questões artificiais

O DESPERTAR DOS EROBOTS

Personagens criados por IA estão transformando a pornografia – e deixando de cabelo em pé quem trabalha com proteção de dados na internet
Em 2024, um relatório da consultoria SWR Data mostrou que quase dois terços dos criadores de conteúdo adulto no mundo já usavam IA - Ilustração: Pedro Moro
Em 2024, um relatório da consultoria SWR Data mostrou que quase dois terços dos criadores de conteúdo adulto no mundo já usavam IA - Ilustração: Pedro Moro

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Luzes roxas, azuis e brancas piscavam freneticamente na Illuzion Phuket, uma das boates mais caras da Tailândia. Pessoas conversavam e dançavam ao som de remixes de clássicos como We will rock you, do Queen. No meio delas, Guilherme Kupke, um gaúcho de vinte e poucos anos, se ocupava de outra coisa. Filmando o próprio celular, preparava um vídeo que postaria mais tarde em seu Instagram. Era um tutorial de como usar plataformas de IA para criar uma atriz pornô virtual – ou, como ele diz, uma “modelo do job”. Tudo muito fácil, prometeu o rapaz. Tão fácil que dava para fazer no meio da balada.

Primeiro, Kupke entrou no ChatGPT e digitou o seguinte comando: “Me dê um prompt em inglês de uma modelo russa de rosto.” Depois copiou a resposta gerada pela inteligência artificial e a colou no aplicativo Leonardo.ai, uma plataforma de IA generativa de vídeos e fotos, que rapidamente produziu quatro retratos de uma mulher branca, loira e de olhos verdes. Eram imagens realistas, que pareciam feitas em um estúdio profissional. “Simplesmente impossível dizer que isso aqui é inteligência artificial”, gabou-se Kupke.

Para finalizar, o jovem gaúcho exportou a imagem para um “aplicativo secreto”, que transforma imagens em vídeos. Nesse momento, revelou que o tutorial era apenas parcial: quem quisesse o nome da plataforma deveria se inscrever em seu curso, que tem o nome nada discreto de “Cafetão Digital: do zero ao avançado”. Ele promete que, nas aulas, pode ensinar qualquer um a ganhar dinheiro criando mulheres e produzindo vídeos eróticos com elas.

Não é difícil descobrir, por outros caminhos, que o tal aplicativo secreto é o SeaArt.AI. Mas Kupke parece apostar que muitos de seus seguidores não saberão disso, e que, mesmo que saibam, terão interesse em aprender as filigranas do processo. A inscrição no curso custa 67,90 reais. No final do vídeo que gravou na Tailândia, o autointitulado cafetão digital mostrou dezenas de notificações que surgiram no celular. Segundo ele, eram transferências de Pix que havia recebido somente naquele dia vendendo vídeos sensuais.

Kupke tem vários perfis em seu próprio nome no Instagram e no TikTok. Diz ter dado aulas a mais de mil pessoas que, hoje, segundo ele, faturam entre 100 e 500 reais por dia com a pornografia digital. É impossível confirmar esse número. Procurado pela piauí, Kupke não quis dar entrevista.

Há dezenove queixas registradas contra o serviço no site ReclameAqui. “Comprei o método Gui do Hot e quando fui ver não tinha nada do que ele disse, apenas quatro vídeos falando de motivação”, reclamou um usuário de Limeira (SP). “Me senti enganado”, escreveu outro, de Passo Fundo (RS), reclamando dos “vídeos genéricos”.

Mas é razoável supor que haja mesmo muitos interessados em cursos como o “Cafetão Digital”. A internet vive hoje uma profusão de vídeos eróticos – alguns explicitamente pornográficos, outros não – estrelados por personagens criados por inteligência artificial. Alguns deles se tornaram celebridades. Emily Pellegrini, por exemplo, é uma modelo fictícia de 23 anos que chegou a ter meio milhão de seguidores no Instagram. Virou um case noticiado internacionalmente, embora seu perfil, depois de alguns meses, tenha sido desativado. Por trás dela está uma pessoa real que se apresenta pelo pseudônimo de Professor EP e administrava outros perfis que, somados, tinham mais de 300 mil seguidores no Instagram. Como Kupke, ele vendia cursos prometendo ensinar outras pessoas a faturar com esse mercado.

O que está em curso é uma mudança relevante para a indústria pornográfica. Para os criadores de conteúdo, as vantagens de trabalhar com modelos fictícios são muitas. Eles não folgam, não viajam, não envelhecem, não recebem salário e podem ser adaptados ao gosto do cliente. Os vídeos, que na indústria tradicional demandam dias de trabalho de vários funcionários, podem ficar prontos em poucos minutos.

Um relatório publicado em setembro de 2024 pela consultoria SWR Data, que analisa tendências da internet, concluiu que quase dois terços dos criadores de conteúdo adulto em todo mundo já utilizam IA, seja para gerar imagens ou para automatizar as interações com o público. Não há dados públicos sobre esse fenômeno no Brasil, mas uma rápida busca revela muitos perfis como os de Kupke. O canal de YouTube Nível Alfa, por exemplo, ensina a produzir conteúdo erótico com IA e conta mais de 20 mil inscritos. No TikTok, o perfil @faeldohot diz ter a fórmula para “transformar o celular em uma máquina de vendas”. O dono da conta, cuja identidade é desconhecida, diz ter faturado 10 mil reais com o que chama de “o nicho mais fácil de lucrar no mundo”.

Entre acadêmicos, personagens como Emily Pellegrini ganharam a alcunha de erobots – isto é, robôs eróticos. Tornaram-se objeto de pesquisa, e alguns estudiosos veem vantagens na novidade. Eles apontam que esses personagens virtuais podem ser úteis para conduzir estudos sobre o desejo sexual humano, para tratar pacientes com traumas e para educar sexualmente os jovens.

Embora esses benefícios possam ser reais, hoje os “modelos do job” suscitam também uma série de preocupações éticas. A começar pela misoginia, que, se não é novidade alguma na pornografia, ganha contornos mais explícitos em sua versão artificial. Guilherme Kupke, nos comandos que dá às ferramentas de IA, frequentemente define mulheres em termos como “bem loirinha”, “japinha”, “albina negra”, “safada” ou “muito negra”. A facilidade para produzir esse tipo de conteúdo tem feito com que algumas redes sociais – sobretudo as menos moderadas, como o X – sejam inundadas por imagens sexualizadas, quase sempre de mulheres, quase sempre com padrões de beleza irreais.

Mas não é só isso. Uma reportagem da Wired, publicada em dezembro do ano passado, mostrou que usuários vinham burlando os filtros de segurança do ChatGPT e do Gemini para manipular fotografias, “tirando” as roupas de mulheres reais. São casos que se encaixam no conceito de deepfake. No X, de Elon Musk, sequer era necessário burlar regras. No final de 2025, a rede social lançou o Grok, um chatbot extremamente permissivo com pornografia e conteúdos ofensivos. Apenas nos primeiros nove dias de funcionamento, a ferramenta foi usada para produzir 1,8 milhão de fotos sexualizadas, segundo o New York Times. No meio do tsunami, havia imagens de menores de idade.

Os comentários em postagens feitas por Kukpe mostram que o risco é generalizado. Em um de seus tutoriais sobre como criar mulheres, um usuário escreveu: “Vou usar na foto da menina que eu gosto.” Deu a entender, com isso, que criaria fotos – e talvez vídeos – sexualizados de uma pessoa real.

Na prática, nada o impede. O código penal brasileiro considera crime disseminar e armazenar imagens de nudez sem consentimento das pessoas retratadas, mas não há regras específicas para deepfakes – e, até agora, não há leis que proíbam as big techs de veicular conteúdos desse tipo. O Brasil, como outros países, corre atrás do prejuízo no que diz respeito à regulação das IAs. Na Europa, os primeiros passos estão sendo dados. No mês passado, o Parlamento Europeu aprimorou sua legislação de modo a incluir no texto, expressamente, a proibição de ferramentas que criam deepfakes sexuais.

Patrícia Peck, advogada especialista em direito digital e integrante do Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber), reconhece que a regulação da inteligência artificial no Brasil “ainda é incipiente”. O risco, ela diz, não está apenas nos deepfakes intencionais. Como os agentes de IA são alimentados com bases de dados reais, é possível que, ao receber a ordem de criar uma pessoa fictícia, eles acabem gerando uma imagem muito próxima à de alguém que existe. Sobretudo em contextos sexuais, essas semelhanças podem eventualmente causar constrangimentos e danos à reputação de alguém.

Peck reconhece que o combate aos deepfakes está longe de ser algo fácil. Esses conteúdos costumam ser feitos por contas anônimas, em plataformas estrangeiras que muitas vezes sequer têm representantes no Brasil. O rastreamento desses usuários, além disso, é dificultado pelo uso de VPNs – serviços de segurança digital que permitem disfarçar a localização virtual de uma pessoa, simulando que ela, por exemplo, está em outro país. 

Como é quase impossível impedir a criação dos deepfakes, diz Peck, a tarefa do poder público é tentar ao menos dificultar que eles circulem. Um caminho para isso é determinar, por lei, que todo conteúdo gerado por inteligência artificial seja sinalizado como tal. Não é uma solução mágica – afinal, hoje já existem ferramentas capazes de remover marcas d’água de fotos e vídeos –, mas é um obstáculo que pode ao menos atrapalhar quem cria esse tipo de conteúdo.

Um outro caminho, mais eficaz, é responsabilizar as plataformas que veiculam os deepfakes, forçando-as a adotar políticas de moderação mais rigorosas. Foi o que fez o governo federal no final de maio, com a publicação do decreto nº 12.976/2026, que estabelece mecanismos de enfrentamento da violência contra as mulheres no ambiente digital. O texto veda “a geração e a modificação de conteúdo íntimo de terceiro mediante uso de inteligência artificial” e determina que as plataformas deverão “identificar e bloquear solicitações” desse tipo. É um passo adiante na regulação da IA no Brasil, e seus efeitos ainda estão por ser medidos. O decreto só entra em vigor no final de julho.

Em paralelo, o Senado aprovou na terça-feira (7) um projeto que endurece as penas de quem pratica violência sexual digital contra crianças e adolescentes, o que inclui a produção e compartilhamento de deepfakes. A nova lei, que já havia sido aprovada pela Câmara, agora segue para sanção de Lula.

A piauí indagou à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) que medidas estão sendo tomadas para coibir os deepfakes e impedir que os dados de usuários sejam usados na criação de personagens eróticos. Por meio de nota, a agência respondeu que está se adaptando ao novo decreto e que recentemente abriu um processo de fiscalização contra o X, “após a enxurrada de denúncias de produção de conteúdo sexual sintético com dados pessoais”. Casos de violação de privacidade, disse a ANPD, devem ser analisados um a um, “a partir de situações concretas”. A agência disse, por fim, estar preparando a agenda regulatória do próximo biênio, em que serão atualizadas as regras sobre o uso de dados pessoais por sistemas de inteligência artificial.

Guilherme Kupke não ensina apenas a criar mulheres artificiais. Ensina também a interpretá-las em conversas com potenciais clientes. Em um dos seus perfis de “modelos do job”, ele postou a seguinte chamada: “Eu tenho a florzinha bem rosinha, acredita? Se não acreditar assina meu privadinho por R$ 29,90.” O jovem gaúcho diz que frases como essa são tiro e queda. Em questão de minutos, depois de postá-la, o perfil é inundado por mensagens de homens excitados – “o gado”, como ele mesmo se refere aos seus clientes.

Seu curso é alardeado também em um site próprio. Quando a piauí entrou em contato, em março passado, Kupke disse não ter “interesse em entrevistas ou matérias do tipo”. Depois, não respondeu a novas mensagens. Recentemente, adicionou um adendo em seu site, em que diz: “Não garantimos resultados financeiros ou de qualquer natureza, pois estes dependem de diversos fatores individuais como aplicação, experiência e contexto de cada usuário.”

Em sua política de conteúdo, tanto Instagram quanto TikTok proíbem postagens com teor sexual. Indagada sobre o tipo de conteúdo produzido por Kupke, a Meta, dona do Instagram, preferiu não comentar. Pouco tempo depois, porém, os perfis do jovem gaúcho foram tirados do ar (ele manteve apenas um perfil pessoal, com 130 mil seguidores). A piauí também procurou o TikTok, rede em que Kupke tinha engajamento ainda maior. A plataforma disse, em nota, que não permite comercializar, fazer marketing ou fornecer acesso a serviços sexuais de qualquer origem. Os perfis foram excluídos.


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