questões cinematográficas
Eduardo Escorel Mai 2026 08h46
6 min de leitura
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Para quem, como eu, não lembrava da desventura do “patriota do caminhão”, mais do que uma surpresa, foi um susto ver o braço de um homem (Márcio Vito) bater no parabrisa do caminhão que aparece trafegando por uma estrada no início de Eu não te ouço, de Caco Ciocler. Isso decorridos apenas cinco minutos do filme que estreou há uma semana, com uma sessão por dia, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador, estando marcado para dia 28 seu lançamento em Porto Alegre.
Eu não te ouço é inspirado, sem disfarces, no célebre meme do “patriota do caminhão” – imagem de um homem que tentou impedir que fosse furado o bloqueio de uma estrada feito por caminhoneiros, em novembro de 2022, na manifestação contrária à eleição de Lula para seu terceiro mandato presidencial. Ato político violento que pode ser considerado o prenúncio da baderna golpista de 8 de janeiro, em Brasília, no ano seguinte.
Além da motivação inicial para fazer Eu não te ouço ser vinculada a um evento real, nos 25 segundos da sequência de abertura são usadas imagens documentais do bloqueio das estradas – imensos caminhões engarrafados em fila tripla tendo à frente um carro da Polícia Rodoviária Federal, dois manifestantes de camiseta amarela em cima da carga, um deles segurando uma vara de bambu com uma bandeira do Brasil tremulando ao vento, fogueiras, longa fila de veículos engarrafados vistos do ponto de vista do inevitável e indefectível drone de sempre.
Apesar do forte elo com a realidade na origem e no início de Eu não te ouço, o propósito deliberado de Ciocler e dos corroteiristas Isabel Teixeira e Márcio Vito não só foi fazer um filme de ficção como também evitar o antagonismo radical que domina a cena política do país e deverá prevalecer na campanha eleitoral que se aproxima.
Além de estar expresso no título de maneira clara, o tema da incomunicabilidade está presente na citação enigmática de Esperando Godot, de Samuel Beckett, usada como epígrafe – “Estou indo. [Ele não se move]” –, conforme Bárbara Kruczyński explica no portal wannabenerd: “Embora estejamos constantemente em movimento físico, nosso avanço humano parece permanecer inerte. O absurdo do tempo em que vivemos, atravessado por ruídos, radicalizações e incomunicabilidade, impede que caminhemos verdadeiramente uns em direção aos outros, ou mesmo que consigamos nos escutar.”
Depois da epígrafe, com fundo que continua preto, o personagem do documentarista (Caco Ciocler) diz em voz off, dirigindo-se ao caminhoneiro ao volante (Márcio Vito): “Fica tranquilo. Nós só estamos aqui para bater um papo mesmo. Esquece que a gente está aqui.” A atuação brilhante de Vito, interpretando também o outro protagonista de Eu não te ouço, lhe valeu o prêmio de Melhor Ator na Mostra Novos Rumos do Festival do Rio de 2025.
Antes do susto que os desinformados sobre o meme do “patriota do caminhão” levam quando surge o homem pendurado no parabrisa, o caminhoneiro ao volante define sua posição política, em resposta ao documentarista:
“E você é de direita ou é de esquerda?”
Caminhoneiro: “Não. Eu sou da estrada. Não tem isso, não. Isso aí não interessa. Não tem que ficar pensando se ele é de direita ou é de esquerda. Isso é coisa... Isso aí eles que inventaram, aí. Isso é tudo... É eles e nós.”
A resposta, a julgar por uma entrevista de Ciocler ao programa Boa Noite 247 na semana do lançamento de Eu não te ouço, reflete o propósito deliberado do diretor de não fazer do protagonista, nem de seu alter ego, representantes de posturas ideológicas definidas:
É importante dizer que esse filme não é... eu nunca quis fazer um filme de oposição argumentativa entre esquerda e direita. Sabe? [...] Até porque esse caminhoneiro nem de longe é um representante da esquerda. Isso a gente deixa muito claro no filme e na realidade também […] O filme é sobre isso, assim, sobre uma cisão na sociedade. Eu ouso dizer que não é só no Brasil. Acho que é um fenômeno mundial. Uma cisão proposital... construída propositadamente, onde cada lado dessa cisão tem certeza que vive na realidade e tem certeza que o outro lado vive numa maluquice. Então, da mesma maneira que a gente acha que eles vivem numa maluquice […] eles acham que a gente vive numa maluquice [...] Então esse jogo de espelhamento é o mote do filme […] Eu quis fazer um filme sobre a falta de argumentos, sobre a falta de escuta, sobre a falta, sobre a projeção do que a gente acha que o outro está pensando, sobre a manutenção desse outro que nos ameaça. É bastante preocupante.
Dessa forma, Ciocler desidrata, de maneira deliberada, a gravidade política do bloqueio das estradas feito em novembro de 2022, origem da imagem viral do homem agarrado a um caminhão. Para ele, na mesma entrevista,
essa imagem icônica, esse meme, era uma tradução metafórica de um momento bastante emblemático que vivíamos e que na minha opinião continuamos a viver, que é essa impossibilidade de escuta, né? Ali existia um vidro, então era uma barreira física que impedia aqueles dois de se comunicar. Esse vidro era também um espelho, então cada um, na verdade, se comunicava com seu próprio reflexo.
A opção pela incomunicabilidade, tema em parte metafísico, no lugar do antagonismo político real, pode ser legítima, mas desfavorece Eu não te ouço. A substância do diálogo entre o caminhoneiro ao volante e seu alter ego não se sustenta, tornando o filme longo, apesar de durar apenas 70 minutos e alguns segundos. A situação em si do caminhão trafegando por muito tempo com um homem agarrado na frente acaba se tornando inverossímil, apesar da alta qualidade da fotografia de André Faccioli e de ser primorosa a realização técnica da gravação em estúdio.
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Manas, de Marianna Brennand, estreou sábado passado no Canal Brasil e foi reprisado no domingo, 17 de maio. Outras exibições estão programadas a partir desta quinta-feira (21) e na semana seguinte. Conforme Walter Lima Jr. escreveu em mensagem no WhatsApp, esse filme é “uma surpresa maravilhosa do nosso cinema com C maiúsculo…”. A meu ver, é o melhor entre os bons filmes brasileiros lançados no cinema em 2025.
No comentário sobre Manas publicado aqui em junho de 2025, reproduzi a declaração do júri que premiou o filme na Giornate Degli Autori, mostra paralela do Festival de Veneza: “Manas conquistou nossos corações ao abordar com cuidado e carinho o tema extremamente sensível e complexo do abuso… Esse filme se destacou na programação por sua confecção magistral, atuações brilhantes e mensagem forte que, acreditamos, repercutirá em muita gente ao redor do mundo, conscientizando e clamando por mudanças. Agradecemos a Marianna Brennand por tornar essas histórias visíveis e à Giornate degli Autori por dar-lhes um palco.”
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Reportagem do Intercept Brasil, assinada por Cecília Olliveira e publicada em 16 de maio, informa que “O filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, Dark Horse, foi rodado no Brasil pela produtora Go Up Entertainment Ltda. sem que nenhuma das obrigações legais exigidas pela Agência Nacional do Cinema, a Ancine, tenha sido cumprida. A empresa responsável pelo longa-metragem operou sem registro da produção, sem contratos apresentados, sem comprovação de vistos de trabalho para seu elenco majoritariamente estrangeiro e sem o pagamento de direitos trabalhistas devidos a parte da equipe brasileira. [...] Funcionários contratados no Brasil reclamaram de condições degradantes no set, de terem sido enganados quanto à verdadeira natureza do filme e até de agressão física, como relatou a Revista Fórum em dezembro de 2025.”