vultos do supremo II

O INSTITUTO DE MENDONÇA

Metade das prefeituras paulistas que contrataram o Iter receberam emendas parlamentares de seu aliado Cezinha de Madureira, investigado no STF
Mendonça, na inauguração do Iter, com o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) e o diretor-executivo Victor Godoy - (Imagem: reprodução)
Mendonça, na inauguração do Iter, com o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) e o diretor-executivo Victor Godoy - (Imagem: reprodução)

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Em novembro de 2023, quando contabilizava quase dois anos como ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça e sua esposa, Janey, lançaram um instituto próprio: o Iter, que oferece cursos livres, programas de treinamento e MBAs em áreas como segurança, gestão pública, advocacia e compliance. São temas na medida para despertar interesse de prefeituras, governos e órgãos públicos - e, assim, o ministro “terrivelmente evangélico” que chegou à corte por indicação de Jair Bolsonaro passou a ter órgãos públicos como clientes.

Em pouco tempo, o Iter se tornou um sucesso, com dezenas de contratos em todo o Brasil. Tempos depois, se tornou assunto quando Mendonça foi sorteado o relator do caso do Banco Master no STF. Logo intersecções entre a entidade educacional privada e o banqueiro Daniel Vorcaro apareceram, por meio do empresário Lucas Kallas, ex-sócio de Vorcaro (leia a reportagem O esgrimista). 

São bons assuntos para as aulas de compliance dos cursos do instituto, mas há outros também bastante úteis dentro do próprio Iter: os contratos com prefeituras paulistas. Um levantamento da piauí mostra uma coincidência intrigante: dos 61 municípios paulistas que contrataram os serviços do Iter, trinta foram beneficiados com emendas orçamentárias enviadas especificamente por um mesmo deputado federal: Cezinha de Madureira (PL-SP). Além de ser um dos políticos mais próximos de Mendonça em Brasília, Cezinha tem participação no negócio: ele despendeu 19.353 reais como um “sinal” para a compra futura de 4% do instituto. 

O cruzamento das movimentações financeiras foi feito pela piauí, com base em dados do Tribunal de Contas de São Paulo e do Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União (CGU) . Eles mostram que esses 61 municípios empenharam 2,4 milhões de reais no Iter. Do total desses recursos, 1,45 milhão foi empenhado por um conjunto de trinta municípios que, paralelamente, receberam juntos 59 milhões de reais em emendas de Cezinha entre 2021 e 2026.

A Prefeitura de Embu das Artes foi a mais graficificada com as recomendações orçamentárias do político do PL. Pagou 295.680 reais ao instituto, entre junho de 2024 e junho de 2026, e levou 16,6 milhões de reais em emendas desde 2021.

São Sebastião, no litoral paulista, recebeu cerca de 986 mil reais em emendas e pagou 290 mil em junho de 2025, por um curso chamado Administração pública do século XXI: liderando para uma gestão de resultados, para cem participantes.

Em Cajamar, foram 12,9 milhões de reais em emendas e 32.520 reais ao instituto pagos pela prefeitura, além de 15.800 pagos pela Câmara. Guarulhos recebeu 7 milhões e pagou 36 mil; Jarinu, 2,5 milhões e 7.900 reais. Araraquara, 600 mil e 32.400. Carapicuíba, 150 mil e 11.520.

O padrão se repete, com variações. Em Miracatu, Cezinha visitou o prefeito em 26 de abril de 2024. O primeiro empenho ao Iter é de 5 de junho. A cidade pagou 63.230 reais e recebeu 2 milhões em emendas, na saúde, em 2025. Em Taboão da Serra, um comunicado da prefeitura diz que Cezinha mandou 10 milhões de reais em emendas; dez dias antes, a prefeitura empenhou 156 mil reais para o Iter. Em Leme, o prefeito agradeceu em vídeo uma emenda de 500 mil reais, e o município empenhou 123.935 reais, dos quais 79.935 reais foram pagos. Em 16 dos 30 municípios, o primeiro empenho é de um ano anterior à primeira emenda de Cezinha; em nove, do mesmo ano; em cinco, de dois a três anos depois. 

Além das prefeituras, havia o Cioeste, um consórcio de catorze municípios da Grande São Paulo, parte deles abastecidos por emendas de Cezinha, assinou com a entidade, em 24 de julho de 2025, um contrato de 1,23 milhão de reais para cursos e palestras de direito e administração pública, em um projeto chamado Escola de Governo. 

Em 11 de agosto de 2025, menos de três semanas depois da assinatura, o deputado compôs a mesa do lançamento da Escola de Governo na sede do consórcio, em Alphaville. Mendonça deu uma aula magna sobre controle judicial do ato administrativo. Victor Godoy também estava presente. Segundo relato do próprio consórcio, o ministro anunciou que o instituto levaria aos municípios “o que há de melhor do Brasil e de Brasília”. A reportagem não identificou quanto cada prefeitura consorciada colocou isoladamente nesse projeto.

Somados, os pagamentos diretos de prefeituras abastecidas por Cezinha e o contrato do Cioeste destinaram cerca de 2,68 milhões de reais ao instituto. É cerca da metade do que a entidade de Mendonça recebeu da empresa de Lucas Kallas, ex-sócio de Vorcaro, mas há uma diferença de natureza: segundo o Iter, o dinheiro do empresário está sendo devolvido.

A coincidência entre o pagamento das emendas e os contratos com o Iter não quer dizer que as primeiras custearam os segundos – nada aponta diretamente para isso. Mas a noção de que os repasses faziam parte de um circuito aparece em um vídeo no Instagram do prefeito de Itariri, um município paulista que recebeu 100 mil reais em emendas de Cezinha em outubro de 2025 e pagou 25.481 ao instituto de Mendonça em três parcelas. O prefeito Carlos Rocha (PL), em julho de 2025, gravou um vídeo ao lado de uma escavadeira de 18 toneladas agradecendo ao deputado “pelo carinho que tem pela cidade”. A máquina era, segundo ele, “fruto da parceria com o deputado federal Cezinha de Madureira”.

À certa altura, o prefeito também fez um agradecimento “por tudo que tem feito e por Itariri” a um outro personagem importante nesta história, que personifica os laços funcionais e familiares entre o gabinete do deputado e o instituto do ministro. José Nagliatti, destinatário do elogio, é cunhado do ministro e trabalha no gabinete do deputado como secretário parlamentar desde março de 2023. Ao mesmo tempo, o cunhado organiza e recepciona visitas de potenciais parceiros do instituto, entre políticos e empresários, como revelado pelo ICL Notícias. Cezinha afirmou ao site que ele exerce funções de apoio à agenda e aos deslocamentos parlamentares e que outras atividades ocorrem fora do expediente. Em uma publicação nas redes sociais do Banco de Olhos de Sorocaba, em 28 de julho de 2025, Nagliatti é descrito de outra forma: “executivo de vendas”.

O levantamento da piauí no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) dá uma dimensão do rápido êxito do Iter. Entre maio de 2024 e setembro de 2026, o instituto aparece em 74 registros de contratação direta, trinta contratos e 44 notas de empenho com 55 entidades de todo o país, entre elas vinte prefeituras, seis câmaras municipais e dois governos estaduais. Os contratos somam aproximadamente 12 milhões de reais em valores contratados (que não correspondem necessariamente ao total pago). 

Entre os clientes estava a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), vinculada ao governo paulista, do aliado Tarcísio de Freitas, que contratou o Iter por 1,63 milhão de reais para dar cursos e pós-graduação a servidores. A Cemig, empresa controlada pelo governo de Minas Gerais, na gestão de Romeu Zema, firmou contrato de 265.200 reais — que não aparece nas bases nacionais de compras públicas porque as estatais publicam seus contratos por regime próprio. A Câmara Municipal de Diadema contratou serviços por 376.900 reais. Em setembro de 2025, a Prefeitura de São Paulo, administrada por Ricardo Nunes, pagou 380 mil reais ao instituto por uma contratação sem licitação.

O Conselho Federal de Contabilidade contratou a instituição por 1,73 milhão de reais em dois instrumentos. Um deles, de 349.800 reais, descrevia um curso de oratória “ministrado pelo Prof. Dr. André Luiz de Almeida Mendonça, Ministro do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral”. O outro, de 1,38 milhão, previa uma imersão corporativa em Campos do Jordão com “conferência Magna de abertura” do próprio Mendonça. Os contratos não demonstram que ele tenha recebido remuneração pessoal pelos serviços. Seu gabinete afirma que o ministro jamais auferiu lucro do instituto, do qual anunciou desligamento em setembro de 2026. Em nota à imprensa do dia 3 de setembro, o gabinete disse que o instituto será transformado em entidade sem fins lucrativos. Ainda segundo o gabinete, sua esposa já saiu do Iter. 

Procurado pela piauí, o ministro André Mendonça não se pronunciou e não respondeu às perguntas enviadas.

Há uma sobreposição digna de nota entre os interesses do Banco Master, cujo caso está sob a relatoria do ministro, e os contratos do Iter. Em novembro de 2025, o Ministério da Previdência informou que 18 regimes próprios de previdência de estados e municípios tinham aplicado 1,8 bilhão de reais em letras financeiras do Master entre outubro de 2023 e dezembro de 2024 – dinheiro das aposentadorias de servidores, sem a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Sete deles aparecem também entre os clientes do Iter: o Estado do Rio de Janeiro (que aportou 970 milhões de reais no Master apenas entre 2023 e 2024), o do Amapá (400 milhões), o do Amazonas (50 milhões), Maceió (97 milhões), São Roque (93 milhões), Cajamar (87 milhões) e Araras (29 milhões). Juntos, somam cerca de 1,73 bilhão, a maior parte do total.

Os empenhos ao instituto somam 12,1 milhões de reais em 75 registros do PNCP.  O Rio de Janeiro de Cláudio Castro – que, segundo a PF, nomeou em 2023 os dirigentes que controlaram o credenciamento do banco – contratou o Iter em sete instrumentos que somam 701.605 reais reais, 518 mil deles em abril de 2026 para treinamento em segurança pública (depois da saída de Castro). O Amazonas de Wilson Lima, onde a Amazonprev comprou 50 milhões, pagou 466 mil pela Secretaria de Segurança Pública e 1,6 milhão pelo Tribunal de Justiça. Maceió, de João Henrique Caldas, o JHC, que nega ter determinado as aplicações, pagou 26 mil por uma secretaria e um instituto municipal; São Roque, de Guto Issa, 2.850 reais (a informação, nesse caso, é do Tribunal de Contas do Estado).

Um dos maiores contratos do Iter, porém, não veio de nenhum desses cofres, e sim de um bem mais opaco: nasceu do leilão do 5G, realizado em 2021 no Ministério das Comunicações bolsonarista, chefiado por Fábio Faria – amigo de  farra e de lobby de Daniel Vorcaro. O dinheiro que as operadoras destinaram para cumprir o edital foi para a Entidade Administradora da Faixa 3,5 GHz, a EAF, entidade privada criada em 2022 que aplica 6,3 bilhões de reais de uso público e, por ser privada, não precisa licitar nem divulgar dados. Em 19 de junho de 2026, três dias depois de Mendonça formar a maioria que manteve presos o pai e o primo de Vorcaro, e quando ele e a esposa ainda controlavam o instituto, a EAF contratou o Iter por 2.454.375 reais, o maior contrato individual conhecido do instituto, para um programa de treinamento de doze meses, com adiantamento previsto de 40%.

Entre os nomes que gravitam em torno do leilão do 5G e da entidade dele derivada, há ao menos outros dois envolvidos até o pescoço no caso Master, além de Faria.  Um deles é Alberto Leite, empresário que aparece nos relatórios da PF sobre Toffoli e sobre Ciro Nogueira. O outro é o próprio presidente do Senado, Davi Alcolumbre, cujo grupo, segundo o UOL, loteou cargos de diretoria e conselho da EAF desde o início do ano. Nenhum dos três – Faria, Leite e Alcolumbre – sofreu buscas no caso Master até hoje. Apenas a empresa de Lucas Kallas colocou mais dinheiro no Iter do que qualquer outro cliente individual.

Kallas é o dono da Cedro e, embora negue vínculo societário com Vorcaro, foi sócio do banqueiro na companhia de biotecnologia Biomm e, além disso, recebeu do Master um empréstimo de 57 milhões de dólares. Não há prova de que Kallas tenha financiado com 5,2 milhões de reais o Iter em nome de Daniel Vorcaro. O Iter informou que os recursos financiaram despesas de estruturação e funcionamento da instituição, que os repasses foram interrompidos e que a devolução começou em janeiro de 2026, antes de Mendonça assumir a relatoria do caso Master.

A relação de Kallas com Mendonça, no entanto, não parou nesse repasse. Incluiu a disponibilização ao ministro de um helicóptero para viajar de Belo Horizonte para comparecer a um evento jurídico em Itabira, no interior de Minas, em 4 de agosto de 2025. A piauí apurou um episódio que causou desconforto ao ministro, instantes antes da viagem. Quando o carro que conduzia Mendonça ao Aeroporto da Pampulha chegou de carro ao hangar da Cedro Aviação, foi parado por vistoria. O procedimento padrão incomodou o ministro do STF, que disse que não autorizava a revista. No destino, Mendonça participou da 1ª Jornada Jurídica de Itabira, que tinha entre os patrocinadores um sindicato do setor de trabalhadores da mineração na cidade, além da OAB local. Um dos organizadores era o advogado Sérgio Leonardo, atual defensor de Daniel Vorcaro no Supremo.

Se Kallas e Cezinha o ligavam ao banqueiro em Minas e São Paulo, Mendonça tinha no governo do Rio de Janeiro mais que um vínculo com o poder estadual que remunerava seu instituto. O ministro tinha, na figura do governador Cláudio Castro, um amigo de fé e de política assombrado por investigações de corrupção. E essa relação, também atravessada por Cezinha de Madureira, traria algumas das maiores contradições de Mendonça como ministro do STF e do Tribunal Superior Eleitoral.

Os laços eram antigos. Em dezembro de 2021, poucos dias depois de o Senado aprovar seu nome para o Supremo, Mendonça foi recebido por Castro no Palácio Laranjeiras; mais tarde, o governador compareceu à cerimônia religiosa em sua homenagem, na Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

Pouco após a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022, Castro procurou Mendonça por causa de um habeas corpus. Na noite de 11 de novembro de 2022, com o habeas corpus de Cabral em pauta na 2ª Turma e Mendonça com pedido de vista em mãos, Castro escreveu: “Amigo, preciso falar com urgência”, e acrescentou “caso Cabral”. Essa era uma das ações com que o ex-governador Sérgio Cabral, preso desde 2016, buscava deixar a prisão. Mendonça respondeu com a descrição do processo, disse que ligaria em alguns minutos e enviou o andamento no site do Supremo.

As mensagens não esclarecem o interesse do governador no caso, nem registram comprometimento do ministro. Em dezembro, contudo, Mendonça votou pela revogação da prisão preventiva, e a 2ª Turma o acompanhou. Quem lê a mensagem conclui que era Castro diretamente pedindo por um terceiro. O governador, no entanto, diz que só queria confirmar a validade de um alvará. O gabinete afirma que o ministro atuou com base nos autos e não é amigo do ex-governador.


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Repórter da piauí, baseado em Brasília