vultos da dramaturgia
Gilberto Porcidonio, do Rio de Janeiro Mai 2026 09h03
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Elisio Lopes Jr. vive um momento especial. Em março, ao completar 50 anos, concorreu ao Prêmio Shell de Teatro na categoria de Melhor Direção pelo espetáculo Torto Arado – o musical e estreou sua segunda novela da TV Globo como um dos autores: A nobreza do amor, no horário das seis – a primeira foi Amor perfeito, 2023.
Apesar disso, o dramaturgo analisa, entre balanços e análises de rota, que a sensação não é a de dever cumprido, mas comprido. Pois, apesar da ótima repercussão que a peça, a novela e outros trabalhos que levam a sua caneta têm tido, Elisio ainda tem uma missão bem brasileira: “Como sou pai de três meninas — duas gêmeas de 11 anos, e uma de 15, que tem autismo e altas habilidades –, criei uma meta clara e objetiva: Quero deixar uma casa para cada. Se eu conseguir, o ponto de partida delas será outro. Por isso ainda não posso parar, já que também quero uma casa para mim”, disse o autor à piauí.
Ao falar das filhas, o dramaturgo relembrou a própria juventude. Sua mãe, Lucia Maria Pereira Lopes, foi contadora e professora. Seu pai, Elisio Ferreira Lopes, era economista e fez carreira bem-sucedida na Caixa Econômica, onde começou como escriturário e terminou como diretor na área de Habitação. Ao longo da infância e adolescência, o autor e sua família viveram um salto econômico, migrando da classe média baixa à média alta – até os 30 anos, Elisio morou na casa dos pais em Itaigara, bairro de classe média alta de Salvador.
Apesar de trabalharem com números, os pais incentivaram ele e os irmãos (Márcia Lopes, de 52 anos, e mais dois de criação, Vanessa, 46, e Eladio Mendes, 44) a consumirem literatura e a assistirem a peças de teatro, que frequentavam com as tias. Foi com elas, aliás, que Elisio começou a desenvolver um olhar para a criação artística.
Quando crianças, ele e os irmãos tinham uma diversão bem peculiar: ir, sempre aos sábados, para a casa da tia Dinha, irmã de seu pai, na ladeira do Curuzu, para observá-la vender balas no negríssimo bairro da Liberdade. Ela trabalhava pela janela por conta de uma deficiência motora, Elisio adorava acompanhá-la, de camarote, observando a circulação de pessoas no local que deu origem ao bloco afro Ilê Aiyê. Pode-se dizer que esse “estudo de campo” serviu para o roteirista idealizar seus primeiros personagens. Outro passeio recorrente era a casa de Lourdes, sua tia-avó materna, que vivia no Nordeste de Amaralina, hoje considerado um dos bairros mais violentos de Salvador. “Havia a sensação de que eu estava aprendendo um convívio, a ser desejado, a minha beleza.” Foi o momento no qual ele e os amigos do bairro, meio que de brincadeira, começaram a formular as primeiras apresentações de teatro em asilos e creches.
Aos 13 anos, quando seu pai passou por uma transferência interna na Caixa Econômica, Elisio se mudou para Brasília. Apesar do baque, os dois anos em que passou na cidade serviram para que ele amadurecesse. “Não criei raízes em Brasília, mas conheci muitas pessoas diferentes para o meu universo criativo.” Ele conta que, pouco tempo depois da mudança, foi à festa de um colega e se deparou com alguns deles fumando maconha, com a anuência dos pais. O roteirista ficou assustado e pediu à mãe para ir embora. “Foi uma experiência muito impactante”, relata Elisio, que teve uma formação completamente diferente na Bahia: “Tive a criação de uma mãe preta com a preocupação de que você saia na rua e aconteça alguma coisa, de que precisa andar na linha. Uma criação muito menos disponível a essas liberdades simbólicas. Com o tempo, a gente acaba tendo que abrir mão de certas proteções e isso não é tão simples.”
Aos 15 anos e de volta à Bahia, Elisio teve a ideia que culminou em sua primeira peça infantil, O mistério do chiclete grudado, sobre um grupo de adolescentes que investiga o desaparecimento de um chiclete que foi grudado embaixo de uma mesa na sala de aula. O texto lhe rendeu o Troféu Bahia Aplaude na categoria de Melhor Espetáculo Infantil em 1995. A peça e o prêmio o aproximaram da turma que fazia parte do mítico Bando de Teatro Olodum, como Lázaro Ramos, Wagner Moura e José Carlos Arandiba, o Zebrinha — grupo que o autor chama de a sua “irmandade”.
Foi um momento de afirmação para Elisio, que enfrentava certa resistência em sua casa. Seus pais ascenderam socialmente por meio do funcionalismo público, traço recorrente em famílias negras de classe média no Brasil. Por isso, apesar do incentivo à leitura desde a infância, eles não queriam que o filho seguisse a instável carreira artística. “Minha mãe tinha a obsessão de que eu fizesse direito, medicina ou concurso para o Banco do Brasil ou para a Petrobras. O meu entendimento de Brasil vem desse lugar, dessa concretude do simples que é o desejo que nós temos. Quando a gente se torna pai começa a entender um pouco disso.”
Mesmo assim, Elisio seguiu em frente. Nos anos 2000, ele escreveu e dirigiu a peça Alta noite, protagonizada por Edmilson Barros, ator pernambucano de quem se tornou grande amigo. Quando está no Rio, é na casa de Edmilson que o autor se hospeda – inclusive, a entrevista que o baiano concedeu à piauí foi na casa do pernambucano. Edmilson lembra que a peça o tirou da zona de conforto.“Todo ator tem mais ou menos uma chave, que é um tipo de personagem no qual ele se encaixa bem. Elisio me chamou para fazer algo muito diferente. Esse é um trabalho pelo qual tenho um carinho especial. Consegui mostrar coisas que nem imaginava que seria capaz.”
Lázaro Ramos viu na novela A nobreza do amor um atrativo semelhante. Eles são amigos desde o final dos anos 1990, mas descobriram, em 2014, durante um encontro em Salvador, que são primos. Lázaro havia decidido o seguinte: “Essa é uma coisa que nunca nem contei para ninguém, mas não tenho certeza se farei outras novelas. Nessa reflexão, disse a ele [Elisio] assim: ‘Primo, se for para fazer uma última novela, quero fazer a sua, porque estou encantado com essa história e com o personagem. Se for uma despedida, que seja numa novela sua, porque você está construindo uma história linda como autor, com muita identidade e uma excelência num momento que é muito difícil escrever novela”. O ator complementa: “Essa novela é importantíssima para a dramaturgia, para a telenovela brasileira, porque ela dá aquilo que o público gosta, mas, ao mesmo tempo, amplia o olhar, trazendo esse continente africano e o desenvolvimento de personagens dentro dessa estética.”
Essa visão afrocentrada de Elisio é bem explícita em A nobreza do amor. A novela conta a saga da família real de Batanga, que está foragida no Brasil e vive em Barro Preto, no interior do Rio Grande do Norte. Por aqui, a princesa e a rainha se chocam com o racismo e as injustiças impostas à população negra. No reino fictício africano, os cabelos afro, assim como as indumentárias, são diversos e exalam requinte e orgulho cultural. Elisio diz que parte da sua inspiração para compor a estética do folhetim veio de sua vivência como homem baiano, dos blocos afro de Salvador. Para criar um retrato da cidade interiorana do nordeste brasileiro, valeu-se das leituras de Ariano Suassuna, Jorge Amado e Dias Gomes.
O autor afirma que quer fazer com que o público veja turbantes e joias afro como obras de arte. “Estamos reconstruindo simbologias. Sabemos o peso do auto-ódio e falamos pouco sobre isso. Faz pouco tempo que o nosso cabelo passou a ser aceito como algo bonito. Ter um casal afrocentrado como Duda Santos e Ronald Sotto se beijando no horário das 18 horas, com todas as redes sociais dizendo ‘linda, lindo, linda, lindo’, é uma vitória. É uma ruptura simbólica do que muitos sofreram antes. Essa é a história se redesenhando.” O documentário A negação do Brasil (2000), de Joel Zito Araújo, mostrou como as telenovelas ajudaram a solidificar na mente do brasileiro a visão de personagens negros sempre em papéis de inferioridade social, de caráter duvidoso ou de vilania. Pouco a pouco isso está mudando.
Uma das personagens que mais mobilizaram atenção de Elisio no desenvolvimento da trama foi Alika, a princesa de Batanga que, ao chegar ao Brasil, adota o nome de Lúcia dos Santos. O autor queria levar à tela uma princesa preta, forte, dona do seu próprio destino e também admirável. A escolhida foi Duda Santos, de 24 anos, atriz em ascensão dentro da TV Globo – ela já havia protagonizado a trama Garota do momento, um dos maiores sucessos da década na faixa das 18 horas, exibida entre novembro de 2024 e junho de 2025.
Duda e Elisio se conheceram durante uma edição do Festival de Verão de Salvador. A atriz já acompanhava a carreira do roteirista e disse que tinha o desejo de trabalhar com ele. Elisio agradeceu o carinho e afirmou que isso aconteceria em breve. Tempos depois, o autor convidou a atriz para ser a princesa de sua novela. “Sou muito feliz por ser o ‘cavalo’ de Alika. Uma protagonista forte e que é movida pelas suas escolhas, que tem ciência dos seus direitos. É muito importante que tenhamos pessoas como essa no controle das narrativas”, afirma Duda.
Após dois meses no ar, a trama, segundo os dados mais recentes, segue em recuperação de audiência, com uma média de 19 pontos na Grande São Paulo, com recorde de 21,8 pontos de Ibope em 6 de abril. Isso traz um alívio para a emissora, já que a novela de cerca de 160 capítulos teve uma das piores estreias da faixa das seis, com 17,3 pontos, em 16 de março. O recrudescimento da audiência vem se dando desde o fim da pandemia, e afeta todos os horários, em tempos nos quais há opções crescentes de entretenimento em vídeo, do streaming às novelinhas verticais – os cortes das próprias novelas que se espalham por aplicativos como TikTok são concorrentes. “Vejo que tem gente que sabe mais da novela porque a viu aos pedaços pelas redes sociais, acompanhando os perfis criados para os personagens, do que quem assistiu ao capítulo inteiro. Isso é muito diferente e essa forma de dimensionar a audiência não acompanhou a evolução do público”, argumenta Elisio.
Um outro motivo da recepção e críticas, que nunca são mornas – para bem e para mal –, é que a trama se apresenta um pouco mais ousada para o horário, envolvendo golpe de Estado, reino e realeza africanos (algo inédito em uma novela épica na Globo) e um elenco protagonista majoritariamente negro. E isso tudo justamente em um momento cultural global em que a onda é ser o que tem se chamado de anti-woke, ou seja, rechaçar pautas progressistas, identitárias e sociais. “É importante que as pessoas saibam que existem outras narrativas que precisam ser disponibilizadas. Isso não é algo que vai necessariamente estar no primeiro plano, mas esses são tijolos que precisam ser postos nessa estrada para que a gente chegue em uma outra consciência. Precisamos ter paciência com o país que nós construímos. Não se muda o padrão do que é bonito ou feio ou do que é certo ou errado em uma única novela. É preciso fazer quarenta novelas para isso, até que uma ideia se torne um raciocínio possível.”
Elisio é formado em comunicação social com habilitação em relações públicas pela Universidade Salvador (Unifacs) e mestre em comunicação, cultura e sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Exerceu a docência por quase dez anos, mas nunca abandonou o desejo de ser reconhecido como dramaturgo e roteirista. O percurso até A nobreza do amor, na TV Globo, foi feito de fartura narrativa, já que o sotepolitano tem mais de trinta textos encenados, entre eles os musicais Dona Ivone Lara – Um sorriso negro e O fino do samba.
Mas nenhum dos seus trabalhos anteriores teve o sucesso de Torto arado – o musical, que levou ao teatro o romance-hit de Itamar Vieira Junior ambientado na Chapada Diamantina e que narra a história das irmãs Bibiana e Belonísia. A ideia do espetáculo veio de Fernanda Bezerra, produtora e dona da Maré Produções. Elisio fez a direção-geral e a dramaturgia da peça junto de Aldri Anunciação e Fábio Espírito Santo.
O musical passou por Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Brasília, entre setembro de 2024 e dezembro de 2025, e foi visto por 70 mil espectadores. A peça recebeu dez indicações ao Prêmio Shell, e uma das protagonistas, Larissa Luz, venceu na categoria de melhor atriz. O espetáculo também levou três prêmios Bahia Aplaude 2025, incluindo o de melhor espetáculo adulto, e dois prêmios do DID (Destaque Imprensa Digital): musical brasileiro do ano e direção. Torto Arado terá uma nova temporada a partir do mês que vem, em Salvador.
Na tevê, Elisio já assinou roteiros de séries de ficção como Papo de moleque (TV Brasil, produção da TV Cufa) e Parabólico (Canal Brasil e Futura), além dos programas Espelho (Canal Brasil) e Lazinho com você, Esquenta e Se joga, os três na TV Globo. No cinema, escreveu roteiro de curtas e dos longas Medida provisória junto com Lusa Silvestre e Aldri Anunciação, dirigido por Lázaro Ramos; e Ó paí, ó 2. A estreia no streaming aconteceu ano passado com a série de terror Reencarne, do Globoplay, que escreveu em parceria com Amanda Jordão, Flávia Lacerda, Juan Jullian e Igor Verde, protagonizada por Taís Araujo. É também ao lado de Verde que ele assina o roteiro do longa Quando casa Maria Helena?, dos Estúdios Globo, que tem previsão de estreia ainda para este ano.
Mesmo com tantos projetos, Elisio diz que escrever uma novela não era um dos seus objetivos ao se tornar roteirista. “Fazer novela não era um sonho de infância. Meu sonho era contar histórias. O que eu quero mesmo é que o que está aqui, na minha cabeça, saia. Sou capaz de me emocionar da mesma forma com o primeiro capítulo da novela indo ao ar e com uma estreia para cinquenta pessoas em uma sala de teatro. Mas estou absolutamente feliz em colocar A nobreza do amor no ar. E devo isso à minha parceria com Duca Rachid e Júlio Fischer”, diz, se referindo aos outros dois coautores da obra.
Durante a pandemia, Elisio se aproximou de Duca Rachid na produção de uma série da TV Globo sobre a vida da sambista Clara Nunes que, por problemas contratuais, nunca foi exibida. Rachid, que supervisionava os roteiristas, pediu a Elisio, o redator final, que a ajudasse na coordenação, pois a autora já estava em um outro projeto de novela da seis (Amor perfeito). Pouco tempo depois, Rachid convidou Elisio para colaborar no roteiro do folhetim. “Duca me disse: ‘Quer fazer novela? Saiba que você não vai ter mais vida e que, durante o tempo da novela, tudo acabou para você.’ Eu falei: ‘Duca, se um contador de histórias não quiser trabalhar na maior janela de contação de história do país, ele está errado’”, lembra Elisio.
Apesar de iniciante, o baiano adicionou uma mudança crucial, que seria um marco para a tevê brasileira: o protagonista, o médico Orlando Gouveia (Diogo Gouveia), seria uma pessoa preta. Para isso, ele estudou os arquivos da Faculdade de Medicina da Bahia e também do Rio de Janeiro da década de 1940. Constatou que, em uma turma de cinquenta alunos, havia três ou quatro pretos. Essa (re)visão histórica fez com que Elisio saísse de colaborador para coautor, se tornando, em 2023, o primeiro autor negro a assinar uma novela como titular na TV Globo depois de mais de trezentos folhetins desde 1965, quando foi ao ar Ilusões perdidas, a primeira novela da emissora.
Além do médico negro, Elisio também incluiu um casal preto acima dos 60 anos – o concièrge Seu Popó (Mestre Ivamar Santos) e a professora Celeste (Cyda Moreno) – porque ele “nunca tinha visto um casal negro de idosos se beijando na tevê”. E atores negros não tiveram seus cabelos alisados, algo raro em novelas de época exibidas até então no canal. “Foi uma conquista simbólica do diretor André Câmara. E tudo amparado por pesquisa. A minha avó, por exemplo, só alisava o cabelo em dia de festa.” Todo esse repertório foi intensificado em A nobreza do amor.
A sequência de projetos na televisão e no teatro tem projetado cada vez mais o nome de Elisio na dramaturgia brasileira. Ao mesmo tempo, a rotina incessante tem cobrado seu preço. Apesar da calma de sua fala e dos seus trejeitos que passam uma cadência quase monástica, o autor não desliga nunca. E nem pretende. “Tenho uma relação pessoal muito intrínseca com o trabalho. Não me importo que ele invada a minha vida e que a minha vida invada ele. Quem está criando sabe como é isso. Você não consegue frear a criação.”
Como ter esse músculo cerebral sempre rodando a 100 km/h é um risco, Elisio recorre a algo para não fundir o motor: terapia. Ele começou a fazer análise há cerca de dois anos, desde que seu pai foi diagnosticado com Parkinson. Foi um luto antecipado — ele partiria no ano passado — que lhe trouxe grande carga emocional, pois o processo degenerativo foi longo. “Fiz tudo o que estava ao meu alcance e não por ter a sensação de obrigação. Quis estar com ele em todos os processos e isso me deixou sereno no momento da sua morte. Foi muito bom para mim, e acho que para ele também, pois ele sabia que podia contar comigo.”
Elisio conta que antes do agravamento da doença, seu pai fez questão de resolver pendências burocráticas e financeiras da família, como a declaração do imposto de renda. Diz que o patriarca usava terno todos os dias e gostava de sair de casa para resolver qualquer problema. “Ele não conseguia parar ou admitir para ele mesmo que deveria parar. Ficou um buraco por ele ter se aposentado cedo demais.” Como a fronteira entre trabalho e vida pessoal são porosas na carreira de Elisio, o autor não tem dúvidas: “Ainda vou usar essa história em algum roteiro.”