questões soberanas
Paulo Abrão, especial para piauí 08 Set 2026
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Políticos em campanha costumam ir à feira. Comer pastel, segurar bebês no colo e distribuir abraços compõem o roteiro típico de candidatos no Brasil. Mas, desde o momento em que sinalizou que seria candidato presidencial, Flávio Bolsonaro deixou de lado as buchadas e os sarapatéis para bater pernas pelo Oriente Médio, pela Argentina e, sobretudo, pelos Estados Unidos. O périplo é parte da campanha eleitoral mais internacionalizada da história do Brasil e constitui uma evidência de que a extrema direita brasileira precisou buscar além-mar os meios que lhe faltam internamente para seguir fazendo o que faz com maestria: tumultuar o processo eleitoral.
Antes como agora, a extrema direita já semeou dúvidas infundadas sobre as urnas eletrônicas, ressuscitou o fantasma do comunismo para justificar a polarização e recorreu às potências estrangeiras para tentar interferir na eleição. Em 2022, Jair Bolsonaro, então candidato à reeleição, reuniu embaixadores no Palácio do Planalto e detonou o processo eleitoral brasileiro, com o objetivo de minar a credibilidade de uma eventual vitória do seu adversário. Deu tudo errado. Bolsonaro perdeu a eleição e a tentativa de golpe fracassou, entre outros fatores, pela pressão externa, em especial de um ator em particular: os Estados Unidos, então sob o governo democrata de Joe Biden, cujos militares deixaram claro que não apoiariam uma aventura golpista no Brasil.
Seria exagero dizer que Biden respaldou a democracia brasileira por causa de um pedido que fizemos a lideranças do seu governo em julho de 2022 – eu e outros membros de uma comitiva de representantes da sociedade civil. Na época, estivemos em Washington para explicar o processo de descrédito contra as instituições democráticas que estava então sendo tramado no Brasil e pedir que os Estados Unidos reconhecessem o resultado eleitoral daquele ano, fosse quem fosse o vencedor. Passados quatro anos, Jair está preso, com alguns dos principais líderes políticos e comandantes militares envolvidos na intentona golpista de 2023.
Mas as ameaças à democracia não foram debeladas. Ao contrário. Agora, com ímpeto renovado, a extrema direita voltou a recorrer à interferência estrangeira. Ir aos Estados Unidos, ou outro país qualquer, para conversar sobre o Brasil não é crime, desde que a discussão não enverede pela ilegalidade. Em 2022, nossa comitiva esteve com autoridades americanas com a intenção de preservar a integridade de uma disputa que estava sob ameaça de golpe. Agora, em 2026, Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo, que se mudou para os Estados Unidos, estão em romaria semelhante, mas com uma diferença visceral: a missão é convencer o governo dos Estados Unidos – nada menos que a maior potência econômica e militar do planeta – a promover ações hostis contra o governo brasileiro e autoridades brasileiras, numa tentativa de favorecer a extrema direita na disputa eleitoral.
Em uma aliança transnacional do autoritarismo contemporâneo que envolve partidos, governos, parlamentares, think tanks, empresários, influenciadores, plataformas digitais e redes de comunicação, a extrema direita brasileira vem atuando no exterior – e isso há mais de um ano – para difundir desinformação e erodir a confiança na democracia e no estado de direito no Brasil. Diante desse risco, lá fomos nós novamente aos Estados Unidos, com uma nova comitiva formada por líderes da sociedade civil brasileira. Desembarcamos no dia 20 de julho de 2026.
“O que você veio fazer aqui?”, perguntou o agente da imigração americana. Diante dele estava um indígena brasileiro, que integrava nossa comitiva e estava viajando havia quase 24 horas. Para chegar até ali, o líder apinajé deixara sua aldeia, enfrentara três horas de carro até um aeroporto regional, voara para São Paulo e, de lá, embarcara para os Estados Unidos. “Vim participar de encontros para defender a democracia no Brasil”, respondeu o representante do povo apinajé. O agente quis saber por quanto tempo. O brasileiro respondeu que era por uma semana e mostrou a carta-convite e a passagem de volta. O americano, branco, olhos claros, examinou os papéis, carimbou o passaporte e disse: “Welcome.”
Entrar nos Estados Unidos, descobriria logo o líder apinajé, não significava necessariamente chegar a Washington. O voo de conexão de Orlando para a capital americana foi cancelado depois que os passageiros passaram duas horas dentro do avião. Uma tempestade fechou o aeroporto. O líder apinajé dormiu ali mesmo no aeroporto, no meio da madrugada, e, sem conseguir grande ajuda da companhia aérea, precisou acionar do outro lado do continente uma pequena operação para comprar uma nova passagem. Quando finalmente aterrissou no dia 22 no Aeroporto Ronald Reagan, em Washington, o restante do grupo comemorou sua chegada. Enfim, agora estávamos todos reunidos.
O Washington Brazil Office, a única organização especializada e dedicada exclusivamente ao Brasil em Washington, havia mapeado uma narrativa que estava se consolidando no ambiente político e diplomático da capital americana: a de que o Brasil está violando a liberdade de expressão de jornalistas e políticos, de que a principal liderança da oposição ao governo está sendo impedida de participar do processo eleitoral e que, portanto, as próximas eleições não serão nem livres, nem justas.
Se a extrema direita construiu uma rede internacional para atacar a democracia brasileira, era necessário construir uma rede internacional para protegê-la, não contra a soberania brasileira, mas justamente em defesa dela. Foi assim que nossa comitiva reuniu representantes de quinze organizações da sociedade civil brasileira: povos indígenas, mulheres, lideranças e entidades negras e de movimentos sociais, sindicalistas, ambientalistas, ativistas e defensores de direitos humanos, dos direitos digitais, da liberdade de expressão e da democracia.
Nossa missão era conversar com congressistas americanos e seus assessores, diplomatas de vários países, sindicalistas, organizações de direitos humanos, think tanks, acadêmicos e dirigentes de organismos internacionais e do sistema interamericano de direitos humanos. Depois de Washington, parte da agenda continuou em Nova York, com funcionários das Organização das Nações Unidas, diplomatas e integrantes da comunidade brasileira.
Tivemos cerca de vinte reuniões institucionais ao longo da missão — incluindo uma mesa redonda com think tanks de tecnologia, um evento público e uma reunião ampliada de articulação social. Houve interlocução com pelo menos dez escritórios/instituições americanas, além de várias organizações da sociedade civil. Entre os interlocutores de maior destaque, estiveram os congressistas democratas Mark Pocan e Chuy García; as assessorias dos também democratas Jim McGovern, Sydney Kamlager-Dove, Jonathan Jackson e Joaquin Castro; as equipes de política externa e segurança nacional dos senadores democratas Tim Kaine (do Comitê de Relações Exteriores do Senado) e Peter Welch e do republicano John Neely Kennedy. Além deles, houve visita à OEA, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, à maior central sindical americana AFL-CIO e à secretaria internacional da Prefeitura de Nova York.
A missão era, ao mesmo tempo, simples de formular e estranha de executar. O grupo queria alertar para os riscos de interferência externa nas eleições brasileiras, construir alianças contra essa ingerência e defender duas coisas elementares: a integridade do sistema eleitoral brasileiro e a importância do reconhecimento internacional do resultado das urnas, fosse quem fosse o vencedor.
Uma pergunta pairava sobre as reuniões daquela semana: como explicar a democracia brasileira aos americanos justamente quando os próprios Estados Unidos pareciam dispostos a interferir nela? E como fazê-lo quando muitos dos interlocutores estavam ocupados com outra eleição em novembro, a deles próprios, que também ajudaria a definir o futuro da democracia americana?
Quatro anos antes, uma delegação da sociedade civil brasileira havia percorrido alguns daqueles mesmos corredores numa conjuntura inversa, diante das ameaças à democracia brasileira no governo de Jair Bolsonaro. Na época, o Congresso americano discutiu uma resolução que previa a suspensão da cooperação militar caso as Forças Armadas brasileiras interferissem no processo eleitoral. Parlamentares e integrantes da administração de Joe Biden fizeram chegar a Bolsonaro, aos militares e a seus aliados a mensagem de que os Estados Unidos se oporiam a qualquer tentativa de bloquear ou anular a vontade dos eleitores.
Quando Lula venceu, Washington reconheceu rapidamente o resultado. A velocidade importava. O reconhecimento americano, acompanhado por governos da América Latina, da Europa e de outras partes do mundo, ajudou a reduzir o espaço político para uma contestação da eleição. Depois dos ataques de 8 de janeiro de 2023, que depredaram a praça central do poder em Brasília, os Estados Unidos voltaram a apoiar as instituições brasileiras e o governo recém-empossado.
Agora, quatro anos depois, Washington havia mudado. A delegação que chegava em 2026 não vinha pedir que o governo americano manifestasse apoio à sociedade brasileira diante de uma possível ruptura interna. Vinha alertar seus interlocutores para a possibilidade de que setores do próprio governo dos Estados Unidos passassem a integrar o problema, oferecendo apoio à ruptura. Para os integrantes da comitiva, a ingerência já dava sinais de estar em marcha. E talvez por isso o pedido de reunião da comitiva com o Departamento de Estado não foi respondido.
A lista de episódios que carregávamos para as reuniões não era pequena. Primeiro, mesmo depois de conversas cordiais entre Lula e Donald Trump, o Departamento de Estado havia atribuído a Darren Beattie, personagem da extrema direita americana com histórico de declarações racistas e ataques às instituições brasileiras, um papel relevante nos assuntos relacionados ao Brasil. Depois, vieram novas tarifas sobre produtos brasileiros. A investigação comercial que lhes deu origem fora aberta por determinação de Trump apesar do superávit americano no comércio bilateral e acompanhada de referências explícitas ao processo contra Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal. A justificativa comercial se misturava à política.
O embaralhamento ficou ainda mais evidente quando Flávio Bolsonaro, já candidato à Presidência, foi recebido por Trump no Salão Oval. O encontro ocorreu enquanto o senador tentava administrar no Brasil uma crise política que atingia sua candidatura. Em Washington, Flávio pediu que duas facções criminosas brasileiras fossem classificadas pelos Estados Unidos como organizações terroristas estrangeiras. Dois dias depois, o Departamento de Estado anunciou a designação. Até onde se sabe, a decisão já estava tomada pelo Departamento de Estado e seria anunciada dali a alguns dias. Flávio, sabendo disso, marcou sua viagem justamente para forçar a coincidência e assim criar a aparência de que sua visita motivou a decisão.
O governo brasileiro reagiu. Argumentou que a medida tocava em questões de soberania e poderia produzir consequências que iam muito além do combate ao crime organizado. A apreensão aumentava diante das operações militares realizadas pelos Estados Unidos na região sob justificativas relacionadas à presença de organizações classificadas como terroristas.
Havia ainda uma frase difícil de esquecer. Meses antes, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, dissera que os Estados Unidos não hesitariam em usar seu “poder militar” para defender a “liberdade de expressão” ao redor do mundo. Questionada especificamente sobre o Brasil, ela não citou o país nominalmente, mas também não excluiu a possibilidade de “usar o poder econômico e o poderio militar dos Estados Unidos”.
Durante a própria semana em que os brasileiros percorriam Washington, os acontecimentos pareciam competir com a agenda da delegação. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) confirmou em 15 de julho e implementou uma tarifa adicional de 25% sobre diversas importações brasileiras em 22 de julho de 2026, com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana.
Dias depois, quando a comitiva já havia deixado Washington e estava em Nova York, veio outra notícia. Os brasileiros estavam reunidos com a assessoria internacional do prefeito de Nova York, o democrata Zohran Mamdani, quando, logo depois que ali se deliberou organizar ações na cidade no dia da eleição para proteger a votação da comunidade brasileira no exterior contra assédios do ICE ou outras formas de desestímulo ao voto, alguém chamou a atenção dos demais para uma reportagem que acabava de circular. Dois funcionários do Escritório de Democracia, Diretos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, Riley Barnes e Samuel Samson, haviam tentado realizar uma visita oficial ao Brasil com o objetivo, segundo reportagem do jornal The Washington Post, de lançar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro antes que milhões de eleitores fossem às urnas na eleição presidencial. Alguém mostrou a notícia aos demais.
– Olha aqui, gente. Nós dissemos que era isso. Estamos no caminho certo!
Durante dias, nossa delegação havia percorrido Washington tentando convencer seus interlocutores de que as diferentes pressões sobre o Brasil não deveriam ser examinadas como acontecimentos isolados. Agora, sentados numa reunião em Nova York, seus integrantes viam surgir uma notícia que parecia confirmar justamente a preocupação que os haviam levado aos Estados Unidos.
Nas andanças por Washington, a comitiva tinha saído com muitas promessas dos congressistas democratas americanos: uma metodologia de fluxo de informação e uma interlocução constante durante o processo eleitoral, a disposição dos congressistas democratas de se pronunciarem publicamente ou por meio de cartas para demonstrarem à sociedade brasileira que há vozes divergentes e que a posição do governo Trump sobre o Brasil não representa uma visão homogênea do povo americano, o compromisso de fiscalizar o governo deles contra intervenções no Brasil, promover o contraponto e fazer a resistência interna ao seus alcances.
Da Comissão Interamericana, nossa delegação saiu com o compromisso da instalação de uma sala de situação especial para as eleições e monitoramento das questões do exercício livre dos direitos políticos e liberdade de expressão, situações de violência e especial ênfase nos direitos das populações mais vulneráveis, como as mulheres, indígenas, eleitores negros e negras, e comunidade LGBTIQIAP+ suscetível a discursos de ódio. O secretário de Fortalecimento da Democracia da OEA garantiu a formação de uma missão de observadores internacionais de alto nível, isentos de qualquer influência política exterior, e assegurou que incluirão na sua agenda de visita ao país algumas reuniões com a sociedade civil, além das autoridades eleitorais, partidos e candidatos. Com as organizações da sociedade civil americana e os sindicatos, nossa delegação articulou a formação de um grupo de acompanhamento social internacional para monitorar a necessidade de ações e mobilizações rápidas no exterior em defesa da democracia brasileira. Igualmente, foi estabelecido um diálogo para trocar experiência com organizações de países latino-americanos que haviam sofrido algum tipo de intervenção em eleições recentes e saber preveni-las.
Na segunda-feira seguinte, a senadora democrata Jeanne Shaheen se manifestou pelo perfil oficial dos democratas no Comitê de Relações Exteriores do Senado, gerido pela Shaheen. “Vender conspirações eleitorais não torna a América mais segura”, escreveu. “Isso erode a confiança em nossa democracia internamente e afasta nossos amigos no exterior.” A mensagem circulou entre os brasileiros. “Nossa visita já valeu a pena!”, disse a liderança de um dos movimentos sociais, rememorando a reunião com o assessor do congressista democrata membro do comitê de relações exteriores do Senado.
Mais adiante surgiria outra anomalia, desta vez diplomática. O governo Trump anunciou publicamente Daniel Perez como seu escolhido para ser embaixador em Brasília antes de obter do governo brasileiro o agrément, o consentimento que tradicionalmente precede, de maneira reservada, o anúncio de um embaixador.
A demora brasileira em concedê-lo abriu uma nova frente de tensão. Washington elevou o tom. Por fim, o governo americano revogou o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, que poucos dias antes havia recebido a delegação brasileira.
Era possível olhar para cada episódio separadamente. Um dizia respeito ao comércio. Outro, ao combate ao crime organizado. Um terceiro, às plataformas digitais. Havia divergências diplomáticas, decisões judiciais e disputas sobre liberdade de expressão. O problema aparecia quando se colocavam todos sobre a mesma mesa. Tarifas, ameaças, pressões diplomáticas, aproximação ostensiva com uma candidatura presidencial brasileira, questionamentos sobre o sistema eleitoral e sucessivos conflitos com instituições do país começavam a formar um desenho.
“Estamos diante de uma ação que parece coordenada e que reflete os interesses eleitorais de um grupo político no Brasil”, resumiu o representante de uma organização de defesa da democracia. Era esse desenho que os brasileiros queriam discutir em Washington. E havia uma pergunta que ninguém conseguia responder com segurança: até onde o governo Trump estaria disposto a ir? O atual governo americano já havia conseguido influenciar diretamente as eleições em Honduras, na Argentina, na Colômbia, além da reconfiguração do poder na Venezuela.
“Não há a mínima possibilidade de os Estados Unidos quererem intervir nas eleições do Brasil.” A frase veio de um funcionário do Departamento de Cooperação e Observação Eleitoral da Organização dos Estados Americanos, área responsável pelas missões internacionais de observação das eleições. A delegação havia perguntado se existia risco de interferência do Departamento de Estado no trabalho da OEA. A pergunta não era inteiramente abstrata. Alguns dos brasileiros tinham na memória a controvérsia em torno da atuação da organização na eleição boliviana de 2019 e suas consequências políticas.
A resposta do diretor na OEA não deixou espaço para nuances. Não havia a mínima possibilidade. A segurança e convicção com que a frase foi pronunciada chamou a atenção. Depois de vários dias percorrendo gabinetes do Capitólio, organizações sociais e organismos internacionais, aquela era apenas a segunda vez que ouvíamos uma defesa tão categórica da confiança na neutralidade do governo americano. A primeira tinha vindo da assessora do senador republicano John Neely Kennedy, no quarto andar do Russell Building, entre quadros de paisagens dos grandes parques nacionais americanos.
O restante das conversas apontava para outra direção. Em diferentes graus e com diferentes palavras, interlocutores americanos diziam considerar real o risco de ingerência. Alguns entendiam que ela não era sequer uma hipótese futura: já estava em curso, de que bastava olhar as situações descritas anteriormente em seu conjunto.
Outros interlocutores lembravam precedentes recentes da política externa americana na América Latina e no mundo. Em Honduras, poucos dias antes da votação, Trump declarou publicamente apoio ao conservador Nasry “Tito” Asfura, dizendo esperar que os hondurenhos votassem nele e que poderia trabalhar com Asfura contra o narcotráfico, o que chamou de “narcocomunistas”. Durante a apuração extremamente apertada, Trump alegou fraude – como sempre, sem apresentar provas – e pressionou para que o resultado fosse respeitado no contexto de uma disputa em que seu candidato estava à frente por margem mínima. Houve ainda um elemento extraordinário: Trump anunciou dia 28 de novembro de 2025 o perdão do ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado nos Estados Unidos por narcotráfico, durante o período eleitoral. Isso tudo às vésperas da eleição no dia 30 de novembro, e o liberou da prisão em 02 de dezembro de 2025.
Na Argentina, se utilizou do poder econômico. Antes das eleições legislativas de outubro de 2025, o governo Trump ofereceu à Argentina de Javier Milei uma gigantesca rede de apoio financeiro, potencialmente chegando a 40 bilhões de dólares (20 bilhões via governo e 20 bilhões via bancos privados). Durante encontro com Milei na Casa Branca, Trump vinculou publicamente a continuidade do apoio americano ao desempenho eleitoral do governo argentino: se Milei perdesse, disse Trump, os Estados Unidos não continuariam “perdendo tempo”.
Na Colômbia, lembraram os interlocutores locais, Trump endossou formalmente Abelardo de la Espriella, candidato da direita radical. De la Espriella acabou vencendo por margem estreita. Na Alemanha, durante a Conferência de Segurança de Munique, nove dias antes da eleição, o vice-presidente americano J.D. Vance criticou o isolamento político da AfD (sigla da extrema direita alemã) e posteriormente encontrou-se com Alice Weidel. O governo alemão reagiu dizendo que Vance não deveria interferir na política doméstica alemã. A eleição presidencial polonesa de 2025 apresentava outro caso bastante claro. O nacionalista Karol Nawrocki construiu deliberadamente sua candidatura como uma alternativa inspirada em Trump, viajou aos Estados Unidos e foi recebido por Trump na Casa Branca antes do início formal da campanha. A própria Casa Branca divulgou fotografias dos dois no Salão Oval.
Nossa comitiva saiu dos Estados Unidos mais preocupada do que chegou. Se escutou que o Brasil era muito relevante para a doutrina Donroe – o projeto renovado de restaurar a primazia política, econômica e militar dos Estados Unidos sobre o hemisfério, região considerada como uma esfera de influência estratégica para a segurança nacional americana. Ademais, ganhar o governo do Brasil também significaria enfraquecer os Brics, o bloco originalmente formado pela Rússia, Índia, China, África do Sul e Brasil. Com as duas maiores democracias do continente alinhadas, se consolidaria o novo domínio da direita conservadora em quase toda a América Latina. De maneira que, se as eleições no Brasil seriam tão importantes para o projeto político Maga, porque eles deixariam de interferir, se já estão interferindo nas demais eleições?
A situação produzia uma situação curiosa. Uma delegação brasileira chegara a Washington preocupada com a possibilidade de interferência americana nas eleições brasileiras e encontrara, entre americanos, gente com a mesma preocupação. A presença de representantes da sociedade civil brasileira também parecia produzir certo alívio.
Durante o primeiro semestre, representantes do campo da extrema direita brasileira haviam mantido em Washington um intenso trabalho político para disseminar uma interpretação muito diferente do país: o Brasil teria deixado de realizar eleições livres e justas; opositores seriam perseguidos; a liberdade de expressão estaria sob ataque; e o Supremo Tribunal Federal teria se convertido no centro de uma espécie de ditadura judicial. Era esse o Brasil que muitos dos interlocutores americanos tinham ouvido descrever durante meses.
As quinze organizações que compunham nossa delegação apresentavam outro relato. As eleições brasileiras eram livres e competitivas. Não havia evidências de fraude no sistema eletrônico de votação, que já produzira alternâncias de poder entre grupos políticos adversários. A resposta judicial aos ataques contra a democracia havia sido dura porque o país atravessara uma tentativa real de ruptura. Relatórios internacionais recentes não sustentavam a imagem de um país onde a liberdade de expressão houvesse deixado de existir. Empresas estrangeiras, inclusive as grandes plataformas digitais americanas, estavam submetidas às leis brasileiras como qualquer outra empresa que operasse no país.
Em quase todas as reuniões, repetia-se uma reação: era importante que aquelas organizações estivessem em Washington naquele momento. “É notável a coragem de vocês se mobilizarem para defender a democracia diante de toda essa hostilidade”, disse uma das interlocutoras. Uma outra dirigente de organização americana observou: “É exatamente nestes momentos difíceis que a sociedade organizada faz diferença.”
Mas foi numa reunião com a principal central sindical americana, instalada num edifício imponente bem próximo à Casa Branca, que ocorreu outra inversão. A representante internacional da entidade ouviu os brasileiros falarem sobre ameaças à democracia, desinformação, extrema direita, eleições e instituições.
Depois disse:
– Nós precisamos aprender com vocês. A nossa democracia também está em declínio.
Por alguns segundos, os papéis pareciam ter se embaralhado. Os brasileiros haviam atravessado o continente para buscar solidariedade americana na defesa de sua democracia. Diante da Casa Branca, uma sindicalista americana lhes dizia que talvez fossem os Estados Unidos que precisassem aprender com a experiência brasileira.
O Brasil havia atravessado uma tentativa de ruptura institucional, ataques ao sistema eleitoral e a invasão das sedes dos Três Poderes. Suas instituições, apesar de tudo, haviam resistido. Bolsonaro fora derrotado nas urnas. O resultado fora reconhecido. Os responsáveis pelo Oito de Janeiro haviam sido investigados e julgados.
Agora eram os americanos que conviviam com dúvidas sobre a capacidade de suas instituições de conter os impulsos autoritários de seu próprio governo. Washington havia deixado de ser apenas o lugar para onde democratas estrangeiros viajavam em busca de alianças. Também se tornara uma capital onde americanos procuravam maneiras de proteger a própria democracia.
Esse talvez tenha sido um dos aprendizados inesperados da semana. Seria ingênuo imaginar que uma comitiva de organizações brasileiras poderia alterar as convicções do movimento Maga sobre o Brasil. A política externa da nova direita americana não se movia apenas por informações equivocadas que pudessem ser corrigidas numa reunião. Havia um projeto político.
Parte da extrema direita americana via o Brasil como peça importante de uma disputa internacional mais ampla. Uma vitória conservadora ajudaria a consolidar no continente um eixo ideológico afinado com o movimento Maga. Lula, o Supremo Tribunal Federal, a regulação das plataformas digitais e determinadas posições da política externa brasileira eram vistos como obstáculos. Nenhuma reunião de cinquenta minutos faria desaparecer esse projeto. Mas Washington não era apenas a Casa Branca.
Havia o Congresso. Organizações de direitos humanos. Sindicatos. Universidades. Centros de pesquisa. Diplomatas. Jornalistas. Funcionários de carreira. Organizações internacionais. Republicanos que não compartilhavam integralmente a agenda Maga e democratas preocupados com o rumo da política externa americana.
Essa talvez fosse a razão mais importante para estar ali: mostrar que a resposta governamental americana sobre o Brasil não expressa de modo totalizante a visão da sociedade americana. Criar canais entre organizações brasileiras e americanas significava instalar dentro dos próprios Estados Unidos uma rede capaz de acompanhar e ajudar a resistir ao que aconteceria nos meses seguintes.
Ninguém imaginava que ela impediria, por si só, uma eventual interferência. Mas poderia produzir obstáculos: fiscalização pelo Congresso, questionamentos jurídicos, contrapontos públicos, informação independente, mobilização social e pressão política. “Os governos passam, os diplomatas mudam, mas a força da integração das nossas sociedades fica”, lembrou a representante de uma organização americana de direitos humanos.
Ela tinha outra preocupação. Uma campanha para desacreditar previamente o sistema eleitoral brasileiro poderia preparar o terreno para algo até então inédito nas relações recentes entre os dois países: uma tentativa de Washington de não reconhecer, ou retardar o reconhecimento, do resultado da eleição presidencial brasileira. Essa simples possibilidade mostrava quanto as coisas haviam mudado em quatro anos.
Havia uma comparação que os integrantes da delegação sabiam que encontrariam pelo caminho. A extrema direita brasileira sustentava que sua atuação em Washington não era diferente da articulação internacional feita pela sociedade civil antes da eleição de 2022. Se brasileiros haviam procurado americanos quatro anos antes, por que seria ilegítimo que outros brasileiros fizessem o mesmo agora?
A comparação parecia simples. A diferença estava naquilo que se pedia aos estrangeiros. Em 2022, diante do risco concreto de ruptura democrática, organizações da sociedade civil dialogaram com autoridades dos Estados Unidos, da Europa e da América Latina para pedir que reafirmassem a integridade do sistema eleitoral brasileiro e reconhecessem prontamente o resultado das urnas, qualquer que fosse o vencedor.
Não se pediram sanções contra o Brasil nem medidas econômicas contra autoridades brasileiras. Não se pediu a governos estrangeiros que constrangessem juízes para alterar decisões judiciais. Em 2026, o Supremo Tribunal Federal condenou responsáveis por mobilizar o governo americano para adotar medidas econômicas e diplomáticas contra integrantes do Judiciário com o objetivo de constrangê-los no exercício de suas funções.
O critério que distinguia as duas formas de atuação internacional não era, portanto, a existência de pontes com o exterior. Era aquilo que transitava por elas. Uma coisa era buscar solidariedade para que eleições livres fossem respeitadas e instituições democráticas preservadas. Outra era mobilizar o poder de um Estado estrangeiro para impor custos econômicos e políticos ao próprio país e constranger suas instituições em benefício de um grupo político. E um imperativo atual construir relações internacionais suficientemente democráticas para que nenhum governo estrangeiro possa decidir o futuro político do Brasil. Soberania não é silêncio internacional. Soberania é garantir que a decisão final continue pertencendo às instituições e à sociedade brasileira.
A distinção importava ainda mais porque muitos dos interlocutores americanos pareciam chegar a outra conclusão durante aquelas conversas: o futuro da democracia brasileira e o da democracia americana talvez estivessem mais relacionados do que se imaginava. A extrema direita aprendera a se organizar internacionalmente. O campo democrático ainda tentava descobrir como voltar a fazer o mesmo. A nossa internacionalização não pode ser uma internacionalização da ingerência. Precisamos ser uma internacionalização da solidariedade.
Em várias reuniões, por isso, a solidariedade circulou nos dois sentidos. Os brasileiros falavam das ameaças às eleições de outubro e ouviam americanos descreverem seus próprios retrocessos democráticos. A certa altura, já não era inteiramente claro quem estava em Washington para prestar solidariedade a quem.
Antes de partir, a delegação brasileira participou de um encontro público com cerca de cinquenta pessoas. Era um grupo variado, interessado em entender o que se passava no Brasil e o que poderia acontecer até outubro. Numa conversa menos protocolar que as reuniões dos dias anteriores, uma liderança de direitos humanos tentou resumir o que aprendera: “Fiquei com a impressão de que os direitos humanos devem ser a referência legítima para as ações internacionais da sociedade brasileira.”
As mulheres da delegação chamaram a atenção para outro aspecto. A deterioração do ambiente democrático não acontecia apenas dentro das instituições. Quando a linguagem eleitoral se convertia em linguagem de guerra, cresciam o discurso de ódio e a violência política, sobretudo aquela dirigida contra mulheres e pessoas negras.
Os ativistas de direitos digitais acrescentaram que a integridade eleitoral também passava pelas plataformas. As grandes empresas de tecnologia, independentemente do país onde tivessem sede ou do tamanho de seu capital, deveriam respeitar a legislação brasileira. As reuniões acabaram. Ficavam contatos, números de telefone, grupos de mensagens e a promessa de que as conversas continuariam até a eleição. Possíveis iniciativas no Congresso, manifestações públicas e formas de monitoramento haviam sido discutidas. “A solidariedade internacional em defesa da democracia brasileira virou parte da agenda sindical”, declarou o representante do movimento sindical.
Não era a primeira vez.
Durante a ditadura iniciada em 1964, formou-se nos Estados Unidos uma rede de solidariedade às vítimas da repressão brasileira, contra a tortura e em defesa dos presos políticos. Em 2022, redes políticas e sociais americanas haviam sido novamente acionadas diante do risco de ruptura, e encontrou uma ampla mobilização de solidariedade internacional com o Brasil que já havia sido articulada ainda em 2018, diante das repercussões internacionais da prisão de Lula.
Havia uma lembrança incômoda por trás dessa história. Em 1964, o governo dos Estados Unidos estivera do outro lado: apoiara a ruptura democrática que instalou uma ditadura militar no Brasil. Ninguém queria descobrir até onde aquela analogia poderia chegar sessenta e dois anos depois. Desta vez, porém, a solidariedade parecia funcionar em duas direções.
Quatro anos antes, representantes da sociedade civil brasileira tinham ido a Washington para construir alianças nos Estados Unidos que apoiassem o trabalho da sociedade civil do Brasil a proteger uma eleição ameaçada por uma ruptura dentro do Brasil. Em 2026, voltavam para casa esperando ter encontrado americanos dispostos a ajudar a protegê-la de interferências vindas dos próprios Estados Unidos.
– Se precisar, a gente volta – disse o líder apinajé.
Para alguns dos brasileiros, voltar para casa significava tomar um voo direto. Para ele, não. Era preciso refazer, ao contrário, o caminho que começara dias antes: Washington, conexão, São Paulo, aeroporto regional, três horas de estrada, aldeia.
Se fosse preciso, disse que faria o caminho outra vez.