questões ludopédicas

EM BUSCA DO 10 PERDIDO

O dilema brasileiro no novo mundo do futebol
Pelé observa Didi nos testes físicos em Poços de Caldas, em 1958: quem é hoje a figura que chama o jogo, organiza, cadencia, distribui, é capaz de driblar, chega na área e faz gol? - CRÉDITO: ANTONIO LÚCIO_ESTADÃO CONTEÚDO_1958
Pelé observa Didi nos testes físicos em Poços de Caldas, em 1958: quem é hoje a figura que chama o jogo, organiza, cadencia, distribui, é capaz de driblar, chega na área e faz gol? - CRÉDITO: ANTONIO LÚCIO_ESTADÃO CONTEÚDO_1958

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O Brasil chega aos Estados Unidos carregando uma bola de chumbo na bagagem. Por um lado, é a única seleção pentacampeã do mundo. Por outro, está há 24 anos sem conquistar um título mundial. O passado de glórias se mistura ao longo período de seca e sucessivas frustrações – período marcado, além do mais, pelo maior vexame do país em copas do mundo, o 7 a 1 a favor da Alemanha, na semifinal de 2014, quando jogávamos em casa, no Mineirão. O maior trauma, insuperável, segue sendo a derrota para o Uruguai, na final de 1950, por 2 a 1, diante de 200 mil torcedores no Maracanã; o Brasil jogava pelo empate e abriu o placar no início do segundo tempo, mas levou a virada. O Maracanaço foi vivido como tragédia; o Mineiraço é um filme de terror. No primeiro caso, o sentimento foi de frustração e dor; no segundo, de pasmo e humilhação.

Barbosa, o grande goleiro do Vasco, campeão carioca em 1947, 49, 50 e 52, ficou estigmatizado para o resto da vida pela falha no segundo gol uruguaio. Nelson Rodrigues, com seu gênio e sua vocação para a hipérbole, escreveu palavras definitivas sobre o episódio: “Quando se fala em 50, ninguém pensa num colapso geral, numa pane coletiva. Não. O sujeito pensa em Barbosa, o sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, compacta, da derrota. O gol de Ghiggia ficou gravado, na memória nacional, como um frango eterno.” A crônica se chama A eternidade de Barbosa. Foi publicada em maio de 1959 na Manchete Esportiva e faz parte do volume A pátria em chuteiras, da Companhia das Letras, organizado por Ruy Castro. Mas voltemos.

Tendo às suas costas cinco reveses consecutivos – o Brasil só chegou à fase semifinal em 2014 justamente quando seria melhor ter perdido antes do atropelo –, a atual safra de jogadores se vê diante do desafio de tirar o país da fila e reatar com um passado já remoto, que não é tangível, ou se limita a recordações distantes e enevoadas para quem tem menos de 30 anos. Além da “responsabilidade de estar à altura da história da camisa que veste em campo” – mantra duvidoso que se repete a cada quatro anos –, essa Seleção convive com um fantasma adicional: um eventual fiasco agora representaria um novo recorde negativo. O Brasil nunca ficou mais de cinco copas consecutivas sem levantar a taça.

Essa contabilidade de almanaque vale inclusive para o período de acumulação primitiva do nosso futebol vitorioso. A primeira conquista brasileira se deu em 1958, na Suécia. Como não houve disputas em 1942 e 1946, com o planeta assolado pela guerra, a Copa realizada no país nórdico foi a sexta da história.

O torneio começou a ser disputado em 1930, no Uruguai, e foi vencido pelos anfitriões. Em 1934, a Itália fascista de Benito Mussolini sediou e venceu a competição. Os jogadores italianos saudavam o ditador antes das partidas com o braço direito estendido na direção da tribuna.

Em 1938, na França, a Itália se sagrou bicampeã. E chegou a usar, no jogo contra os donos da casa, uniforme inteiramente preto, em alusão aos camisas negras, a tropa paramilitar de Mussolini. Depois da semifinal, quando os italianos derrotaram o Brasil por 2 a 1, o jornal La Gazzetta dello Sport, o mais tradicional da imprensa esportiva do país, escreveu: “Saudamos o triunfo da inteligência branca italiana sobre a força bruta dos negros.” Leônidas da Silva, o Diamante Negro, foi o artilheiro daquela Copa, com sete gols. Vem dele a inspiração do nome do chocolate que até hoje, quase um século depois, você ainda encontra por aí.

Em seu livro Veneno remédio: o futebol e o Brasil, publicado em 2008 pela Companhia das Letras, o professor e ensaísta José Miguel Wisnik se refere à Copa de 1938 como “a primeira epifania do futebol co­­mo uma expressão privilegiada do Brasil no mundo”. Aquela foi, nas suas palavras, “uma seleção assumidamente miscigenada, e pela primeira vez representativa do que havia de melhor no futebol já profissionalizado do país”.

Wisnik cita uma passagem do livro The story of the World Cup, publicado em 1993, na qual o historiador inglês Brian Glanville menciona um fato inusitado ocorrido na partida épica contra a Polônia, vencida pelo Brasil por 6 a 5. O campo estava lamacento, e Leônidas, a certa altura do segundo tempo, como que para driblar a adversidade, decidiu jogar descalço: “Atirou ostensivamente as suas chuteiras para o treinador”, escreve Glanville. Assim que notou, o árbitro sueco o obrigou a calçá-las novamente. Leônidas – o “maravilhosamente elástico centroavante negro”, na descrição do historiador – agiu “como se estivesse numa pelada”, palavras de Wisnik. E foi chamado de volta às regras pela autoridade europeia.

Há aqui, neste episódio pitoresco e à primeira vista menor – uma nota de rodapé da história das copas –, uma zona cinzenta entre brincadeira e competição, uma espécie de oscilação entre lei e infração, entre norma e desvio, que vai muito além das circunstâncias em que se deu. Essa (usemos o palavrão) tensão dialética entre ordem e desordem, ou entre a pátria em chuteiras e a pátria sem chuteiras, se quisermos glosar a fórmula de Nelson Rodrigues, está na origem e no âmago do futebol brasileiro. E também atravessa a formação do país, que carrega as marcas indeléveis de mais de trezentos anos de escravidão, chegando, nos dois casos – o do jogo que jogamos e o da nação que conseguimos ou deixamos de ser –, até os dias de hoje.

Em Sobrados e mucambos (1936), que dá sequência à sua trilogia sobre a “história da sociedade patriarcal no Brasil”, iniciada com Casa-grande & senzala (1933), Gilberto Freyre menciona “o preto Leônidas” como exemplo de “nossos jogadores mais dionisíacos”, que ele também chama de “bailarinos da bola”.

Em diversas ocasiões, o sociólogo pernambucano voltaria a insistir no contraste entre o futebol criado pelos ingleses e praticado na Europa, de um lado, e o futebol tal como era vivido no Brasil, de outro, atribuindo a reinvenção do jogo à cultura negra e à nossa origem mestiça.

O pesquisador Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco, inventariou as incursões do autor no assunto, num artigo chamado Gilberto Freyre e o futebol-arte, publicado em 2004 pela Revista USP. Em 17 de junho de 1938, durante a Copa, Freyre publicou no Diário de Pernambuco o artigo Foot-ball mulato. Vale citar um trecho:

O nosso estilo de jogar futebol me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual. [...] Os nossos passes, os nossos pitus, os nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, há alguma coisa de dança ou capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar futebol, que arredonda e adoça o jogo inventado pelos ingleses.

Muita coisa mudou no futebol depois de quase noventa anos – mais adiante cuidaremos disso –, mas é quase impossível não enxergar nessa descrição alguns dos melhores momentos de Romário, Ronaldinho Gaúcho ou Neymar, entre outros exemplos.

Como mostra Túlio Barreto, o par antitético entre Apolo e Dionísio, já implícito em Sobrados e mucambos, aparece reiteradas vezes nos escritos de Freyre como forma de ilustrar a oposição entre o jogo de matriz inglesa e o jogo que vingou nestes trópicos. Um exemplo citado pelo pesquisador: “Nosso mulatismo ágil em assimilar, dominar, amolecer em dança, em curvas ou em músicas, as técnicas europeias ou norte-americanas mais angulosas” seria, de acordo com Freyre, “inimigo do formalismo apolíneo, sendo dionisíaco a seu jeito”. O sociólogo pernambucano parece se apropriar de forma inventiva dos termos fixados por Friedrich Nietzsche em O nascimento da tragédia (1872) para descrever a tensão que ele identificava no teatro da Grécia antiga.

A imagem que acompanha este texto é de abril de 1958. A Seleção Brasileira passou dez dias em Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais, em pré-temporada para a Copa do Mundo que começaria dali a dois meses, no dia 10 de junho. Didi tinha então 29 anos. Já havia disputado a Copa de 1954, era o armador e o cérebro do Botafogo, time que contava com nomes como Garrincha e Nilton Santos. Pouco tempo depois dessa imagem, em 29 de junho, ele seria eleito o craque da Copa.

Pelé tinha 17 anos. Sua primeira partida como profissional, jogando pelo Santos, havia ocorrido um ano e meio antes, em setembro de 1956, aos 15 anos. Em julho de 1957, ele vestiu pela primeira vez a camisa da Seleção. Tinha 16 anos e marcou o gol do Brasil na derrota para a Argentina por 2 a 1. Embora ainda fosse um garoto, em abril de 1958 ele já era uma realidade no mundo do futebol. Sabia-se que ali estava um jogador fora de série. A consagração, porém, viria na Suécia. Na crônica que escreveu logo depois da vitória brasileira sobre o time da casa, por 5 a 2, na final, Nelson Rodrigues se refere ao prodígio nos seguintes termos: “Pelé, um menor total, irremediável, que nem pode assistir a filme de Brigitte Bardot.” E, no entanto, diz ele, “Pelé assombrou o mundo”.

Tudo na imagem capturada pela Rolleiflex do fotógrafo Antonio Lúcio, que trabalhava na época para o jornal O Estado de S. Paulo, está em harmonia. Os olhares da dupla convergem para o pé direito de Didi, acompanhando seu teste físico. A expressão do mestre, no entanto, sugere ser menos de esforço do que de contemplação. A mão que repousa sobre a perna esticada, a calça social, a camisa e as meias brancas, até o mocassim displicentemente largado no chão compõem uma figura sem sobras, perfeitamente equilibrada, elegante, serena, concentrada, que transmite a sensação de estar refletindo enquanto se exercita.

A cena remete a uma das crônicas de Paulo Mendes Campos sobre futebol, chamada Didi, coisa mental, de 1970. Ele escreve: “Da Vinci mudou a filosofia estética ao dizer que pintura é coisa mental. Didi, mais que ninguém, introduziu no futebol o poder da inteligência. Não foi um espontâneo, um inspirado, um romântico; foi o cerebral, o racionalista, o clássico.”

O leitor dirá se exagero nas conexões ao sugerir que o próprio aparelho onde Didi está sentado, versão ancestral das máquinas que hoje se multiplicam pelas academias, nos remete às engenhocas mecânicas inventadas pela curiosidade infinita de Leonardo da Vinci. Vale comparar a foto com os desenhos do gênio renascentista. Indo ainda mais longe, a figura de Pelé, com o braço apoiado sobre o joelho e a expressão absorta, não deixa de evocar O pensador, de Auguste Rodin. O futebol, aqui, mais do que nunca, é cosa mentale.

Cheguei a essa imagem de beleza extraordinária meio ao acaso, enquanto pesquisava para este texto, folheando o livro Recados da bola: depoimentos de doze mestres do futebol brasileiro. Lançado pela Cosac Naify em 2010, o livro reúne relatos colhidos originalmente pelos jornalistas Jorge Vasconcellos e Claudiney Ferreira para uma série radiofônica da BBC Brasil, em 1994. Por sugestão de Augusto Massi, então editor da Cosac, aos oito depoimentos selecionados foram acrescentados mais quatro, gravados em 2004. São testemunhos muito ricos, repletos de boas histórias, vividas dentro e fora de campo, valorizados por uma pesquisa iconográfica rara de se encontrar em livros dessa natureza.

Didi a certa altura decide contar o segredo de sua marca registrada: “Eu vou lhe explicar o que é a folha seca.” Começa dizendo que “é um jeito muito difícil de bater na bola; o jogador tem que, digamos assim, ‘cortar’ a bola ao meio. Tem de fazer muita força com a ponta dos dedos”. Até aí acredito que muita gente já sabia. Mas o que vem a seguir é surpreendente:

Quando eu comecei a bater de folha seca, eu batia com a chuteira normal, 41, e eu sentia que faltava alguma coisa. Foi aí que tive a ideia de procurar uma menor para o pé direito. Descobri que a chuteira do Zagallo era a que eu precisava, ele calçava 40, e como era canhoto, a direita dele ficava sempre em bom estado. Toda vez que ele ia jogar o par velho no lixo, eu pegava o pé direito.

O relato tem um ar de família com o episódio de Leônidas, quando ele tira as chuteiras para vencer o gramado lamacento. Nos dois casos, estamos diante do famoso jeitinho, ou de uma gambiarra. Aqui, no entanto, não há transgressão das regras. A gambiarra é sinônimo de engenho, solução improvisada para contornar um problema. Espanta que Didi se utilize dos restos do material esportivo do companheiro, aquilo que ele havia mandado para o lixo, para criar, ou aprimorar a sua criação genial, que é ao mesmo tempo um dos patrimônios do repertório do futebol brasileiro. Zagallo, uma vez mais, atuava como um coadjuvante de luxo.

Abusando da idiossincrasia, ainda em torno da foto em Poços de Caldas no ano mitológico de 1958, podemos imaginar que Antonio Candido – sim, o crítico literário, morto em 2017 – pudesse estar na cidade na mesma ocasião de Didi e Pelé. É um delírio particular, mas com lastro na realidade. Ainda garoto, em 1930, ele se mudou para Poços com seus pais e dois irmãos. Após a morte do pai, em 1942, a mãe de Candido conservou a casa, e nela, segundo o relato do filho, “passava longas temporadas até sua morte em 1961”. Candido preservou o mesmo hábito até a venda casa, em 1989. “Pessoalmente, sempre a considerei uma espécie de sede, um lar alternativo que frequentei assiduamente enquanto nos pertenceu; às vezes, todos os fins de semana.”

Foi em Poços, certamente, que Antonio Candido gestou parte da Formação da literatura brasileira, a sua obra-prima. Embora tenha sido publicado em 1959, o livro foi concluído em 1957. Interessante, mas e daí? – pergunta o leitor. Daí o seguinte: no livro de Candido, a formação do sistema literário do país, até outro dia uma colônia, se completa, ou vai desembocar na figura de Machado de Assis, cuja obra, pela distância que guardava em relação à tradição que a precedeu e pela superioridade gritante na comparação com seus contemporâneos, parecia uma espécie de milagre, difícil de entender e de ser explicado. De maneira análoga, a formação do futebol brasileiro desemboca, ou se realiza na sua plenitude na figura milagrosa de Pelé.

Quem explora esse paralelo é José Miguel Wisnik, nas conclusões de Veneno remédio. “Como foram possíveis um e outro?” – pergunta o ensaísta. Vale acompanhá-lo. Tanto Machado quanto Pelé, diz ele, “nos dão a impressão de render as condições que os geraram, como se pairassem acima delas. Render, aqui, significa submetê-las (a pobreza, o atraso, a situação periférica do país) levando-as a suas consequências máximas, e superando-as sem negá-las”.

Wisnik não desconhece que há algo de esdrúxulo, ou de “aparentemente aberrante”, na comparação entre o escritor e o jogador de futebol. Mas essa discrepância “contém nela mesma o xis do problema”. Machado e Pelé

são necessários para que se formule a trama de um país mal letrado e exorbitante, cuja destinação passa pelas reversões entre a “alta” e a “baixa” cultura, pelo confronto e pelo contraponto das raças, pela palavra e pelo corpo, e cuja “formação” não poderia se dar apenas na literatura: o ser brasileiro pede minimamente – para se expor em sua extensão e intensidade – a literatura, o futebol e a música popular. (Aliás, uma certa intangibilidade enigmática, comum aos dois [Machado e Pelé], pode ser reconhecida também em João Gilberto.)

Não parece ser obra do acaso que a Formação de Antonio Candido tenha mais ou menos a mesma idade de Grande sertão: veredas (1956), da Bossa Nova (1958), da criação de Brasília (1960), da aparição fulgurante de Pelé. Num momento histórico carregado de promessas, o acerto do país com seu passado e a superação da herança colonial haviam entrado na ordem do dia. Algo substantivo parecia estar se formando no horizonte.

Publicado cinquenta anos depois, Veneno remédio também é, à sua maneira, um grande ensaio sobre a formação do futebol brasileiro. Não é descabido colocá-lo na mesma prateleira dos clássicos de interpretação do país, com os quais ele dialoga. Depois de quase quatrocentas páginas muito ruminadas sobre os mais variados aspectos do jogo, dos meandros e da história do futebol, chegamos ao último capítulo: Bola ao alto: interpretações do Brasil, que justamente começa com a comparação entre Machado de Assis e Pelé.

Bem perto do final, Wisnik escreve: “As figuras de Pelé, Garrincha, Ronaldo e Ronaldo Gaúcho, representantes da lenda do futebol brasileiro, provindos de um país que sempre equacionou mal as suas dificuldades e potências, são legíveis com nitidez nos mais remotos confins do planeta como uma promessa de felicidade que se cumpre.”

É preciso insistir que o livro passa longe de qualquer tentação edificante. Wisnik elucida como poucos as contradições do país. Ainda assim, a despeito do sentimento permanente de ambivalência que o atravessa, presente desde o título, Veneno remédio pende para o otimismo. É um otimismo que nada tem de naïf – informado, reflexivo, uspiano, que se constrói em diálogo com a melhor tradição crítica do pensamento brasileiro. Mas talvez seja otimista demais à luz do curso posterior das coisas.

A obra foi escrita na segunda metade dos anos 2000. O Brasil vivia um momento inédito, com a eleição e a reeleição de Lula. Mas aqui o ponto principal é outro. Apesar do fiasco na Copa de 2006 – o time era aquele do Quadrado Mágico –, o Brasil vinha de um ciclo vitorioso, quase comparável ao de 1958-70. Campeão em 1994, vice-campeão em 1998, novamente campeão em 2002. Tínhamos produzido Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká. Juntos, eles ganharam oito prêmios de Melhor Jogador do Mundo pela Fifa. Só Ronaldo conquistou três.

O que veio depois disso, entre idas e vindas, configura uma longa derrocada. Do país e da Seleção. Pensando nos termos da formação, podemos falar aqui em desmanche ou desintegração. Os processos do futebol e da política são distintos, na maior parte do tempo autônomos e nem sempre lineares. Correm por vias paralelas, mas eventualmente podem se cruzar. Por exemplo, na abertura da Copa de 2014, antes da partida entre Brasil e Croácia no Itaquerão, em São Paulo, a arquibancada, toda salpicada de verde e amarelo, mandou em coro a presidente da República tomar naquele lugar. “Ei, Dilma, lá lá lá lá lá.” Acabamos todos tomando no cu. Primeiro o 7 a 1. Depois Jair Bolsonaro.

A Seleção chega aos Estados Unidos com as expectativas rebaixadas. O Brasil não figura entre os favoritos ao título nas principais bolsas de apostas. O trunfo da equipe, a sua maior novidade, está fora das quatro linhas. É o técnico. Pela primeira vez, vamos a uma Copa comandados por um treinador estrangeiro. Não um qualquer. Carlo Ancelotti é o técnico mais vitorioso da Liga dos Campeões, onde atua a elite do planeta. Tem dois títulos dirigindo o Milan e outros três no comando do Real Madrid. Também conquistou campeonatos com  a Juventus, o  Chelsea, o Paris Saint-Germain e o Bayern de Munique.

Sua missão neste momento é extrair um time competitivo e vencedor de um grupo que tem bons jogadores, mas exibe carências gritantes (laterais sofríveis ou a ausência de um legítimo matador, como eram Romário e Ronaldo, por exemplo). Mais do que isso, essa é uma geração carente do jogador genial. A pressão dos atletas pela convocação de Neymar, o lobby ostensivo que alguns deles fizeram em público, na tevê e nas redes sociais, além de configurar uma atitude pouco profissional, é uma demonstração meio patética de insegurança.

Um dos momentos mais despudorados dessa megaoperação SOS Parça, chamemos assim, se deu na entrevista de Raphinha a Luciano Huck, na casa do atacante, semanas antes da convocação. “Neymar é o cara do hexa”, diz a certa altura o jogador do Barcelona. “Eu assino 100% embaixo de você”, responde Huck. A mise-en-scène fantasiada de jornalismo incluiu uma videochamada com o próprio Neymar, na qual o apresentador chama o jogador de Ney e a certa altura diz “a gente te ama”. Não faltaram no final o “tamo junto”, que os três repetem entre si, e o “vai dar bom”, que Huck diz para Raphinha depois de desligar a chamada com Neymar. Poderíamos chamar isso de “ressignificação do idioma”.

O mesmo Huck estaria no dia 18 de maio no Museu do Amanhã para acompanhar a convocação, já ciente, é muito provável, de que ia “dar bom”. A cerimônia – aquela cerimônia-ostentação – só fazia sentido com Neymar na lista de Ancelotti. Armou-se uma presepada, uma festa kitsch, interminável, marcada pela espetacularização da escolha dos 26 atletas e por um clima de oba-oba desconectado do mundo real. Na ejaculação precoce patrocinada pela CBF ao entardecer (ali, pertinho da Ilha Fiscal, onde se realizou o famoso baile), Ancelotti estava visivelmente deslocado. Permaneceu impassível quando provocado por gracinhas coreografadas que envolviam seu nome. Teve que acomodar Neymar, mas deu um discreto chega pra lá nas patriotadas da CBF.

Lobby dos companheiros da Seleção, pressão dos milhões de cifrões que gravitam em torno de seu nome, clamor popular. É na intersecção desses três fatores que se deve entender a convocação de Neymar. A lesão na panturrilha, cuja gravidade só foi diagnosticada depois de sua incorporação ao grupo, em Teresópolis, acrescentou mais um capítulo às dúvidas que cercam o jogador. O camisa 10 do Santos não foi chamado pelo que apresentou em campo nos últimos meses. Por esse critério, teria dificuldade de ser escalado no time reserva da seleção do Brasileirão. Suas videocassetadas no ano superam, de longe, seus greatest hits. Melhor evitar a expressão “lances geniais”, porque não há registro de nada remotamente parecido com genialidade no que ele fez em 2026.

Potência de arranque, velocidade com a bola nos pés, dribles desconcertantes, facilidade para finalizar – tudo isso minguou brutalmente no futebol de Neymar. Ele antevê jogadas, mas seu corpo não acompanha mais o que a cabeça projetou. Tome-se como exemplo, para efeito ilustrativo, os dois jogos do Santos pela Copa Sul-­Americana contra o Recoleta, equipe paraguaia que até pouco tempo disputava a segunda divisão. O primeiro foi em 14 de abril, na Vila Belmiro; o segundo, em 5 de maio, em Pedro Juan Caballero. Dois empates por 1 a 1, gols de Neymar em ambas as partidas. O que fica gravado na memória, no entanto, sobretudo se você gosta de futebol, mas não é santista, são as duas chances de gol claríssimas (óbvias e ululantes, diria Nelson Rodrigues) que ele desperdiçou, uma em cada jogo, finalizando de forma bisonha no momento em que o Santos vencia por 1 a 0, nas duas partidas.

O placar do conjunto da obra fica assim: Neymar marcou dois gols comuns, que qualquer bom atacante marcaria; Neymar perdeu dois gols feitos, que qualquer atacante razoável dificilmente perderia. É um 0 a 0 com sabor de derrota.

Antigamente, Neymar executava com sucesso uma jogada que ele imaginava antes do adversário; hoje, parece que o adversário sabe antes o que ele vai tentar, mas já não consegue fazer. Nessa nova realidade de epifanias escassas, qualquer lance mais ou menos vira um acontecimento. O jornalista Marcelo Barreto, que apresenta o Redação Sportv, tem essa opinião. “O Neymar tem crentes. Ele virou uma espécie de divindade. As pessoas têm fé no Ney­mar. Elas estão vendo coisas que não estão acontecendo. Qualquer coisa que o Neymar faça no Santos, hoje, alguém olha e fala: ‘olha aí’, ‘tá vendo’?’’

A situação de hoje é o espelho invertido de 2010, quando também se criou uma grande expectativa pela convocação de Neymar. Aos 18 anos, ele já era uma sensação. Em abril daquele ano, atuando contra o Guarani, de Campinas, Neymar marcou cinco gols na vitória do Santos por 8 a 1. Deitou e rolou em campo. No dia seguinte, a Folha de S.Paulo estampava “Depois de show na Vila, Neymar diz que mantém sonho de ir para a Copa”. Dunga era o técnico e não o levou, alegando que lhe faltava experiência. Para além das explicações protocolares, o xerife do tetra imprimiu sobre o grupo de 2010 uma certa mentalidade de capataz. O estilo warrior do treinador era uma reação à ideia de que em 2006 as coisas haviam corrido muito soltas. Não deu certo. O Brasil caiu na África do Sul nas quartas de final, derrotado pela Holanda por 2 a 1.

Nesse jogo – é importante registrar – estavam em campo, como titulares da Seleção, Robinho (autor do gol brasileiro) e Daniel Alves. Anos mais tarde, ambos seriam condenados por estupro – cometidos em 2013 e 2022, na Itália e na Espanha. Alves teve a sua condenação anulada em decisão unânime do Tribunal Superior de Justiça da Catalunha, em março de 2025. Robinho cumpre sua pena e está preso em Limeira, no interior de São Paulo.

Aquele Brasil x Holanda também ficou marcado como o jogo em que Felipe Melo foi expulso, depois de dar um pisão proposital, fora da disputa da bola, na coxa de um jogador adversário caído no chão. Muitos anos mais tarde, numa entrevista que concedeu a Romário, ao ser indagado se sentia culpa pelo que aconteceu, o ex-volante respondeu: “Eu me sinto culpado de pelo menos não ter tirado o Robben de jogo. Se eu pisei no cara e fui expulso, pelo menos tinha que ter tirado ele de jogo. Infelizmente não consegui.”

Depois da Copa, Felipe Melo seguiu sua carreira. Passou por várias equipes, entre as quais Palmeiras e Fluminense, antes de se aposentar oficialmente como jogador, em janeiro de 2025, aos 41 anos. Em menos de um mês foi contratado como comentarista esportivo do Grupo Globo e costuma atuar no programa Seleção Sportv. Sem pisar em ninguém, segundo consta.

Os dois gols da Holanda naquela partida de 2010 foram marcados por Wesley Sneijder. Ele pertence à galeria dos camisas 10 que foram carrascos do Brasil em copas do mundo. Sem a preocupação de sermos exaustivos, podemos citar, da mesma Holanda, Johan Neeskens, autor do primeiro gol na semifinal de 1974. Ele jogava com a camisa 13, mas era o meia-armador do time, que tinha como grande astro Johan Cruyff, camisa 14. Neeskens e Cruyff decretaram a vitória do carrossel holandês, por 2 a 0.

Em 1986, o Brasil perdeu para a França de Michel Platini, autor do gol de empate que levou a partida para os pênaltis. Em 1990, Diego Maradona, arrancando do círculo central, arrastou a defesa do Brasil e achou um passe perfeito para Caniggia, que driblou o goleiro Taffarel antes de definir o placar – 1 a 0 para a Argentina.

Em 1998, Zinédine Zidane, o 10 da França, destruiu o Brasil na final. Fez dois gols de cabeça e comandou a vitória por 3 a 0. Zidane voltaria a brilhar em 2006, aos 34 anos, com uma atuação histórica, quando os franceses derrotaram o Brasil por 1 a 0. Foi dele o longo passe para que Thierry Henry liquidasse o jogo.

Em 2018, a Seleção de Tite sucumbiu diante da Bélgica de Eden Hazard e Kevin De Bruyne. O primeiro, camisa 10, foi eleito o melhor jogador em campo. De Bruyne, que vestia a 7, mas também atuava pelo meio, organizando o jogo ao lado de Hazard, marcou o segundo gol da vitória por 2 a 1.

Neeskens, Platini, Maradona, Zidane, Sneijder, Hazard, De Bruyne. É bonito ver um camisa 10 em campo. A essa lista de carrascos, poderíamos acrescentar Luka Modrić, da Croácia. Sua atuação contra o Brasil em 2022 foi discreta, mas ele converteu o pênalti na disputa que eliminou a Seleção de Tite nas quartas de final, depois do empate de 1 a 1.

Aquele, aliás, foi o último grande jogo de Neymar pela Seleção. Seu gol resultou inútil, mas foi uma proeza. Ele inicia a jogada da intermediária adversária. Faz duas tabelas, primeiro com Rodrygo, depois com Paquetá, e se projeta na área, pelo meio. O zagueiro croata, diante da impossibilidade de alcançar a bola, tenta deslocar Neymar com o corpo. Em qualquer outra circunstância, ele cairia e o juiz provavelmente apitaria o pênalti. Mas Neymar fica em pé, como quem dá um drible na falta antes de driblar também o goleiro para em seguida chutar forte e cruzado, no alto da rede, marcando um golaço. O torcedor de boa-fé tem esse Neymar na memória. Mas talvez ele seja hoje como a fulana de Drummond, a quem o poeta pergunta: Dona, desculpe.../O seu vestido esconde algo?/ tem coxas reais? cintura?. O poema, como se sabe, se chama O mito.

Depois de Pelé, Zico talvez seja o mais mitológico camisa 10 do futebol brasileiro. Pesam contra ele as derrotas em 1982 e 1986. Mas isso não diminui sua genialidade em campo. No final de março, um repórter do jornal O Globo lhe perguntou: “Sente falta de um camisa 10?” Eis a resposta:

“Claro, de um organizador. Você não tem um jogador que vem de trás, chega na área, faz gol. Não tem hoje. Só Neymar poderia fazer isso. Nos clubes, já é difícil. No Flamengo, é uruguaio [Arrascaeta]. No Fluminense, era colombiano [Arias]. No Vasco, era francês [Payet]. No Botafogo, era argentino [Almada]. No Corinthians, é holandês [Depay]. Não tem nos clubes, não tem na base. Faço um campeonato sub-15 há mais de vinte anos. Você vê a configuração dos times, não tem camisa 10. Você não vê um garoto que faz a armação do jogo, olha, penetra, faz o gol, dá assistência. Hoje, você tem muitos jogadores pelos cantos: Luiz Henrique, Estêvão, Raphinha. Aí tem um monte, dá para escolher.”

Deixemos de lado as bolas divididas. Arias, por exemplo, sempre atuou pelos lados. Fiquemos com o essencial do que diz Zico. Quem é hoje a figura que chama o jogo, organiza, cadencia, distribui, é capaz de driblar, chega na área e faz gol? Só Neymar. Como parte dos atacantes fora de série que entram na quadra final da carreira, o caminho natural do 10 santista seria recuar para o miolo do campo, de onde passaria a organizar o time. Mas isso dependeria de uma disciplina, de uma dedicação, de uma capacidade de entrega física e mental que Ancelotti reconhece em Modrić, um profissional aos 40 anos, e não no menino Ney, um senhor aos 34.

A primeira reação de quem está com a mão na massa, atuando no futebol (como técnico, como diretor, como empresário de jogador ou como comentarista), é recomendar que se deixe o saudosismo de lado quando o assunto é o camisa 10. Chega de saudade é uma espécie de senha entre os boleiros para que se inicie qualquer discussão.

A empresária Stephanie Figer é uma dessas pessoas. Credenciada como Agente Fifa, ela representa atletas e técnicos profissionais, no Brasil e no exterior. É pós-graduada em gestão esportiva pela Fundação Getulio Vargas, mas sua experiência neste mercado começou na infância. Seu avô, Juan Figer, nascido no Uruguai, foi um dos pioneiros na negociação de jogadores entre os dois países. Foi ele quem levou Pedro Rocha, Dario Pereyra e Diego Lugano para o São Paulo, por exemplo.

Sobre o camisa 10, ela pensa o seguinte: “Durante muito tempo, a gente romantizou o talento sem a intensidade. Aquele craque que resolve, sabe? Só que o futebol mundial caminhou para o atleta completo. O jogo hoje exige pressão depois da perda da bola, recomposição rápida, cobertura de espaços e boa dose de agressividade defensiva. O camisa 10 ideal, nesse novo mundo, precisa correr como um meio-­campista, precisa pressionar como um atacante – e ainda tem que decidir tecnicamente. Então, o nível de exigência sobre esse jogador aumentou muito.”

E quem seria um bom exemplo do 10 contemporâneo? “Poderia citar alguns. O De Bruyne é um deles. Mas vou usar o Florian Wirtz, um jovem muito talentoso que atua no Liverpool e na seleção alemã. O 10 antigo era o jogador em torno de quem o time girava. Ele recebia mais livre, tinha menos obrigação defensiva e concentrava praticamente toda a criação do time. O Wirtz é o oposto disso. É extremamente criativo, mas dentro de uma dinâmica muito mais intensa e coletiva. Não fica parado esperando a bola, ocupa espaços, acelera, rompe linhas conduzindo a bola, cai pelos lados, entra na área, participa da recuperação da posse. Em resumo, é muito mais um jogador de movimento constante do que um organizador estático.”

Perguntei a ela, na esteira do que disse Zico, porque as categorias de base não produzem esse jogador: “A base brasileira passou a formar jogadores para o mercado europeu, e não necessariamente para o nosso futebol. Isso é uma fonte de renda importante para os clubes, principalmente no cenário atual. E o que o mercado europeu compra? Compra jogador com velocidade, potência, um atleta de intensidade. Nesse cenário, o menino criativo, que pensa o jogo, cadencia, demora um pouco mais para maturar fisicamente. E hoje a base tem pouca paciência. O jogador que é rápido e forte salta aos olhos antes. Então a gente acaba produzindo muito mais extremos, os antigos pontas, e jogadores de transição, os antigos volantes, do que organizadores.’’

O coordenador do futebol de base do Palmeiras, João Paulo Sampaio, no cargo desde 2015, segue na mesma linha de raciocínio. “Veja você, acaba de sair a convocação da seleção inglesa, e os dois camisas 10 mais técnicos, mais talentosos, ficaram fora da Copa. O Phil Foden, do Manchester City, e o Cole Palmer, do Chelsea. Dois jovens. O treinador optou pelo Jude Bellingham, do Real Madrid. Escolheu um jogador que joga de 10, mas também pode jogar de 8, ou mais recuado, como um 5. Um jogador muito intenso, polivalente. Isso diz muito sobre as tendências do futebol de hoje. O que prevalece não é mais o jogador genial, o jogador que a gente está acostumado a dizer que desequilibra, é o jogador que joga pelo sistema.”

Sob a direção de Sampaio, o Palmeiras formou alguns dos principais talentos do futebol brasileiro nos últimos anos, entre eles Estevão e Endrick. “Estevão jogava de 10 nas categorias de base. Fazia, na verdade, três funções: podia atuar como meia-atacante, pelo meio, na extrema-direita, com a jogada característica de cortar para dentro, ou na extrema-esquerda, onde também pode desequilibrar no um contra um. Quando subiu para o time principal, ele atuou mais pela direita. Até pelo físico, ainda franzino, no canto do campo você consegue proteger mais o jogador. E ele decidia ali. É uma pena que não vá jogar essa Copa.” Estevão seria titular na seleção de Ancelotti. Foi cortado por lesão.

O jornalista Marcelo Barreto é o autor de um livro chamado Os 11 maiores camisas 10 do futebol brasileiro (Editora Contexto, 2010). Ele é o primeiro a reconhecer que este é um terreno minado. Perguntei: Por quê? “Porque o camisa 10 não corresponde a uma posição no campo. Nem é um jogador com função definida. Ele é algo entre um meia e um atacante. Não é o centroavante, não é o finalizador, mas também não é só o armador. É um jogador de meio de campo que pode municiar os atacantes ou atacar ele mesmo. Tem muita gente que chama o 10 de ponta de lança. Zico é um caso clássico.”

Funcionava muito bem quando o esquema tático predominante era o 4-3-3. Não é preciso torcer para o Flamengo para citar de cabeça o antológico meio de campo do início dos anos 1980: Andrade, Adílio e Zico. Todos jogavam o fino da bola, mas só os dois primeiros tinham a obrigação de marcar. Zico ficava solto. E resolvia os jogos.

“O futebol era mais estanque”, diz Barreto. “O jogo ganhou muita mobilidade, no sentido de que todo mundo ataca e todo mundo defende. Isso acabou matando o lugar do 10 no campo. Estamos num momento em que se tolera, no máximo, um único jogador sem responsabilidade de marcar, ainda assim com ressalvas.”

Em 1994, Carlos Alberto Parreira montou a sua cidadela inexpugnável e liberou os dois da frente da parte chata. Fez o que se chama de 4-4-2, com quatro jogadores no meio imbuídos da missão de proteger a zaga. Quem dançou foi o 10. Raí foi sacado do time no primeiro jogo da Copa. Seu lugar foi ocupado por Mazinho, com funções táticas defensivas bem definidas. Mas disso só os especialistas se recordam. No registro histórico, o que ficou daquela conquista foi a dupla de atacantes, Bebeto e Romário. No caso, Robin e Batman.

Em 2002, no pentacampeonato, o 10 foi reabilitado. Mas Rivaldo, o dono da camisa, mesmo sendo um jogador gigantesco, nunca deixou de carregar o estigma de coadjuvante. Dificilmente alguém menciona seu nome sem citar na mesma frase a dupla Ronaldo-Ronaldinho. Até na hora do reconhecimento oficial, Rivaldo permanece meio fora dos holofotes. Em 2002, foi eleito pela Fifa o segundo melhor jogador da Copa. Ganhou o prêmio de Melhor Jogador do Mundo em 1999, é verdade.

Em seu livro Escola brasileira de futebol, (Objetiva, 2018), o jornalista Paulo Vinícius Coelho, o pvc, diz que, durante anos, Rivaldo “foi criticado por não ter uma posição exata. Não era ponta, não era meia, não era centroavante”. Disso pvc conclui, com muito acerto: “Sempre se cobra polivalência no futebol brasileiro, exceto quando ela existe num jogador polivalente.” Rivaldo, sob este aspecto, é o mais moderno 10 do futebol brasileiro.

Wisnik, em seu Veneno remédio, acrescenta mais elementos que ajudam a entender o lugar que ele ocupa na posteridade.

A dificuldade de ter o seu valor futebolístico reconhecido com a devida clareza talvez se deva em alguma medida à inadaptação do seu modo de ser ao panteão da fama no mundo das celebridades e das marcas: fora do campo, Rivaldo não ostenta riqueza, não exibe intimidade, não irradia poder, não se comporta como astro pop nem se converte a um cosmopolitismo emprestado. [...] Rivaldo não perde, na verdade, o jeito de trabalhador (que ele não deixa de ter em campo) nem uma congênita falta de pose.

Esses pequenos perfis dos principais jogadores brasileiros são um dos pontos fortes do livro de Wisnik. Perguntei a ele como seria o perfil de Neymar. A resposta veio numa frase: “Neymar é a própria fórmula do veneno remédio.”

Voltemos aos primórdios, de onde partimos. O crítico teatral Decio de Almeida Prado era apaixonado por futebol. Alguns de seus textos sobre o assunto foram reunidos no livro Seres, coisas, lugares: do teatro ao futebol, publicado pela Companhia das Letras em 1997. Almeida Prado morreria em 2000, aos 82 anos. Em 1961, aos 43 ou 44, ele escreveu um ensaio chamado Recordações de Leônidas (da Silva). Tinha adoração pelo jogador, como fica patente já no primeiro parágrafo:

Para as pessoas de minha idade, que já se vão inclinando perigosamente para as reminiscências, mas sem estarem ainda de todo persuadidas de que as novas gerações esperam com ansiedade a publicação de suas memórias, o grande centroavante por excelência foi e sempre será Leônidas (o único Leônidas, desde as Termópilas, a dispensar sobrenome).

Depois de algumas páginas, quando entramos na parte final do texto, Almeida Prado relembra como foi seu contato com o craque, na primeira e na última vez que o viu jogar. É este trecho que nos importa aqui. Eu cito:

Lembro-me confusamente da primeira partida de Leônidas a que assisti. Sei apenas que estávamos em 1930 e poucos, no Parque Antártica, numa disputa entre paulistas e cariocas. Nós, de São Paulo, era a ele sobretudo que temíamos: um pretinho que se revelara sensacionalmente [...] contra os uruguaios em Montevidéu, um meia-esquerda (a vocação de centroavante é quase sempre tardia) que era um verdadeiro azougue dentro da área. Nesse dia São Paulo ganhou sem dificuldades e Leônidas nada fez (os jogadores que não erram, que não têm partidas medíocres ou infelizes, só existem na memória sentimental dos torcedores).

O texto prossegue:

Lembro-me também, com a maior nitidez, de sua última exibição. Leônidas passara alguns meses sem jogar, cogitando em ser técnico, e voltava numa partida noturna. [...] Ele, que jamais tivera propriamente um físico de atleta – quase baixo, tórax desenvolvido, cadeiras largas, pernas surpreendentemente finas –, ia perdendo a batalha não tanto contra a idade como contra a gordura, de pouco adiantando os treinos realizados em pleno verão com grossas camisetas de lã. Leônidas ainda fez nesse jogo, que nem ele nem nós sabíamos ser o derradeiro, três ou quatro passes maravilhosos, desses que satisfazem mais e dão mais prazer estético do que meia dúzia de gols achados por acaso. Porém, os rapazes de 20 anos evidentemente já não o temiam: avançavam sobre ele, sem medo do drible desmoralizador, e chegavam até, ante o espanto silencioso da assistência, a tirar-lhe a bola. Recordo-me em especial de um tranco que ele levou junto às laterais, bem sob as vistas das numeradas do Pacaembu. Leônidas caiu duro, seco, pesado, erguendo-se devagar com uma ponta de surpresa no olhar. Ninguém mais podia ter dúvidas. Era o tombo de um senhor, não a queda elástica e acrobática de um profissional do futebol.

O campeonato era o de 1950, Leônidas tinha 37 anos, vinte dos quais vividos como jogador de primeira divisão.

Cai o pano.


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