O casal Francisco dos Santos e Ana Eufrosina da Silva, que formava a dupla Cascatinha e Inhana - Crédito: Reprodução
O casal Francisco dos Santos e Ana Eufrosina da Silva, que formava a dupla Cascatinha e Inhana - Crédito: Reprodução

questões musicais

VIOLA EMBRANQUECIDA

De Tião Carreiro a Xavantinho, artistas pretos talharam a música sertaneja, mas perderam espaço conforme o estilo se tornou mainstream. Rick, que morreu nesta semana, foi um dos últimos a alcançar o estrelato

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No início dos anos 1990, João Paulo & Daniel eram uma dupla em ascensão no estilo sertanejo quando foram convidados para se apresentar numa cidade no interior de São Paulo. Bastou o contratante receber o pôster de divulgação dos cantores, porém, para cancelar a performance. João Paulo, morto num acidente automobilístico em 1997, era negro. “A gente abriu mão do cachê e fez o espetáculo de graça na praça da cidade”, diz Daniel – que, tempos depois, receberia uma sugestão para trocar o seu parceiro por um cantor mais “boa-pinta” (leia-se “branco”). “Nunca ligamos para esse tipo de situação, mas é incrível que a gente ainda passe por episódios de racismo como esses”, completa o cantor.

A dupla se tornou uma das maiores do país. João Paulo & Daniel emplacaram alguns dos maiores sucessos das paradas dos anos 1990, como Desejo de amar – um samba romântico adaptado para o estilo sertanejo –, Estou apaixonado, Minha estrela perdida e Hoje eu sei. Esta última é uma composição de Rick Sollo (em parceria com Alexandre Alves), que se tornaria também um rosto famoso anos mais tarde, como a primeira voz da dupla Rick & Renner – e, ao lado de João Paulo, um raro artista negro no firmamento sertanejo depois que o estilo atingiu seu auge na indústria fonográfica nacional. 

Rick (como ficou conhecido o tocantinense Geraldo Antonio de Carvalho) teve a morte confirmada na última terça-feira, vítima de um acidente de helicóptero em Santa Catarina no qual nenhuma das outras quatro pessoas a bordo sobreviveu. Ele tinha 59 anos de idade, era casado havia 42. Deixou dois filhos e quatro netos. A tragédia causou comoção proporcional à popularidade da dupla entre os fãs do gênero musical. Com sucessos como Ela é demais (“uma deusa/ uma louca/ uma feiticeira”), Rick & Renner têm hoje 3,8 milhões de ouvintes mensais no Spotify, mais do que astros como a cantora sertaneja Paula Fernandes (3,3 milhões) ou ídolos jovens como Jão (2,5 milhões).


Há cinco anos, em uma entrevista ao canal do jornalista André Piunti no YouTube, Rick foi questionado sobre ser “o único” artista negro entre as duplas sertanejas de sucesso. Ele respondeu primeiro com ironia: “Tem um lado bom. Quando alguém fala ‘aquela dupla que tem um negão’... Sou eu.” Em seguida, contou que esse era um assunto entre ele e João Paulo e citou um caso de racismo explícito. Anos atrás, ao ver uma mulher que assistira a seu show pedir foto com o parceiro Renner no camarim, se posicionou para aparecer também no quadro, tentando ser atencioso com a fã. Ela o empurrou violentamente, e disse que “não gostava de negros”.

Curiosamente, um dos diferenciais de Rick & Renner está na presença de sonoridades mais associadas à negritude em seu repertório. Os sertanejos incorporaram o samba-reggae baiano no sucesso Muleca e adaptaram o pagode paulista para o seu universo em Cara de pau – hit digno de Exaltasamba e Katinguelê, para ficar em dois ícones desse samba pop.



O historiador José Roberto Walker enxerga uma questão estrutural no embranquecimento da música sertaneja.

A chegada dos imigrantes italianos para trabalhar nas lavouras de café no interior de São Paulo, cujo crescimento se deu através da mão de obra escravizada, colocou a cultura negra daquela região em segundo plano. Os negros e os mestiços ficaram à margem da sociedade, em regiões fronteiriças.

Walker e o maestro Júlio Medaglia atestam que o resultado dessa exclusão dos negros brasileiros é uma canção sem síncope em sua essência e ​que os negros criaram a sua própria música, com predominância do samba, de raiz rural em São Paulo e mais urbano no Rio de Janeiro. Baseado nesse veredicto, me lembro de Nick Spitzer, antropólogo da Universidade Tulane, em Nova Orleans, que dizia que os afro-americanos foram responsáveis por tirar do povo branco as amarras em relação à música, à dança e à própria sexualidade.

No caso dos brasileiros, o “molho” foi dado, para variar e acima de tudo, pelos negros. Caso de Tião Carreiro (vídeo abaixo), parceiro de Pardinho. José Dias Nunes (seu nome verdadeiro) está para a viola caipira assim como Andrés Segóvia está para o violão erudito e Jimi Hendrix está para a guitarra. Instrumentista de alta patente, ele burilou um estilo batizado como “pagode de viola”, que tirou o instrumento da posição de mero acompanhante para se tornar protagonista. O pagode era um ritmo rápido, sincopado e dançante – daí ter esse nome, visto que o termo era, até então, sinônimo de festa.



O subgênero criado por Tião não apenas colocou a viola num patamar mais alto como também incluiu, à sua maneira, ritmos de origem indígena e afro-brasileiras como o cateretê, o coco, o calango e o samba caipira, nascido no campo e depois levado para os centros urbanos. O instrumentista era autodidata na leitura e na escrita – dizem que aprendeu da leitura de jornais velhos –, mas poucos nomes do gênero cantaram sobre racismo e africanidade com tanta propriedade quanto ele. “Quando eu súbe desse fato pelo rádio anunciado/ Que um tar preto fugido morreu por haver roubado/ As façanha que ele fez me deixou muito amolado/ Por alembrar que os pretos sempre são os mais visado/ Mas diante da verdade eu vi que estava enganado…”, diz a introdução de Preto inocente, de 1963, composição de Teddy Vieira, Campão e Bento Palmiro.

Preto velho, de 1982, tinha como tema a exploração dos afro-brasileiros nos versos “Com carinho carreguei/ Os filhos do meu patrão/ Em troca do que eu fiz/ Só recebi ingratidão…”. A desigualdade social dá o tom em Preto de alma branca, de Teddy Vieira e e Lauripe Pedroso, na qual o antigo funcionário de uma fazenda é expulso da propriedade pelo filho do dono – ainda assim, se sacrifica para salvar a filha do patrão ingrato. E o que dizer de Preto fugido, de Zé Carreiro, que lança mão de estereótipos do afro-brasileiro do quilate de “fera bruta” e “indecente”? 

A música caipira, por assim dizer, nasceu como produto fonográfico no final dos anos 1920 graças aos registros do historiador e jornalista Cornélio Pires. O marco zero foi uma série de gravações contendo músicas de duplas como Mariano & Caçula, Zico Dias & Ferrinho e Sebastiãozinho – este, por sinal, incorporou em seu repertório danças de origem africana e indígena. A era do rádio, por seu turno, ajudou a divulgar o trabalho de negros que faziam música caipira. Além dos já citados Tião Carreiro e Pardinho, outros artistas negros brilhavam no primeiro time: Cascatinha & Inhana (dos sucessos Meu primeiro amor, no vídeo abaixo, e Índia, abrilhantados pela voz aguda da cantora) e João Pacífico, autor de clássicos como Cabocla Tereza e Pingo d’água junto de Raul Torres.



O processo de “embranquecimento” do cancioneiro caipira, acreditam alguns especialistas, começou nos anos 1950. Foi o período em que a harpa paraguaia tomou mais protagonismo nesse universo e as duplas passaram a cantar temas do cancioneiro mexicano e paraguaio. É mais ou menos nesse período que o gênero passaria a ser chamado de “sertanejo” (uma das hipóteses é que o tema foi cunhado por Palmeira, parceiro do cantor Biá).

O principal choque nesse gênero, porém, se deu com a ascensão do iê-iê-iê e, mais tarde, do chamado popular romântico – leia-se Roberto Carlos e os popularíssimos Odair José e Fernando Mendes. A migração para os grandes centros urbanos fez com que a moda de viola fosse trocada pela guitarra elétrica e que o canto metálico dos violeiros desse lugar aos vibratos de bandas estrangeiras como os Bee Gees (sabem aquela tremida de voz do Xororó? É por aí). No mesmo período, a alta comercialização de discos desse universo fez com que os executivos da indústria musical preferissem estampar a capa de seus produtos com artistas brancos. “Um artista me contou que a diretora de uma gravadora disse em relação a Durval & Davi, que era uma dupla de negros: ‘Não posso pôr esses dois neguinhos na primeira fileira de uma gôndola ali!’”, comenta o jornalista André Piunti. 

“Durval & Davi mereciam estar no mesmo patamar de Chitãozinho & Xororó e Milionário & José Rico”, atesta o radialista Alberto Pastre, um decano do estudo do sertanejo, em relação aos intérpretes de sucessos como Segredo e Morena cheirosa, mais puxados para as questões amorosas do que raciais. 

Nas décadas seguintes, Nashville, cidade americana que é um dos templos da música country, ditou mais as regras desse mercado do que os caipiras e os negros. O sertanejo pop dos anos 1990 e seu filho, universitário, abraçaram de vez a estética musical daquela região, bem como a vestimenta de caubói. 

Rick & Renner debutaram em 1992, segunda cepa do novo sertanejo. A especialidade deles está justamente na união da sofrência urbana com ritmos dançantes, como os já citados samba-reggae e pagode ao lado de ritmos latinos (Fim de semana) e uma forte presença da percussão baiana. O trabalho deles atraiu atenção até de grandes nomes do rock – Roberto Frejat, guitarrista e cantor, ex-Barão Vermelho, participa da faixa Happy end, do disco homônimo de 2010. As letras fugiam também da sofrência característica do sertanejo dos anos 1990 e abriam espaço para a celebração, no que poderia colocá-los como pioneiros do clima de festa do sertanejo universitário, além de um tantinho de sensualidade. 

Os conflitos internos, que culminaram em diversas separações e retornos, certamente prejudicaram uma ascensão mais sólida da dupla. Neste ano eles iniciaram uma turnê para comemorar quatro décadas de atividade.

A resistência hoje reside na música de Thales Lessa, compositor de hits do universo sertanejo e que tem seguido uma carreira solo bem-sucedida. Mineiro de Uberlândia, investiu em diversos outros gêneros – do pagode ao arrocha –, porém se encontrou no sertanejo. Mas aponta o preconceito racial como um obstáculo a ser vencido. “Há tempos que me faço essa pergunta, sabe? Mas existe sim uma resistência da mídia em geral aos artistas sertanejos negros. Se você pegar na história da música sertaneja, ela começa ali na música caipira feita por pessoas negras”, atesta ele, que é um dos autores mais gravados desse universo – mais de 2 mil canções e duzentos sucessos nas vozes de popstars da bota e do chapelão como Marília Mendonça, Maiara & Maraísa e Jorge & Mateus. “Espero que nos próximos anos a gente tenha, sim, essa representatividade maior da cor negra. E eu quero ser, sem dúvida nenhuma, um dos responsáveis por essa quebra de paradigma ou de barreira: conseguir fazer com que a música sertaneja também seja vista aos olhos de um artista negro, de um cantor negro, assim como eu sou.”


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trabalhou nas redações do jornal Notícias Populares e das revistas BIZZ, Época,  Veja e Billboard