questões cinematográficas
Eduardo Escorel Mai 2026 08h32
4 min de leitura
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Em meio a guerras em terras distantes, desvarios grosseiros do presidente dos Estados Unidos e a derrubada pelo Congresso brasileiro do veto presidencial ao projeto que reduz as penas dos golpistas de 8 de janeiro, o lançamento, em 7 de maio, de Nino, primeiro filme escrito e dirigido por Pauline Loquès, sobressai por tratar de um tema grave com delicadeza e sensibilidade. A lamentar, apenas a infeliz versão do título adotada no Brasil – Nino de Sexta a Segunda, exemplo recorrente de desserviço prestado a produções estrangeiras, neste caso francesa. A tradução alongada – e desnecessária – faz referência à trama: durante três dias, depois de ser diagnosticado com câncer de laringe, Nino percorre Paris e, entre outras peripécias, comemora seu aniversário de 29 anos acompanhado da mãe, interpretada por Jeanne Balibar.
O fato de o título original ser apenas o nome do protagonista não é casual. Ele merecia ser preservado em respeito ao propósito deliberado da autora do roteiro de concentrar a trama em Nino, personagem memorável graças à atuação de Théodore Pellerin. Em entrevista ao site da Semana da Crítica, uma das mostras do Festival de Cannes, Loquès disse que Pellerin “é incrivelmente delicado, naturalmente modesto e verdadeiramente vulnerável, o que contrasta com sua aparência majestosa… ele é fascinante sem jamais tentar sê-lo.”
Para apreciar Nino devidamente, vale notar a sua elegante estrutura narrativa circular, tão ou mais importante do que saber de antemão que os 96 minutos de duração do filme acompanham a jornada do protagonista de sexta a segunda-feira. No primeiríssimo plano do prólogo, o próprio Nino soletra seu sobrenome (C-L-A-V-E-L) antes de receber o inesperado diagnóstico. Na sequência final, depois de ter confirmado na sala de espera do hospital que ele é Nino Clavel, a etiqueta de identificação em que seu nome completo está escrito é presa ao seu pulso direito, antes da primeira de seis sessões de quimioterapia, a serem seguidas de outras doze de radioterapia.
Naquela mesma entrevista, Loquès disse que “estava muito curiosa para explorar o que poderia acontecer nesse ‘tempo morto’ entre esses dois grandes eventos. Ainda há dias e noites para serem vividos, então como se atravessa esse período? Como se vive o ordinário em um momento extraordinário da vida?”
Trata-se, portanto, de acompanhar a formação de uma identidade, processo durante o qual o personagem vence sua perplexidade inicial e supera obstáculos que chegam a parecer intransponíveis. Aos poucos, Nino encontra em relações afetivas, com sua mãe, amigos e amigas, apoio e energia necessários para enfrentar o tratamento que a medicina recomenda.
Nas palavras de Loquès,
quando Nino recebe o diagnóstico, para ele é como se tudo parasse de repente, mas o ritmo da cidade não cessa, nem sua agitação. Isso o leva a lembrar que ele é apenas uma vida entre muitas, que os outros têm seus próprios problemas, grandes e pequenos, e que ele terá de seguir em frente e se virar. Se pudesse, acho que Nino teria passado aqueles três dias sozinho, debaixo das cobertas… Trancado fora de seu apartamento [por ter perdido sua chave e o zelador ter tido um enfarte], ele é forçado a vagar pela cidade onde não pode ficar sozinho. Para onde quer que vá, sempre haverá alguém a poucos metros de distância – para o bem ou para o mal.
Um encontro casual com sua ex-colega Lina (Estelle Meyer) acaba por proporcionar, através de uma babá eletrônica, prazer à distância a Nino. Há também um longo abraço em Sofian (William Lebghil), amigo que o aguardava na sala de espera do hospital pouco antes do início da quimioterapia. Esses parecem ser os passos decisivos do percurso para definir a identidade de Nino.
Loquès revela, em mais de uma entrevista, que sua própria experiência de vida está na origem do roteiro. Após a morte de um jovem querido, vítima de câncer, ela, sentindo-se “devastada pela tristeza e pela raiva”, recorreu “à escrita para recuperar a esperança”. O valor do filme deve resultar, ao menos em parte, da vitalidade dessa raíz.
Nino estreou na Semana da Crítica do Festival de Cannes, em 2025, ocasião em que Pellerin recebeu o Prêmio Rising Star (Estrela Ascendente) da Fundação Louis Roederer. No Festival de Varsóvia, o filme ganhou o Grande Prêmio. Participou, em seguida, de diversos outros festivais, entre eles o Toronto International Film Festival (TIFF) e o Festival do Rio. Em 2026, foi contemplado com dois César, prêmio da academia francesa de Artes e Técnicas do Cinema – Melhor Primeiro Filme, para a diretora Pauline Loquès e a produtora Sandra da Fonseca, e Melhor Ator Revelação para Théodore Pellerin.