baixios das altas finanças
ANA CLARA COSTA, do Rio de Janeiro, JOÃO BATISTA JR., de São Paulo, e BRENO PIRES, de Brasília 30 Set 2026
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Em 2 de setembro do ano passado, primeiro dia do julgamento da trama golpista de 8 de janeiro de 2023, Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Daniel Vorcaro, conversava com Marina (nome fictício), com quem manteve um relacionamento extraconjugal. Zettel estava apreensivo. Aguardava para o dia seguinte a decisão do Banco Central sobre a compra do Banco Master pelo BRB. “Amanhã sai a decisão, está na pauta”, disse ele sobre a possível aprovação da venda, que acabou rejeitada. “Vou tomar remédio para dormir, porque amanhã a sorte está lançada [...] Amanhã vou ficar com dor de barriga o dia inteiro.”
A piauí obteve uma série de gravações de conversas e áudios de WhatsApp que mostram conversas entre Zettel e Marina, cujo relacionamento durou do começo de 2023 até a prisão do próprio Zettel em março passado. As conversas, em boa parte, tratam de assuntos de foro íntimo, com frequentes declarações mútuas, mas também abrem uma porta para os bastidores – as urgências, as rivalidades, os ressentimentos, os golpes e a ocultação de dinheiro – no âmbito da maior fraude bancária da história do Brasil.
Como o noticiário estava quente, Zettel e Marina também conversavam a respeito do julgamento do Oito de Janeiro exibido na tevê. Zettel fez comentários sobre a relação de Alexandre de Moraes, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, com Vorcaro. “O Xandão é melhor amigo do Daniel. Tô contando com ele. Melhor amigo, faz jantar junto, sai junto.” Zettel não esclarece o que seria “contar” com o ministro, mas corrobora os laços de amizade já expostos entre os dois nos últimos meses. Marina diz que pegaria sua guia (ela é adepta de uma religião de matriz africana) para rezar por Zettel, para que os problemas de Vorcaro não respingassem sobre a Moriah Investimentos, empresa que o cunhado dirigia. Pastor da Igreja Batista da Lagoinha (cujo principal líder, André Valadão, já foi indiciado por suspeita de intolerância religiosa contra candomblecistas), Zettel agradeceu pelas orações. “Te amo, te amo, te amo, te amo, tchau. Reza aí, por favor.”
Em meados de outubro, Zettel disse a Marina que viajaria ao exterior para resolver um assunto sigiloso, do qual não deu detalhes. Numa ligação feita depois da viagem, contou a razão do segredo. “Semana passada, o Banco Central deu três semanas para o Daniel reformular o banco, senão ele vai ser liquidado. Eu fui lá [no exterior], escondi um dinheiro, porque se der tudo errado e der uma merda danada e tudo meu for bloqueado, eu tenho que ter um dinheiro pra poder continuar vivendo e mantendo as coisas. Agora, eu estou no Brasil e confio em falar isso pra você. Lá eu não podia falar isso por telefone”, contou Zettel.
No mês seguinte, em 18 de novembro, o Master foi liquidado. Na noite anterior, Vorcaro fora preso pela Polícia Federal enquanto tentava embarcar para Dubai no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Ao longo daquele dia, havia se reunido com Gabriel Galípolo, presidente do BC, a quem apresentou um plano de venda do Master para a Fictor, uma empresa sem capital nem patrimônio líquido suficientes para adquirir o banco – e que tempos depois foi acusada de criar um esquema de pirâmide financeira. Vorcaro também informou ao BC que parte do dinheiro da negociação viria de um investidor dos Emirados Árabes e que viajaria a Dubai naquela mesma noite para negociar o aporte.
Em áudio enviado a Marina na véspera da liquidação, Zettel contou que voava de Brasília para São Paulo com Vorcaro, a quem se referia como “príncipe”, em tom de sarcasmo. “Graças a Deus, a gente achou que ia estourar algo de ruim, mas hoje não estourou nada. Eu vou te mantendo informada e mais tarde eu te ligo com calma pra gente conversar. Te amo, te amo, te amo.”
Em 18 de novembro, depois da liquidação do banco e da prisão de Vorcaro, Zettel fez um relato dos últimos acontecimentos para Marina. “Você já deve ter visto as notícias, né?”, perguntou. “Pegaram os telefones, os iPads de todo mundo. O meu ainda não.” Zettel falava naquele momento de um telefone que mantinha escondido num compartimento de seu carro. “Já fecharam o banco, bloquearam as contas, bloquearam os bens, ele tá preso, quatro diretores do banco estão presos, mas ainda tem outros mandados para serem cumpridos. Então, assim, eu tô tomando todo o cuidado do mundo.”
Zettel havia perdido o início do turbilhão na noite anterior, por ter dormido demais. “Eu enchi a cara de Rivotril para ter uma noite de sono tranquila. Os advogados bateram na minha casa à 1 hora da manhã. Esmurraram, ligaram na portaria. Eu não vi nada. Deus é bom, porque pelo menos eu dormi e descansei. Daí, acordei às 6 horas da manhã com oitenta chamadas no meu telefone”. Ele também contou que havia preparado uma mala com “pijama, bermuda, blusa, chinelo, escova de dente, sabonete, pasta de dente, toalha e travesseiro” para que o motorista levasse à superintendência da Polícia Federal, onde Vocaro estava detido. Disse, porém, que não iria visitar o cunhado pessoalmente. (Zettel é casado com Natália Vorcaro, mãe de seus três filhos.)
Nos dias que se seguiram, contudo, Zettel visitou o cunhado e depois relatou os encontros nas conversas com Marina. Dizia que a família não ia vê-lo e que apenas advogados o visitavam. Por ser formado em direito, Zettel havia sido incluído como parte da defesa. “Fui ver ele domingo. Vou ver de novo. Amor, eu vou ver. Não tem jeito”, argumentava, ante os apelos de Marina para que não se envolvesse demais na história.
Abaixo, um álbum, publicado no Instagram da piauí, com alguns dos áudios trocados entre Zettel e a Marina:
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As gravações e áudios mostram que Zettel e Vorcaro tinham uma relação carregada de tensão, na qual se misturavam subordinação e ressentimento. Há diálogos em que Zettel descreve o cunhado como um bon-vivant que não trabalhava, pouco se dedicava ao banco e que só passou a encarar o batente – inclusive usando uma jaqueta onde estava escrito o nome do Master – depois que os negócios começaram a ruir. Em uma das conversas, Zettel relata que o ex-banqueiro passou a ser alvo de chacota na instituição quando trocou as roupas de grife por um “casaquinho escrito banco Master” nas idas ao escritório. E que só depois do início da derrocada Vorcaro passou a ser visto, de fato, dando expediente no local.
Embora desdenhasse de Vorcaro nas conversas com Marina, nas trocas de mensagens com o ex-banqueiro, obtidas pela Polícia Federal, o tom era outro. O cunhado se mostrava servil, carente e sempre em busca de algum tipo de demonstração de afeto e reconhecimento por parte de Vorcaro. "Irmão, eu não furo com vc não! Você sempre estará nas minhas prioridades! Até o fim!! E quando voltar, avisa! Quero te ver! Tô com saudade!”. Quando Vorcaro o ignorava, cobrava atenção. "Tô começando a achar que você realmente quer distanciamento de mim… nem me responde mais”.
A dedicação não era recíproca. Vorcaro tratava o cunhado como um secretário, cuja função era efetuar pagamentos, organizar assinaturas de contratos, comprar caixas de Mounjaro, anabolizantes (ambos usavam oxandrolona e hormônio gH) e medicamentos capilares, além de gerir as faxinas no tríplex do ex-banqueiro depois das festas que ele oferecia. Ao menor sinal de vida de Vorcaro, Zettel cancelava planos e se prontificava a ir encontrá-lo onde ele desejasse. Quando, por alguma razão, não podia se deslocar imediatamente e pedia que Vorcaro passasse em sua casa para buscar algum documento, nunca era atendido. Quando comemorou seu aniversário em Miami, Zettel convidou insistentemente o cunhado para que fosse almoçar com ele na data, mas Vorcaro nunca estava disponível.
Fontes consultadas pela piauí relatam que, nos bastidores, Vorcaro desprezava Zettel. Considerava-o um “Zé Ninguém”, em razão de sua origem humilde. Mas acabava sempre recorrendo a ele como homem de confiança. Pelas trocas de mensagens entre os dois, é possível notar que nenhum pagamento era feito sem a autorização do ex-banqueiro, mediante insistência extrema de Zettel, já que Vorcaro parecia ter dificuldade em manter em dia os compromissos financeiros que assumia. A dinâmica entre os dois era a seguinte: Vorcaro prometia depósitos e pagamentos a uma infinita gama de pessoas e passava o contato de Zettel. O operador então recebia as cobranças e passava os dias implorando para que Vorcaro depositasse recursos para honrar os pagamentos.
Os repasses a advogados, como Walfrido Warde, a auxiliares íntimos, como Fabio Faria e Ciro Nogueira, a jornalistas contratados para atuar em favor do banco e a servidores suspeitos de corrupção, como os dois diretores do Banco Central investigados por colaborarem com o esquema, eram operacionalizados pelo cunhado, de acordo com as mensagens obtidas pela PF. As parcelas depositadas a pedido de Flavio Bolsonaro para o filme Dark Horse, também. “O cara do ‘filme' não sai da minha cola. Me mandou um fluxo gigante”, disse, referindo-se às dez parcelas de 2,5 milhões de dólares pedidas pelo senador. Quem fazia os pedidos a Zettel em nome de Flávio era o lobista Thiago Miranda, enquanto o senador se encarregava de cobrar Vorcaro diretamente.
Quando precisou custear os gastos da viagem de autoridades à célebre noitada de uísque e charutos em Londres, por exemplo, pediu que o faturamento fosse feito à Moriah, empresa a cargo de Zettel e que aparece nas investigações como um dos braços financeiros usados pelo grupo. Zettel também estava na ponta de outras operações hoje sob investigação. Era o único dono do fundo Leal, que, por sua vez, controlava o Arleen, usado para adquirir uma participação no resort Tayayá, negócio que levou o ministro Dias Toffoli ao centro do escândalo. Cabia ainda a Zettel pagar os serviços de Luiz Philippi Mourão, o Sicário, apontado pelos investigadores como responsável pelo núcleo que atuava com monitoramento, obtenção de informações sigilosas, coação e intimidação de pessoas que eventualmente pudessem atropelar os interesses de Vorcaro – com atenção especial para jornalistas.
Contudo, Zettel não tinha autonomia para definir qual empresa do conglomerado seria responsável por cada pagamento. Vorcaro escolhia a empresa pagadora e enviava os recursos. Nem mesmo pagamentos mensais aparentemente banais, como as doações para a reforma da Igreja Batista da Lagoinha, saíam do caixa sem que o ex-banqueiro avalizasse.
Em outros diálogos com Marina, Zettel manifestava desconforto com sua função no esquema, embora não revelasse em detalhes. Dizia apenas que Vorcaro “esticava demais a corda” e tomava decisões impulsivas que colocavam o grupo em risco. Ao ouvi-la dizer que o ex-banqueiro era “burro”, Zettel contemporizava. “Para umas coisas, ele é inteligente. Para outras, ele é burro. Ele é emocionalmente burro. Por ele ser inteligente, ele conseguiu fazer o dinheiro todo. Por ele ser burro emocionalmente, ele transformou a vida dele nesse circo.” Antes da prisão de Vorcaro, Zettel comentou que, se o salvamento do Master fosse concluído, seus problemas estariam resolvidos, ainda que o cunhado terminasse a história na pior. Não estava preocupado com Vorcaro, mas com a sua própria sobrevivência.
Depois da prisão do cunhado, Zettel tentou dissociar suas atividades das de Vorcaro no intuito de conter a contaminação. Relatou que sua estratégia de defesa consistia em provar que nada tinha a ver com o Master, tendo deixado o banco ainda em 2024, e que suas empresas, em especial a Moriah, eram investimentos próprios, e não do ex-banqueiro, argumento facilmente contestado ao se analisar as trocas de mensagens entre eles. Num sinal de que Vorcaro também conduzia a Moriah, Zettel pergunta a ele se o doleiro Lúcio Funaro havia sido contratado pela empresa, pois o procurara para cobrar pagamentos. Vorcaro autorizou que Zettel pagasse. Ele não relatava a Marina, porém, sua atuação como operador do cunhado, que mais tarde seria descrita pela Polícia Federal, nem o uso de empresas e fundos sob seu controle em operações hoje investigadas. “Eu tenho que trabalhar para me descolar dele de qualquer jeito”, disse.
Ao reclamar do tratamento que recebia da imprensa, Zettel dizia haver “um movimento para me desmoralizar porque eu sou o link do Daniel com o Tarcísio”. Referia-se ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, de cuja campanha foi o maior doador pessoa física em 2022, com 2 milhões de reais. Zettel também doou 3 milhões de reais à campanha de Jair Bolsonaro, tornando-se seu maior doador individual naquele segundo turno. As doações reforçaram posteriormente a suspeita de que Zettel pudesse funcionar como uma ponte financeira de Vorcaro com figuras da direita, e que suas doações eram um meio de o ex-banqueiro apoiar esse campo político sem se indispor com o PT, caso Lula se elegesse. Não há registro de doações feitas por seus aliados ao petista naquela eleição.
Daniel Vorcaro ficou preso por doze dias. Na noite do dia 28 de novembro, a desembargadora Solange Salgado, do TRF-1, revogou sua prisão preventiva e determinou sua soltura mediante medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica. Vorcaro deixou o presídio na manhã seguinte. Numa conversa em 2 de dezembro com Marina, o pastor agradeceu o trabalho religioso que ela fez em seu nome. “Com a graça de Deus, você parou o terreiro. E talvez por isso, olhe o que está acontecendo: as coisas estão melhorando”, disse.
O dinheiro, contudo, continuava sendo sua maior preocupação. Ele relatava que sua empresa não tinha mais funcionários e que o único que restava estava com o salário atrasado. Afirmava que os bancos lhe cortaram o crédito e que suas contas e as de toda a família haviam sido encerradas. Marina então perguntou se Henrique Vorcaro, pai de Daniel e sogro de Zettel, poderia resolver a questão da insolvência. Zettel desdenhou. “O pai dele é um idiota. Esquece aquele cara. Já te falei oitenta vezes. Ele só é egoísta, só olha o dele.”
Sobre o cunhado, Zettel dizia que não haviam sobrado recursos nem mesmo para pagar advogados: “Ele está completamente sem dinheiro. Não está conseguindo acessar, não está conseguindo trazer.”. Nesse ponto, Zettel foi ainda mais específico. “Ele guardou 20 bi no exterior e não consegue ir lá, não consegue gastar, não consegue pegar. Porque se pegar, é preso de novo. Então, não adianta nada juntar dinheiro fora. Se ferra do mesmo jeito. Não sei até onde o Daniel tem essa consciência. Eu acho que ele é meio inconsequente.”
Até o momento, as autoridades localizaram apenas cerca de 2 bilhões de reais em imóveis e outros bens ligados a Vorcaro, destinados a ressarcir credores prejudicados pela quebra do Master. Em agosto, a Suprema Corte das Ilhas Cayman anunciou a liquidação da Titan Capital, holding controlada por Vorcaro. Mas as autoridades chegaram tarde demais: a empresa não tinha ativos disponíveis e acumulava dívidas superiores a 1 bilhão de reais.
Segundo a colunista do jornal O Globo Miriam Leitão, contudo, o liquidante do Master conseguiu rastrear ao menos um fundo não declarado pelo ex-banqueiro que havia recebido recursos por meio de vários intermediários, entre eles Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, que em setembro fechou um acordo de delação premiada. Mineiro é considerado personagem central nas suspeitas de lavagem e ocultação patrimonial envolvendo Vorcaro. O fundo, segundo a colunista, não estava vazio como a Titan Capital – tinha ativos na casa “do bilhão”.
Apesar do aperto momentâneo, toda a família Vorcaro se dirigiu para a mansão de Trancoso no último Réveillon, incluindo o próprio ex-banqueiro e sua tornozeleira eletrônica. Às vésperas do Natal, Zettel disse a Marina que não iria e demonstrou certo desprezo pela família de sua esposa. “Eu tenho preguiça demais de Trancoso. Não gosto daquilo de jeito nenhum. Quarenta pessoas dentro de casa, parentada, um tanto de gente chata.”
Ele reclamava que gostava de dormir cedo, por volta das 22 horas, enquanto a família passava a noite em claro jogando baralho. Para ele, a dinâmica no local era “insuportável”. “O problema é as pessoas quererem passar Réveillon lá e acharem que não vai ter um caminhão da Rede Globo na porta da porra da casa. Que não vai ter drone sobrevoando a casa... E os caras estão achando que eles vão ficar lá fazendo churrasco, ligando caixa de som.”
Vorcaro voltou a ser preso em março, na mesma operação que prendeu Zettel.
Desde então, o ex-banqueiro tenta fechar um acordo de delação premiada. Até agora, não quis delatar os melhores amigos no STF nem revelar o caminho do dinheiro no exterior. Zettel, por ora, não negocia um acordo de delação.
As defesas de Zettel e Vorcaro foram procuradas, mas por enquanto não se manifestaram.