grande do Sul, também cultivamos nossas questiúnculas com os argentinos. Afinal, guerreamos e nos degolamos mutuamente por uns duzentos anos. Só que não implicamos uns com os outros por nossas eventuais diferenças, e sim pela excessiva semelhança. Argentinos do Norte, brasileiros do Sul e uruguaios do Uruguai todo são, além de vizinhos, meio parentes. Somos gaúchos. Ou gauchos, mudando a sílaba tônica de acordo com a margem do Rio da Prata onde se está. No entanto, é bom dizer nestes tempos de conflitos étnicos, os gaúchos (ou gauchos) não compõem uma etnia. E nem, ao contrário do que a pulsão pelo lugar-comum poderia fazer pensar, um estado de espírito. Nossos avós podem ter sido espanhóis, portugueses, africanos, alemães, indígenas, italianos, judeus, poloneses ou um pouquinho de cada, não importa. A gauchidade nos define nas nossas idiossincrasias, e é por isso que dois gaúchos (ou gauchos) jamais irão concordar entre si, seja qual for o assunto, se houver um não-gaúcho como testemunha.

Em nenhuma cidade do Brasil há dois times de futebol tão opostos, tão inimigos, tão carregados de um paradoxalmente cordial ódio fratricida quanto o Grêmio e o Internacional de Porto Alegre. Um pai colorado (que é a denominação clássica do torcedor do Inter) aceita melhor um filho bandido que um filho gremista. E, logicamente, de um pai gremista pode-se dizer a mesmíssima coisa. Buenos Aires tem o Boca Juniors e o River Plate, dotados da mesma disposição fraterna para o massacre mútuo. Gauchos e gaúchos, dançamos todos o mesmo tango.



Quando eu tinha treze anos, em 1982, Brasil e Argentina eram ainda republiquetas mandadas e desmandadas pelos militares. No Brasil, tínhamos o general Figueiredo, que possuía uma vantagem em relação a seus antecessores: o tédio. Nas suas relutantes aparições públicas, ele sempre se mostrava enfadado. Dava a impressão de ter aceitado o cargo de ditador do Brasil como um passo desagradável, porém necessário, rumo à aposentadoria. Talvez essa característica tenha feito dele o homem ideal para presidir a entrega pacífica do poder aos civis, em 1985. O país já estava quebrado mesmo; os civis que se virassem para gerenciar os destroços.

Na Argentina, o milico da vez era Leopoldo Galtieri, um generalão que se parecia muito com o ator Vittorio De Sica. A diferença entre os dois é que Galtieri interpretava mal o papel que lhe cabia. Num assomo de histrionismo inédito até mesmo entre os mais desvairados déspotas da Latinoamérica, Galtieri resolveu guerrear contra a Inglaterra. O motivo? Era preciso encontrar alguma distração midiática que pudesse neutralizar a revolta dos cidadãos argentinos, que não suportavam mais a tirania genocida dos militares. O pretexto? As ilhas Malvinas (segundo os argentinos), ou Falklands (segundo os ingleses). Seja qual for o nome, são uns míseros pedaços de terra congelada no fim do mundo, onde vivem muitos pinguins e alguns cidadãos britânicos. As Malvinas, por serem uma possessão britânica muito próxima à costa argentina, sempre pareceram uma provocação imperialista a nossos hermanos, mas não havia, nunca houve, nenhuma razão econômica, humanitária ou militar para um confronto armado. Mesmo assim, por ordem do canastrão Galtieri, os argentinos invadiram as ilhas em 2 de abril de 1982.

Cerca de 650 jovens argentinos e 250 britânicos morreram nessa farsa mal encenada. São muitas vidas perdidas para que se possa repetir sem culpa o velho clichê de que “há males que vêm para bem”, mas, ainda assim, a Guerra das Malvinas, exibida diariamente nas tevês do continente, tornou-se uma espécie de programa educativo para os latino-americanos. Foi terrivelmente esclarecedor o caso do capitão argentino Alfredo Astiz. Torturador e homicida nos calabouços portenhos, Astiz recebeu um comando importante na frente de batalha. Rendeu-se aos ingleses sem disparar um tiro. Concedeu-nos, assim, a epifania que faltava no continente: militares latino-americanos só servem para combater inimigos desarmados; eles sabem bater em estudantes, são ótimos para chutar mulheres grávidas, mas, diante de um bom pelotão de artilharia, ou eles se entregam ou morrem como insetos. E, como os militares latino-americanos são nossos compatriotas, nossos vizinhos, nossos primos ou colegas de escola, essa epifania valeu também como um golpe fatal em nossa auto-estima.

A Guerra das Malvinas terminou em 14 de junho de 1982. Um dia antes, começara a Copa do Mundo.

Galtieri, o mau ator, saiu de cena no dia 17. Seguiram-se a ele mais dois breves e insatisfeitos generais, até que, em 30 de outubro de 1983, um presidente civil foi eleito. Era Raúl Alfonsín. Nunca me escapará da memória a rápida olhadela que o bigodudo Alfonsín lançou para as câmeras ao receber a faixa presidencial. Era como se ele pedisse a cumplicidade do espectador, enquanto franzia as grossas sobrancelhas e, quase imperceptivelmente, meneava a cabeça. Não tenho como saber o que ele pensou naquela hora. Aos meus olhos de imberbe democrata (eu recém tinha completado quinze anos), ele parecia se perguntar: “Onde é que fui me meter?”

O país-sede da Copa de 1982 era a Espanha, onde o Brasil chegou com o melhor escrete desde a Copa de 1970. Qualquer brasileiro com mais de trinta anos lembrará da euforia de ver, jogando juntos, Zico, Sócrates, Falcão e Júnior, sob o comando do legendário Telê Santana. Do lado argentino, el Flaco César Luis Menotti ainda estava no comando; o time albiceleste mantinha a base da Copa anterior, com alguns acréscimos, entre os quais estava o principal responsável pela vitória argentina no Campeonato Mundial de Juniores, o jovem Diego Maradona.

Aos vinte e um anos, Maradona já exibia as qualidades que viriam a torná-lo mais tarde um deus vivo: a imprevisibilidade, a rapidez, a visão de jogo e um milagroso pé esquerdo. Infelizmente para os argentinos, a imprevisibilidade maradoniana não jogou ao lado deles naquela Copa. No jogo contra o Brasil, Dieguito, irritado com seus marcadores, cometeu uma falta desleal e foi expulso. Os brasileiros ganharam por 3 a 1, eliminando a albiceleste.

O passeio do Brasil pela Espanha, porém, foi bruscamente interrompido no estádio Sarriá, em Barcelona, quando um passe errado de Toninho Cerezo deu a bola de presente ao craque italiano Paolo Rossi. Perdendo por 3 a 2, o Brasil foi eliminado. Quanto aos italianos, depois de atropelarem o Brasil, passaram pela Polônia e disputaram a finalíssima com a antiga Alemanha Ocidental. Vitória de 3 a 1. A Itália tornou-se assim tricampeã mundial, igualando o Brasil, o que arruinou por vários anos o orgulho canarinho.



1986 foi o ano em que morreu o maior dos argentinos: em 14 de junho, Jorge Luis Borges, mestre de espelhos e labirintos, adentrou o jardim dos caminhos que se bifurcam. No ano anterior, o Cometa Halley passara próximo à órbita da Terra, arrastando decepções: ao contrário do que se esperava, o diacho do cometa mal podia ser visto a olho nu. No entanto, em 28 de janeiro de 1986, as tevês do mundo mostraram um espetáculo celeste bem mais vistoso e muito mais trágico: a explosão do ônibus espacial Challenger, que levantaria a suspeita, hoje cada vez mais fundamentada, de que os space shuttles podem não ser a maneira mais barata e segura de levar seres humanos ao espaço, mas têm grande potencial para conduzir almas para o céu. Três semanas depois, os soviéticos botaram em órbita a estação Mir, que sobreviveu até virar um sucatão espacial. Naqueles dias, quando a Guerra Fria ainda não havia acabado, a União Soviética mantinha-se firme na política de esbanjamento em propaganda e sovinice em infraestrutura. E foi provavelmente por economia de trocados em alguma coisa importante, como treinamento de pessoal ou manutenção básica, que ocorreu, em 26 de abril, a catástrofe na usina nuclear de Chernobil, espalhando radiatividade cancerígena por boa parte do Leste Europeu.

O anfitrião da Copa de 1986 era o mesmo México da mítica Copa de 1970. Ou talvez ainda o mesmo, apesar de algumas cicatrizes. No ano anterior, o país fora vitimado por um terremoto de 8,1 graus na escala Richter. E foi num cenário de prédios ainda em ruínas e estádios reformados às pressas que os titãs do futebol se reencontraram.

Argentina e Brasil tinham se tornado democracias. Claudicantes democracias, é verdade, mas democracias. Na Casa Rosada, Alfonsín mediava como podia os ressentimentos de civis e militares. No Palácio do Planalto, um oligarca maranhense criava o Plano Cruzado para combater a monstruosa inflação herdada dos milicos. A moeda brasileira mudou de cruzeiro para cruzado e, depois, para cruzado novo. O slogan oficial dizia: “Tem que dar certo.” Não deu.

O técnico da albiceleste era El Narigón Carlos Bilardo. Em campo, o camisa dez Dieguito Maradona estava no auge do talento e da malandragem. A recomendação de Narigón Bilardo a seus jogadores, antes de embarcarem para o México, foi um perfeito resumo do humor argentino e da determinação albiceleste: “Muchachos, botem na mala um terno escuro e um lençol branco. Se ganharmos, voltamos de terno. Se perdermos, fugimos para a Arábia.”

Telê Santana era outra vez o técnico da seleção canarinho. Vários dos craques da seleção de 1982 foram convocados, embora já não estivessem mais no melhor da forma. Como novidade, o Brasil contava com o centroavante Careca, que era cabeludo, e com o goleiro Carlos, que era careca.

Brasil e Argentina não se enfrentaram daquela vez. O Brasil jogou bem, atropelando com a maior sem-cerimônia a Espanha, a Argélia e a Irlanda do Norte, na primeira fase, e a Polônia, nas oitavas. Porém foi eliminado nas quartas-de-final pela França, que tinha um bom time no qual se destacavam Platini e Tiganá. Como a partida contra os franceses foi decidida nos pênaltis, pode-se afirmar que o Brasil perdeu a Copa de 1986 sem ter sido derrotado uma única vez no tempo regulamentar. Um “bicampeonato moral”, diriam os mais cínicos.

Outro comentário cínico daqueles tempos referia-se ao time da União Soviética. Falava-se que os soviéticos formavam a seleção mais brilhante da Copa. Eles nem jogaram tão bem assim, mas onze de seus atletas vinham do Dínamo de Kiev, pertinho da usina nuclear de Chernobil. Segundo a lenda maldosa, a seleção soviética não precisava de luz nas partidas noturnas porque os jogadores eram fosforescentes.

Para além dos fatos pitorescos e das verdades contestáveis, a Copa de 1986 teve um nome: Maradona. Sem ele, a seleção argentina poderia ter sido, no máximo, medíocre. Contudo, Maradona estava em campo, e a Argentina era ele. Ele e mais dez figurantes, que estavam lá só pela quantidade.

Há momentos assim, em que um único ser humano, com seus atos, suas decisões ou sua simples existência, altera o curso dos fatos. A história do mundo seria outra sem Júlio César ou Napoleão Bonaparte. E a história das Copas do Mundo seria muito diferente sem Diego Armando Maradona.

Na primeira fase, a albiceleste passou pela fraca Coreia do Sul, vencendo por 3 a 1; empatou em 1 a 1 com a Itália e venceu a Bulgária por 2 a 0. Nas oitavas-de-final, mandou os uruguaios para casa com um modesto 1 a zero. Até aí, nada demais. Então vieram as quartas-de-final contra a Inglaterra. A Inglaterra de Margareth Thatcher, a durona primeira-ministra do Partido Conservador. A Inglaterra da Guerra das Malvinas.

A culpa da Guerra das Malvinas foi toda dos militares argentinos. Os ingleses apenas se defenderam. Mas a fria eficiência com que se defenderam serviu para mostrar aos argentinos que seu país, ao contrário do que se fantasiou por tanto tempo, não ficava na Europa. Em 1982, a Argentina descobriu que não era a Grã-Bretanha dos pampas. Era uma republiqueta comandada por milicos desvairados. Quatro anos depois, um civil eleito estava no poder e o país tentava cultivar o respeito internacional, mas a ferida na alma albiceleste não cicatrizara.

Narigón Bilardo, Dieguito Maradona e todos os outros faziam questão de repetir em cada entrevista que o jogo contra os ingleses seria uma partida como qualquer outra. Mentira. Para a albiceleste, não estava em jogo uma simples taça, mas o amor-próprio de um povo inteiro.

Em 22 de junho de 1986, no estádio Azteca, a Argentina era uma nação encarnada num homem. E esse homem, enfiado numa camiseta com o número dez que parecia comprida demais para ele, era um nanico atarracado, de cabeça grande e pernas curtas.

No segundo tempo do jogo, a Argentina fez um gol com a mão.

O primeiro tempo terminara em 0 a 0, com os ingleses marcando fortemente o baixinho Maradona. No segundo tempo, numa disputa entre o goleiro inglês Peter Shilton, que media 1,86 metro, e Dieguito, vinte centímetros mais baixo, a Argentina levou a melhor. O árbitro tunisiano Ali Bin Nasser viu um belo gol de cabeça. O resto do planeta percebeu que, em vez da cabeça, Maradona usara o punho. Nas palavras do próprio Dieguito, havia sido la mano de Diós. A primeira vingança dos argentinos contra a civilizada rudeza dos britânicos era uma trapaça infantil. Se a partida terminasse com esse 1 a 0, seria a mais humilhante das vitórias, por culpa de um pibe portenho que metera a mão na carteira do gringo otário.

Um homem, porém, iria redimir o caráter dos argentinos e, por tabela, a honra do continente latino-americano. Um homem que seria lembrado para sempre como um gigante na história do futebol. Esse homem, para espanto e delírio do mundo inteiro, era o mesmo moleque nanico do lance anterior: o pibe Diego Maradona. Quatro minutos depois do gol com a mão, Maradona dominou a bola na zaga da Argentina e foi em frente num pique alucinado, passando por um inglês, por dois, por todos os ingleses que lhe passaram na frente. Driblou cinco ao todo, incluindo o goleiro Shilton, e fez aquele que seria lembrado como o mais belo gol de todas as Copas.

Perto do final do jogo, o inglês Gary Lineker descontou para os ingleses, fazendo o gol que provaria, tal como na carga da Brigada Ligeira em 1854, que os súditos de Sua Majestade não se rendem jamais. Resultado: 2 a 1 para a albiceleste. A frase definitiva a respeito do jogo veio do técnico inglês Bobby Robson: “Tá, o primeiro ele fez com a mão, mas o segundo valeu por dois.”

Depois dos ingleses, a Argentina passaria pela Bélgica, com uma vitória de 2 a 0 nas semifinais, e enfrentaria a Alemanha Ocidental na finalíssima. A partida, muito disputada, terminou em 3 a 2 e a albiceleste conquistando o bicampeonato mundial. El Narigón Bilardo e seus rapazes não precisaram tirar da mala os lençóis brancos.

Mais tarde, o Brasil venceria as Copas de 1994 e 2002, tornando-se pentacampeão. Temos, hoje [em 2006], um time que pode ser comparado à seleção de 1970. Podemos levar o hexa ou (tomara que não) o “tricampeonato moral”. De qualquer modo, a albiceleste, ainda bicampeã e sem nenhum craque incontestável, está longe de nos alcançar.

Diego Maradona, o deus, viveu céus e infernos na breve eternidade de um mortal que nem completou ainda cinquenta anos. Sorveu a vida com gosto e exagero, engordou como uma orca, quase morreu mil vezes, fez tratamentos, submeteu-se a uma cirurgia no estômago, emagreceu, enfim, e se reinventou como um bem-sucedido apresentador de tevê.

Sempre me lembrarei de uma primavera em Mollina, uma pequena cidade perto de Málaga, no sul da Espanha. O ano era 1993. Cinco brasileiros, eu entre eles, havíamos sido convidados para um seminário de jovens escritores ibero-americanos. Depois de horas de avião, queríamos um banho morno, um café quente ou um chope gelado. Os argentinos, que eram uns dez ou doze, a maior delegação do evento, mal largaram as malas e foram jogar futebol numa quadra ali perto. Olho neles, pensei, os gardelitos não estão para brincadeiras. Convém lembrar que eles odiavam quando eu os chamava de gardelitos. Alguns deles viriam a se tornar expoentes da nova (ou agora, nem tão nova) geração de autores latino-americanos, mas todos, pelo que pude ver, eram uns cabeças-de-bagre com a bola no pé.

Desde os dois gols mais famosos de Maradona, o roubado e o milagroso, o mundo mudou bastante. A Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental se tornaram de novo um só país, com a queda do Muro de Berlim, em 1989. O erro de setenta anos que foi a União Soviética desapareceu dos mapas-múndi, permitindo aos países que formavam a feia sigla URSS recomeçar, penosamente, de onde haviam parado em 1917. O regime democrático resiste no Brasil e na Argentina, apesar das estripulias dos políticos nos quais temos votado lá e cá. Eu sobrevivi a minhas utopias e aderi ao cinismo sem culpas. É possível, sendo cínico, continuar na esquerda? Ainda não sei, mas espero atinar com a resposta até a Copa de 2034.


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Foi escritor e roteirista. Publicou, entre outros livros, Síndrome de Quimera e Zigurate: Uma fábula babélica, ambos pela Rocco