vultos da tragédia

“CADA HORA CONTA”

Venezuelanos criticam falta de ação do governo enquanto tentam encontrar sobreviventes dos terremotos em meio aos escombros
Escombros do La Gabarra após os dois terremotos que atingiram La Guaira - Reprodução/Instagram
Escombros do La Gabarra após os dois terremotos que atingiram La Guaira - Reprodução/Instagram

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Um odor forte emanava da pilha de concreto que se acumulava na Avenida José Maria España, na cidade de Caraballeda. Nem mesmo a proximidade com a praia de Los Corales, que margeia a pista, conseguia dissipar o cheiro vindo do terreno onde antes existia o edifício La Gabarra. A torre com 12 andares, 36 apartamentos e centenas de moradores não resistiu aos dois terremotos que atingiram a Venezuela no dia 24 de junho. Os abalos praticamente simultâneos com magnitudes 7,2 e 7,5 levaram ao solo diversas edificações no estado de La Guaira, onde fica Caraballeda. Segundo um levantamento da Assembleia Nacional da Venezuela divulgado dois dias depois da catástrofe, dos 189 edifícios colapsados no país, 158 eram de La Guaira.

Cheguei ao La Gabarra em 1º de julho. O acesso ao que restou do prédio ocorria por uma rampa feita de entulhos, que dava na área da piscina. Esvaziada, ela servia agora de depósito para os destroços que as equipes de resgate iam despejando ao escavar a montanha de concreto e vergalhões. Assim como em outras partes do país, os esforços para tentar encontrar sobreviventes não era empreendido somente por funcionários do governo venezuelano, mas também por cidadãos desesperados à procura de amigos e familiares. Além deles, socorristas estrangeiros – profissionais de mais de trinta países, alguns deles hostis ao chavismo, como Estados Unidos e Israel – se somaram às buscas.

Um desses grupos de socorristas era brasileiro e estava na Venezuela desde a noite de 26 de junho. Eram 79 profissionais ao todo (70 bombeiros de São Paulo, Minas Gerais e Paraná; 6 técnicos da Anatel; e 3 agentes Defesa Civil Nacional). A organização para o envio da equipe teve a participação de nove ministérios e da Caixa Econômica Federal, e foi coordenada pelo Itamaraty e pelo Ministério da Casa Civil. Militares da Marinha ficaram baseados no hospital de campanha montado na cidade de Macuto, em La Guaira, enquanto os socorristas se estabeleceram no Complexo Esportivo Camurí Chico, distante pouco mais de 1 km do La Gabarra, onde montaram um acampamento num campo de futebol.

Os socorristas se deslocaram para o La Gabarra na manhã do dia 27 e tinham como mantra uma frase conhecida em operações de busca e resgate: “cada hora conta.” Até o dia 10 de julho, quando deixaram o país, haviam trabalhado em outras 89 operações de resgate. Encontraram 23 pessoas, todas mortas. 

Em missões de ajuda após terremotos, inundações e grandes tragédias, o ideal é começar ações de resgate imediatamente – a janela ideal para achar sobreviventes se fecha após as primeiras 72 horas. Cidadãos de La Guaira relataram à piauí que o governo venezuelano demorou a agir depois dos abalos, expondo ainda mais as limitações econômicas e estruturais do país, que há pelo menos uma década vive uma crise social motivada por anos de sanções econômicas promovidas pelos Estados Unidos, casos de corrupção e má administração dos recursos públicos. 

“Foi no terceiro ou quarto dia que algumas equipes internacionais chegaram aqui para fazer as buscas, mas, depois de uma semana, a ajuda parou. Agora não tem ninguém”, disse Scarly Rojas, de 32 anos, que após duas semanas dos desabamentos ainda não tinha conseguido encontrar o corpo da mãe, soterrado sob os escombros de um edifício de cinco andares em Catia La Mar, município de La Guaira.

Perto dali, o pescador Pedro Alzolar olhava desolado para o edifício onde morava com sua família. “Aqui viviam meus dois netos, meu filho mais velho, sua esposa. Cacete… meu neto se foi”, lamentou. Ao seu lado, uma dúzia de corpos estavam estirados no asfalto, cobertos por lençóis e cal – colocados ali para retardar o processo de decomposição –, à espera da identificação ou da chegada das equipes responsáveis pela remoção dos corpos. Era sábado de manhã, dia 27 de junho, e pouco mais de 60 horas haviam se passado desde os terremotos. Naquele momento, o Estado venezuelano se fazia presente apenas por meio dos militares das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, que tentavam organizar o tráfego de veículos.

“Quando há uma crise dessa magnitude e você tem um Estado que está desarticulado, enfraquecido, sem recursos, sem pessoal preparado, tudo se torna muito mais caótico e muito mais difícil”, afirmou Benigno Alarcon, professor e fundador do Centro de Estudos Políticos da Universidade Católica Andrés Bello.

O governo venezuelano nega que tenha demorado a agir. “Nossas autoridades foram mobilizadas imediatamente. Não podemos permitir que campanhas de difamação e narrativas midiáticas, fabricadas para semear o caos e prejudicar os esforços de busca e resgate, ganhem força”, declarou a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, durante uma coletiva de imprensa a veículos internacionais realizada no dia 2 de julho. 

Poucas horas depois dos tremores, Delcy decretou estado de emergência e a militarização de La Guaira. Militares e policiais passaram a ocupar as ruas, mas, entre os escombros, ainda faltam equipes especializadas e maquinário pesado para auxiliar nas buscas. Inicialmente, a presidente interina informou ter mobilizado um efetivo de 4 mil agentes, entre policiais e militares, mas pouca ajuda oficial se viu nas ruas logo após a tragédia, segundo residentes de La Guaira. 

O governo também não sabe ao certo quantas pessoas estão desaparecidas após os terremotos. Sites independentes, como “Red Ayuda Venezuela” e “Venezuela Reporta”, estimam que o número ultrapasse 30 mil. Como o registro nesses sistemas é aberto e não passa por verificação, os dados não podem ser considerados confiáveis. O governo não divulga números oficiais sobre o total de desaparecidos, apenas o de mortes em todo o país – até o momento, foram 5398. 

Parte dos sobreviventes agora se amontoa em barracas espalhadas por acampamentos improvisados – alguns, mais estruturados, montados em ginásios e campos de futebol, outros, no que eram estacionamentos, em calçadas ou até mesmo à beira-mar. Oficialmente, o governo diz que há quase 24 mil pessoas vivendo nos 107 “acampamentos transitórios” em todo país, montados por prazo indeterminado. 

Acompanhar as buscas por sobreviventes entre os escombros é conviver a todo momento com o pessimismo e a esperança. No La Gabarra, o grupo de socorristas brasileiro dividia o trabalho com profissionais equatorianos. Eles utilizavam ferramentas elétricas e equipamentos hidráulicos para mover os escombros. Também dispunham de seis cães farejadores e um aparelho que detecta a frequência cardíaca a uma distância de 25 metros. Amigos, familiares e curiosos acompanhavam o trabalho em busca de informação. Eram pessoas que esperavam encontrar um parente ou amigo desaparecido, vivo ou morto, para pôr fim à dúvida que as angustiava.

No dia 1º de julho, uma quarta-feira, por volta das 17 horas, a equipe mantinha a esperança de encontrar alguém com vida. "Estamos perto. Faltam 15 cm até o possível sobrevivente", reportou um dos bombeiros brasileiros à comandante Daniela Oliveira, depois de aproximadamente 10 horas de trabalho. Com apoio de socorristas equatorianos, as duas equipes cavavam em pontos diferentes dos escombros, buscando abrir o caminho mais rápido até a vítima. O resgate parecia iminente. O sol já tinha se posto quando, do lado de fora do La Gabarra, uma ambulância foi posicionada para levar a vítima ao hospital o mais rapidamente possível. 

No entorno da piscina que servia de depósito para o entulho, pelo menos uma dezena de parentes à espera de notícias observavam os trabalhos dos bombeiros. De acordo com os relatos, treze pessoas poderiam estar nos escombros. De tempos em tempos, os socorristas ordenavam silêncio absoluto para que pudessem buscar sinais de vida. Eram prontamente atendidos. 

De capacete azul com a bandeira do Brasil colada numa fita de velcro e uma máscara de proteção contra a poeira pendurada no pescoço, Hernán Sandoval, um jovem venezuelano de 26 anos, tentava, como podia, auxiliar as equipes internacionais. O rapaz, que trabalha como marinheiro em La Guaira, havia formado um mapa mental do lugar e orientava os socorristas sobre a disposição do terreno, os acessos e os caminhos já percorridos por ele e seus colegas desde a tragédia. “Nos primeiros dias, ajudei a tirar um menino e duas meninas daqui”, contou, para em seguida dizer que os três morreram na ambulância a caminho do hospital.

Naquele momento, seus esforços eram para encontrar seu próprio filho, Ronald Sandoval, de 8 anos. O garoto magricela, que tinha puxado do pai o sorriso largo e os dentes da frente grandes, era uma das treze pessoas que estavam soterradas no que restou do edifício. Ele estava na casa do primo, que vivia no La Gabarra, assistindo ao jogo entre Brasil e Escócia, pela fase de grupos da Copa do Mundo. “Eu tinha falado que ia passar para buscá-lo, para que a gente assistisse o jogo juntos. Queria ter visto o jogo com ele, mas ele preferiu assistir com o primo. São inseparáveis”, disse o pai com os olhos marejados.

Ele conta que chegou ao La Gabarra cerca de uma hora depois dos tremores que destruíram o estado litorâneo. “Não via nada, estava tudo destruído. Parecia que minhas pernas não iriam aguentar meu corpo. Mas desde esse momento entrei para tentar encontrá-lo.” Mantinha o otimismo depois de 7 dias de busca. “Ele está cada vez mais perto.” 

Às 21 horas, com o punho cerrado no ar, um dos socorristas gritou “silêncio!” em meio à multidão. Todos se calaram, enquanto o cão farejador tentava encontrar algum sinal de vida. O cão entrou no local indicado pelos socorristas, enquanto era observado por mais de uma centena de pessoas – entre familiares, socorristas e profissionais da imprensa – apreensivas. Depois de alguns minutos, não se ouviu latido, indício de que nenhum sinal fora encontrado. 

Apesar do silêncio do cão, o equipamento que detecta frequência cardíaca apontava a existência de vida, mas, naquele momento, os socorristas já tratavam de reduzir as expectativas. “Pode ser batimento cardíaco de qualquer ser vivo. Um cão ou gato, por exemplo”, explicou um dos bombeiros. Ainda assim, pessoas como Hernán Sandoval mantinham esperança de encontrar o ente desaparecido. 

No dia seguinte, 2 de julho, a equipe de socorristas brasileiros e equatorianos deixou as buscas no La Gabarra e a tarefa seguiu com os próprios venezuelanos – entre voluntários e integrantes da Defesa Civil. O sol estava a pino quando Hernán Sandoval utilizava uma corda com outros seis homens para mover blocos de concreto em meio aos escombros. Seus músculos se contraíam a cada novo puxão, enquanto os impiedosos raios de luz do meio-dia faziam brilhar sua pele negra coberta por poeira. Em seu peito havia uma tatuagem com o nome do filho. “Ainda tenho fé de que vou conseguir encontrá-lo. Consigo sentir.” Sem sucesso na empreitada, ele decidiu utilizar um martelo para, aos poucos, quebrar as ruínas do edifício e estabelecer algum tipo de acesso ao local onde imaginava estar o filho. 

Durante uma breve pausa nos trabalhos, ele mostrou, com um sorriso no rosto, um recado recebido naquela manhã – descrito por ele como um sinal de que ainda havia esperança. “Você vai se levantar”, dizia a mensagem escrita em um post-it amarelo, colado em uma embalagem de isopor de uma marmita que havia recebido como doação.

Enquanto isso, alguns voluntários trabalhavam na parte de trás do que restou do prédio, no lado oposto ao das buscas realizadas nos dias anteriores pelas equipes especializadas. A poucos metros dali, a mãe de Hernán Sandoval permanecia em silêncio, sentada em uma cadeira de plástico debaixo de uma barraca, com o olhar fixo no trabalho dos voluntários que procuravam desaparecidos – entre eles, o seu neto. 

“Estou aqui desde às 21 horas de quarta-feira, dia 24. Não dormi nada”, disse Olívia Sandoval, sem conseguir conter o choro. Enquanto assistia de longe à tentativa do filho de quebrar concreto com as próprias mãos, pensava na última conversa que teve com seu neto. “Ele me disse ‘vó, te amo’, quando esteve na minha casa pela última vez.” 

Treze dias depois de nossa última conversa, Hernán Sandoval me mandou uma mensagem de texto. Na manhã daquela quarta-feira, 15 de julho, três semanas depois dos terremotos, ele e outros voluntários haviam encontrado o corpo de seu filho Ronald. “O encontrei em direção à saída do prédio, onde ficavam as escadas. Estava abraçado com seu primo.”


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É jornalista baseado em Caracas