vultos do supremo I
Breno Pires, de Brasília 24 Out 2026
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Na tarde de 16 de junho de 2026, o ministro André Mendonça conseguiu formar uma maioria cuidadosamente cultivada na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) para manter presos o pai e o primo do banqueiro Daniel Vorcaro, envolvidos no escândalo do Banco Master. Mendonça, ex-advogado-geral da União e indicado ao posto pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em 2021, contou com os votos favoráveis dos colegas Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. Todos os três consideraram necessário preservar as prisões preventivas de Henrique Vorcaro, o pai, e Felipe Cançado Vorcaro, o primo, ambos investigados por suspeita de participação na ocultação de recursos e em outros crimes relacionados ao banco. Gilmar Mendes foi voto vencido. Para ele, as prisões poderiam ser substituídas por medidas menos severas. Dias Toffoli, o quinto integrante da turma, não participou da decisão já que, desde fevereiro, havia deixado a relatoria do caso evitando a declaração de suspeição em razão de sua sociedade com o dono do Master em um resort no Paraná.
O placar de três a um escondia uma disputa em que o destino daqueles dois investigados era o que menos importava. A Segunda Turma, foro de julgamento do caso Master, tornara-se um campo de batalha que também transcendia o habitual jogo de influência interno no STF. Faltavam poucos meses para as eleições gerais no Brasil, e o bombardeio noticioso tornava inevitável que o caso Master se tornasse uma variável de peso para as campanhas eleitorais. Do acervo probatório do escândalo, incluindo 500 gigabytes extraídos de um dos nove celulares apreendidos de Vorcaro, o pouco que se conhecia até então já ameaçava desintegrar carreiras políticas sólidas. O arsenal estava de posse da Polícia Federal e também do gabinete do ministro André Mendonça, que, segundo ele, manteve intocada a cópia lacrada do iPhone 17 Pro, de última geração.
Era um terreno minado para Mendonça, esse servidor de carreira na Advocacia-Geral da União com longeva atuação no combate à corrupção, que foi indicado ao STF menos por razões técnicas e mais por ser “terrivelmente evangélico”. Para quem olhasse no abismo do celular de Vorcaro, era perceptível que os esquemas do banqueiro não tinham fidelidade partidária ou ideológica, mas chama a atenção o número de ex-integrantes do governo de Jair Bolsonaro envolvidos até o pescoço com o banqueiro e enriquecendo por meio dele. Uma reportagem publicada no site da piauí nesta semana mostrou que 71% de suas interações no WhatsApp foram feitas com nomes que atuaram na gestão bolsonarista.
A lista é longa. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, campeão de interações, era o faz-tudo do lobby às farras, e sugou dezenas de milhões de reais do banqueiro num projeto eólico desacreditado. O da Casa Civil, Ciro Nogueira, curtiu a vida adoidado com despesas pagas pelo banqueiro, e por meio dele garantiu uma cota de 13 milhões de reais de uma empresa por apenas 1 milhão. O da AGU, Bruno Bianco, tornou-se o cabeça do setor de precatórios com que o Master esperava encontrar solvência em meio a tanto papel podre. Esses três ex-ministros formaram o pódio das interações de Vorcaro com políticos. O titular da Cidadania durante os últimos meses de governo, Ronaldo Bento, entrou na diretoria do banco Pleno, criado pelo sócio de Vorcaro, Augusto Lima. A sequência de nomes continua – e chega ao primogênito do ex-presidente, Flávio Bolsonaro, que pediu 24 milhões de dólares ao banqueiro a pretexto de fazer um filme sobre o pai. Do atual governo Lula, há indícios de que apenas um ministro recebeu dinheiro Vorcaro: Ricardo Lewandowski, cujo escritório levou cerca de 6 milhões de reais por um contrato de consultoria iniciado antes de ele assumir a pasta da Justiça.
No STF, também era vasto o cartel de enrolados com Vorcaro. De Toffoli, já se sabia que o resort do qual sua família era proprietária, o Tayayá, na divisa entre o Paraná e São Paulo, tivera uma injeção de mais de 20 milhões de reais pelo banqueiro em 2025, depois de um investimento de 15 milhões de reais em 2021. De Kassio Nunes Marques, já aparecera um relatório do Coaf indicando que um consultor amigo do ministro havia embolsado mais de 6 milhões de reais do Master – e evidências de que parte desse dinheiro foi para o filho do ministro, um jovem advogado em início de carreira. Do ministro Alexandre de Moraes, o patamar é de Mega Sena acumulada: um contrato de cerca de 130 milhões de reais do banco com a advogada Viviane Barci de Moraes exigia explicações. Ainda não era de conhecimento público, mas no celular de Vorcaro havia menções também a Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, e mesmo aos dois ministros que duelariam naquela tarde de 16 de junho de 2026 na Segunda Turma: os próprios ministros Gilmar Mendes e André Mendonça.
No embate que ganhou o noticiário naquela sessão da Segunda Turma em junho, Mendes questionava decisões de Mendonça e os métodos empregados nas investigações. Mendonça dizia que não poderia enviá-los para a domiciliar para não colocar em risco a investigação: “As pessoas que se colocaram nessa situação, não fui eu que pus. Não é a polícia.” O relator disse que não aceitaria delações seletivas oferecidas por advogados. O divergente concordava: não caberia a ele negociar delação com nenhum investigado mesmo. Mendonça argumentava que os processos precisavam avançar, apesar das resistências.
A diferença entre as correntes se escancarou ali, mas começara bem antes. Mendonça avalia, segundo interlocutores, que Gilmar articulava um bloco de ministros para reagir a toda investigação que alcançasse o tribunal e atuaria no caso até dispersar cada um deles, ou o contaminaria de vícios até enterrá-los. Para pessoas próximas a Gilmar, enquanto isso, Mendonça quis fabricar maioria por pressão política, ao retirar o sigilo dos processos contra o pai e o primo de Vorcaro, e ao mesmo tempo o do senador Ciro Nogueira, o que provocou um grande clamor público pela manutenção das prisões.
Integrante da turma mais exposto pelo próprio caso Master, Nunes Marques passou os dias que antecederam o julgamento sob pressão de grupos políticos e de colegas. A piauí apurou que o próprio Mendonça conversou diretamente com ele, mas só soube na véspera que ele o acompanharia no voto.
As tensões em torno daquele julgamento, quando já se sabia que as informações recolhidas pelos investigadores alcançavam pessoas próximas aos próprios magistrados, eram só um aperitivo do que explodiria dali a alguns meses. Como ficou claro naquele dia, a divulgação das informações era um ativo que ninguém mais do que Mendonça, no papel de relator, poderia – e saberia – explorar no tempo conveniente. E como relator não apenas do caso Master, mas também dos processos relacionados aos desvios bilionários no INSS, ele foi escrevendo o roteiro que mais interessava à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Investido de um discurso técnico, sem prejuízo de suas atividades religiosas como pastor da Igreja Presbiteriana Esperança, de Brasília, André Mendonça costumava exibir uma imagem pública de ponderação e discrição na condução dos casos INSS e Master, enquanto teve maioria confortável na Segunda Turma. Até que a investigação sobre o INSS o colocou em sua primeira rota de colisão – não contra um ministro, mas contra o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. No centro da história, Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula – que jamais atendeu por Lulinha, mas é assim chamado no noticiário.
Mendonça autorizara a quebra de sigilos de Fábio Luís em janeiro, mas ainda havia não recebido um relatório, assim como outras conclusões sobre diferentes inquéritos do rombo do INSS, nos quais o filho do presidente é investigado por suspeita de tráfico de influência. Foi quando descobriu que a PF havia trocado a coordenação dos inquéritos da Operação Sem Desconto do setor que cuidava de crimes previdenciários – onde estavam por determinação do magistrado – para a estrutura especializada em investigações em tramitação nos tribunais superiores, o chamado Cinq, lotado na Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor). Mendonça não fora previamente informado da mudança e cobrou explicações. Ouviu que se tratava de uma reorganização de natureza administrativa.
Mendonça ficou contrariado e considerou a mudança inadequada, afinal, dois delegados e um perito que cuidava do material do caso deixaram a investigação.
O vazamento de relatórios do Coaf sobre a lobista Roberta Luchsinger e de mensagens do celular dela, apreendidos em operação da PF, fez o noticiário nacional fervilhar no fim de julho, quando Mendonça abriu inquérito por tráfico de influência contra o filho do presidente Lula.
Os dois conflitos – o da formação de maioria no Supremo e o do comando das equipes policiais – se inflamaram à medida que o processo eleitoral avançava. Os atos do ministro André Mendonça numa janela temporal de quinze dias, no entanto, marcariam para sempre não só a sua trajetória, mas a das eleições de 2026. Foi quando o comedimento e a ponderação até então demonstrados deram lugar a decisões de outra natureza: rápidas, tomadas de ofício e com efeito político imediato – a depender do alvo.
O primeiro ato dessa fase veio na segunda-feira, 24 de agosto, faltando pouco mais de um mês para o primeiro turno. Num despacho curto, Mendonça deu 72 horas à PF para entregar informações atualizadas sobre a rede de contatos e de influência de Daniel Vorcaro e identificar as pessoas citadas nas mensagens do celular do banqueiro, inclusive autoridades com foro privilegiado, além da íntegra das conversas com elas. Essa era a descrição técnica. Havia pedidos específicos sobre o que encontrar, de forma que parece talhada para colocar na mira o ministro Alexandre de Moraes, que relatou o inquérito do golpe e condenou Jair Bolsonaro, e desviar dos colegas da corte. Cinco dos delegados que assinam a peça haviam subscrito, seis meses antes, outro relatório, que apontava Toffoli como possível beneficiário final de um fundo por meio do qual Vorcaro investira 35 milhões de reais.
Assim, quase seis meses depois de a colunista Malu Gaspar revelar no jornal O Globo o conteúdo de mensagens – apagadas, mas recuperadas posteriormente – entre Vorcaro e Moraes no dia da prisão do banqueiro, Mendonça enfim chegava a ele. E não aos demais colegas – incluindo Toffoli, que já havia até sido citado pela polícia.
De posse do relatório, na sexta-feira, 28, Mendonça mandou separar o material da petição principal e autuá-lo num procedimento próprio, a Petição 16.662, sob sigilo máximo. O relatório tinha 218 páginas, das quais 188, segundo a PGR, tratavam de Moraes. Reunia referências ao contrato do Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes e 52 notas que, segundo a PF, Vorcaro copiara por captura de tela para um contato identificado como Alexandre de Moraes. Moraes nega ter recebido as mensagens. A PF não apresentou prova conclusiva de que ele tenha agido em favor do Master, mas foi o bastante para Mendonça dar um novo passo.
No domingo, 30, Mendonça procurou o presidente do STF, Edson Fachin, para discutir o que fazer. Com um comportamento pacífico e um forte sentimento de moral, Fachin tem se revelado um presidente frágil, menos por decisões equivocadas e mais por inação, em um tempo no qual a reputação do tribunal é consumida pelas chamas. Depois daquela conversa, cujo conteúdo segue reservado entre os dois, Mendonça abriu vista de cinco dias para a PGR se manifestar sobre o que fazer com os achados da PF – antes de enviar o caso para análise do plenário do STF, sobre a possível abertura de investigação. O despacho foi assinado às 18h51 da segunda-feira, 31 de agosto, e seu conteúdo logo vazou. Pela manhã, o jornal O Estado de S. Paulo já estampava em manchete as suspeitas de corrupção sobre o carrasco do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na hora do almoço, André Mendonça tornou público o relatório que o Estadão já havia divulgado. Foi o ato que transformou uma diligência em fato político. Até ali, as 218 páginas eram um documento policial sigiloso, com referências a um ministro do Supremo e sem prova conclusiva de que ele tivesse agido em favor do Master. Dali em diante, passaram a ser a manchete de toda a imprensa nacional, a 33 dias do primeiro turno, e o argumento de um palanque. Se parece óbvio que o Estado deve evitar o estímulo à exploração política de informações colhidas em investigação, a decisão criou um precedente contrário – e que foi seguido por um ministro de ala diversa da de Mendonça no STF. Em 13 de setembro, ao tornar públicos os autos da investigação sobre as emendas parlamentares recebidas pelas demais empresas da produtora do filme Dark horse, o ministro Flávio Dino citou o despacho do colega e falou em “viragem jurisprudencial em curso”. Nos bastidores, Mendonça justificou ter agido para dar transparência a informações de interesse público. Algo que não foi feito, por exemplo, no caso do ministro Dias Toffoli.
A terça-feira, 1º de setembro, ainda foi marcada por outros fatos relevantes. Nas cordas, Moraes estimulou o contra-ataque, que veio por parte do procurador-geral da República. Às 19h28, Paulo Gonet protocolou um pedido de nulidade do calhamaço produzido a pedido de Mendonça. Sustentou que o relator, mesmo conhecendo as referências ao colega, promovera uma diligência de ofício que extrapolava seu papel de supervisor dos trabalhos policiais. “Sendo nula a ordem e o seu resultado, cabe ao relator reconhecê-lo e extinguir a petição.” Mendonça discordaria em seguida. Tratou a medida como um pedido legítimo de atualização das investigações e disse que os elementos deveriam ser examinados pelo plenário.
Em paralelo, Moraes, na condição de relator do estrambólico Inquérito 4.781, conhecido como o das Fake News, pediu à PF todos os relatórios de inteligência que citassem ministros. Ele sabia exatamente o que viria. Em resposta, o diretor-geral da PF enviou para Moraes três relatórios de inteligência – que, por sua própria natureza, não possuem valor probatório – os quais apontavam maus procedimentos de Mendonça e citavam Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux, o próprio Moraes e Kassio Nunes Marques, além de Gonet e de Andrei Rodrigues.
O bangue-bangue continuou. Moraes, na quinta-feira, 3, tirou conclusões que iam além do que o relatório permitia, disse haver “fortes indícios” de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade por parte de Mendonça. Ao concluir isso, Moraes foi bastante além do que dizia o relatório de inteligência, que, como se sabe, não tem valor probatório. Decidiu pedir ao presidente do STF, Fachin, o acuado, que levasse o caso à deliberação do plenário, espelhando o pedido do relator do caso Master. Ele apontou usurpação da direção das investigações policiais, com quebra da cadeia de custódia; condução irregular de tratativas de colaboração premiada; e “direcionamento de determinados alvos para investigação (Ministro Alexandre de Moraes e Senador Davi Alcolumbre), por motivos pessoais e políticos”.
O clima do STF faltando um mês para o primeiro turno era pré-guerra civil. Em meio às incertezas, o dano causado a Moraes tornou Mendonça um herói para o bolsonarismo, cujos militantes ocuparam a Avenida Paulista no feriado de Sete de Setembro carregando um grande boneco inflável (os chamados pixulecos) de Mendonça, que não estava presente no ato (além dele, apenas Donald Trump recebeu na ocasião a homenagem inflada). Aliados de Flávio Bolsonaro tinham explorado, nos dias anteriores, as revelações sobre Moraes para engrossar a convocação do ato. Do palanque, o candidato resumiu a disputa numa frase: “Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes.”
O dia 8 de setembro amanheceu com uma nova decisão bombástica de Mendonça. Acolhendo um pedido de um partido político, o Novo, linha auxiliar do bolsonarismo, o relator do caso Master apontou a “superlativa gravidade e ilicitude na produção dos relatórios de inteligência” para afastar o diretor-geral da PF e o diretor de Inteligência, Leandro Almada, que conduzira anteriormente o caso Marielle Franco. Mendonça mandou a Corregedoria da polícia investigá-los, passou a exigir que propostas de diligência fossem submetidas à sua apreciação e suspendeu a produção e o compartilhamento de relatórios que analisassem atos jurisdicionais. O ministro que era objeto dos relatórios passava a supervisionar a apuração sobre quem os produziu. A decisão foi levada à Segunda Turma, e, de novo, Fux e Nunes Marques acompanharam o relator, enquanto Gilmar Mendes pediu vista. A maioria cuidadosamente cultivada desde abril funcionava como previsto.
Mendonça tinha, porém, um telhado de vidro sobre sua cabeça. Ele próprio vinha construindo vínculos políticos, pessoais e empresariais com personagens que apareceriam nos procedimentos relacionados ao Master.
Mendonça tinha quase dois anos como ministro do STF quando inaugurou, em novembro de 2023, o Instituto Iter, que oferece cursos, programas de pós-graduação e capacitação para servidores públicos, em sociedade com sua mulher, Janey, e com Victor Godoy Veiga, ex-ministro da Educação do governo Jair Bolsonaro.
Depois que o ministro foi sorteado relator do caso Master, em fevereiro de 2026, o Iter passou a dar o que falar, por elos entre Mendonça e Vorcaro. Em abril de 2024, a Cedro Participações, do empresário mineiro Lucas Kallas, ex-sócio de Vorcaro, havia fechado um acordo com o instituto para emprestar até 5,9 milhões de reais. O contrato tinha uma particularidade: em vez de ser devolvido em dinheiro, o empréstimo poderia ser convertido em participação na entidade. Ou seja, Kallas poderia deixar de ser credor e passar a ser sócio. Desse total, ele chegou a repassar 5,2 milhões de reais. (O Iter diz que Mendonça e Kallas não discutiram os termos, que o dinheiro não virou participação societária e começou a ser devolvido em janeiro de 2026).
Em setembro deste ano, por fim, o jornalista Paulo Motoryn revelou na newsletter Noites Húngaras que Mendonça já recebeu Vorcaro pessoalmente, no dia 14 de março de 2025. Mensagens no celular do banqueiro mostram como se deu a aproximação, por intermédio do advogado Ciro Soares, uma das pontes de Vorcaro com o mundo do lobby jurídico. Em áudio de 16 de fevereiro de 2025, Soares falou a Vorcaro: “o André Mendonça disse que quer te receber, junto comigo”; ele “soube da situação do Banco Central toda”; “já sabia que o Cezinha tinha falado com ele”; e achava ter “dado uma balançada nele naquele assunto”. Estava mencionando o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), um dos políticos mais próximos de Mendonça em Brasília.
No dia seguinte, Ciro Soares escreveu ao banqueiro: “Cezinha confirmou as 16hs de quarta”, sem dizer o quê. Há um hiato de mensagens sobre o assunto até 12 de março, quando Cezinha fez uma primeira chamada para Vorcaro, que não atendeu, mas retornou imediatamente. Conversaram por dois minutos e dez segundos. Na manhã seguinte, o deputado fez nova chamada e, como não foi atendido, escreveu: “Salve, bom dia! Amanhã sexta feira 17:00 com ministro André em São Paulo.” Então mandou um endereço específico na Alameda Santos e disse que estaria lá para recebê-lo. Era o endereço do Iter. Vorcaro respondeu: “Show” e “Marcado”.
Na manhã da sexta-feira, 14 de março, antes de receberem o banqueiro, Mendonça e Cezinha participaram de uma cerimônia relevante para o seu grupo político: a posse solene do aliado Maxwell Vieira como conselheiro do Tribunal de Contas de São Paulo.
Horas mais tarde, Cezinha escreveu a Vorcaro, dezessete minutos antes do encontro: “Ministro já está te esperando.” Depois que os áudios vieram à tona, o gabinete de Mendonça confirmou o ocorrido, mas disse que a conversa girou em torno de um processo sobre créditos de precatórios de interesse do Master que, naquela data, estava com pedido de vista de outro ministro e que durou de vinte a trinta minutos. Mendonça disse que se limitou a ouvir o empresário. No fim, votou contra o interesse de Vorcaro no caso.
A piauí obteve dois indícios de que Vorcaro pode não ter ficado no prédio apenas 20 ou 30 minutos, mas cerca de 100 minutos. Às 18h40, uma hora e quarenta minutos depois da hora marcada para a reunião, Vorcaro escreve no WhatsApp a um motorista: “Saindo.” Exatos 35 segundos depois, o sistema interno do iPhone de Daniel Vorcaro registra que o contato “Maxwel Ministro” foi salvo. O número gravado na agenda aparece no WhatsApp com o nome de perfil “Maxwell Vieira” e a foto do conselheiro empossado no mesmo dia no TCE paulista. Os dois registros, juntos, indicam a permanência do banqueiro no prédio.
Segundo nota do gabinete, no mesmo mês o ministro também atendeu um advogado de Vorcaro, sem identificá-lo, e guarda os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro. As articulações por intermediários continuaram. Em 24 de maio de 2025, o banqueiro recebeu um convite para o lançamento do Iter em Belo Horizonte, ocasião em que haveria um debate entre Mendonça e o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Antonio Anastasia. O remetente do convite era Jarbas Soares Júnior, ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, primo de Ciro Soares e candidato a vice-governador na chapa de Patrus Ananias (PT) ao governo mineiro em 2026. No texto, o instituto estava mencionado como “criado pelo ministro do STF André Mendonça”. O evento seria em 2 de junho. Antes disso, Ciro Soares escreveu a Vorcaro: “o homem pede para lhe chamar pro evento na sexta.”
Coube ao deputado Cezinha de Madureira apontar que seria melhor Vorcaro não comparecer. O deputado sabia que era melhor deixar aquelas relações longe dos olhos do público. E assim aconteceu.
Responsável pela articulação, Cezinha tinha um interesse particular no sucesso doinstituto. Em 2023, assegurou por contrato a opção de comprar 4% do Iter, condicionada à sua saída da atividade política, e depositou uma caução de 19.353 reais. O instrumento lhe facultava a possibilidade de se tornar oficialmente sócio de Mendonça. Mas a relação do deputado com o instituto existia independentemente disso.
Logo o Iter atendeu as expectativas de quem fica com uma pulga atrás da orelha com institutos criados por ministros do Supremo. A piauí constatou uma coincidência consistente entre cidades beneficiadas por Cezinha e aquelas que assinaram contrato com o Iter. Na lista de pagamentos de órgãos públicos ao instituto, 61 municípios paulistas empenharam 2,4 milhões de reais desde 2024.
Em trinta deles, praticamente metade, o município também tinha recebido recursos de emendas de Cezinha, conforme mostra a piauí na reportagem O instituto de Mendonça. Um dos exemplos é a Prefeitura de Embu das Artes, que pagou 295.680 reais ao instituto, entre junho de 2024 e junho de 2026, e recebeu 16,6 milhões de reais em emendas do deputado. A reportagem da piauí mostra também que um dos maiores contratos do Iter foi firmado com uma entidade criada a partir do leilão do 5G, realizado em 2021 no Ministério das Comunicações bolsonarista, chefiado por Fábio Faria, lobista e amigo de farras de Daniel Vorcaro. A EAF contratou o instituto por 2.454.375 reais, o maior contrato individual conhecido do instituto, para um programa de treinamento de doze meses, com adiantamento previsto de 40%.
Apenas a Cedro, empresa de Lucas Kallas, colocou mais dinheiro no Iter do que qualquer outro cliente individual. Ele nega vínculo societário com Vorcaro, mas foi sócio do banqueiro na companhia de biotecnologia Biomm e, além disso, recebeu do Master um empréstimo de 57 milhões de dólares. A relação de Kallas com Mendonça, no entanto, não parou nesse repasse. Incluiu a disponibilização ao ministro de um helicóptero para viajar de Belo Horizonte para comparecer à Primeira Jornada Jurídica de Itabira, no interior de Minas, em 4 de agosto de 2025. Um dos organizadores era o advogado Sérgio Leonardo, atual defensor de Daniel Vorcaro no Supremo.
A piauí apurou um episódio que causou desconforto ao ministro, instantes antes de levantar voo. Quando o carro que conduzia Mendonça ao Aeroporto da Pampulha chegou ao hangar da Cedro Aviação, foi parado por vistoria. O procedimento padrão incomodou o ministro do STF, que disse que não autorizava a revista.
Se Kallas e Cezinha o ligavam ao banqueiro em Minas e São Paulo, Mendonça tinha no governo do Rio de Janeiro mais que um vínculo com o poder estadual que remunerava seu instituto. O ministro tinha, na figura do governador Cláudio Castro, um amigo de fé e de política assombrado por investigações de corrupção. E essa relação, também atravessada por Cezinha de Madureira, traria algumas das maiores contradições de Mendonça como ministro do STF e do Tribunal Superior Eleitoral.
Os laços eram antigos. Em dezembro de 2021, poucos dias depois de o Senado aprovar seu nome para o Supremo, Mendonça foi recebido por Castro no Palácio Laranjeiras; mais tarde, o governador compareceu à cerimônia religiosa em sua homenagem, na Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo.
Pouco após a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022, Castro procurou Mendonça por causa de um pedido de habeas corpus, em pauta na Segunda Turma de Mendonça, para que o ex-governador Sérgio Cabral deixasse a prisão, depois de seis anos. Na noite de 11 de novembro de 2022, com o pedido de vista em mãos, Castro escreveu: “Amigo, preciso falar com urgência”, e acrescentou “caso Cabral”. Mendonça respondeu que ligaria em alguns minutos e enviou depois uma mensagem com informações sobre o andamento processual no site do Supremo.
As mensagens não esclarecem o interesse do governador no caso, nem registram comprometimento do ministro. Em dezembro, contudo, Mendonça votou pela revogação da prisão preventiva, e a Segunda Turma o acompanhou. Quem lê a mensagem conclui que era Castro diretamente pedindo por um terceiro. O governador, no entanto, diz que só queria confirmar a validade de um alvará. O gabinete afirma que o ministro atuou com base nos autos e que não é amigo do ex-governador.
Em 23 de janeiro de 2024, o governador Cláudio Castro encaminhou a Cezinha de Madureira uma mensagem com o número de um habeas corpus que tramitava no Supremo sob a relatoria do ministro André Mendonça. Em 5 de fevereiro, o deputado respondeu com um áudio anunciando novos encaminhamentos de uma pessoa a quem chamou de “nosso líder”. Investigadores ouvidos pela piauí sob reserva entenderam a expressão como alusão ao ministro André Mendonça; o conteúdo isolado da mensagem não prova isso. O resto da conversa dispensa tradução: Cezinha chamava Castro de “meu irmão”, dizia que “Deus está do seu lado”, e Castro respondia com corações e um “Sigo confiante em Deus”. O habeas corpus que Mendonça concederia em outubro estava com o ministro havia cinco meses, desde a redistribuição de setembro de 2023.
Oito meses depois, o beneficiado seria o próprio governador. Castro era alvo, no Superior Tribunal de Justiça, de investigações por corrupção e desvios de recursos destinados a projetos sociais. Havia registros audiovisuais de encontros do então vice-governador com o empresário Flávio Chadud, e, segundo um colaborador, numa dessas ocasiões foram entregues 100 mil reais em dinheiro ao político. Em 10 de outubro de 2024, Mendonça concedeu um habeas corpus que trancou dois desses inquéritos. O ministro questionou a validade de atos e de delações produzidos pelo Ministério Público do Rio contra uma autoridade com foro no STJ. O Ministério Público Federal recorreu, sustentando que havia elementos para seguir adiante, entre eles as gravações dos encontros. A decisão foi mantida pela Segunda Turma, por unanimidade, em 26 de junho de 2025.
No mesmo dia da decisão original, Ciro Soares escreveu a Vorcaro: “Deu certo. Eu lhe disse. Ganhamos”, e encaminhou um documento. A mensagem, revelada pelas jornalistas Daniela Lima e Thais Bilenky, no UOL, foi relacionada à decisão favorável a Castro. Ciro nega ser advogado do governador e diz que apenas torcia pela vitória de um amigo.
Tudo isso aconteceu antes de André Mendonça receber o caso Master. O que ele fez depois, com o poder de decidir o que se investiga e quando, é o que dá peso às relações descritas até aqui. Mendonça, que cultiva a imagem de quem se move por caminhos técnicos, resistia a recorrer a estratagemas banais, como pedir vista e sentar em cima de um processo. Ainda assim, de todos os casos que passaram por suas mãos, o que melhor mede a distância entre o discurso e a conduta é o de Castro.
A Rioprevidência, que paga as aposentadorias dos servidores fluminenses, era uma das frentes mais urgentes para investigação nos esquemas do Master. A PF pediu as primeiras medidas contra o núcleo fluminense em 11 de março de 2026, uma semana depois da segunda prisão do banqueiro Daniel Vorcaro. Enquanto não decidia o que fazer com o pedido de busca e apreensão contra o governador, Mendonça teve um posicionamento favorável ao governador em um caso da esfera eleitoral que poderia lhe cassar o mandato.
Em 24 de março, um dia após Castro renunciar ao cargo de governador, Mendonça votou no TSE contra a declaração de inelegibilidade do ex-governador, num processo sobre a “folha secreta” da Fundação Ceperj e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) na eleição de 2022, caso denunciado pelo repórter Ruben Berta no UOL quatro anos antes. Mendonça reconheceu irregularidades e atos abusivos que haviam afetado a normalidade da disputa e votou pela condenação do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar – mas, sobre Castro, disse não ver “prova suficiente apta a configurar a certeza jurídica acima de qualquer dúvida razoável” sobre a responsabilidade direta ou indireta do governador. Nunes Marques o acompanhou; o julgamento foi suspenso por pedido de vista, mas os outros cinco integrantes do tribunal tornaram Castro inelegível até 2030, e em 2 de junho rejeitaram os recursos.
Em abril, já sem Castro no governo, o estado do Rio assinou um contrato de 518 mil reais com o Iter para 120 vagas de capacitação de servidores da Segurança Pública. O processo para a contratação havia começado em 2025, no governo Castro, quando Mendonça e a esposa ainda detinham, por meio de uma empresa, a maior parte do capital do instituto. A secretaria diz que não pagou nada, porque o Iter ainda não prestou o serviço, e o Ministério Público estadual passou a examinar a contratação.
Em 13 de abril, a PGR somou-se à PF no pedido para que o ministro Mendonça autorizasse uma operação contra Cláudio Castro no caso Master. Mas a blindagem sobre Cláudio Castro só caiu com uma busca e apreensão realizada em uma outra investigação, envolvendo a Refit, empresa do setor de combustíveis pertencente a Ricardo Magro, apontada como devedora contumaz. A ordem partiu de outro ministro relator, Alexandre de Moraes, e levou à apreensão do celular do governador fluminense. Só depois disso, em 25 de maio, 75 dias após a representação da PF contra Castro no caso Master, Mendonça deu uma decisão favorável, e, ainda assim, parcialmente: autorizou as diligências, mas vetou a busca no Palácio das Laranjeiras, sede do governo. As buscas ocorreram no dia seguinte, na oitava fase da Compliance Zero. A PF, em pouco tempo, fez um pedido de diligências complementares – na prática, uma nova fase da operação, no que teve a concordância da PGR. Em julho, Mendonça negou buscas adicionais, entre elas num imóvel em Petrópolis, por entender que os elementos novos eram insuficientes.
Na Polícia Federal e na Procuradoria-Geral da República começou a se disseminar a impressão de que o ministro protegia seus aliados. E o calendário era um argumento a favor da percepção. Fora os 75 dias que levou para autorizar buscas contra Castro, Mendonça precisou de 29 dias para determinar a operação contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que foi seu colega ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro e usufruiu de milhões de reais de Daniel Vorcaro em viagens, restaurantes e negócios. Por outro lado, o pedido da PF contra o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), foi autorizado em apenas 9 dias. Por si só, a diferença de tempo não é prova de tratamento desigual.
Mas chama a atenção que o número de dias entre o pedido da PF e a busca contra o petista é nove vezes inferior ao número de dias entre o pedido da PF e a deflagração de operação contra o chefe de um governo estadual que contratava o instituto do ministro – com o detalhe de que esse governador, Cláudio Castro, já havia obtido o trancamento de um inquérito e um voto contrário à sua cassação da parte de André Mendonça.
Ao herdar de Toffoli a relatoria do caso Master, em 12 de fevereiro de 2026, Mendonça recebeu um conjunto de evidências vastas o bastante para comprometer banqueiros, políticos e integrantes do próprio tribunal.
A polícia já havia levado ao Supremo elementos que alcançavam três dos quatro colegas de Mendonça na Segunda Turma em suspeitas de negócios milionários com Vorcaro e o Master: Nunes Marques, Fux, por contratos que beneficiavam seus filhos; além de Toffoli, tema de um calhamaço de 196 páginas mantido sob sigilo por seis meses, até ser revelado pela piauí.
Gilmar Mendes não chegava a passar incólume: o celular de Vorcaro continha também informações que expunham Chiquinho Feitosa, ex-senador, irmão de Guiomar Feitosa e seu ex-cunhado, fazendo negócios com Daniel Vorcaro.
Não há registro de que Mendonça tenha pedido investigação ou relatórios sobre nenhum dos quatro. O gabinete poderia responder, por exemplo, que a PF não representou contra os quatro ou que não foi atendida.
Além disso, o relator declarou publicamente, no embate contra Gilmar Mendes em 16 de junho, ter recusado uma delação seletiva de Vorcaro que pouparia ministros.
Ainda assim, a postura mudou quando Moraes estava no alvo. Naquele relatório que encomendou com menções a autoridades que voltou recheado de dados sobre o colega (e também o PGR e o diretor-geral da PF), agiu com iniciativa, pressa (72 horas de prazo) e foco (autuou o material à parte, tão logo recebido). Teve a mais proativa transparência em todos os seus cinco anos de Supremo Tribunal Federal: levantou rapidamente o sigilo do relatório, mas apenas depois que ele foi divulgado pelo Estadão. Àquela altura, já se sabia do contrato de cerca de 130 milhões de reais do Master com o escritório da mulher de Moraes.
Em resposta, Moraes pediu aqueles relatórios de inteligência da PF que citavam ministros. No caso de Mendonça, apareceu a suspeita de tratar os colegas de modos diferentes: empenho em aprofundar as apurações sobre Moraes, “contemporização” em relação a Toffoli e postura “abertamente defensiva” diante de Nunes Marques. Os relatórios da PF citaram também a diferença de tratamento entre Castro e Ciro Nogueira, de um lado, e Jaques Wagner, de outro.
O mesmo critério aparece nos casos do União Brasil, um partido de direita que declarou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno. A Polícia Federal abriu uma frente de investigação sobre o presidente do partido, Antonio Rueda, e o vice-presidente, ACM Neto, mas não encontrou receptividade do ministro Mendonça para avançar para uma busca e apreensão. Aos olhos do público, eram conhecidos pagamentos do Banco Master, revelados na CPI do Crime Organizado, a Rueda da ordem de 6,4 milhões de reais em seu escritório de advocacia; e também se soube que ACM Neto recebeu 5,4 milhões de reais. No entanto, as suspeitas dos investigadores eram imensamente mais graves, de que os dois estavam envolvidos em um esquema que reproduziria, em Salvador, a contratação de crédito consignado semelhante ao do Credcesta, criado pelo governo da Bahia. Além disso, as mensagens no celular de Vorcaro mostram que sobretudo Rueda se envolveu na captação de recursos de RPPS (regimes próprios de pensão social) de estados. Para a PF, eles teriam recebido propina de até 10% dos valores sobre contratos firmados em diferentes estados, com ganhos que poderiam alcançar dezenas de milhões de reais. Por tudo isso, a PF entendeu que era preciso agir.
Segundo pessoas com conhecimento dos casos, pedidos de busca e apreensão contra Antonio Rueda e ACM Neto teriam sido rejeitados apesar de estarem amparados por indícios mais robustos do que os utilizados para autorizar medidas semelhantes contra outros investigados, como Wagner. No entanto, Mendonça recusou o pedido. O celular de Vorcaro trazia indícios, a PF fundamentou uma suspeita e, além disso, o próprio banqueiro tentou incluir o tema em uma das propostas de delação premiada, revelada pelo UOL. O banqueiro estava disposto a contar que conseguiu aportes de Rioprevidência, Amprev, Amazonprev e Cedae no Master, cerca de 2 bilhões de reais, em troca do pagamento de propina de 10%. Os dois políticos do União Brasil negaram as acusações. ACM Neto as chama de “absurdas, completamente fantasiosas”. A proposta de delação acabou rejeitada pela PF e pela PGR.
Com ou sem razão, o fato é que os dois ministros indicados por Jair Bolsonaro ao STF, André Mendonça e Kassio Nunes Marques, impediram que ACM Neto e Antonio Rueda recebessem a visita da PF no ano eleitoral.
A assimetria de informações apareceu também no caso de Flávio Bolsonaro. Em 22 de julho, Mendonça autorizou uma investigação sobre os milhões de dólares que o presidenciável pediu a Vorcaro com o pretexto de financiar a cinebiografia de seu pai, o filme Dark Horse. Vorcaro escolheu para irrigar a conta indicada pelos Bolsonaro a empresa de um doleiro parceiro, Antonio Carlos Freixo Junior, a Entre Investimentos e Participações, que enviou ao fundo imobiliário americano Havengate sete remessas que somavam cerca de 12,3 milhões de dólares – a soma total do contrato era 24 milhões de dólares, algo bastante próximo dos 130 milhões de reais do contrato da Viviane de Moraes. A existência do procedimento era conhecida, mas seu conteúdo permaneceu sob sigilo, enquanto as informações sobre Moraes, tornadas públicas em 1º de setembro, puderam ser aproveitadas pela campanha antes do Sete de Setembro.
Só em 10 de setembro, depois de pressão de Fachin e da ala de aliados do ministro Alexandre de Moraes, Mendonça retirou o sigilo de parte dos procedimentos. Em 11 de setembro, Fachin deu 24 horas para o envio dos demais. Ao mesmo tempo, Mendonça pediu ao presidente da Corte que marcasse uma sessão para decidir o encaminhamento no caso Moraes. Foi contemplado: a sessão aconteceu em 15 de setembro.
Foi nesse cerco que as relações de Mendonça com seu entorno voltaram à cena. Em 3 de setembro, dois dias depois da divulgação sobre Moraes, a assessoria de Mendonça informou que ele decidira deixar a sociedade do Iter, cedendo todas as cotas dele e da esposa sem contrapartida.
Um pouco mais tarde, em 14 de setembro, a PF cumpriu mandados contra Cezinha e a sociedade de advocacia de sua mulher, Valéria Rodrigues Linhares, na Operação Transparência, autorizada por Flávio Dino em 5 de setembro numa apuração sobre tráfico de influência, exploração de prestígio e corrupção passiva. Segundo a decisão, ao deputado cabia o “suposto contato pessoal e direto com ministros de tribunais superiores”. Mendonça, Nunes Marques e Mendes eram citados, mas a representação da PF ressalva que os magistrados “comparecem nestes autos exclusivamente como destinatários cogitados” e “jamais como suspeitos”, e não há notícia de que algum tenha pedido ou recebido vantagem. Após a realização das buscas, veio à tona a informação de que Cezinha de Madureira tinha o contrato de opção para sócio com 4% do Iter.
No dia seguinte ao cumprimento dos mandatos, o conflito chegou ao plenário. Gilmar acusou Mendonça de conduzir o caso Master com motivação político-eleitoral, questionou a divulgação das informações sobre Moraes às vésperas do Sete de Setembro e chamou o colega de “sujeito investido de um sentimento policialesco, junto com seus delegados”. Mendonça rejeitou a acusação, chamou a conduta de Gilmar de leviana ( "Não seja leviano, não aponte o dedo para mim") e reagiu aos gritos – “A desfaçatez de Vossa Excelência! Me respeite!” –, ao que Gilmar respondeu: “Pode chorar.”
O bate-boca se deu em meio ao julgamento que tratava de questão de ordem de Gilmar para reunir a Petição 16.662 e a 16.704, que concentrava as controvérsias sobre a atuação de Mendonça. Fachin, Mendonça, Fux e Cármen Lúcia votaram contra a reunião; Gilmar, Moraes e Cristiano Zanin, a favor. Dino pediu vista e pediu que seu voto não fosse computado, o que explicaria o 4 a 3 ou 4 a 4 da cobertura. Nunes Marques declarou-se impedido, e Toffoli, suspeito.
A sessão descambava para uma briga de rua. Ao final, nada se decidiu. Os ministros ficaram presos na questão de ordem até um pedido de vista do ministro Flávio Dino. O plenário não examinou o mérito das acusações.
Nas semanas seguintes, Fachin retirou da pauta de 23 de setembro o julgamento sobre Mendonça, o ministro pediu o arquivamento da apuração contra si, o Novo pediu o reconhecimento do empate, e Flávio Bolsonaro pediu a suspeição de Dino para ações relacionadas à eleição. Em 2 de outubro, o presidente do Supremo pediu à PF uma investigação “sem exceção de pessoa”.
Enquanto isso, a eleição entrava em uma calorosa reta final, e dois dos ministros que mais pesavam nessa disputa tinham as chaves da arbitragem eleitoral. Nunes Marques como presidente do TSE e Mendonça no papel de vice. Ambos relatavam representações de propaganda de Lula e de Flávio.
Os resultados apontaram em sentidos opostos. Em 1º de setembro, com Nunes Marques como relator, o plenário rejeitou por 4 votos a 3 a representação do PT contra o vídeo de inteligência artificial que recriava a voz de Jair Bolsonaro na convenção do PL. Em 25 de setembro, Mendonça mandou remover mais de mil links com o boato de que Flávio tiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, e a ordem alcançou uma postagem do humorista Antonio Tabet; Dino suspendeu a ordem na parte que o atingia, Fux a restabeleceu a pedido de Flávio, e em 30 de setembro o plenário eleitoral manteve a retirada dos boatos, enquanto Mendonça ajustou o voto para preservar a postagem de Tabet.
Em 5 e 8 de outubro, Mendonça multou Flávio em 5 mil reais por impulsionar propaganda negativa contra Lula e votou pela retirada de postagens que o associavam a facções criminosas; em decisões liminares, também mandou retirar vídeos da campanha de Lula. O episódio mais próximo do Master veio em 10 de outubro: Nunes Marques mandou tirar do horário eleitoral de Lula uma peça que chamava Flávio de “investigado por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do Banco Master”, no caso do financiamento de Vorcaro para o filme Dark Horse, por considerar a informação incompleta e fora de contexto. A mesma decisão atingiu a menção a Alfredo Gaspar, por omitir o arquivamento do pedido de investigação contra ele, em 6 de outubro.
Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou em primeiro, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula. O resultado do segundo turno, em 25 de outubro, sela também o destino de Mendonça: ele – e as suspeitas que pesam contra ele – estará em minoria ou em maioria na corte?
A conta é simples e exige cautela. A cadeira de Luís Roberto Barroso segue vaga desde outubro de 2025, já que o Senado rejeitou em abril a indicação de Lula, Jorge Messias. O próximo presidente já chega, portanto, com um nome para apontar. Outras três vagas surgirão ao longo do mandato por aposentadoria compulsória, aos 75 anos: Fux em abril de 2028, Cármen Lúcia em abril de 2029 e Gilmar em dezembro de 2030.
A despeito de seus próprios interesses, e de ser conhecida a proximidade de Mendonça com o coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, senador Rogério Marinho, e a madrasta Michelle Bolsonaro, nada do que se examinou demonstra que Mendonça tenha conversado com Flávio ou com a campanha sobre indicações, impeachment ou sucessão na presidência da Corte.
Mas, com uma possível vitória de Flávio, seria a conclusão de um roteiro e tanto. Um ministro que relatou o maior escândalo bancário do país foi sócio de uma escola financiada, em milhões de reais, por um empresário com negócios com o banqueiro; foi procurado, para conversar com esse banqueiro, por um deputado que tinha opção de comprar parte do negócio, destinava emendas a clientes da escola e frequentava o círculo de um governador cuja investigação ele trancou em 2024 e cujo governo contratou o instituto; reuniu-se com o banqueiro onze meses antes de receber o caso; e mandou apurar, de ofício, as referências a um colega, cuja revelação pública serviu, no mesmo mês, à campanha do candidato do partido que o indicou... Terminaria o ano tornando-se o ministro mais poderoso do Supremo Tribunal Federal.
Nada mal para quem, em 16 de junho, pensava apenas em garantir a maioria de três votos a um para manter presos o pai e o primo de Daniel Vorcaro, com a habilidade para não perder o apoio de um ministro que preferiria ver a investigação ir para o espaço, Nunes Marques, e a serenidade para usar o arsenal na hora certa: à beira da eleição. Não por acaso, os bolsonaristas na Paulista inflaram apenas dois pixulecos naquela data: o de Trump e o de André Mendonça.