baixios das altas finanças

JAQUES WAGNER E AS CONEXÕES BAIANAS DO MASTER

Alvos de operação da PF nesta quinta-feira, o senador e o banqueiro Augusto Lima ajudaram a criar uma mina de ouro para Daniel Vorcaro
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner - Crédito: Carlos Moura/Agência Senado
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner - Crédito: Carlos Moura/Agência Senado

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Uma nova fase da operação Compliance Zero foi às ruas nesta quinta-feira (18). A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Augusto Ferreira Lima, banqueiro que foi sócio de Daniel Vorcaro no Master, e a Jaques Wagner (PT), líder do governo no Senado. Autorizada pelo ministro do STF André Mendonça, a operação investiga os vínculos desses dois personagens com a fraude bilionária do Master.

É uma história que começa em 2018, como mostrou uma reportagem publicada pela piauí. Naquele ano, o governo da Bahia, comandado por Rui Costa (PT) – atual ministro da Casa Civil –, estava tentando privatizar a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), dona da rede de supermercados Cesta do Povo, que vendia produtos subsidiados aos funcionários do estado. A empresa só dava prejuízo aos cofres públicos. O problema é que o estado já havia feito dois leilões e os compradores não apareciam.

Foi quando surgiu Augusto Lima. O empresário baiano, que ainda não operava no mercado financeiro, fez uma reunião com Jaques Wagner, na época secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia. Conseguiu convencê-lo a tornar o leilão mais atraente. Sua ideia: o governo baiano incluiria no edital uma cláusula permitindo que o comprador da Ebal operasse um cartão de crédito consignado para ser oferecido aos 400 mil servidores, pensionistas e aposentados da Bahia. Além de comprometer 30% de sua renda com empréstimos consignados comuns, como prevê a lei, o servidor baiano passaria a poder comprometer mais 10% de sua renda com o tal cartão de crédito, batizado de Credcesta.

A proposta vingou. No terceiro leilão, a Ebal foi arrematada por 15 milhões de reais. O comprador? Augusto Lima. O cartão de crédito, por si só, já era um negócio para lá de vantajoso, pois cobrava mais de 5% de juros ao mês. Além disso, operaria sem risco de calote, porque era consignado, e tinha uma clientela garantida, os 400 mil servidores. Dezesseis dias depois, contudo, Lima recebeu mais um presentaço do governador Rui Costa: o Credcesta seria o único a operar naquele mercado durante quinze anos.

A exclusividade transformou o Credcesta numa mina de ouro ainda mais apetitosa. Para operá-lo, porém, Lima precisava de um banco. Em São Paulo, procurou o BMG, cuja sede funcionava no Pátio Victor Malzoni, o prédio mais badalado da Avenida Faria Lima. O BMG recusou a proposta. Por sugestão de um investidor que o acompanhava, Lima desceu até o segundo andar do edifício, onde funcionava um banco novo e desconhecido: o Master, que gostou da proposta. Por 30 milhões de reais*, Vorcaro tornou-se dono de 50% do Credcesta, que virou um ativo altamente lucrativo para o seu banco. Depois da Bahia, o Rio de Janeiro foi o primeiro estado a aderir ao Credcesta, após uma negociação entre correligionários: Antonio Rueda, o presidente do União Brasil, intermediou o negócio com o governador Cláudio Castro (PL). O Credcesta, no Rio, também teve a exclusividade garantida.

O Master chegou a operar com o Credcesta em 24 estados. O sucesso do produto atraiu pequenos bancos, que passaram a reclamar o direito de também entrar no mercado. No governo de Jair Bolsonaro, com apoio de Ciro Nogueira (PP) e Arthur Lira (PP), o Congresso fez duas mudanças. Numa, permitiu que os empréstimos consignados, antes limitados a 30% da renda do tomador, subissem para 35%. Na outra, abriu o mercado para os bancos pequenos operarem com o cartão consignado, no qual o tomador do dinheiro podia comprometer mais 10% de sua renda, além do limite de 35% do empréstimo consignado. A farra estava cada vez maior.

Quando assumiu a Presidência da República, Lula reclamou com o ministro Fernando Haddad que os servidores estavam sendo empurrados a pagar juros extorsivos. Podiam comprometer 35% de sua renda com empréstimo consignado, em que os juros ficam na faixa de 2%, e mais 10% com o cartão consignado, entre eles o pioneiro Credcesta, em que os juros passam de 5%. Por que não dar aos servidores o direito de usar 45% de sua renda com os empréstimos mais baratos?

Haddad fez um estudo sobre o assunto. Sua proposta não proibia o cartão de crédito consignado, mas dava ao servidor a opção de usar os 45% de sua renda com os empréstimos de juros de 2%, sem ter que recorrer ao cartão com taxa de 5% – uma vantagem evidente. Assim que concluiu o estudo, a equipe da Fazenda recebeu um recado claro de membros do Congresso: se o governo mexesse no cartão de crédito consignado, não conseguiria aprovar mais nada no Legislativo.

A proposta então foi engavetada, e Lula nunca pediu para ver o estudo. No Ministério da Fazenda, pouca gente tem dúvidas de que Augusto Lima estava por trás da pressão vinda do Congresso. Afinal, depois de sair do Master no ano retrasado, Lima levou consigo o ativo mais valioso do banco, o Credcesta, e passou a operá-lo com outro banco. Qual? O Banco Pleno, que acabou sendo liquidado pelo Banco Central em fevereiro deste ano.

Como Vorcaro, Augusto Lima também é um sujeito muito bem relacionado. Além da amizade com Rui Costa e Jaques Wagner, ele tem boas relações com a dupla Ciro Nogueira e Arthur Lira. Sua mulher, Flávia Péres, é outra que circula bem nas altas esferas. Foi ministra-chefe da Secretaria de Governo da Presidência na gestão de Jair Bolsonaro. No Palácio do Planalto, seu gabinete era vizinho do gabinete de Ciro Nogueira, então ministro da Casa Civil. Flávia Péres, fechando o círculo das relações que explicam o negócio Master-BRB, também é próxima do governador Ibaneis Rocha, do Distrito Federal.

As digitais de Lima no rolo Master-BRB estão por toda parte. A PF descobriu que o baiano controlava duas associações de servidores na Bahia. Eram justamente as duas entidades cujos nomes foram invocados para dar suporte à venda fraudulenta de uma carteira de crédito consignado do Master ao BRB, por 12,2 bilhões de reais. Descobriu também que a Tirreno Consultoria, uma empresa-fantasma que supostamente detinha esses créditos, era uma ficção criada por Henrique Peretto. E quem é Henrique Peretto? Ex-parceiro de Lima em vários negócios – entre eles, o consórcio que comprou a Ebal e o Credcesta. Os dois chegaram a dividir um coworking no edifício Pátio Victor Manzoni, em São Paulo.

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* O contrato de licenciamento que garantiu a Vorcaro 50% do Credcesta previa o pagamento de 30 milhões de reais, não de 25 milhões, como constava na reportagem original. A informação foi corrigida.


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Repórter da piauí, é autora de O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras)