questões cinematográficas
Eduardo Escorel 26 Ago 2026
6 min de leitura
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Demorei para assistir a A Odisseia, e a esta altura me parece ocioso comentar o filme dirigido por Christopher Nolan. Haverá ainda algo a dizer, passado pouco mais de um mês desde o lançamento no Brasil, nos Estados Unidos e nos demais mercados internacionais? Produzido por 250 milhões de dólares, com outros 125 milhões investidos em marketing e comercialização, talvez só falte mesmo reconhecer o óbvio – trata-se de um empreendimento industrial e artístico muito bem-sucedido. Em pouco tempo rendeu 1,4 bilhão de dólares no mercado global de salas, cobrindo o custo de produção e de lançamento, tendo se tornado lucrativo quando a receita de bilheteria ultrapassou entre 625 e 750 milhões de dólares.
Só no Brasil, A Odisseia rendeu, em seis semanas, a partir de 16 de julho, perto de 113 milhões de reais (cerca de 22 milhões de dólares) e teve mais de 4 milhões de espectadores.
Nolan, diretor britânico de prestígio reconhecido por filmes com narrativas complexas, escreveu o roteiro de A Odisseia baseado no célebre clássico da Grécia Antiga de título homônimo, incorporando eventos de A Ilíada, ambos atribuídos a Homero. Não foram medidos recursos e esforços para fazer um espetáculo grandioso, adequado para um espectro amplo de público de múltiplas nacionalidades.
Tamanha abrangência é condição necessária para entreter multidões em escala mundial, mas o corolário inevitável é combinar esquematismo e simplificação, evitando de forma deliberada aprofundar conflitos humanos mais complexos. O preço que o filme paga pela dimensão de seu êxito é ser superficial e conduzir a narrativa lançando mão de uma sucessão de diálogos explicativos, sem os quais teria dificuldade de ser compreendido.
Ao comentar o texto de A Odisseia atribuído a Homero, antes de ter assistido ao filme de Nolan, o ex-crítico de cinema da The New Yorker David Denby escreveu um longo artigo publicado na revista em 29 de junho, em que diz que Ulisses
nem sempre é um homem bom, conforme a moralidade atual. Como herói de cinema, ele se encaixa mal na cultura popular das últimas décadas, especialmente na dos blockbusters de multiplex [...]. Mocinhos contra vilões – essa é a base moral da moderna criação de mitos comerciais. Contudo, não era assim nas culturas mais antigas, e particularmente não na civilização grega do final da Idade do Bronze, que produziu as histórias de Troia e de suas consequências.
O desafio que Nolan enfrenta, segundo Denby, é o de
criar um herói para os cinemas que seja implacável e, por vezes, cruel. O público enfrenta o desafio ainda maior de aceitar um homem muito mais complexo do que qualquer super-herói dos últimos anos. O que se exige para adaptar A Odisseia com sucesso é um grande diretor e – como dizer isso de outro modo? – um público capaz de ser corajoso.
No texto atribuído a Homero, segundo Denby, à medida que Ulisses vence sucessivos obstáculos em sua jornada de volta para Ítaca, se fortalece no herói a convicção “da brutalidade do poder e os custos do heroísmo para quem serve aos seus imperativos”.
Fiando-me no comentário de Denby, por nem de longe conhecer Homero a ponto de poder levar em conta a tradução de Emily Wilson da qual Nolan partiu, hesito em concluir qual face de Ulisses é privilegiada no filme, a de “um homem que sofreu danos e age de forma estranha, ou um homem cuja violência é inseparável do antigo código de honra que faz dele um herói”. Para Denby,
por mais que se modernize a linguagem e a atitude, A Odisseia nunca pode ser transposta plenamente para o nosso mundo. Ela permanece distante de nós em sua insistência na hospitalidade como um imperativo moral absoluto e em sua crueldade extrema na guerra, na qual exércitos vitoriosos matam os homens derrotados e levam consigo mulheres e crianças. E, naturalmente, na literatura do Ocidente, A Ilíada e A Odisseia desfraldam o estandarte altivo da ordem patriarcal.
A marcha triunfal do filme A Odisseia não tomou conhecimento de Os ruminantes, de Tarsila Araújo e Marcelo Cordeiro de Mello, lançado em 6 de agosto. O documentário trata da tentativa frustrada, feita por Luiz Sergio Person e Jean-Claude Bernardet, em 1967, de adaptar o romance de José J. Veiga, publicado no ano anterior.
Em abril de 2025, comentei que Os ruminantes estava entre as preciosidades exibidas na mostra Clássicos do Festival É Tudo Verdade, e escrevi que “o documentário de Araújo e Mello nos confronta com as difíceis condições em que, muitas vezes, tentamos fazer cinema no Brasil”. Prova disso é ele ter chegado a apenas onze cidades no Brasil, e seu circuito ter sido reduzido para dez, na segunda semana, e a oito, na terceira. Segundo informação do distribuidor, cerca de 270 ingressos foram comprados na primeira semana e outros 61 no segundo fim de semana, tendo chegado apenas ao total de 497 espectadores na terceira semana.
A demora de mais de um ano para o filme ser lançado no circuito comercial, além do número irrisório de ingressos vendidos, falam por si – a média por sala na primeira semana foi de 24 pessoas, desproporção abismal em relação aos espectadores que foram ver A Odisseia.
E, no entanto, Os ruminantes, certamente tem valor para um público maior do que o que foi ao cinema assistir ao filme – ou devemos assumir que A Odisseia e Os ruminantes são incompatíveis? Person, preconizava, conforme trecho de uma entrevista incluída no documentário, que o cinema não podia ser “apenas um divertimento”:
Uma linguagem de interesse cinematográfico, linguagem essa que mistura o entretenimento que é uma função básica do cinema. Muita gente se esquece disso e quer fazer um tratado filosófico ou um tratado de estética também, esquecendo que o cinema é basicamente entretenimento [...] Agora, ele deve trazer essa condição de que não pode ser apenas um divertimento. Deve ser alguma coisa mais que entre na emoção, no sentimento ou no intelecto do espectador.
Conciliar entretenimento e “alguma coisa mais que entre na emoção, no sentimento ou no intelecto do espectador” foi um desafio para Person e continua sendo um obstáculo para quem faz cinema, inclusive Christopher Nolan.
Tomo a liberdade de fazer minhas algumas palavras do artigo de Dorrit Harazim, publicado no jornal O Globo do último domingo: “a cinebiografia Honestino está em cartaz nos cinemas do país, e é desalentador ver apenas três cidadãs idosas numa das sessões. Porque o filme e o caso dos desaparecidos deveriam estar nas televisões e em sessões grátis nas universidades. Porque já são duas gerações de brasileiros que podem ter esquecido. Porque dependemos da memória dos ainda vivos…”.
Honestino, de Aurélio Michiles, estreou em 13 de agosto, em 34 cinemas. Nos primeiros quatro dias teve 2.868 espectadores, segundo dados do portal Filme B. É mesmo pouco público, consideradas a qualidade do filme e a importância do tema. Na segunda semana em cartaz não está sequer entre os vinte filmes com maior público, donde se conclui ter sido visto por menos de 1547 espectadores de 20 a 23 de agosto.