Marco Da Lata, da banda Anjo Gabriel, no Festival Lula Côrtes de 2025 - FOTO: Allan Luna
Marco Da Lata, da banda Anjo Gabriel, no Festival Lula Côrtes de 2025 - FOTO: Allan Luna

vultos da música brasileira

ECOS DO UDIGRUDI

Os herdeiros da pernambucália e da psicodelia nordestina cinquenta anos depois de seu surgimento

12 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Cerca de 450 pessoas acompanhavam, na noite de 29 de maio, a nona edição do Festival Lula Côrtes, sediado em um antigo edifício próximo ao Rio Capibaribe, no Centro do Recife. Uma das atrações principais era a banda Anjo Gabriel, que reinterpretava, na íntegra, o álbum Flaviola e o Bando do Sol, de 1976, do poeta e compositor Flaviola. O disco é um dos mais importantes da geração da psicodelia pernambucana surgida no início dos anos 1970 e cuja produção tem sido revisitada por jovens músicos nordestinos. São os novos entusiastas da estética Udigrudi (corruptela de underground), que influenciou não apenas a música, mas também as artes visuais, o cinema e o teatro. 

A psicodelia pernambucana durou até o fim da década e aparece na obra de artistas como Alceu Valença, Zé Ramalho, Lula Côrtes, Ave Sangria, Flaviola, entre outros. São canções que falam de rosas de sangue, anjos de bronze, vacas roxas, pedras encantadas, seres multicoloridos com maracas de fogo em punho e portais interdimensionais. Os arranjos e melodias misturavam ritmos nordestinos, como o baião, ao rock de Jimi Hendrix, Jethro Tull, King Crimson, Pink Floyd e Beatles. Era uma produção independente, por acontecer longe das grandes gravadoras; contestatória, por pregar a liberdade individual (como no uso de entorpecentes leves, como maconha e cogumelos de zebu); e subversiva, pois afrontava a censura em seu momento de maior repressão após o AI-5, decretado em dezembro de 1968. 

Influenciados pelo Festival Woodstock, nos Estados Unidos, em 1969, os nordestinos fizeram seu próprio evento: a Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém, em novembro de 1972, no município de Brejo da Madre de Deus, a 200 km da capital. “Foi aí que a coisa começou a borbulhar”, afirma o jornalista e pesquisador Rogério Medeiros, autor do livro Valsa dos Cogumelos: a psicodelia recifense 1968/1981, lançado em 2022 de forma independente.

A feira experimental foi idealizada por Marcelo Mesel, um estudante de medicina da Universidade Federal de Pernambuco, com o apoio de diversos diretórios estudantis da instituição. Na época, o Diario de Pernambuco estimou um público de 2 mil pessoas no evento, vindas do Recife, Paraíba, Alagoas, Ceará e Bahia.

Passaram pelo palco nomes como Flaviola, Marconi Notaro, Nuvem 33, Tamarineira Village (mais tarde convertida em Ave Sangria), Lula Côrtes e Laílson – estes dois, no ano seguinte, lançariam o LP Satwa, um dos principais discos do gênero. Assim como Satwa, antecedeu outros álbuns fundamentais da discografia do movimento: Marconi Notaro no Sub Reino dos Metazoários (1973), Ave Sangria (1974), Paêbirú (1975), de Lula Côrtes e Zé Ramalho, Vivo (1976), de Alceu Valença, e Flaviola e o Bando do Sol, reinterpretado neste ano. 

São discos clássicos, cujo som experimental dialogava, por exemplo, com aquilo que os tropicalistas estavam fazendo desde o fim dos anos 1960, como mais um símbolo da contracultura do período. Críticos e jornalistas associavam a música udigrudi pernambucana a nomes que despontavam nacionalmente, como os Novos Baianos e Secos e Molhados. Não à toa, nomes dessa geração, como Alceu Valença e Zé Ramalho, rapidamente chamaram a atenção do público e das gravadoras do eixo Rio-São Paulo, onde se estabeleceram a partir dos anos 1980. 



O Festival Lula Côrtes acontece anualmente desde 2017 e foi criado por seu filho, Nemo Côrtes. O produtor cultural de 38 anos diz que o evento surgiu com a perspectiva de ser intergeracional. "Os músicos e amigos sempre falavam dele como alguém que aglutinava pessoas de diversas gerações. Ele era o elo de amizade de muita gente. Seus aniversários eram sempre uma grande farra.” O festival acontece sempre no mês de maio, mês de aniversário do multiartista morto em 2011, aos 61 anos. 

Desde o ano passado, Nemo tem usado o evento para "aprofundar a conexão entre passado, presente e futuro", organizando apresentações dedicadas a revisitar discos importantes da psicodelia pernambucana. O primeiro projeto dessa nova fase foi a celebração dos cinquenta anos de Paêbirú, em um show das bandas Anjo Gabriel e Ave Sangria, realizado no Teatro do Parque, no Recife, para um público de oitocentas pessoas. Ele diz que a obra gravada durante a ditadura militar não circulou amplamente e nem foi apresentada a grandes públicos. 

O álbum surgiu de uma viagem feita por Zé Ramalho e Lula Côrtes a Pedra do Ingá, monumento arqueológico situado a cerca de 100 km de João Pessoa. Lá, tiveram acesso a informações que misturavam registros arqueológicos, mitos indígenas e intervenções alienígenas. 

Foi dessa confluência de narrativas, aliada ao encantamento pela beleza e pelo mistério do lugar e ao uso de alteradores da consciência, que surgiram músicas como Trilha de Sumé. A letra narra a jornada de um personagem mítico que percorre o sistema solar até chegar à Terra. Em Pedra Templo Animal, outra faixa do disco, Côrtes descreve a semelhança entre uma rocha e um lagarto.

Parte dos sons que compuseram o projeto foi registrada no próprio local, de forma artesanal. As sessões de gravação ocorreram de outubro a dezembro de 1974 no estúdio da lendária gravadora e Fábrica de Discos Rozenblit, no Recife. "A gravação foi, digamos, orgânica. Ia acontecendo naturalmente”, conta Hélio Rozenblit, técnico de som que trabalhou na produção do disco e filho de José Rozenblit, dono da empresa fonográfica. 

O trabalho resultou em um disco duplo de catorze músicas, com cada lado representando um dos quatro elementos (água, terra, fogo e ar) e com identidades sonoras próprias. Terra, com alternância de atmosferas, ora tensas, ora serenas. Ar, como o título sugere, é o lado mais contemplativo e etéreo. As influências do rock e do progressivo estão mais presentes em Fogo. O lado Água une louvações à Iemanjá, ritmos afro-brasileiros e nordestinos e sons líquidos. 

Paêbirú é um disco raro e, por isso, se tornou artigo de desejo entre apreciadores de vinil. Os valores são imprecisos, mas variam de 4 mil a 15 mil reais em sebos, lojas especializadas e na mão de colecionadores. Ao longo dos últimos vinte anos, versões do álbum foram relançadas em vinil no Brasil e no exterior – por aqui, uma edição da Polysom, de 2024, custa em média de 400 a 500 reais. 

O show da Anjo Gabriel no Lula Côrtes deste ano, que celebrou o disco Flaviola e o Bando do Sol, teve as participações de Lua Paiva (voz), Juvenil Silva (tricórdio), Marcelo Cavalcante (violão) e D Mingus (flauta), além do “estrangeiro” Fernando Catatau – guitarrista e cérebro à frente da cearense Cidadão Instigado. 

O cantor e compositor Flaviola, que morreu em 2021, aos 68 anos, era conhecido pelo ecletismo poético e musical, com temas influenciados pelo rock, frevo e samba, além de sons introspectivos. Foi um entusiasta das obras de Federico García Lorca, Henriqueta Lisboa e Maiakovski. Em parceria com Zé Ramalho, escreveu canções como Martelo dos 30 anos, Quasar do sertão e Décimas de um cantador. 

Depois de muitos anos sem pisar no Recife, Flaviola retornou à cidade em 2015 para se apresentar e ser homenageado na 23ª edição do festival Abril pro Rock. Naquela época, já vinha trocando mensagens com o músico e compositor Domingos Porto, o D Mingus, que produziu o segundo e derradeiro álbum do artista, Ex-tudo (2020).

Segundo Nemo Côrtes, a ideia é continuar homenageando discos importantes. Para o ano que vem, está prevista a celebração de Marconi Notaro no Sub Reino dos Metazoários, lançado em 1973 pelo poeta e músico garanhuense Marconi Notaro.



Essa produção setentista vem sendo reconhecida e servindo de inspiração para outra geração de artistas pernambucanos. Nascido em Belém de Maria, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, Marco Da Lata, 48, integra um dos grupos que expressam a psicodelia nordestina com maior intensidade. Criada em 2005, a banda Anjo Gabriel, que também é criadora do selo independente Rozenbeat, recebeu forte influência da Ave Sangria. 

Ele se interessou pelo Ave Sangria em meados dos anos 1990, na adolescência, quando ouviu o disco da banda na casa de um amigo, ainda morando no interior de Pernambuco. Tempos depois, já no Recife, viu o vocalista Marco Polo cantar Geórgia, a carniceira, em um show da banda pernambucana Querosene Jacaré. A partir daquele momento, passou a ler matérias e a buscar informações sobre a Ave Sangria. Ele afirmou que a produção musical udigrudi mostrou um caminho possível para os jovens inquietos fazerem uma música autoral antropofágica, assimilando referências estrangeiras e convertendo “os limites da vida normal” em símbolos sonoros, cunhando a psicodelia nordestina.

A banda é formada por Júnior do Jarro (bateria e voz), CH Malves (bateria), Diego Drão (teclados e voz) e Phillippi Oliveira (guitarra e voz). O vocalista diz que a missão do quinteto é “ser um mensageiro”, razão pela qual utiliza o nome de um arcanjo emissário, segundo o cristianismo. A mensagem, diz ele, é anunciar à nova geração a música psicodélica pernambucana dos anos 1970, temperada pelo krautrock, gênero de rock experimental surgido na Alemanha dos anos 1960 ainda pouco conhecido em Pernambuco, que se tornou um traço recorrente nas composições da banda. 

A formação já lançou três discos: Culto Secreto do Anjo Gabriel (2011), Lucifer Rising (2013) e o homônimo Anjo Gabriel (2025). O álbum inaugural tem um som denso, com guitarras pesadas e teclados atmosféricos, que transporta o ouvinte a uma atmosfera sessentista. Já Lúcifer, faz referência ao filme homônimo, de Kenneth Anger, com longas suítes instrumentais favoráveis a viagens hipnóticas e ritualísticas. O mais recente, Anjo Gabriel, refaz a mistura de rock psicodélico e krautrock, apresentando referências ao clássico Paêbirú. O vinil duplo, inclusive, traz na capa uma ilustração de Lula Côrtes e cita os quatro elementos da natureza.

Cantora, compositora e multi-instrumentista, Marília Parente, 32, também é outra artista da nova geração a beber na fonte do udigrudi. Ela nasceu no Recife, mas foi criada em Exu, no sertão pernambucano. Na adolescência, voltou a viver no Recife, onde descobriu bandas como Ave Sangria, Perfume Azul do Sol e a paraibana Cátia de França, todas conhecidas pela mistura de ritmos nordestinos ao rock. “Quando descobri esse rock misturado com forró, fiz ‘caralho’, é isso aqui, velho. Esse é o meu lugar”, relembrou ela.

Ela integrou bandas como Coco Raízes do Capibaribe, com a qual fez shows, viajou e gravou um EP, e dividiu palco com Marco Polo, da Ave Sangria, em apresentações individuais. Parente tem uma discografia influenciada pela cena udigrudi do Recife setentista. Seu disco solo, Meu Céu, Meu Ar, Meu Chão & Seus Cacos de Vidro (2019), é um amálgama de psicodelia e música popular brasileira, com roupagem contemporânea. Em canções de amor, críticas sociais e lamento, Parente injeta fôlego na fórmula que combina forró e baião com clássicos dos Beatles e Beach Boys. A fórmula se repetiu nos discos que ela fez com a banda Avoada, ao lado de Marcelo Cavalcante, Feiticeiro Julião e Juvenil Silva. A parceria, marcada por influências de folk e rock rural e por críticas políticas, rendeu o EP Marília, Marcelo, Julião e Juvenil (2019) e o álbum Depois da Curva (2022) – este último contou com a presença do tricórdio, instrumento utilizado por Lula Côrtes em seus discos nos anos 1970. O instrumento foi “herdado” pelos jovens músicos, tornando-se um ponto de conexão entre o passado e o presente da música psicodélica de Pernambuco.

Um dos maiores entusiastas do tricórdio no Recife é Juvenil Silva, de 41 anos. Músico há quinze anos, ele foi um dos principais organizadores de A Noite do Desbunde Elétrico, festival que tinha como proposta evidenciar a produção rock’n’roll e psicodélica de Pernambuco e do Nordeste. Entre 2007 e 2016, o evento recebeu diversos artistas e bandas de diferentes gerações, como Lula Côrtes, Juliano Holanda (hoje também membro da Ave Sangria), Verdes & Valterianos, Feiticeiro Julião, Zeca Viana, entre outros artistas.

É uma cena local repleta de outros nomes interessados na mistura experimentada pela geração dos anos 1970. Destaque para as bandas Petrônio e as Criaturas, Jambre, Tagore Suassuna, Ugo Barra Limpa. 

Mas o que explicaria essa fascinação de gerações mais recentes por discos lançados há várias décadas? Para Marco Polo, da Ave Sangria, o trabalho feito por ele e seus pares resultou em uma estética atemporal. “As perguntas que a gente prega no juízo das pessoas, os questionamentos, a vontade de que todo mundo tenha um senso crítico em relação à vida, às coisas, à sociedade, tudo isso permanece.”

Ele diz que esse movimento de redescoberta, ao menos no que diz respeito à sua banda, se intensificou em 2008, pela internet. Daí vieram shows que sempre contavam com uma plateia formada, em sua maioria, por gente mais jovem. “Dia desses, estávamos em Brasília quando chegou um pai com um menino de 10 anos, que disse: ‘Olha, eu gosto do trabalho de vocês, mas o fã mesmo é esse aqui.’”

A curiosidade sobre a banda aumentou ainda mais em março deste ano, quando a Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania aprovou o pagamento de indenização aos integrantes da Ave Sangria, em razão da perseguição imposta pela ditadura militar nos anos 1970. Na ocasião, as autoridades impuseram censura ao grupo por classificarem a música Seu Waldir, presente no repertório, como um ato de “apologia” ao homossexualismo" – usando um sinônimo de homossexualidade que caiu em desuso por ser considerado ofensivo.



Apesar da produção elogiada e de sua importância cultural, um aspecto incômodo ronda a geração que protagonizou a psicodelia pernambucana: a ausência de mulheres e o pouco protagonismo que elas recebem. A cineasta Kátia Mesel, 78, que dirigiu El barato (1972) e Feira de Caruaru (1974), primeira mulher a fazer cinema em Pernambuco, atuou como um portal entre os artistas e a estética visual do udigrudi, mas nunca recebeu o devido reconhecimento. Esposa de Lula Côrtes, ela abrigou os artistas em sua casa, onde todas as noites eram realizados ensaios e novas composições. 

Mesel criou cenários e figurinos e produziu vídeos em Super 8 das bandas e dos artistas. Desde o começo foi entusiasta do trabalho feito por seus contemporâneos. “Eu me desesperei de tanto escutar aqueles sons e ninguém os escutava”, diz. Ela viajou à Pedra do Ingá, no interior da Paraíba, e participou das pesquisas para as gravações de Paêbirú. “A minha colaboração foi de desbravadora, consegui saber que a Rozenblit podia fazer discos e abri a casa para gravarmos. Era um tempo muito criativo.” No entanto, o nome da realizadora é constantemente esquecido quando a obra é estudada. 

Outra mulher que teve atuação relevante (e por vezes é esquecida) na cena psicodélica pernambucana é a galerista Lúcia Santos, de 68 anos, fundadora da galeria de arte Amparo 60, no Recife. Rodeada pelos integrantes da Ave Sangria, ela aparece deitada de bruços, com uma cruz desenhada na calcinha, na foto da contracapa do disco homônimo da banda lançado em 1974. 

Com 15 anos à época, Santos fazia teatro e compunha algumas músicas. Descobriu a banda durante uma apresentação no Beco do Barato, um point da cena psicodélica do Recife e, pouco tempo depois, engatou um romance com o vocalista Marco Polo. “Eles misturavam um novo ritmo. E aquilo entrou no sangue, entrou pelas veias de uma forma que não dá para explicar, porque eu nunca esqueci uma letra do Ave Sangria.”

Lúcia conheceu muitas letras das canções antes mesmo de serem gravadas e se tornarem públicas. A foto utilizada na contracapa do disco foi feita às escondidas, para que os pais da jovem não descobrissem. “A produção [das imagens] foi bastante artesanal, com um tapa seio improvisado. Eu era menor de idade.” Uma das músicas do disco foi dedicada à Lúcia. Trata-se de Marginal. O eu lírico da canção contesta os padrões sociais e econômicos de privilégio e diz viver à margem, fora da curva. 

Apesar de certo apagamento histórico, Lúcia se sente feliz com a redescoberta da banda entre os mais jovens. “Eles estão com tudo!” Com festivais, shows, canções independentes e iniciativas como selos e gravadoras, a história da psicodelia pernambucana segue viva, mantendo viva a eterna valsa dos cogumelos.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.