questões ludopédicas
João Brizzi Pequeno piauí_239 06 Ago 2026
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"Não foi fácil escrever este filme porque a gente sabe o que vocês estão sentindo.” Foi assim, com um ato falho logo na primeira frase, que começou o patético vídeo motivacional publicado pela CBF na manhã de domingo, 12 de julho, dia seguinte à definição das quatro seleções semifinalistas da Copa do Mundo. Eles, da Confederação Brasileira de Futebol, tinham algo a dizer a nós, brasileiros.
O Brasil havia sido eliminado uma semana antes, ficando com a 11ª colocação no torneio. “Então, vamos guardar esta data”, prosseguiu o narrador. “Cinco de julho de 2026: o dia em que começa a nossa próxima jornada.” Se o anúncio indicava que o trabalho já estava em andamento, a realidade apontava na direção contrária.
No dia 7 do mesmo mês, o voo fretado da CBF retornou ao Brasil praticamente vazio. Dos 26 atletas convocados, apenas o lateral direito Danilo fez a viagem de volta para o Rio de Janeiro. Carlo Ancelotti foi para Vancouver, Neymar Júnior, para Las Vegas, onde participou de um campeonato de pôquer.
“Vamos com tudo: não só com o nosso talento, mas com mais estabilidade, mais planejamento e muito mais trabalho duro. E daqui a quatro anos, minha amiga, meu amigo, se preparem porque estaremos ainda mais fortes para buscar essa sexta estrela. Pode acreditar.” Resta saber em quê.
O talento já não é mais o mesmo de outrora: não temos laterais, meias criativos ou centroavantes confiáveis para estruturar um time competitivo. E para dizer que teremos mais estabilidade e planejamento, precisaríamos ter tido pelo menos um pouco das duas coisas no último ciclo. Os quatro anos de trapalhadas e treinadores temporários deram como fruto o pior resultado da Seleção desde 1966. A CBF mente que nem sente.
Como diria Chaves, o personagem mexicano eternizado por Roberto Gómez Bolaños, “teria sido melhor ir ver o filme do Pelé”. Já que o filme do Pelé há muito saiu de cartaz, fomos obrigados a assistir a uma enorme propaganda de bet com um joguinho de bola no pano de fundo.
¿Dónde quieres? perguntou Neymar Júnior da marca do pênalti ao goleiro norueguês Ørjan Nyland, de 35 anos, que está sem clube depois de uma temporada na reserva do Sevilla, da Espanha. Intenta a lo palo [“Tenta na trave”], respondeu o arqueiro. Eram os acréscimos dos acréscimos da partida entre Brasil e Noruega pelas oitavas de final. Nós perdíamos por 2 a 0.
Pela idade, é razoável afirmar que Nyland sonhava ser jogador na primeira década dos anos 2000, época em que a Nike se apropriou do termo “Joga Bonito” e o transformou numa das maiores campanhas publicitárias da história do futebol. O goleiro norueguês certamente viu o comercial em que Ronaldinho Gaúcho recebia um par novo de chuteiras e, para testá-las, acertava o travessão quatro vezes seguidas sem deixar a bola tocar a grama. O ano era 2005. O Bruxo, o melhor do mundo. E o vídeo, o primeiro a atingir a marca de 1 milhão de visualizações no YouTube.
A resposta de Nyland reconhecia a qualidade do craque brasileiro: Neymar poderia fazer o mesmo que Ronaldinho, se quisesse. A ironia estava justamente na irrelevância de seu talento: o jogo já estava decidido e, àquela altura, ser o melhor batedor de pênaltis do mundo não faria a menor diferença para o Brasil.
Aos 54 minutos e 29 segundos do segundo tempo, o árbitro autorizou a cobrança. Neymar escutou o apito e foi para sua batida característica: devagar, como se não fizesse parte do time que perdia o jogo, deu meia-volta na bola, caminhou lentamente, fez paradinha e chutou 13 longos segundos depois. Brasil 1, Noruega 2. Qualquer jogador correria até o fundo da rede, pegaria a bola às pressas e a levaria até o círculo central na tentativa de espremer o tempo e atacar mais uma vez. O estapafúrdio camisa 10 preferiu peitar o goleiro: A mí no, otário.
O Brasil perdeu o jogo. Neymar, não. Era como se ele bradasse: “Estão vendo? Sem mim é pior!” Para ele, para seu pai, para sua milícia digital e para seus defensores na imprensa, foi um importante octogésimo gol em 130 partidas pela Seleção. Juntou-se a Pelé como os dois únicos brasileiros a marcar em quatro copas. E deixou no ar a sugestão de que, se tivesse começado no time titular naquele dia, talvez tivesse marcado inclusive o primeiro pênalti da partida, perdido por Bruno Guimarães.
Uma sugestão, diga-se, que ignora a possibilidade de que, com Neymar integrando os onze desde o início, talvez sequer fôssemos capazes de armar o lance que originou a primeira penalidade. De Pelé a Kaká, passando por Rivellino, Zico, Silas, Raí, Rivaldo e Ronaldinho, o Brasil nunca chegou a uma Copa com um camisa 10 tão descompromissado e fora de forma.
O Neymar Hipotético é um fantasma do menino que estreou pela Seleção há 16 anos naquele mesmo estádio de Nova York onde Erling Haaland, o fenômeno norueguês, nos eliminou. Simboliza um país que não existe mais e que apostou por mais de uma década em um único atleta para tirar nosso futebol do caminho do ostracismo. Era uma resposta tanto à baderna da preparação em Weggis, na Suíça, na Copa de 2006, quanto à tosca rigidez imposta por Dunga no ciclo da Copa de 2010. Era, em suma, uma tentativa vã de evitar um novo Maracanazo em 2014, que, no entanto, acabou virando um Mineirazo contra a Alemanha dos 7 a 1 – uma partida que Neymar, por não estar em campo, também não perdeu.
De lá pra cá, eis a tônica das análises da Seleção: quando vencia, era em razão do talento de seu camisa 10, como nas Olimpíadas de 2016, e, quando perdia, era porque seus companheiros não tinham capacidade de acompanhá-lo, como aconteceu na Copa América irresponsavelmente organizada pelo Brasil durante a pandemia, em 2021. Nem Noé carregou tanta mula quanto Neymar em seus anos produtivos.
Depois do 7 a 1 com Luiz Felipe Scolari, o Felipão, Dunga teve uma segunda passagem completamente esquecível como técnico da Seleção antes de entregar o cargo a Adenor Bachi, o Tite, em 2016, faltando dois anos para a Copa da Rússia. A estratégia de Tite no comando do Brasil era clara: atender a todos os desejos e caprichos de sua principal estrela dentro e fora de campo. Tanto que, em 2018, seus parças ficaram hospedados no mesmo hotel que a Seleção, na cidade russa de Sochi. Perdemos para a Bélgica, mas a culpa, novamente, não poderia ser de Neymar. Na ocasião, ele e Tite foram considerados dois injustiçados pela falta de tempo de preparação. O ônus era da CBF de Marco Polo Del Nero, que demorou a acertar o técnico no ciclo que precedeu o certame.
Quatro anos mais tarde, na Copa do Catar, o filme se repetiu. O gol antológico de Neymar na prorrogação contra a Croácia só não é mais lembrado que a cena em que dá um esporro em Fred, o esforçado volante, depois que o Brasil sofreu o empate: “Não tem necessidade de você subir, velho! Tá 1 a 0 e faltam 5 minutos. Vai dar opção pra quê?” Ficou por último na lista de cobradores da disputa de pênaltis. Como não deu tempo de bater, não foi ele, mais uma vez, quem perdeu.
De grande estrela da companhia, Neymar foi paulatinamente se tornando a grande assombração de uma geração perdida. Quebrou todos os recordes individuais imagináveis, mas não alcançou a glória maior de um esporte coletivo. Por ter passado boa parte deste ciclo lesionado, foi também o grande boi de piranha de jogadores que não queriam assumir tanta responsabilidade para a Copa de 2026. E em sua última entrada em campo, contra a Noruega, desmontou o time e drenou a energia que seus colegas mais novos ainda tinham para tentar vencer o jogo.
Se começou com uma constrangedora festa na sua convocação organizada pela CBF, sua participação na Copa acabou num igualmente vergonhoso velório. Por falta de ideia melhor, o futebol brasileiro se prestou a ser apenas um figurante na despedida de seu último e solitário grande craque. A velocidade alucinante dos dribles de Vinicius Júnior, as grandes defesas de Alisson ou os gols de Matheus Cunha acabaram eclipsados pelo pênalti derradeiro. Quando importou, não resistimos à tentação de pedir por mais um milagre ao nosso santo do pau oco. O milagre não veio.
Em coluna publicada pelo jornal O Globo, dois dias depois da partida, o jornalista Thales Machado escreveu: “[Neymar] Foi o protagonista técnico de uma era em que o Brasil desaprendeu a ser protagonista do mundo. Um jogador que ocupou o centro de quase tudo. Inclusive do nada.”
De adversário temido, nos tornamos a maior bravata do futebol mundial. Como se algum exército fosse ter medo de invadir a Macedônia em 2026 porque um dia Alexandre, o Grande, existiu.
"Fomos desclassificados, mas o futebol brasileiro provou que é um dos melhores do mundo. Estou triste com a derrota, mas não me arrependo do trabalho que realizamos”, disse o técnico Telê Santana no desembarque da Seleção Brasileira que perdeu a Copa de 1982. Os jogadores chegaram de Varig ao Aeroporto do Galeão e foram recebidos com aplausos de mais de mil torcedores. Aquele time jogava um futebol tão vistoso que a eliminação ficou conhecida como “A tragédia do Sarriá”, uma referência ao nome do estádio espanhol onde o Brasil perdeu por 3 a 2 para a Itália. Era uma derrota interpretada como acidente, e não consequência de um mau trabalho.
Junto da equipe que venceu a Copa de 1970, a Seleção de 1982, que contava com Zico, Falcão, Sócrates e Júnior Capacete, tornou-se símbolo maior do futebol brasileiro. Um jogo vistoso, criativo, envolvente e que pretendia encantar quem assistia tanto quanto pretendia vencer. Não se queria a vitória a qualquer custo. Era preciso encantar. Era importante festejar.
Dez anos depois, em 1992, Telê era técnico do São Paulo e foi entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura. Entre os jornalistas, estava Sidney Mazzoni, então editor de esportes do Jornal da Tarde, que o confrontou: “A beleza do futebol que dá prazer não é o resultado?” Telê deixou clara sua posição: “O resultado também. Mas não pense que eu prefiro fazer igual a muitos que dizem – torcedores, diretores –, que já ouvi: ‘Eu quero ganhar com gol de mão, aos 47 minutos e impedido.’ Não me satisfaz. [...] Eu vou receber o meu, bicho, mas fico envergonhado de receber a gratificação, de ganhar um jogo assim.”
Dois anos depois dessa entrevista teríamos a Copa de 1994. Ao contrário de hoje, o Brasil não era o único país no topo da lista de campeões de copas. Éramos tricampeões, assim como Alemanha e Itália. A Argentina, depois de uma década com Maradona, tinha dois títulos e nos seguia de perto. Entre nós, não havia, portanto, a empáfia de ser a única nação pentacampeã do mundo. Para se descolar dos rivais, era preciso trabalhar. E o ponto do trabalho duro era tirar o Brasil de um jejum de 24 anos sem títulos. Vencendo, mas sem perder a alegria e o molejo que faziam de nossa Seleção uma entidade única e extremamente respeitada no mundo da bola. Era um futebol que ainda respondia às evoluções táticas e físicas que aconteciam ao redor do planeta, mas não perdia a essência das ruas e do improviso que formaram quase todos os nossos heróis.
Naquela Copa, voltamos dos Estados Unidos tetracampeões. E boa parte da culpa foi de Romário, um atacante que aumentava seu desempenho à medida que a pressão recaía sobre seus ombros, dando a certeza aos seus companheiros de que, se fizessem um bom trabalho, ele seria decisivo no ataque. (A comparação é inevitável: quando Vinicius Júnior entregou a bola para que Bruno Guimarães batesse o pênalti que poderia colocar o Brasil em vantagem contra a Noruega, foi impossível não lembrar de Romário na apresentação para a Copa de 1994. “Se realmente acontecer um resultado negativo, o maior culpado sou eu.”)
A história da Seleção contrasta com o contexto que gerou a nomeação de Carlo Ancelotti para o posto de treinador. Ao contrário de outras épocas, os técnicos brasileiros de hoje são conhecidos por um extremo conservadorismo e por um futebol muitas vezes feio e entediante. São adaptados a um medo de perder gerado por uma indústria que troca o comandante ao primeiro sinal de declínio do desempenho da equipe. Uma derrota em clássico, uma eliminação antes da hora e pronto: é hora de demitir, pagar (ou não) a rescisão e recomeçar. Uma história como a de Luiz Alonso Perez, o Lula, que treinou o Santos de 1954 a 1966, é inimaginável neste século. Ou mesmo a de Felipão, que teve longos períodos à frente de Grêmio e Palmeiras antes de se credenciar como o técnico que faria render uma geração incrível de jogadores em 2002.
Como resultado disso, a Copa de 2026 é a primeira na história sem nenhum treinador brasileiro presente. Noutras épocas, não era raro ter mais do que um. Otto Glória treinou Portugal e seu craque Eusébio em 1966. Didi foi técnico do Peru em 1970. Paulo César Carpegiani montou um forte Paraguai em 1998, mesmo ano em que René Simões fez história com a Jamaica. Em 2006, Felipão estava em Portugal e Zico trabalhava no Japão, país onde é ídolo por sua contribuição ao esporte. Carlos Alberto Parreira levou sua experiência ao Kuwait, Emirados Árabes, Arábia Saudita e África do Sul.
Na esteira de Telê Santana, viriam ainda nomes como Vanderlei Luxemburgo, Paulo Autuori e Muricy Ramalho, talvez seu maior discípulo. Treinadores que, cada um à sua maneira, tiveram tempo e condições para atualizar e evoluir nosso futebol. Até a recente contratação de Filipe Luís como treinador do Mônaco, os últimos registros notáveis de treinadores brasileiros em clubes europeus eram de Vanderlei Luxemburgo no Real Madrid (2005), Felipão no Chelsea (2009), Zico no Olympiacos (2010) e Leonardo na Inter de Milão (2011). Trabalhos recentes como o de Sylvinho na seleção da Albânia que quase foi à Copa ou de Thiago Motta – naturalizado italiano – na Juventus pouco são lembrados pelo torcedor brasileiro.
Como não confiamos plenamente em técnicos como Rogério Ceni ou Fernando Diniz, nem mesmo nosso futebol de clubes passou ileso à decadência de técnicos brasileiros. Depois das vindas bem-sucedidas dos portugueses Jorge Jesus e Abel Ferreira ao Flamengo e ao Palmeiras entre 2019 e 2020, os treinadores gajos se transformaram na solução preferida da cartolagem nacional, de Cuiabá ao Recife.
Enquanto isso, tanto no Brasil quanto na Europa ou nas seleções, um sem-fim de técnicos argentinos consegue trabalhar sem dificuldades. O jejum brasileiro de títulos mundiais entre 1970 e 1994 serviu de combustível para a geração anterior. Já o penta conquistado em 2002 transformou-se em resignação para os professores daqui.
Como neste ano saímos derrotados de maneira subserviente e acachapante, não houve nem resultado, nem futebol bonito para celebrar. Ainda assim, é preciso decidir: queremos retomar a identidade forjada por Pelé, Garrincha, Rivellino e Jairzinho ou preferimos ganhar de qualquer jeito? Antes da novela que antecedeu a chegada de Ancelotti, o sonho dourado do brasileiro era Pep Guardiola, um técnico cuja filosofia de jogo posicional e posse de bola herdada do holandês Johan Cruyff faria mais sentido no contexto histórico nacional.
Carlo Ancelotti e Pep Guardiola têm abordagens diametralmente opostas em relação ao futebol, e ter ambos como opções em nosso imaginário demonstra nossa absoluta perda de identidade. Carleto pode ser um vencedor, mas sua trajetória não aponta para a criação de equipes que praticam um futebol envolvente. Do Milan campeão da Europa com Kaká ao Real Madrid de Vinicius Júnior, Ancelotti sempre preferiu o pragmatismo ao futebol-arte. Se queremos retomar nossa tradição, ele pode não ser a melhor alternativa.
Não sejamos injustos: Ancelotti teve pouco mais de um ano para trabalhar e o que vimos não é suficiente para demiti-lo. Nosso futebol precisa de alguma continuidade se quiser ter futuro. Por outro lado, a torcida brasileira apresenta um certo defeito de memória: nas últimas duas conquistas, em 1994 e 2002, o time brasileiro não se destacou por jogar bola como os times de Telê ou João Saldanha, o grande mentor da Seleção de 1970. Pelo contrário: eram retrancas eficientes que resistiam às investidas adversárias e chutavam a bola para a frente na esperança de que talentos fora do comum decidissem. Numa Copa, a solução coube a Romário e Bebeto. Na outra, a Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo. Nessa geração, o futebol-arte vinha da capacidade individual dos craques, não tanto do encanto criado pelo trabalho coletivo.
Pelo setor defensivo, tanto a geração de Taffarel, Jorginho, Ricardo Rocha e Mauro Silva, da Seleção de 1994, quanto a de Cafu, Roberto Carlos, Lúcio e Gilberto Silva, da Seleção de 2002, se beneficiaram da mistura de uma boa base feita no Brasil combinada com uma adaptação ao futebol europeu um pouco mais tardia. Até 2002, era incomum que nossos jogadores saíssem ainda adolescentes do Brasil. Havia tempo para que ganhassem maturidade e se acostumassem à pressão descomunal das nossas torcidas antes de chegarem à Europa, onde poliam sua formação.
Ao contrário das gerações de Pelé ou Zico, eram equipes que pensavam muito mais no resultado do que na estética do jogo. Os melhores momentos do tetra e do penta pouco se assemelham aos de 1970 e 1982. Em especial na Copa da Coreia do Sul e do Japão, em 2002, é incrível como Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho jogavam de forma por vezes egoísta, passando pouco a bola um para o outro. Cada um deles fazia questão de brilhar.
Na final contra a Alemanha, os dois gols que nos deram o título mostram um pouco disso. No primeiro, Ronaldo perde a bola, mas pressiona a saída e toca para Rivaldo na esperança de uma tabela. O pernambucano, no entanto, ignora a passagem de Ronaldo e chuta pro gol. Oliver Kahn, o goleiro alemão, bate roupa e o Fenômeno marca no rebote. No segundo, Rivaldo dá um corta-luz querendo receber a bola de volta. Ronaldo, no entanto, finaliza e sela o placar de 2 a 0.
O que seria, então, a nossa identidade? O desenvolvimento do jogo em equipe, a qualidade dos indivíduos ou as duas coisas ao mesmo tempo? Não nos restaria nem um, nem outro.
Se fez bem à nossa autoestima, a conquista do penta também foi a pior desgraça que poderia acontecer ao projeto do futebol brasileiro. De Vampeta dando cambalhotas para Fernando Henrique Cardoso na rampa do Palácio do Planalto ao locutor Galvão Bueno repetindo que éramos o futebol mais vencedor do mundo dia sim, outro também, internalizamos uma ideia de que a Seleção Brasileira foi, desde sempre e de forma contínua, a melhor que já existiu. Vencer deixou de ser uma questão de trabalho duro e passou a ser uma espécie de destino manifesto. Uma grande ilusão que dissociou nossa percepção sobre o futebol do que aconteceria na realidade dos 24 anos que se passaram desde então.
No Campeonato Brasileiro, quem venceu em 2002 foi o Santos, que viu Emerson Leão apostar nas categorias de base em meio a uma crise financeira e revelar a geração dos Meninos da Vila: Robinho, Diego e Elano. Herdeiro de Pelé antes de Neymar, Robinho talvez tenha sido o primeiro jogador em nossa história cuja carreira foi sempre direcionada ao desejo de ser o melhor jogador do mundo, glória individual que não era exatamente uma prioridade em gerações anteriores. Até 1995, a Bola de Ouro da revista France Football sequer premiava jogadores de fora da Europa. Assim que mudou a regra, Ronaldo venceu duas vezes, em 1997 e 2002, e Rivaldo foi eleito em 1999.
Depois do pentacampeonato, o Fenômeno se transferiu para o Real Madrid, e Ronaldinho, para o Barcelona. Na Espanha, o mesmo tanto que jogaram de bola, fizeram de farra. As histórias das festas dadas por ambos em Madri e na Catalunha são hoje um gênero próprio de cortes de podcast com boleiros da época. Andavam com David Beckham – o primeiro metrossexual do mundo –, Luís Figo, Djalminha, Denílson, Zinedine Zidane e toda a nata do futebol da época. Conquistaram muitos títulos – Ronaldinho foi a figura central da reconstrução de um Barcelona que havia muito estava em crise –, mas perderam um pouco do foco no processo.
Em 2006, o Brasil tinha um time ainda mais forte do que em 2002. Além dos campeões mundiais, juntavam-se ao elenco Adriano, Robinho e Juninho Pernambucano, além do crescimento de Kaká, que seria o melhor do mundo em 2007. Mas o tal do ciclo do time de Carlos Parreira mais pareceu uma turnê de exibição e adulação do que um processo preparatório para tentar vencer outra vez. Os principais craques pediram folga na Copa América, em 2004, e viram a nova geração vencer uma final emocionante contra a Argentina. Viajamos até o Haiti para fazer o Jogo da Paz. E, em 2005, vencemos a Copa das Confederações, competição que sempre valorizamos muito mais do que nossos rivais, numa versão do time que, com Robinho no lugar de Ronaldo, tinha mais sentido tático e rendeu melhor do que a equipe que disputou a Copa no ano seguinte, na Alemanha.
A Seleção escolheu a cidade de Weggis, na Suíça, para fazer uma preparação que mais parecia com um spin-off do Joga Bonito. Era um verdadeiro reality show. Treinos abertos, exibições de embaixadinhas, invasão de torcedores e cenas incompatíveis com um ambiente de concentração. Numa delas, a brasileira Sheila Soares correu por todo o gramado e se jogou nos braços de Ronaldinho Gaúcho, que se alongava sentado junto dos colegas. O passar dos anos fez a cena envelhecer especialmente mal: assim que ela se deita sobre o atleta, Robinho joga seu colchonete por cima dos dois como quem cobre um casal com um lençol. Os companheiros aplaudem e fazem zorra. Sabemos o que Robinho faria quase dez anos depois.
Em maio deste ano, Cafu, capitão daquela equipe de 2006, foi entrevistado pelos ex-jogadores Rafael Sóbis e Denílson em um programa da GE TV, canal criado pela Globo no YouTube na tentativa de morder um pouco da audiência fidelizada pela caçula CazéTV. Sóbis perguntou a diferença entre 2002 e 2006. “Só talento não ganha jogo. Dificilmente você vai ter um time com dez caras talentosos na frente e você vai ganhar. É preciso de algo mais. Você precisa de comprometimento, de dedicação”, raciocinou o ex-lateral.
Denílson emendou com outra pergunta: “Como você se sentiu no papel de líder?” Cafu respondeu: “Eu tentei mudar esse cenário, mas sabe quando a ordem vem lá de cima e não tem como tirar? [...] Eu falei: ‘Professor, isso não vai dar certo. Vamos tentar mudar.’” Parreira respondeu: ‘Tô que nem você. Nós estamos amarrados. Nos mandaram para cá e nós vamos ter que cumprir isso aqui.” O lá de cima a que Parreira se referia era a administração de Ricardo Teixeira, então homem forte da CBF.
O Brasil passou sem sustos pela fase de grupos com vitórias sobre Croácia, Austrália e Japão. Mesmo fora de forma, Ronaldo era titular absoluto na tentativa de se tornar o maior artilheiro da história das copas, feito conquistado depois de marcar um gol sobre Gana na vitória por 3 a 0 nas oitavas de final. Adriano e Zé Roberto completaram o placar. O time também contava com versões envelhecidas de Cafu e Roberto Carlos – no banco, Cicinho e Gilberto estavam no auge de suas trajetórias e poderiam ter atuado com mais consistência nas laterais.
Para as quartas, contra a França, o Quadrado Mágico foi desmontado: Parreira tirou Adriano e escalou Juninho Pernambucano num escrete que nunca havia atuado junto. O Brasil fez um jogo terrível, e Zidane teve uma de suas maiores atuações na carreira. Perdemos por 1 a 0 com gol de Thierry Henry num lance que entrou para a memória brasileira na voz de Galvão Bueno. O narrador atribuiu a derrota a um erro de Roberto Carlos, que teria ficado arrumando o meião em vez de acompanhar o atacante.
No mês passado, Thierry Henry rememorou o jogo em conversa com Roberto Carlos para a revista GQ. “Outro dia vi a escalação de 2006. Fiquei tipo...”, disse, com expressão de fascínio. “Nesse jogo queriam que eu te marcasse”, respondeu Roberto Carlos. “Como é que vou marcar um cara de quase 2 metros? Eu com 1,50 metro.”
Já eram gritantes os defeitos estruturais de nosso futebol, mas seguíamos a tradição de encontrar um culpado e crucificá-lo. Foi assim com Barbosa, goleiro que falhou no jogo decisivo no Maracanã em 1950. Foi assim com Zico, que perdeu pênalti na Copa de 1986. E, na Copa de 2006, o papel de vilão coube a Roberto Carlos.
O golpe de misericórdia na geração pentacampeã viria no ano seguinte, em 2007. Antes da Copa América na Venezuela, os principais jogadores do time, como Kaká e Ronaldinho, pediram dispensa da Seleção e viram colegas menos badalados como Vagner Love, Júlio Baptista e Afonso Alves baterem novamente a Argentina numa final. Os beberrões católicos foram substituídos por varões que realizavam cultos na concentração.
Dunga, o novo técnico da Seleção, passou quatro anos fazendo convocações bizarras. Não perdoou a falta de compromisso demonstrada por nossos jogadores mais habilidosos como Ronaldinho, Adriano e o lateral esquerdo Marcelo, que, segundo o treinador, não foi à Copa por estar atuando como meia no Real Madrid. Curiosamente, tanto Michel Bastos quanto Gilberto, os dois escolhidos para a posição, atuavam como meias no Lyon e no Cruzeiro, respectivamente.
Apesar disso, o time era competitivo e, quando chegou à África do Sul em 2010, havia até um certo otimismo de que as coisas pudessem dar certo. Com a comissão técnica, viajou pela primeira vez um pastor evangélico. Ele não foi capaz de tirar a violência do coração do volante Felipe Melo, que bateu até na sombra dos adversários e acabou expulso contra a Holanda, nas quartas de final. Fomos eliminados depois de dominar o primeiro tempo do jogo.
Pouco antes da Copa, Felipe Melo ficou marcado por um entrevero com o jornalista Paulo Vinicius Coelho, então comentarista da ESPN Brasil. Felipe Melo vinha de temporada ruim na Juventus, desempenho que lhe rendeu o Prêmio Bidone d’Oro, concedido anualmente pela Rai Radio 2 ao jogador mais decepcionante do Campeonato Italiano. Em entrevista por telefone ao vivo durante o programa Bate-Bola, PVC, como é conhecido o jornalista, perguntou: “Por que é que a gente deve acreditar que o Felipe Melo da Copa do Mundo vai ser diferente do Felipe Melo da Juventus?” O volante não gostou da pergunta e bateu boca: “Você é jornalista?” PVC não perdoou: “E você é jogador? Eu sou jornalista.” No dia seguinte eles se acertaram, mas estava ali a semente do negacionismo. (Anos depois, Felipe Melo declarou apoio à candidatura de Jair Bolsonaro, o negacionista da pandemia.)
Quando precisou de alguém que pudesse entrar no segundo tempo para mudar o jogo, Dunga se deparou com suas próprias escolhas. Ele não havia levado nem os craques da Copa anterior, nem as promessas da época que encantavam o Brasil: Neymar e Paulo Henrique Ganso. Atrás dele, estavam Júlio Baptista, Nilmar e Grafite. Eram bons profissionais, mas a diferença entre uma coisa e outra era gritante. Ao menos não nos faltava vontade. Ainda.
Antes de discutir a geração de Neymar, é importante entender como a globalização do futebol afetou o que acontecia por aqui. Como um motorista de um veículo cujo motor morre assim que abre o semáforo e, pelo movimento dos carros ao lado, se confunde e acha que está andando de marcha a ré, nosso futebol permaneceu congelado no tempo enquanto nos dava a sensação de que regredia. Não regredia, estava parado no sinal de trânsito.
Das quinze edições da Copa Intercontinental realizadas entre 1980 e 1994, as equipes sul-americanas venceram dez. Oito times se sagraram campeões: três brasileiros (Flamengo, Grêmio, São Paulo), três argentinos (Independiente, River Plate e Vélez Sarsfield) e dois uruguaios (Nacional e Peñarol). Os sul-americanos derrotaram adversários da Inglaterra, Alemanha, Romênia, Holanda, Espanha e Itália. Não causava estranheza, portanto, que Brasil e Argentina tivessem equipes competitivas e campeonatos interessantes. Do ponto de vista social, ambos os países carregavam um forte senso de identidade vindo do combate às suas respectivas ditaduras militares. O futebol celebrava uma nova era de soberania nacional e autonomia de nações que, finalmente, pretendiam decidir o próprio destino com menos influência do imperialismo dos Estados Unidos.
Enquanto isso, na Europa, o esporte passava por um período de baixa. O hooliganismo que tinha afastado os torcedores dos estádios em muitos países, aliado à falta de estrutura e procedimento dos governos e federações nacionais, criou terreno para que ocorressem as principais tragédias da história do futebol por lá. Em maio de 1985, a final da Taça dos Campeões Europeus entre Liverpool e Juventus realizada no Estádio de Heysel, em Bruxelas, na Bélgica, terminou com uma confusão que matou 39 torcedores e deixou mais de seiscentos feridos. A torcida do Liverpool avançou sobre o setor neutro de um estádio quase lotado, um muro cedeu e quem tentava fugir acabou sufocado contra as grades e pisoteado pela multidão. Como punição, as equipes inglesas foram banidas das competições europeias por cinco anos, tendo o Liverpool recebido um ano adicional.
Pouco depois, em 1989, o time de Merseyside foi protagonista de um novo dia trágico: na semifinal da Copa da Inglaterra entre os reds e o Nottingham Forest realizada no campo neutro de Hillsborough, em Sheffield, uma falha de planejamento da polícia inglesa e o mau funcionamento das catracas fizeram com que milhares de torcedores acabassem esmagados contra as grades no acesso às arquibancadas. Resultado: 97 mortos. Na época, a polícia e os tabloides ingleses – em especial o The Sun, do magnata Rupert Murdoch – tentaram atribuir a responsabilidade a um comportamento errático de torcedores bêbados. Uma investigação oficial desmentiu a teoria, transferiu a culpa às autoridades policiais e impôs novas regras para a organização de eventos esportivos no país.
Tudo isso acabou por restringir a capacidade financeira dos clubes ingleses e catapultou a criação de um novo campeonato para a primeira divisão do país, em 1992: a Premier League. Murdoch, que não é bobo nem nada, pagou 304 milhões de libras pelos direitos de transmissão por cinco anos. Era um investimento sem precedentes. A nova liga também impôs mudanças que definiriam a forma como assistimos ao futebol até hoje: gramados melhores, aumento no limite de estrangeiros, diminuição das medidas do campo para um jogo mais dinâmico e um aumento da estrutura de transmissão das partidas. Em paralelo, a edição da Eurocopa de 1992 refletiu algumas das mudanças do mundo.
A dissolução da União Soviética fez com que sua seleção fosse substituída pela Seleção de Futebol da Comunidade dos Estados Independentes (CEI). Já a Iugoslávia não teve a mesma sorte: em razão de sanções aplicadas pelo Conselho de Segurança da ONU, o país foi desqualificado, dando lugar à Dinamarca. E os dinamarqueses chegaram atrasados no trem e sentaram logo na janelinha: foram até a final e bateram a Alemanha, conquistando assim o único título expressivo da história do país. O time vitorioso do goleiro Peter Schmeichel ficou marcado, também, por gerar uma mudança de regra importante no futebol. A seleção jogava de forma extremamente defensiva e abusava dos recuos de bola entre zagueiros e Schmeichel como forma de gastar o tempo contra adversários mais fortes. A Fifa respondeu proibindo recuos com os pés, regra que permanece idêntica até os dias atuais.
Aproveitando o ensejo, a União das Federações Europeias de Futebol (Uefa) rebatizou sua principal competição de clubes, dando origem à Liga dos Campeões no formato que se tornaria mundialmente conhecido como o melhor torneio do planeta. Na Itália, gente como Silvio Berlusconi, no Milan, e os donos da Parmalat, no Parma, acompanharam as mudanças e passaram a investir quantidades igualmente inéditas em seus clubes.
Neste contexto, gerou-se gradativamente uma enorme disparidade econômica entre os clubes de lá e os daqui. A venda do ponta-esquerda Denílson do São Paulo para o Betis por 32 milhões de dólares em 1997 foi a mais cara registrada até então. Ela marcou o início de um período em que nossos principais jogadores passariam a sair daqui cada vez mais cedo. No mercado nacional, a cifra só foi superada quinze anos depois, quando Oscar deixou o Internacional, de Porto Alegre, e foi jogar no Chelsea pela bagatela de 39 milhões de dólares.
Como nossos clubes dependiam de um campeonato pessimamente organizado pela CBF, a saída deixou de ser formar jogadores para atuar no time principal e passou a ser formar jovens para que fossem vendidos o mais rápido e o mais caro possível para o mercado europeu. Entrava na equação o principal ingrediente da nossa derrocada. Quanto mais o tempo passou, mais nos afastamos dos talentos que antes só atravessavam o Atlântico depois de terem, ao menos, conquistado títulos e o coração de alguma torcida no Brasil.
Agora, chegamos à geração de Neymar.
Em 2010, Mano Menezes despediu-se do Corinthians e substituiu Dunga no comando da Seleção Brasileira com uma missão clara: renovar a equipe. O novo treinador convocou figuras como Neymar, Ganso, Alexandre Pato, Lucas Leiva e David Luiz. No nosso primeiro amistoso depois da Copa, vencemos os Estados Unidos por 2 a 0. A crônica da partida, escrita por Leandro Canônico ao site do GloboEsporte, dá um pouco o tom do que esperávamos daquela geração:
Velocidade, dribles, pedaladas, alegria... Os ingredientes que faltavam à Seleção Brasileira estão de volta. Pelo menos no primeiro amistoso da era Mano Menezes foi assim. Bem organizado defensivamente e ofensivo como nos bons tempos, o Brasil não teve trabalho para fazer 2 a 0 nos Estados Unidos nesta terça-feira. O estádio New Meadowlands, em Nova Jersey, lotado de fãs com camisa amarelinha teve espaço até mesmo para gritos de olé para a equipe canarinho que contou em campo com Paulo Henrique Ganso, Neymar e Robinho. O trio que brilhou no Santos no primeiro semestre ainda estava reforçado por Alexandre Pato.
Parecia que, como noutros tempos, o susto seria sucedido por uma nova temporada de glórias. O Brasil ainda vivia épocas mais otimistas: organizaríamos a Copa do Mundo seguinte, em 2014, e a Olimpíada de 2016. As finanças do nosso futebol eram anabolizadas pelo dinheiro de grandes construtoras como a Odebrecht e a Andrade Gutierrez. Todas as doze arenas construídas ou reformadas para a realização da Copa tiveram obras realizadas por empresas que seriam mais tarde atropeladas pela Operação Lava Jato.
Na década que havia se passado desde o penta, o Brasil também testemunhou o crescimento das estatísticas de violência urbana, tráfico de drogas, a ascensão do neopentecostalismo e a expansão das milícias. A confluência desses fatores foi tirando cada vez mais a juventude brasileira das ruas. Como consequência, o futebol passou a ser praticado pelos jovens muito mais dentro de quadras de escolas e condomínios do que no asfalto e nos campinhos de terra.
Os “atletas de Cristo” já faziam parte do grupo pentacampeão, mas foi a partir de Kaká e Dunga que se tornaram unanimidade na Seleção. Eram jogadores com menos personalidade, treinados desde cedo para que fossem estrelas midiáticas, evitando dar qualquer tipo de opinião sobre qualquer tipo de assunto e, quando possível, atribuindo o resultado esportivo que conquistavam (ou não) aos desígnios divinos. Foi nessa época que surgiu uma comemoração que se tornaria clichê, usada por atletas como nosso atual centroavante Igor Thiago: bola na rede e um gesto que aponta primeiro para si, depois para os céus enquanto diz: “Eu, não; Foi Deus.” Como se o Cara lá de cima não tivesse coisa melhor para fazer do que assistir ao futebol mequetrefe que passamos a praticar.
"No dia 17 de agosto de 2010, um grupo de empresários se reuniu com dirigentes do Santos na sede do Banco Santander, na Vila Olímpia”, conta o jornalista Juca Kfouri no primeiro episódio do podcast Neymar, apresentado ao lado de Pedro Lopes e transmitido pelo UOL Prime em abril de 2025. Neste encontro, Neymar pai seria apresentado ao Projeto Neymar, plano de marketing criado pela diretoria do Santos e vendido ao patriarca como uma estratégia para transformar seu filho no maior ídolo brasileiro desde Ayrton Senna.
A reunião definiu muito do que passaria a determinar os rumos tanto da carreira do Menino Ney quanto da Seleção Brasileira. Neymar pai sairia do encontro decidido a criar a NR Sports, empresa que cuida da carreira do filho e que transformou o pai num empresário multimilionário. E, principalmente, daria a Neymar Júnior um destino muito diferente dos craques da década anterior: seriam criadas condições econômicas para que o jogador ficasse no Santos por mais três anos, tornando-se ídolo do clube e da torcida brasileira no processo.
Nosso futebol vinha de uma década pobre, com pouco público nas arquibancadas, pouco dinheiro em caixa e uma completa debandada de nossos jogadores para clubes grandes, médios e nanicos da Europa, muitas vezes antes de sequer fazer meia dúzia de jogos como profissionais. Foram os casos de Alexandre Pato, Hulk, David Luiz, Philippe Coutinho, Willian e tantos outros. Neymar entrou na contramão. Foi cuidadosamente lapidado pelo Santos à sombra dos lucros milionários obtidos com as vendas de Diego, Robinho, Léo, Renato e Elano. Com a injeção de dinheiro, o Santos conseguiu segurar sua estrela até 2013, quando Neymar saiu para o Barcelona. Tinha então 21 anos.
Quem melhor resumiu a história da formação do “príncipe da Vila” foi Tim Vickery, jornalista britânico há décadas radicado no Brasil. Em episódio do programa Futebol em Contexto veiculado em maio no canal da Trivela, ele e Allan Simon discutem como Neymar tomou conta do debate futebolístico no Brasil. Vickery apresenta dois pontos importantes. O primeiro é o de que Neymar Júnior é uma espécie de “jogador de laboratório”, criado longe das ruas e dentro das quadras. Se no asfalto os meninos aprendem a driblar para fugir das pancadas, Neymar se desenvolveu criando um estilo de jogo que prescinde da presença do juiz: ele não foge da falta, mas procura sua marcação. Quando mais jovem seu corpo aguentava. Com o passar dos anos, o acúmulo de pancadas acabou por minar sua capacidade de estar em campo.
O segundo ponto de Vickery é uma comparação com Judy Garland, atriz americana que assinou seu primeiro contrato com a mgm aos 13 anos e que se tornou mundialmente famosa por sua atuação no filme O Mágico de Oz, de 1939. Garland teve uma trajetória pessoal que contrastava com seu sucesso profissional: a fama repentina trouxe uma enorme preocupação com a própria aparência, problemas de saúde mental, dependência química, tentativas de suicídio e uma morte por overdose de remédios aos 47 anos de idade. Para Vickery, Neymar pai e o Santos impuseram ao jogador uma condição parecida para a vida dele.
Curiosamente, Neymar assinou contrato com o Barcelona em maio de 2013. No mês seguinte, o Brasil testemunharia uma ebulição nacional com os protestos contra o aumento das passagens que ficariam conhecidos como as Jornadas de Junho. Quando deixou o país, vivíamos apenas o início do processo de polarização que racharia nossa sociedade com o impeachment de Dilma, a prisão de Lula e a posterior eleição de Jair Bolsonaro. O craque ainda era unanimidade, mas deixaria de ser tanto em razão da maneira como levou a carreira, quanto pelos posicionamentos políticos impostos por seu pai e manifestados por ele em suas redes sociais dali em diante.
Enquanto Neymar era cevado no laboratório e preparava sua partida para a Europa, o projeto de Mano Menezes naufragava. Ficou apenas dois anos no cargo, sendo demitido antes da hora três meses depois de perder as Olimpíadas de Londres, em 2012 – o mesmo ano em que Ricardo Teixeira deixou o comando da CBF depois de 23 anos no cargo, abatido por denúncias de corrupção. Com o fim da era Mano Menezes, restou a José Maria Marín, sucessor de Teixeira, apelar para uma solução conhecida e popular: trouxe de volta o Felipão.
Mas os jogadores que surgiram junto de Neymar não deram a sequência ao que se esperava de suas carreiras. Pareciam um pouco desconexos da realidade, fato evidenciado quando Marília Gabriela entrevistou Alexandre Pato, em setembro de 2013, e gerou o meme do atacante falando de seus “anos maravilhosos na Itália”. De um início fulminante no Milan, Pato diminuiu de rendimento até arrumar uma transferência para o Corinthians, em 2013, de onde saiu praticamente expulso depois de tentar inconsequente cavadinha contra o goleiro Dida, do Grêmio, na disputa por pênaltis da Copa do Brasil.
Quando o Brasil chegou à Copa de 2014, não tinha nem ele, nem Ganso no elenco. A geração que cativou o Brasil com o melhor ataque do Campeonato Sul-americano Sub-20 de 2011 não chegou até lá. A memória de 2014 parece mais uma viagem lisérgica do que um simples torneio de futebol. Olhando em retrospecto, foi como um capítulo final da fase que o país viveu desde a redemocratização até o primeiro governo Lula.
Com Neymar, era a primeira vez que tínhamos um craque isolado em meio a bons jogadores como Hulk, Fred, Oscar, Dante e Paulinho. O contexto de ebulição política e dos movimentos sociais imprimiu às partidas do Brasil um ambiente aterrador. Protestos eram feitos na porta dos estádios. O Hino Nacional era berrado pela torcida e pelos atletas. E, na vitória sobre a Colômbia nas quartas de final, Neymar teve uma vértebra fraturada por uma joelhada voadora do lateral Camilo Zúñiga, o que o tirou da sequência da competição.
Neymar foi direto para o hospital antes do fim do jogo. Na saída do estádio, coube ao repórter Mauro Naves, então na TV Globo, informar a Fred, nosso camisa 9, do destino de seu companheiro: “Vou te dar uma má notícia: o Neymar fraturou uma vértebra e está fora da Copa.” Fred ficou pálido: “Você tá falando sério? Ih, rapaz...” Não havia jogador minimamente capaz de substituir o camisa 10. Veio o 7 a 1.
Como a segunda passagem de Dunga pelo comando da Seleção, que durou de 2014 a 2016, não é digna de menção, pulemos diretamente para a era de Tite. Depois de ser bicampeão brasileiro, campeão da Libertadores e do Mundial de Clubes pelo Corinthians, Tite assumiu a Seleção em junho de 2016, às vésperas das Olimpíadas. Como tinha pouco tempo disponível, decidiu não se intrometer na seleção olímpica e viu Rogério Micale ser campeão sobre a Alemanha num time que, além de Neymar, tinha Gabigol, Luan, Marquinhos e Gabriel Jesus.
A decisão foi por pênaltis, e ali Neymar ensaiou o movimento que nos assombraria na Copa do Catar: ficou por último na lista de cobradores, converteu a cobrança e saiu em todas as capas de jornais como a grande estrela da conquista. Seleção nenhuma no mundo dá muita importância às Olimpíadas, mas, como aquele era um título inédito no Brasil, foi inaugurada uma nova era de otimismo.
É preciso fazer justiça e lembrar que Tite transformou uma Seleção que cambaleava nas eliminatórias. Somou-se ao grupo o meia Philippe Coutinho, possivelmente o segundo melhor jogador que tivemos nos últimos vinte anos e o melhor parceiro de Neymar com a camisa da Seleção. Com os dois e os corintianos Paulinho e Renato Augusto, a Seleção se classificou para a Copa da Rússia, em 2018, numa campanha que contou com um atropelo por 3 a 0 contra a Argentina no Mineirão.
Entre uma coisa e outra, o Menino Ney tomou uma decisão que geraria um enorme efeito borboleta no futebol mundial – e que destruiria sua carreira. Deixou o Barcelona de Messi e Luis Suárez na transferência mais cara da história para ser a estrela do projeto catari no Paris Saint-Germain. Mal sabia ele que um garoto francês chamado Mbappé chegaria junto dele para dividir – e depois tomar para si – o papel de estrela.
Na França do PSG, Neymar nunca foi bem-aceito: os juízes eram permissivos com os marcadores que insistiam em agredi-lo e as lesões se tornaram cada vez mais frequentes. Dessa forma, chegou a Moscou sem ritmo de jogo depois de se recuperar da quebra do quinto metatarso do pé direito. Começou a Copa de forma mambembe e, nos quatro primeiros jogos, passou um total de 13 minutos e 50 segundos caído no gramado, rolando para cá e para lá. O hábito de simulação, somado à saída do Barcelona, criou uma antipatia global contra o craque que não teria mais volta.
O Brasil de Tite não fez uma Copa espetacular, mas não mereceu perder para a Bélgica nas quartas. No entanto, perdeu. A torcida não se revoltou porque era a primeira vez desde 2006 que o Brasil tinha flertado com um bom futebol. Tite renovou o contrato. Jair Bolsonaro se tornou uma realidade. Neymar, um apoiador. E a polarização que dominava o país se transferiu também para a figura de seu principal jogador.
Pouco mais de um ano depois da eleição de Bolsonaro, veio a pandemia. A Copa América de 2020 que seria sediada em conjunto por Colômbia e Argentina foi adiada para meados do ano seguinte. Quando chegou a hora, a Colômbia desistiu da organização em razão dos protestos que ocorriam contra o presidente Iván Duque Márquez. A Argentina, por sua vez, abriu mão devido às restrições sanitárias que vigoravam por lá. Nesse contexto, o destino perfeito para a Conmebol era um país cujo presidente mal se importava em comprar vacinas que pudessem preservar as vidas de milhares de brasileiros. Brasil na cabeça.
A final aconteceu no estádio do Maracanã no dia 10 de julho de 2021. Já passávamos por uma lenta transição da quarentena, de modo que apenas 5,5 mil espectadores assistiram à partida das arquibancadas. Seria a primeira conquista realmente significativa de Neymar, mas deu tudo errado: quem ganhou o primeiro título relevante pela seleção foi Lionel Messi, seu antigo colega de Barcelona. O treinador dos hermanos, Lionel Scaloni, estava no cargo muito mais para tapar um buraco do que por escolha técnica da federação argentina. A conquista deu moral para o projeto de Scaloni, que, na sequência, na Copa do Catar de 2022, deu à Argentina sua terceira estrela.
O bom trabalho que Tite havia construído ao longo de seis anos foi absolutamente devastado, primeiro por uma convocação ruim, depois pela tragédia final contra a Croácia. Com Éder Militão improvisado na lateral direita e Danilo na esquerda, ficou evidente que já não tínhamos mais os mesmos jogadores de outrora. A Seleção jogou um futebol burocrático. Veio a prorrogação, vieram os pênaltis e veio a eliminação.
O futebol brasileiro começou o ano de 2023 no limbo. Nos anos pós-pandemia, o eixo econômico do esporte mudou por completo. As grandes marcas brasileiras e internacionais que bancavam competições e clubes deram lugar às bets que hoje patrocinam praticamente todos os clubes das séries A, B e C. Não só os jogadores, como jornalistas, narradores e apresentadores também passaram a ceder sua imagem para campanhas publicitárias das casas de apostas.
Com a saída de Tite depois da Copa de 2022, Ednaldo Rodrigues, então presidente da CBF, colocou Ramon Menezes de tapa-buraco no cargo de treinador enquanto dava início a um longo cortejo ao técnico italiano Carlo Ancelotti, que ainda tinha mais alguns anos de contrato a cumprir com o Real Madrid. Em julho de 2023, assinou por um ano com Fernando Diniz, que acumularia cargos na Seleção e no Fluminense.
Neymar deixou o PSG e foi buscar seus petrodólares na Arábia Saudita. Em outubro, rompeu o ligamento cruzado anterior e lesionou o menisco de seu joelho esquerdo durante um jogo das eliminatórias contra o Uruguai, em Montevidéu. Em novembro, o turno dobrado de Diniz resultou em duas marcas expressivas no mesmo mês. Perdeu para a Argentina no Maracanã, a primeira derrota em casa da história do Brasil em eliminatórias. Antes, tinha sido campeão da Libertadores pelo Fluminense contra o Boca Juniors no mesmo estádio.
A essa altura, a polarização já estava consolidada no Brasil. E, do lado mais à direita, contava com duas ausências notáveis: Jair Bolsonaro não era mais presidente e Neymar Júnior não era mais jogador de futebol. Enquanto esteve lesionado, Neymar testemunhou a contratação do técnico português Jorge Jesus para seu clube, o Al-Hilal. Ficou um ano fora dos gramados. Quando se recuperou, saberíamos anos mais tarde, ele ouviu de seu treinador que não tinha mais espaço no elenco: “Tu finish”, disse-lhe Jorge Jesus. Neymar apelou para a carência do torcedor brasileiro e desembarcou aqui para jogar no Santos em janeiro de 2025.
Desde o ano anterior, a Seleção vinha sendo comandada por Dorival Júnior, treinador nomeado pela impossibilidade de trazer Carleto na ocasião. Sem grandes ideias para montar um time carente de talento, Dorival treinou a equipe em meio à espera de um retorno milagroso de Neymar. O santista, recuperando-se de outra lesão, não voltou a tempo de participar, em março de 2025, de nossa pior derrota desde a Copa no Brasil: uma humilhante goleada por 4 a 1 para a Argentina no Monumental de Núñez. Antes do jogo, o ponta-direita Raphinha deu entrevista para o canal de Romário. O Baixinho provocou: “Porrada neles?” Raphinha cantou de galo: “Porrada neles. No campo e fora de campo se tiver que ser.”
Ao apito final, os jogadores argentinos cantaram junto de sua torcida: Un minuto de silencio… Para Brasil que está muerto. Não havia luz no fim do túnel. Dorival foi demitido. Dois meses depois, com a queda do presidente Ednaldo Rodrigues da presidência da CBF, Samir Xaud, o desconhecido cartola da Federação Roraimense de Futebol, foi eleito. Xaud terminou o que Ednaldo Rodrigues tinha começado: finalmente, contratou Carlo Ancelotti.
Neste primeiro ano no comando da Seleção, Carleto pareceu mais preocupado em conhecer e entender o país e seus jogadores do que de fato preparar um time competitivo para a Copa dos Estados Unidos, Canadá e México. Contando os jogos que fez por lá, Ancelotti chegou a dezessete partidas comandando o Brasil. Foram quatro pelas eliminatórias, cinco na Copa e outros oito amistosos. Convocou 60 jogadores diferentes e quase nunca repetiu suas escalações.
Por ter sido sempre muito político em suas falas, é evidente que não diria ao público que não tinha pretensão de vencer a Copa de 2026. Aprendeu o Hino Nacional, deu entrevistas em português, fez propaganda para a Brahma e contou com a extrema benevolência de uma torcida que já não tinha muita esperança, mas que deu um voto de confiança ao italiano.
Como o assunto que monopolizava as atenções da imprensa era o dilema da convocação de Neymar, Ancelotti teve alguma paz de espírito para tocar seu trabalho sem muita pressão. Com as lesões de Wesley, Militão, Estêvão e depois Raphinha, perdeu o lado direito inteiro de seu time. Ainda assim, encontrou na pressão alta e nos contra-ataques um caminho para fazer Vinicius Júnior jogar bem e conseguiu alguns brilharecos na fase de grupos.
Na Copa, a estreia contra o Marrocos teve um clima parecido com a competição de 2014: hino nervoso, futebol mais ainda. A atuação pífia foi salva por um lance bonito de Vinicius Júnior. Depois, contra o Haiti, um jogo fácil nos deu algum respiro e iniciou uma fagulha de empolgação com a equipe. No momento em que estávamos assustados, ali em algum lugar entre este jogo, Escócia e Japão, jogamos bem. Matheus Cunha é um ótimo exemplo: pareceu entrosado com Vinicius, Bruno Guimarães e Rayan e marcou três gols. Depois da virada contra a seleção nipônica no primeiro jogo da segunda fase, perdeu a linha e foi tirar satisfação com Kento Shiogai, atacante que havia declarado que o Brasil já não era mais o mesmo. Ao xingar o japonês, Matheus Cunha reproduziu mais um sinal terrível de nossa alternância entre o desespero e a mais absoluta soberba.
Pronto, acabou. A mensagem era: vencemos no mata-mata, então não é mais preciso trabalhar. Somos novamente campeões per se. No jogo contra a Noruega, Matheus Cunha foi a sombra de um jogador de futebol, assim como Bruno Guimarães, que vinha muito bem. Depois do intervalo, quando ensaiamos uma reação, Ancelotti tomou a incompreensível decisão de lançar Neymar e Danilo Santos num jogo que pedia intensidade. Vinicius desbaratinou do jogo – desde a última Copa, parece nítido que ele não gosta de dividir o campo com Neymar.
Endrick é tão bom de bola quanto lunático. Largou a marcação e tomou esporro ao vivo do Casemiro entre o primeiro e o segundo gol que sofremos. E, para o torcedor médio, está tudo bem: deixe o moleque ser um idiota na melhor idade produtiva da sua vida. Quem sabe ele vira outro Neymar, bilionário no banco e completamente miserável ao mesmo tempo. A mente não tem conta bancária.
Depois do apito final, Ancelotti repetiu o que Tite fez em 2022 e deixou o gramado sem falar com ninguém. Mandou o filho, Davide, dar entrevista em seu lugar. O repórter Fred Caldeira, da CazéTV, foi preciso ao se deparar com a cena e perguntou na lata porque seu pai não estava ali. “Não sei. Não é uma pergunta para mim”, respondeu Davide. Depois, ainda explicou que a decisão de escolher Bruno Guimarães para bater o pênalti fora estatística. Bruno Guimarães havia convertido todos os pênaltis que bateu na carreira como atleta profissional. O problema é que haviam sido apenas três no tempo regulamentar. Lembra Cícero, o célebre orador romano, descarregando ironia ao elogiar a trajetória de um cônsul “que não dormiu uma única vez durante todo o seu mandato”. O mandato do cônsul havia durado menos de 24 horas.
Estava terminada a Copa para o Brasil.
"Se tivesse uma reunião na CBF e a gente trabalhasse lá – pessoas sérias, honestas, que querem o bem do futebol brasileiro –, o que a gente levaria para ser discutido?”, perguntou a jornalista Taynah Espinoza ao abrir a discussão à bancada da TNT Sports formada por ela e pelos colegas André Henning, Vitor Sérgio Rodrigues e Marcelo Bechler. Era 7 de julho, dia seguinte à eliminação do Brasil na Copa do Mundo. “Aí fica difícil”, reclamou Bechler. “Começou a fantasiar tanto que...” Ele não completou a frase.
A excelente provocação de Taynah tinha razão de ser: embora o desempenho do Brasil tenha sido irremediavelmente mediano, não há indício de que trilharemos um caminho de evolução. Apesar do protesto inicial, Bechler se juntou aos colegas para explicar pela enésima vez todos os problemas sistêmicos que foram abordados ao longo deste texto.
Nas redes sociais, são inúmeras as manifestações de apoio a Neymar, inclusive ao lance ridículo no final da partida com a Noruega. Um exemplo notório do tipo de figura que defende o jogador santista é o influenciador digital Eduardo Semblano, conhecido na internet como Fui Clear. Logo depois do jogo, a comentarista Ana Thaís Matos, da Globo, perguntou o que iriam dizer os defensores de Neymar depois daquela atuação. Semblano fez questão de responder: “Vamos parar que de você eu cansei, beleza? E se me rebater, vai mais gente de ralo, ouviu, Ana? Vai amiga tua, vai amigo seu de ralo. Engole seco. Não quero ouvir sua voz de volta.”
Um esporte que deveria servir para celebrar a alegria e a expressão de um povo sofrido fora transformado em campo para ameaças. Como se votar em algum outro político ou ter uma opinião diferente sobre Neymar fossem coisas comparáveis com a aberração que acabara de pronunciar. Embora seja necessário cobrar a instituição, não parece razoável esperar só da CBF a resolução de todos esses problemas.
O Brasil precisa de educação e formação tanto para seus jogadores, quanto para a imprensa e o povo. Não se pode normalizar coberturas como a da CazéTV, canal que merece uma enxurrada de elogios pela maneira como conseguiu se estabelecer nos últimos anos, mas que desqualifica a profissão de jornalista ao passar a semana inteira publicando conteúdos mais condizentes com um fã-clube do que com o esperado de uma instituição que pratica jornalismo profissional. É um descrédito inclusive à excelente equipe, repleta de mulheres e figuras novas no mercado que fazem análises interessantes e inteligentes sobre o futebol.
Não gosto de correlacionar tão diretamente a defesa de Neymar ao fenômeno do bolsonarismo, mas é inegável o paralelo com o negacionismo político que assolou o Brasil desde que Bolsonaro foi presidente. Olhar para o futebol apresentado pelo jogador contra Escócia e Noruega e entender aquilo como bom desempenho é uma cegueira voluntária, parecida com olhar para as estatísticas da Covid e argumentar que o ex-mandatário não tinha como evitar alguns milhares de mortes trazendo as vacinas em tempo hábil.
O Brasil não é o pior país do mundo. Não é um inferno se acabando em guerra ou miséria, embora tenha muito das duas coisas. Mas é uma espécie de purgatório, uma eterna briga entre o medo de ser o pior e a mania de ser o melhor. Uma coisa sem caminho, sem aresta, que existe a despeito de toda e qualquer opinião ou interpretação.
Desembestamos para normalizar tudo que há de errado. Pode fazer errado que não dá nada. Faça todas as escolhas erradas, pois não tem diferença. Não estude. Não pense. Não queira ser mais inteligente. Troque a carteira de trabalho para ser explorado por qualquer big tech gringa. Interrompa processos por pressão popular. Defenda o indefensável. O botão do “foda-se” foi perdido e construíram um teclado novo em cima dele. O Brasil quer a vitória igual a um viciado que precisa ficar chapado para não sentir as dores da abstinência. Não há amor pelo processo, pela vida, pelo trabalho. É a glória gratuita.
Se Ancelotti fugiu da raia e evitou a entrevista depois da derrota, o capitão Marquinhos foi dar a cara à tapa pela segunda eliminação seguida. “É assumir a culpa. Eu, como capitão, os jogadores mais velhos. Temos que assumir essa culpa para que as próximas gerações tenham tranquilidade para trabalhar. A gente não pode simplesmente chegar na Copa do Mundo com o ciclo que foi e querer tanto”, lamentou.
Enquanto isso, na França, Mbappé, Olise e Dembélé, ainda que tenham sido neutralizados no jogo contra a Espanha, foram os responsáveis por nos fazer lembrar de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo. E, por incrível que pareça, também de Sócrates Brasileiro e Walter Casagrande em seus posicionamentos políticos e estéticos. São a prova viva de que é possível ser craque dentro e fora de campo.
“Peço que apoiem as próximas gerações desde já. São quatro anos para que eles possam trabalhar para conseguir coisas grandes na próxima Copa”, completou o capitão. Se boa parte do futebol são as histórias que contamos dele, não são só eles que precisam trabalhar. Nós, também. Em seu primeiro ano, Carleto colocou um band-aid em nossa ferida. Nos próximos quatro, esperamos dele uma verdadeira cirurgia. Resta saber se, ao final, não precisará apelar também a alguma forma de necromancia.