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CACHORRO AMANSADO

Em novo disco, Falcão se volta à MPB com discurso menos escrachado
Próximo dos 70 anos, Falcão abandonou estilo escrachado em novo disco - Tony Santos/Divulgação
Próximo dos 70 anos, Falcão abandonou estilo escrachado em novo disco - Tony Santos/Divulgação

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Há trinta anos, em meio ao boom do sertanejo, do pagode e do axé, quem sintonizava uma rádio FM corria o risco de topar com a seguinte pérola: “Sendo assim/ Quem nunca queimou o anel quando menino/Queimá-lo-á quando crescido/Isso explica novamente/A história da viadagem adquirida/Porque homem é homem/Menino é menino/Macaco é macaco/E viado é viado.”

São os versos de Holliday foi muito, faixa mais tocada de A besteira é a base da sabedoria (1995), terceiro disco do cantor e compositor cearense Falcão. A música causou repercussão na mesma proporção em que figurou nas paradas. 

O álbum com doze faixas e que misturava tiradas filosóficas com um humor escrachado vendeu mais de 200 mil cópias, estabelecendo o cearense como ídolo cult brega.

Depois de despontar no início dos anos 1990 com I'm not dog no e gravar discos pela BMG, uma das maiores gravadoras à época, nos anos 2000, após o fim do contrato com a companhia, Falcão praticamente voltou a ser independente e retornou a estúdios mais modestos. Mas se reinventou. O sertanejo nascido no interior do Ceará, que só viu uma lâmpada acesa aos 10 anos, se tornou um artista multimídia, com atuação no cinema, na televisão e na internet. Participou de filmes como Shaolin do Sertão (2016) e Cabras da peste (2021), e integrou a série de comédia Os Roni, exibida pelo Multishow entre 2019 e 2021.

Na música, Falcão vivia um hiato desde 2014, quando lançou Sucessão de sucessos que se sucedem sucessivamente sem cessar. Desde então, o artista lançou alguns singles, mas faltava um trabalho mais robusto. O lapso foi interrompido em maio deste ano, com a chegada de Sério, seu décimo álbum. O projeto é diferente de tudo que o cearense já fez na carreira. Com 69 anos, o cantor mudou a rota para mostrar que sua verve criativa não precisa ser sempre debochada. 



O novo disco tem dez faixas, entre regravações e inéditas. A mudança de abordagem aparece já no projeto gráfico. Se em seus outros trabalhos ele aparece vestido com ternos coloridos e girassóis amarelos, sua marca registrada, no novo projeto Falcão está sentado em uma cadeira usando um conjunto preto com tons de bege. Seu nome está escrito em laranja escuro, nada fosforescente e sem exageros. Não há correntes de ouro ou qualquer adorno. Apenas óculos escuro de lentes pretas e moldura branca. A imagem é enquadrada sob um fundo cinza claro. 

O álbum começou a ser produzido no final de 2024, mas foi em dezembro do ano seguinte que Falcão se trancafiou no estúdio Midas Music, em São Paulo, para finalizá-lo. A produção é de Rick Bonadio, conhecido pela parceria com bandas como Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr. O primeiro projeto de Bonadio e Falcão juntos foi em 2012, quando o produtor convidou o cearense para gravar junto da banda Contra as nuvens, a faixa Renato, o Gaúcho, canção inédita que os Mamonas não conseguiram gravar devido ao trágico acidente ocorrido em março de 1996.

Desde então, ficou a vontade recíproca de uma nova colaboração. Além disso, Bonadio é fã de Falcão desde que ouviu I'm not dog no pela primeira vez, ainda nos anos 1990. Foi o produtor quem sugeriu a gênese menos debochada de Sério. “Eu disse a ele: ‘pô, Falcão, a música está tão esculhambada que você fazer música séria vai ser a verdadeira esculhambação’”, afirmou Bonadio à piauí.

Falcão aceitou o desafio. O projeto ganhou o apoio do cantor e compositor Raimundo Fagner, um velho conhecido, que assumiu a coprodução. A parceria entre os conterrâneos já dura mais de trinta anos. Fagner teve um papel importante no ingresso de Falcão na BMG e produziu, em conjunto com o lendário guitarrista Robertinho do Recife, dois de seus discos mais bem-sucedidos comercialmente: O dinheiro não é tudo, mas é 100% (1994) e A besteira é a base da sabedoria (1995). 

Em Sério, Falcão explora seu lado intérprete. O cearense aparece cantando em tons mais graves, suavizando o vocal esgarçado que sempre o caracterizou e aproximando-se de uma estética MPB. “Sempre achei que a voz do Falcão, apesar de ele cantar músicas engraçadas, tinha uma certa dramaticidade. Tem uma tristeza ali no fundo. Foi isso que eu busquei, essa emoção mais profunda”, disse Bonadio. 

Outra novidade é o fato de ter entre os convidados artistas que não são conhecidos pelo humor em seu repertório, como Elba Ramalho e Sérgio Britto, dos Titãs. Elba aparece no forró inédito Só tenho um, que tem o poeta José Carlos Capinan como um de seus autores. Já Sérgio Britto contribuiu com o xote Carrossel.

As letras são mais reflexivas e menos escrachadas. Um exemplo é Não fique triste, balada setentista do grupo de rock fortalezense O peso, que ganhou releitura de Falcão. “Não fique triste/Pois eu lhe digo que/Felicidade até existe”, canta o cearense nos versos iniciais. O refrão calibra ainda mais no tom poético: “Não tenha medo/Se não há segredo entre nós/ Venha dos sonhos/De olhos risonhos/Venha quando ouvir minha voz.”

Em Que se lasque o amor , Falcão é um sofredor apaixonado nos moldes tradicionais, bem ao gosto do cancioneiro musical brasileiro. “Eu não quero sofrer/Mas aqui estou/Sofrendo e chorando/ Mas não me arrependo/Que se lasque o amor.”

Os arranjos também procuram dar o tom menos despudorado do álbum. “Musicalmente, os outros discos do Falcão eram feitos meio que acompanhando a sacanagem que vinha na letra. Dessa vez, fiz arranjos densos, conectados a uma qualidade musical”, explicou Bonadio.

Mas há momentos nem tão sérios assim. Falcão inseriu no disco Jumento celestino, uma homenagem aos Mamonas Assassinas, que tinham o cearense como ídolo. Outro momento mais solar do disco é a faixa Bololô, com participação do DJ Ari SL. “Que show da Xuxa é esse?/Oh, oh, oh/Que as novinhas não dá mole pro vovô/Que show da Xuxa é esse?/Oh, oh, oh/Que ela só quer iPhone, roupa cara e bololô.”

Beleza, um dos singles do disco, quase ficou de fora. A canção foi lançada por Fagner em 1979 e Falcão quis regravá-la no novo disco como uma homenagem ao Pessoal do Ceará, movimento musical surgido nos anos 1970. Fagner achava que a faixa não ficaria boa na voz do parceiro e sugeriu outra, Retrovisor, fruto de sua parceria com Fausto Nilo. 

Em meio ao vaivém de ideias, Bonadio acabou produzindo Beleza, por engano, durante um fim de semana. “Rick passou o domingo todo fazendo a música errada”, disse Falcão à piauí. Ele enviou a canção para Fagner e o coprodutor acabou convencido. “Rapaz, essa música merece uma segunda voz”, respondeu o conterrâneo, que participa da faixa.

Fagner disse não ter dúvidas quanto à aprovação do público. “Falcão tem muita experiência de estúdio, sempre foi esperto na maneira de cantar e as pessoas reconheceram sua evolução nesse projeto.” Falcão também está de olho na reação dos fãs. “Tem gente que é muito ligada na minha obra esculhambativa-filosófica, mas vai escutar o disco para ver se a minha interpretação chega junto dos grandes artistas da MPB. É uma aposta. Arte só tem graça quando a gente experimenta.”



Segundo dos quatro filhos do comerciante Zé Maia e Carminha, Marcondes Falcão Maia nasceu em 1957, na pequena Pereiro, a cerca de 300 km de Fortaleza. Seu primeiro contato com a música se deu através da radiola do pai, artigo raro no município, que não tinha eletricidade, telefone ou pavimentação. A coleção do patriarca incluía discos de Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Waldick Soriano, além de música latina e italiana. A radiola a pilha também captava ondas da Rádio Nacional e da antiga Rádio Tupi. Foi por meio dessas emissoras que Falcão teve o primeiro contato com a Jovem Guarda e os Beatles. 

Apesar do pouco estudo formal, Zé Maia era afeito à leitura, e também influenciou os filhos nesse quesito. Todo dia chegava pelo Correio alguma publicação adquirida por ele. Zé Maia tocava um comércio que herdara do pai e chegou a farmacêutico, o que rendeu à família um padrão de vida melhor que o da maioria dos moradores de Pereiro. Falcão tomou gosto pelos livros e, ainda criança, colecionava edições do semanário carioca O Pasquim. Crescer numa cidade sem luz, sem televisão e sem muita distração contribuiu para a formação intelectual do garoto, que tinha tempo para se dedicar à leitura.

Falcão cursou o ensino básico na cidade natal, chegou a frequentar o primeiro ano do ginásio por lá, mas, como boa parte dos jovens de Pereiro que tinham o desejo de estudar, precisou ir embora para a capital. Em 1970, o músico se estabeleceu de vez em Fortaleza e entrou para a turma do rock. O garoto, que na época já tinha como ídolos Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, passou a ouvir Pink Floyd, Led Zeppelin e Jimi Hendrix. Chegou a formar uma banda de rock com os irmãos Marcos e Mariano.

O interesse não era só o som. Falcão também era atraído pelas letras, principalmente pela poesia de Bob Dylan, e não demorou para que mergulhasse no texto dos medalhões da MPB e da Tropicália. “Eu nunca fui bom músico, não sou bom de harmonia, nem de melodia, mas me interessei desde muito cedo pela parte literária da MPB desde que ouvi Alegria, Alegria e, principalmente, A banda e depois Roda Viva. Era diferente do que meu pai ouvia lá no interior, né?”, afirmou o cantor.

Falcão misturou essas influências à obra de conterrâneos como Fagner, Ednardo e Belchior, representantes da moderna música cearense que despontava nos anos 1970. E depois Zé Ramalho e Raul Seixas, sempre de olho nas letras. Em paralelo ao interesse pela música, Falcão cursou arquitetura na Universidade Federal do Ceará (UFC). 

Falcão, o personagem conhecido pela indumentária extravagante, foi forjado durante o Primeiro Festival Bancário da Canção, em 1988, quando subiu ao palco para defender Canto Bregoriano II, coautoria com o jornalista e escritor Tarcísio Matos, seu parceiro mais consistente ao longo da carreira.

Apesar do prévio envolvimento com a música, Falcão estava nervoso, pois fazia sua estreia solo diante de uma plateia de verdade, não da calourada da UFC. A solução para disfarçar a timidez surgiu por acaso. Se o título da canção fazia alusão ao brega, por que não meter um paletó à la Waldick Soriano? Além da mise-en-scène, os óculos escuros trariam um pouco de segurança para o cantor, disfarçando seu olhar acuado.

Apesar do impacto que causou no público, Canto Bregoriano II foi desclassificada. O “bolero sacro-sindical” cita a encíclica Rerum Novarum, que jogou luz sobre as condições precárias da classe trabalhadora no pós-Revolução Industrial, e termina com um refrão convidativo, que, segundo os autores, é “o grito do operário desiludido e deprimido frente ao contracheque”. Era esculhambação demais, até mesmo para os padrões cearenses.

Contudo, diante da pressão do público, a organização precisou reconsiderar a decisão. E Falcão voltou à final do festival como convidado para repetir Canto Bregoriano II, ainda que fora do circuito competitivo. “Foi um fracasso ao contrário, porque eu fiquei mais famoso que os caras que ganharam o festival”, declarou o cantor anos depois. 


Depois de três décadas de carreira, Falcão discorda de quem não vê seriedade em sua obra. “Até hoje eu não administro muito bem essa história de o pessoal me chamar de humorista. Eu uso o humor para levar uma mensagem mais séria, não é só para fazer a gaiatice”, defende-se. 

O primeiro sucesso foi I'm not dog no, lançado em seu disco de estreia, intitulado Bonito, lindo e joiado. Ao converter o clássico de Waldick Soriano para o “inglês canônico”, a dupla Falcão/Tarcísio Matos pretendia satirizar a preferência das emissoras brasileiras pela música estrangeira. “É até uma oportunidade pra eu mostrar a poesia do Waldick para os americanos”, ironizou, à época. Ele e Tarcísio traduziram a canção de Waldick na mesa do bar, com um dicionário. “Essa música nem ia entrar no disco”, contou Falcão recentemente em uma entrevista ao ICL Notícias. 

Além da faixa satírica alusiva à síndrome de vira-lata, o disco aborda outros temas de interesse social. Falcão tira sarro da burguesia cearense em Um bodegueiro na Fiec e, a seu modo, provoca Cazuza (“Eu sei que a burguesia fede, mas tem dinheiro pra comprar perfume”), ao parafrasear a canção Burguesia. Há crítica política na faixa Sou mais no tempo do Figueiredo, em alusão a João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar. Em Oportunidade única, o jingle da Caixa Econômica Federal é surrupiado para vender um imóvel que fica na casa do caralho. Houve espaço também para a poesia de Augusto dos Anjos, reverenciada em Desamassamento, solda e pintura. Falcão toma emprestados (com pequenas modificações) os versos “Doutor, pegue essa tesoura e corte a minha singularíssima pessoa”, extraídos do poema Budismo moderno, para satirizar a medicina moderna. 

A erudição do artista logo foi percebida pela redação da Bizz, influente revista de música da época. Na premiação dos melhores de 1991, o cearense apareceu em segundo lugar na categoria Melhor Letrista, perdendo apenas para Caetano Veloso na votação da crítica especializada. A maioria dos leitores boiou, já que o grande público ainda estava em vias de descobrir Falcão.

A fórmula seguiu pelos discos seguintes. Para o jornalista Julio Maria, a obra de Falcão é marcada pela implosão das regras tradicionais da MPB. Tanto em composição quanto em interpretação e sonoridade. Ele avalia que a irreverência presente desde I'm not dog no é um protesto comparável ao existente, por exemplo, em Cabeça Dinossauro, dos Titãs. “É tão indignada, tem essa força de ‘rebeldia contra o sistema’ que as bandas de rock tinham”, afirmou.

Na avaliação do crítico musical, Sério é uma inflexão na carreira do cearense. “Minha sensação é de que Falcão se enfraquece fora do território do humor, do escracho. Fica bonito, fica joiado, mas ele perde a contestação, perde a força que é a marca dele: a esculhambação”, analisa o escritor, autor das biografias de Elis Regina e Ney Matogrosso.

A mudança de rota leva o jornalista a refletir sobre a influência dos filtros que regem o humor na atualidade. “Talvez, pelo fato de ter ficado difícil defender o próprio repertório, Falcão tenha partido para um disco denominado sério.”

Quem também ficou desconfiado com o novo trabalho de Falcão é o historiador Paulo Cesar de Araújo, autor da biografia de Roberto Carlos. “Acho que Falcão não vai conseguir fazer nada sério, já que ele é essencialmente humorista. Então, esse disco sério, para mim, é outra piada do Falcão.” 

Embora classifique Falcão como “um humorista que faz música”, o historiador reconhece que o cearense cultiva boas referências. “Ele conhece muito bem o repertório clássico da MPB. Tem esse aspecto do humor, da esculhambação, mas com uma pegada de crítica social. Isso é marcante nele. Como tinha também lá no Juca Chaves, que era mais a sátira política, e Falcão tem esse aspecto mais para o lado social. Crítica social com humor e sexo, misturando tudo isso.”

Um desses temas é o chifre, que na obra de Falcão recebe contornos de seriedade desde o início da carreira. O cearense sempre tratou com seriedade e leveza um tema que, não raramente, termina com honra lavada a sangue. Não que Falcão tenha inventado a roda. “Waldick Soriano, em Eu não sou cachorro, não, botou um certo humor em cima do chifre. Depois veio Reginaldo Rossi, falando também com certa brincadeira. Aí combinou com Alípio Martins, um cantor lá do Pará, que escancarou mesmo e levou a coisa para o lado da galhofa a respeito do corno”, analisa Falcão.

Foi essa linha evolutiva da música popular brasileira que Falcão se propôs a aprimorar. Um serviço social, define o artista. “Isso distendeu a história do cara sofrido que sai para matar. O próprio corno começou a ver que não vale a pena, que é melhor ser um corno tranquilo do que um corno revoltado. Eu acho que minha música ajudou a salvar algumas vidas.”

Na avaliação do parceiro Tarcísio Matos, o tempo foi mostrando que Falcão não era só um cantor com toque engraçado, ainda que essa percepção perdure em uma parcela do público. Para ele, o amigo une o que há de mais bem-humorado e inteligente na MPB, de Noel Rosa a Chico Buarque, passando por Premeditando o Breque e Eduardo Dussek. “Só que com ele é tudo mais escrachado, mais visceral, mais moleque. Falcão é impudico, às vezes, por necessidades intrínsecas. O fato de vir do Nordeste do Brasil de Gonzagão e Zé Limeira, Pinto do Monteiro e Cego Aderaldo, talvez lhe tenha imposto fazer leituras novas e mais ácidas de tudo, algo diferente, único”, afirmou o jornalista.

Embora aponte para caminhos múltiplos e universais, Sério está impregnado de Ceará. Não tem o lado escrachado de outros trabalhos, mas ainda apresenta aspectos da terra natal. É que Falcão saiu de Pereiro, mas Pereiro não saiu dele. Para explicar melhor esse vínculo com a cidade, ele parafraseia Guimarães Rosa. “A melhor coisa para o cabra que nasceu no interior é ter pra onde voltar. É a melhor coisa do mundo. Quem não é do interior vai voltar para onde? Estou sempre voltando para Pereiro, mesmo que em pensamento.”

É como Falcão cantou lá atrás, na época do estouro de Holliday foi muito, só que agora sem sacanagem: a saída é a retaguarda.


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