questões cerebrais

O ESPETÁCULO DA LOBOTOMIA

Como uma experiência reservada a poucos se transformou no início do século XX em atração popular
Walter Freeman, responsável por popularizar a lobotomia, fazia os procedimentos usando um instrumento semelhante a um picador de gelo - Crédito: Bettmann/Getty Images
Walter Freeman, responsável por popularizar a lobotomia, fazia os procedimentos usando um instrumento semelhante a um picador de gelo - Crédito: Bettmann/Getty Images

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Trecho do livro Meu nome verdadeiro é Elisabeth, a ser lançado em setembro pela Todavia. Tradução de Júlia da Rosa Simões.



No fim dos anos 1930, nos Estados Unidos, um certo Walter Freeman resolve dar seguimento aos experimentos do neurologista português António Egas Moniz, que em 1935 realiza a primeira lobotomia da história, ao menos em seres humanos (antes dele, dois pesquisadores americanos haviam constatado a diminuição das reações de raiva e frustração em uma chimpanzé fêmea, Becky, da qual fora removida uma parte do lobo frontal. Em 1935, em Londres, o relato dessa experiência provavelmente inspirou Moniz). 

Moniz, paralelamente à carreira de médico, teve uma trajetória política fulgurante: nascido em 1874, deputado aos 29 anos, ele é nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros duas décadas depois e representa Portugal na negociação do Tratado de Versalhes, em 1919. Moniz é um médico rico e influente. Um homem poderoso, com amplo prestígio social. Sua primeira cobaia é uma ex-prostituta melancólica de 63 anos que o neurologista consegue tirar, depois de muita insistência, do hospício de Bombarda, em Lisboa, dirigido por um antigo colega de universidade, José Sobral Cid (a escolha da paciente demonstra que o procedimento, desde o início, não é desprovido de uma dimensão moralizante). Auxiliado por Pedro Manuel de Almeida Lima, um jovem colega neurocirurgião, Moniz abre um buraco de cada lado do crânio da paciente. Nos dois orifícios ele injeta uma solução à base de álcool destinada a destruir as fibras brancas que ligam o lobo frontal, na parte anterior do cérebro, ao tálamo, localizado no centro. Moniz quer verificar a hipótese de que alterar as conexões entre o lobo frontal e o restante do cérebro dificultaria a integração das emoções, limitando assim a angústia, a frustração, a raiva ou qualquer outra manifestação negativa tradicionalmente associada à doença mental – experiências anteriores (voluntárias ou acidentais) haviam mostrado que lesões nessa área provocavam mudanças de comportamento.*

Ao despertar, a paciente apresenta sinais evidentes de desorientação, como a incapacidade de dizer sua idade, de identificar onde está, entre outras. Moniz conclui que houve um abrandamento de seu caráter, uma diminuição das crises, e declara o procedimento um sucesso. Seguem-se outras intervenções em uma variedade de pacientes com distúrbios mentais, inicialmente provenientes da unidade do dr. Cid, e, quando este interrompe sua colaboração, de outros hospitais: hipocondríacos, paranoicos, neurastênicos, esquizofrênicos... Cerca de vinte pacientes são submetidos aos experimentos do dr. Moniz. Depois de alguns meses, o neurologista inventa o leucótomo, uma espécie de estilete que ele manda fazer em uma fábrica parisiense.** Mais fácil de controlar do que a solução à base de álcool, ele permite seccionar diretamente as fibras desejadas, reduzindo o risco de atingir outras áreas do cérebro. 

Na época, os relatórios de Moniz estabelecem uma classificação dos resultados que será reproduzida na maioria dos artigos subsequentes sobre lobotomia, sejam eles portugueses, franceses ou americanos: os pacientes são considerados curados, melhorados ou inalterados. Em 1936, Moniz apresenta os primeiros resultados de sua técnica à Academia de Medicina de Paris e publica o relatório em uma obra intitulada Tentativas operatórias no tratamento de certas psicoses. A recepção é fria, para dizer o mínimo, e a proposta terapêutica de Moniz cai no esquecimento. Mesmo assim, o neurologista continua seu trabalho por vários anos, ignorando as críticas de muitos de seus pares. Entre 1935 e 1937, ele consegue que o dr. Almeida Lima realize, contra ventos e marés, cerca de cem leucotomias.

Em 1949, porém, catorze anos depois da primeira experiência de Moniz, a lobotomia vive seu apogeu na Europa e sua descoberta é coroada com o Prêmio Nobel de Medicina. Pouco antes disso, Moniz havia sido alvo de um ataque por um esquizofrênico armado, que o deixa em uma cadeira de rodas. Como explicar seu sucesso?



Um homem, do outro lado do Atlântico, ficou sabendo da invenção de Moniz. Convencido do potencial da prática, ele decide, a partir de 1936, dar continuidade às experimentações de seu homólogo português. Psiquiatra em Washington, sem habilitação para operar, Walter Freeman convence um jovem neurocirurgião, James Watts, a se juntar a ele. Watts, que trabalhara no laboratório onde foram feitas as experiências com Lucy, a chimpanzé que inspirou Moniz, aceita a proposta. Confirmada a colaboração, Freeman encomenda um leucótomo na França e a dupla inicia uma primeira série de operações. Os resultados registrados são semelhantes aos de Moniz, no qual um terço dos pacientes é considerado curado, um terço melhorado, um terço inalterado. Esses resultados se baseiam apenas nos sintomas psiquiátricos observados antes da operação, a partir de históricos médicos que nunca recuam mais que alguns meses.

Freeman toma a iniciativa de convidar a imprensa para a sala de cirurgia. Primeiro, jornais locais, como o Washington Evening Star, cujo famoso jornalista científico, Tom Henry, qualifica a lobotomia como uma das maiores inovações cirúrgicas desta geração. Em pouco tempo a notícia repercute na imprensa nacional. The New York Times, Life, Time Magazine, Saturday Evening Post: os grandes jornais americanos da época relatam a existência da prática em artigos descritivos, cautelosos e irônicos que logo se tornam extremamente elogiosos. No contexto da identificação das funções cerebrais e de sua localização nas diferentes zonas do cérebro, a lobotomia – e seu sucesso – demonstraria uma localização fisiológica precisa dos distúrbios mentais.*** Os males da mente não teriam mais segredos para os médicos do que os males do corpo. Os psicocirurgiões**** alcançariam o que os seus predecessores não haviam conseguido: curando a loucura com o bisturi, finalmente transformariam a psiquiatria em um campo capaz de ser integrado à medicina clínica. Ao mesmo tempo, e sem perceber a contradição, a imprensa celebra um milagre. A lobotomia resolveria o mistério da loucura tornando-o ainda mais obscuro.

Uma mulher era atormentada por vozes, vozes que a torturavam tanto que ela pediu ao médico que perfurasse seus tímpanos para deixar de ouvi-las. Vítima dessas alucinações, ela era incontrolável, comportava-se de maneira terrível e parecia um caso sem esperança de melhora. Foi operada há seis anos, e a transformação foi um milagre. Hoje, essa mulher é uma enfermeira encantadora, casou-se, teve até mesmo um filho e está completamente reabilitada, é socialmente atraente e tem uma personalidade aparentemente normal. É pouco provável que exista um caso de remissão tão completo e espetacular nos anais da doença mental. Resultados como esse tornam insustentável o antigo conceito da loucura como um misterioso mal da alma que só pode ceder ao tratamento psicológico.*****

A partir de 1941, os artigos sobre lobotomia vêm acompanhados de fotografias sensacionalistas tiradas pelo próprio Freeman antes, durante e depois da operação. Ele produz centenas de fotos que podemos supor mais ou menos encenadas: a paciente desfigurada, emaciada e desgrenhada antes da lobotomia aparece maquiada, penteada e sorridente depois. 

No primeiro livro completo que publica com Watts sobre o tema, Psicocirurgia, em 1942, Freeman constrói, por meio de fotografias – na linhagem de Charcot e de sua Iconografia fotográfica da Salpêtrière –, um fio argumentativo paralelo ao da trama teórica e científica composta, por sua vez, por diversos esquemas anatômicos e observações pré e pós-operatórias factuais. Com essas imagens, estaria Freeman tentando suprir a fragilidade clínica de suas observações, cujos resultados, geralmente descritos em linguagem comum, são incompatíveis com os critérios tradicionais de avaliação? Embora a falta de instrumentos de medição – uma carência específica da psiquiatria dentro da medicina – possa explicar seu uso da fotografia como prova, a natureza da demonstração de Freeman parece estar mais ligada ao público-alvo: suas encenações fotográficas visam sobretudo os leitores ávidos por notícias sensacionalistas (a contracapa de Psicocirurgia, escrita pelo próprio psiquiatra, aconselha: “Leia o último capítulo para descobrir como os preciosos lobos frontais, supostamente a parte mais nobre do ser humano, podem levá-lo à psicose e ao suicídio!”). Freeman entendeu que, para popularizar um procedimento que contraria tão profundamente o senso comum, as demonstrações científicas têm menos peso do que os mecanismos dos espetáculos. Ele entendeu que seu sucesso não depende da validação dos pares, mas do espanto da multidão.

As diferentes estratégias de comunicação de Freeman causam furor. Ele começa a receber, todos os dias, dezenas de cartas de pessoas que solicitam a operação para seus familiares ou que desejam se submeter à intervenção milagrosa. Além de realizarem o procedimento em estabelecimentos hospitalares, Freeman e Watts também recebem, em seu consultório em Washington, pessoas que não estão internadas em instituições psiquiátricas e que, em alguns casos, nunca estiveram. A maioria convive com distúrbios diários mais ou menos incômodos, para si mesmas ou para os outros: ciclotimia, medos, irritabilidade, limitações profissionais, limitações domésticas etc. Alguns, mais raros, solicitam uma lobotomia para resolver problemas que não têm a ver com a saúde mental, como o homem que escreve para saber se a lobotomia cura asma, ou outro que requer a operação para seu galgo, a fim de melhorar a concentração do animal durante as corridas. Com o apoio da imprensa e valendo-se de sua autoridade científica, Freeman conquista um público ávido por soluções milagrosas, totalmente alheio aos riscos enfrentados por aqueles que se submetem ao seu bisturi.

Mas Freeman não para por aí. Em 1946, ele dá seu toque pessoal ao procedimento de Egas Moniz, com nova dose de sensacionalismo: substitui o leucótomo por um picador de gelo, a anestesia por uma série de eletrochoques, e começa a realizar a operação passando diretamente pela cavidade ocular. Freeman faz os primeiros testes com um picador de gelo doméstico antes de mandar fazer um protótipo similar, mas sem a inscrição Ice and Fuel no cabo. Com essa técnica, ele se afasta da leucotomia, que exigia a participação de dois médicos experientes, equipamentos pesados, ambiente estéril e um tempo considerável de recuperação. O novo procedimento, renomeado lobotomia transorbital******, permite reduzir consideravelmente o protocolo cirúrgico. Enquanto a imprensa multiplica as comparações entre a lobotomia e intervenções cirúrgicas simples, Freeman cria um cenário condizente, afastando tudo o que poderia aproximar seu procedimento de um ato invasivo e perigoso.



A nova técnica tem duas vantagens. A primeira: Freeman, que não é cirurgião, agora pode realizar a lobotomia sem a presença de Watts e fora do ambiente cirúrgico (definido pelo uso de determinados equipamentos, assistência especializada e condições específicas de higiene), o que ele logo passa a fazer em seu consultório, onde atende pacientes que não precisam, ou ainda não precisam, de internação. A segunda: Freeman vê na lobotomia o único meio de desafogar os hospícios de uma população crescente de doentes cada vez menos assistidos. Como um pregador evangelista, ele se impõe a missão de ensinar a lobotomia em todos os estabelecimentos públicos de saúde mental do país. A bordo de seu motor home, apelidado de lobotomóvel, ele percorre os Estados Unidos para transmitir a boa prática. A técnica do picador de gelo facilita sua tarefa: a simplicidade do procedimento se adapta a estabelecimentos mal equipados e é de baixo custo para os pacientes (nessa segunda fase, Freeman realiza lobotomias em série por 25 dólares cada).

Freeman é um viajante. Um caubói nostálgico, que se tornou médico e pai de uma família numerosa, em plena década de 1940. Junto dos seis filhos, a cada verão ele percorre o território americano em seu motor home, parando para caminhar, acampar e pescar. Em 1946, uma dessas roadtrips acaba tirando a vida de seu filho Keen, de apenas 10 anos, levado pela correnteza de um rio. Nessa época, Freeman adota um estilo de vida cada vez mais nômade, no qual o prazer das caminhadas rivaliza com a diversão de enfiar um picador de gelo no olho de um paciente diante de um público de jovens cirurgiões nauseados. No veículo do psiquiatra, os equipamentos de camping se confundem com os instrumentos de cirurgia, os cabos dos eletrochoques, com as cordas das barracas, os mapas geográficos, com as radiografias. No meio desse conjunto heterogêneo, o picador de gelo gravado com as iniciais W. F. é uma síntese dos dois universos, o avesso e o direito de um mesmo e mórbido espírito aventureiro. Ele escreve:

6 de agosto. Lincoln, Nebraska. Entrevista com os pacientes. 8 lobotomias transorbitais. Jantar no clube da universidade. Discurso. 

7 de agosto. Lincoln, 6 horas da manhã. 254 km até St. Joseph, Missouri. Entrevista com os pacientes. 1 lobotomia transorbital. Jantar.

8 de agosto. Saída de St. Joseph às 4 horas da manhã. 408 km até Cherokee, Iowa. Entrevista com os pacientes. 25 lobotomias transorbitais. Conversa com as equipes de saúde. Jantar.

9 de agosto. Saída de Cherokee às 5 horas da manhã. 385 km até Independence, Iowa. Entrevista com os pacientes. 16 lobotomias. Conversa com as equipes de saúde. Jantar. O tempo passa rápido quando estou caçando cabeças.*******

A imprensa sensacionalista, o picador de gelo e o lobotomóvel participam do esforço contínuo de Freeman de tornar a lobotomia, em termos cognitivos, financeiros e afetivos, acessível e desejada pelo grande público. Ele abandona o jaleco de médico para construir uma persona mais semelhante à de feirante, montando sua barraca cirúrgica nas praças das pequenas cidades do país como um simples vendedor de sorvetes. Como quem se entrega aos truques de um mágico, pais, maridos e esposas oferecem o corpo de seus doentes à experimentação: os eletrochoques realizados antes da operação apagam qualquer lembrança, o consentimento do paciente não é necessário, o procedimento não leva nem uma hora... Vamos nessa! Depois a gente vê no que dá.

Na verdade, Freeman sempre demonstrou, mesmo dentro da comunidade médica, um gosto pela performance. Entre 1936 e 1946, ele apresenta anualmente, no Congresso da Associação Americana de Medicina, um verdadeiro espetáculo de psicocirurgia. Seu antigo colega James Watts conta que Freeman, como um bom vendedor ambulante, atraía a atenção do público com uma voz de pregador. Quando uma multidão suficientemente densa (e no entanto composta de cientistas) se reunia, ele dava início à arrebatadora história dos indivíduos que havia libertado de suas obsessões e ideias suicidas, com amplo recurso a fotografias, radiografias e esquemas cirúrgicos. Como um verdadeiro artista de circo, Freeman não hesita em exibir em sua barraca chimpanzés lobotomizados que realizam pequenos truques. 

O psiquiatra se revela um digno herdeiro dos medicine shows, espetáculos do século XIX em que renomados charlatães apresentavam medicamentos supostamente patenteados, energizantes, revigorantes, elixires do amor ou do prazer, capazes de curar as doenças do Oeste e do Leste, dos garimpeiros e das donas de casa entediadas, para multidões de curiosos arrebatados por suas diatribes. Os métodos de Freeman, fisgando famílias nas praças públicas e realizando lobotomias como simples truques de mágica, não são, portanto, uma invenção tardia: o espetáculo sempre foi parte indissociável de sua prática médica, desde o convite do primeiro jornalista à sala de cirurgia até as encenações teatrais da vida de seus pacientes em congressos. Mas, para que a lobotomia se tornasse uma prática de massa, foi necessário tirar o espetáculo do âmbito científico intimista e levá-lo às ruas. Alguns anos depois da recepção glacial aos primeiros resultados de Moniz, chega a hora da psicocirurgia quando, de uma invenção reservada a uma comunidade restrita, ela se torna um espetáculo popular, perturbador, mal-afamado, sedutor, como antes dela a guilhotina, o necrotério e o cinema.



Ninguém, fora dos Estados Unidos, se atreveria a praticar a lobotomia como Freeman, com essa mistura de convicção, ardor profundo em demonstrar o valor científico e econômico de sua técnica, e simplicidade, tanto no aparato material utilizado quanto na inconsequência que ele costuma demonstrar. Freeman exibe um temperamento impetuoso, agressivo, preferindo as soluções rápidas e eficazes do espetáculo à paciência e à distância crítica da ciência. Um dia, ele sai no meio da primeira operação de um jovem cirurgião a quem acabou de ensinar a técnica porque não quer perder seu avião. O jovem quebra o picador de gelo no olho do paciente, que perde a visão e processa Freeman.

Outro aspecto marcante da personalidade de Freeman, e no entanto menos conhecido, pode surpreender à primeira vista. Freeman também é um pesquisador em constante questionamento, com um rigor que chega a beirar a obsessão. Ao longo da vida, ele não deixa de acompanhar cada um dos indivíduos que operou, escrevendo, telefonando, aproveitando viagens para visitá-los. No caso de muitos deles, portanto, consegue avaliar as consequências da cirurgia no longo prazo. 

Como um verdadeiro detetive, ele mantém, para cada paciente operado, um dossiê espesso e numerado que documenta tanto a lobotomia em si (fotografias, radiografias, notas de observação) quanto todas as consequências observadas. Ele compõe uma estranha biblioteca, por assim dizer macabra, formada por depoimentos de pacientes em diferentes períodos e por fotografias de crânios entreabertos. Mas a contradição talvez não seja o melhor ângulo para se observar seu temperamento. Porque, vendedor ambulante ou pesquisador, Freeman demonstra o mesmo empenho em moldar a realidade à sua visão, não recuando diante de nenhum obstáculo, de nenhum fato divergente, mesmo que isso signifique ele próprio criar as provas necessárias para sustentar sua demonstração. 

Em seus artigos, em suas publicações, em sua correspondência, Freeman expõe sua concepção do ser humano com absoluta coerência. Não sem deslizes, não sem mudanças, mas, de ponta a ponta, com uma lógica implacável. Nenhum fato, nenhum rosto, nenhum dado resiste à máquina de significar de Freeman. Tudo é prova. Seu relato é o modo pelo qual a verdade existe.

Em um dos cadernos em que ele escreve diariamente e nos quais se misturam relatos da vida cotidiana e relatos operatórios, Freeman diz: “A definição de gênio que prefiro é a capacidade de colocar a carroça na frente dos bois… e fazer os dois correrem!” E, de fato, esse temperamento conquistará, ao longo de vinte anos, a adesão da psiquiatria americana. Entre 1936 e 1960, entre 20 mil e 40 mil lobotomias são realizadas nos Estados Unidos.

Freeman é o autor de apenas 10%, mas é diretamente responsável, como formador e ideólogo, por todas as outras. Pela popularidade que ele se empenha em conferir à lobotomia, em uma sociedade moderna sem respostas para o crescente sofrimento psicológico, eu diria até que Freeman é diretamente responsável por sua propagação, de outra forma incompreensível, na Europa e em grande parte do mundo, entre 1945 e 1960. Mas nenhum cirurgião, nem na Europa nem em outro lugar, se atreverá a praticar a psicocirurgia como Freeman. A lobotomia transorbital, em sua forma simples e não medicalizada, próxima do estereótipo gore, permanecerá restrita aos Estados Unidos. Na França, apenas um homem pode ser comparado a Freeman pela campanha itinerante que lançou para banalizar a lobotomia – Marcel David. Mas Marcel David é cirurgião, católico e militar, três características que, embora contribuam para normalizar o recurso à lobotomia, a despojam de seu caráter de entretenimento.

*

* O caso mais célebre é o de Phineas Gage, contramestre das ferrovias americanas. Em 1848, devido a um acidente de trabalho, seu crânio foi perfurado de lado a lado por uma barra de ferro com mais de 1 metro de comprimento. Ele sobreviveu e se tornou um caso clássico da neurologia. As notáveis mudanças que os neurologistas observaram em seu comportamento depois do acidente foram atribuídas aos danos sofridos em seu lobo frontal esquerdo. Ao demonstrar não apenas que é possível sobreviver à remoção de uma parte do cérebro, mas também que agir sobre o cérebro influencia o comportamento, o caso de Phineas Gage lança as bases para a invenção da lobotomia. 

** A leucotomia é o nome inventado por Moniz para seu procedimento, derivado dos termos gregos leuco, que significa “branco” (matéria branca), e temno, que significa “cortar”. Esse termo será frequentemente utilizado para designar a lobotomia nos artigos médicos subsequentes, sobretudo na Europa.

*** O primeiro a enunciar o princípio de uma localização cerebral das funções mentais, no início do século XIX, foi o neurologista alemão Franz Joseph Gall. Em vez de se basear em uma descrição interna do cérebro, Gall realiza uma tipologia das diferentes formas de crânios que manifestariam, segundo ele, o desenvolvimento desigual das zonas cerebrais. O caráter dos indivíduos, de acordo com Gall, poderia ser deduzido a partir dessa tipologia. Nascia a frenologia. A cartografia das zonas cerebrais propriamente dita teve início no começo da década de 1860 com Paul Broca, na França, e foi continuada por Carl Wernicke, na Polônia.

**** A psicocirurgia designa, em sentido amplo, todas as intervenções cirúrgicas voltadas para o tratamento da doença mental.

***** The attack on brainstorms, de George William Gray, publicado na Harper’s Magazine, nº 183, em setembro de 1941.

******Em referência ao lobo frontal. Ao renomear a operação, Freeman afirma sua independência frente ao legado de Moniz.

******* Walter Freeman em Head-and-shoulder hunting in the Americas: photographic follow-up studies in lobotomy (Caça de cabeças e ombros nas Américas: estudos fotográficos de acompanhamento em lobotomia), publicado no Medical Annals of the District of Columbia, v. 27, nº 7, 1958.


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É pesquisadora, escritora e chef de cozinha. Publicado na França em 2025, seu livro Meu nome verdadeiro é Elisabeth recebeu os prêmios Nouvel Obs, Essai France Télévision e Régine Deforges du Premier Roman