questões ludopédicas
Sérgio Rodrigues, especial para a piauí 30 Jun 2026
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Quando marcaram de falta contra a Jordânia, numa das últimas partidas da primeira fase da Copa do Mundo, os argentinos Giovani Lo Celso e Lionel Messi ficaram perto de dobrar em poucos minutos o número de gols do torneio em cobranças diretas de falta, juntando-se a um canadense, um cabo-verdiano e um português. Cada um dos três gols de falta tinha sido memorável a seu modo, e de repente eram cinco.
O goleiro jordaniano Yazeed Abulaila, que ficou plantado no chão nas duas cobranças argentinas – mais precisamente, se mexeu de leve para o lado errado –, ajudou a dar esperança a quem anda temendo que os gols de falta, esses momentos culminantes do futebol, estejam em extinção na versão contemporânea do jogo.
Com muita coisa ainda por acontecer na Copa, o número de gols de falta de 2026 já supera o verificado no Catar em 2022 (2!) e no Brasil em 2014 (3), empatando com o total na África do Sul em 2010 e ficando a apenas um de igualar a meia dúzia anotada na Rússia em 2018.
Mesmo assim, deve-se moderar o otimismo. Cinco gols correspondem a 2,3% dos 215 marcados na fase classificatória encerrada no sábado, 27 de junho. O retrato parcial é o de um mundial de seleções muito ofensivo, com média de 2,99 gols por partida – número vistoso, o maior desde a Copa de 1958 (3,6) e ligeiramente superior ao total da mítica Copa de 1970 (2,97). De todo modo, é provável que essa média caia bastante até o fim do torneio, já que na fase de mata-mata a disparidade técnica entre os times diminui e eles tendem a ser mais cautelosos.
Nesse mar de bolas na rede de uma Copa turbinada – disputada pela primeira vez por 48 seleções, 16 a mais que nas últimas edições –, a verdade é que a participação relativa dos gols de falta não está tão longe das médias que têm sido observadas nas principais competições do mundo, tanto no Brasil quanto na Europa. Minguantes, esses números ficam hoje abaixo da metade do que eram há quinze ou vinte anos.
Na Premier League, a liga inglesa, os gols de falta respondiam por 4,5% do total em 2008 e tinham despencado para 1,6% em 2023. No campeonato espanhol, também conhecido como La Liga, o tombo no mesmo período foi de 3,6% para 1,3%. Algo semelhante se deu no Campeonato Brasileiro, cujo percentual de gols de falta passou de 5,6% em 2007 para 3,2% em 2017 e 1,77% em 2025.
A explicação imediata do torcedor médio – segundo a qual já não existem craques como os de antigamente – é tentadora nessa hora. Grandes cobradores de falta são mesmo, de modo geral, os craques do time. Na vida real, a explicação para a escassez relativa dos gols é mais multifacetada. Inclui desde o aumento da estatura média dos jogadores da barreira e dos goleiros até o maior volume de manobras de ataque efetuadas pelos lados do campo, onde as faltas são naturalmente cobradas com tiros indiretos.
Contudo, nenhuma explicação parece ter mais peso do que a implicância aberta com a cobrança direta que começou a fermentar dentro dos clubes na era da análise de grandes volumes de dados. A superprofissionalização do esporte fez com que as métricas passassem a nortear tanto a medicina esportiva quanto a administração dos departamentos de futebol como um todo.

Ser um bom batedor de falta sempre exigiu uma dose de romantismo. Além de talento para bater na bola, envolve muito treino, longas séries de chutes a gol – às vezes depois do expediente, noite adentro, camiseta pendurada num dos ângulos das traves para servir de alvo, quando as pernas já estão cansadas dos exercícios com e sem bola e do coletivo.
Ser um cobrador eficiente de falta sempre exigiu uma medida extra de doação, um esforço a mais – algo que hoje, nos grandes clubes, a fisiologia limita severamente devido ao chamado “controle de carga”, com suas métricas individualizadas por atleta para minimizar os riscos de lesão.
O big data aponta também que o índice de acerto em cobranças diretas de falta é pequeno, em torno de 5%, o que leva os riscos a não compensarem e os treinadores a darem preferência a cobranças indiretas, ensaiadas. Tudo muito sensato. O que a análise de dados não mostra é justamente o que torna o gol de falta especial, o que escapa à quantificação. Aquilo que alguém já chamou de “magia” e que jogadores inspirados conseguem conjurar em campo nos momentos mais críticos das partidas.
Há uma simplicidade bonita no gol de falta, uma redução do futebol – jogo famosamente confuso, truncado, aberto ao acaso – a seus elementos essenciais: um chutador, um goleiro e um terceiro elemento artificial, estilizado, que resume a intervenção de múltiplos defensores humanos a uma linha estática chamada barreira.
É ela, a barreira, além da distância maior, que torna a falta batida direto para o gol tão superior ao pênalti. Este estiliza além da conta o futebol ao reduzi-lo a apenas dois elementos, e daquela distância a vantagem do batedor é tão grande que assinalar o gol vira obrigação. Pênalti só consagra goleiro.
Por causa da distância maior e da barreira (que pode estar ausente, mas isso é exceção), a cobrança de falta é um desafio incomparavelmente maior para o batedor. Bem executada, tem o poder de congelar o tempo, e com frequência também o de mudar o destino de uma partida.
Quando Ronaldinho Gaúcho meteu uma bola de 40 metros no ângulo superior direito do goleiro inglês David Seaman, em 2002, fez mais do que dar à Seleção brasileira a vitória de 2 a 1 que valeria a passagem à semifinal na campanha do pentacampeonato: criou também um dos cartões postais atemporais das Copas.

Para quem gosta da chamada “escrita”, é curioso observar que na campanha do tetra, em 1994, outro belo gol de falta – de Branco contra a Holanda, aquele em que a câmera lenta mostra Romário se contorcendo para sair do caminho do petardo – também tinha desempatado uma partida difícil de quartas de final, garantindo a vitória por 3 a 2.
Talvez seja por essa familiaridade com a mitologia do jogo, território que nenhuma métrica alcança, que os gols de falta tenham quase sempre uma boa história para contar. O primeiro da Copa 2026 foi marcado pelo canadense Nathan Saliba, que tinha entrado no lugar de Ismaël Koné, retirado de campo com a perna esquerda fraturada – a quem ele dedicou o feito.
O segundo gol de falta, de Kevin Pina contra o Uruguai, foi simplesmente o primeiro gol da história de Cabo Verde, seleção estreante e uma das maiores alegrias da Copa. O terceiro teve sabor menos épico, só mais um na goleada de 5 a 0 de Portugal sobre o Uzbequistão. Mesmo assim, fez o mundo sorrir pela quebra de expectativa – o goleiro esperando a cobrança de Cristiano Ronaldo, o especialista, e sendo surpreendido pelo chute de Nuno Mendes.
O gol de falta sempre foi meio raro, daí sua beleza e também, num esporte milionário e cada vez mais orientado por planilhas de eficiência, sua aparente danação. O romantismo combina menos com o ambiente de hoje do que com aquelas métricas históricas difusas, brumas de um tempo em que nem sempre se achava importante diferenciar nos registros – e por que seria? – um gol de falta de um gol de cabeça: gol era gol, ora.
As listas dos dez maiores artilheiros em cobranças de falta de todos os tempos variam bastante, conforme a fonte dos dados. Se as posições mudam de lista para lista, os brasileiros são maioria em quase todas: Juninho Pernambucano, Pelé, Ronaldinho, Zico, Rogério Ceni.
Não faria mal às esperanças de um hexa nesta Copa – que podem ser modestas, mas eram menores alguns dias atrás – se o Brasil pudesse voltar a usar uma arma que sempre o distinguiu em mundiais.
Nenhuma seleção marcou mais gols de falta em Copas do Mundo do que a brasileira. Disparado: são 13 gols, com a Argentina na segunda posição totalizando 7 (computados os dois sem goleiro contra a Jordânia), segundo dados da Fifa. Pelé, em 1966 e 1970, e Rivellino, em 1970 e 1974, lideram a artilharia brasileira com dois cada um. Os outros da lista têm um gol cada: Didi em 1954, Garrincha em 1966, Dirceu e Nelinho em 1978, Zico em 1982, Branco em 1994, Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho em 2002, e David Luiz em 2014.
Isso mesmo: estamos jogando a terceira Copa desde que o zagueiro cabeludo – também numa partida de quartas de final – marcou o segundo do Brasil contra a Colômbia com aquela batida chapada que faz a bola variar e perder altura rapidamente, muito usada antes dele por Marcelinho Carioca.
Parece apenas justiça poética que, depois de perder de 7 a 1 para a Alemanha em casa na semifinal, o Brasil nunca mais tenha conseguido fazer valer um fundamento em que sempre se destacou. Se a carta emocional – no caso, envolvendo um trauma importante – não pode ser descartada do futebol, a explicação para a seca de gols de falta na seleção parece ser mais complexa, como vimos.
De todo modo, a escassez não impediu a equipe de camisa amarela de obter, contra a mesma Alemanha, uma pequena vingança na final olímpica de 2016, no Maracanã: Neymar cobrou uma falta com perfeição no ângulo superior direito do goleiro e empatou o jogo em 1 a 1, abrindo caminho para a vitória nos pênaltis e para a primeira medalha de ouro do país na modalidade. Não custa lembrar que esse jogador está no grupo, nosso único grande batedor – vai que precisa.

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Com a colaboração de Marcelo Soares.