questões cinematográficas

UM FILME EM TOM MENOR

As virtudes de Pequenas criaturas – e um adendo sobre A odisseia
Carlos (Caco Ciocler) e Helena (Carolina Dieckmmann), em cena gravada na Praça dos Três Poderes - Crédito: Divulgação
Carlos (Caco Ciocler) e Helena (Carolina Dieckmmann), em cena gravada na Praça dos Três Poderes - Crédito: Divulgação

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Premiado como Melhor Longa-Metragem de Ficção e Melhor Direção de Arte no Festival do Rio de 2025, Pequenas criaturas, escrito e dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, chega em 23 de julho aos cinemas de Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e outras capitais.

O título parece indicar que os personagens principais do filme são pessoas comuns – moram em Brasília no ano de 1986 e transitam diante da sede do Congresso Nacional, mas vivem alheias ao exercício do Poder Legislativo, assim como do Executivo, durante o segundo ano do governo José Sarney (1985-1990), que lançou o Plano Cruzado.

Até o final da última sequência do filme, quando há um feito extraordinário que ocorreu, de fato, em 1986, alguns pequenos eventos incomuns acontecem, mas não há grandes atos de heroísmo nem celebrações utópicas. O estilo da roteirista e diretora é outro – ela se propõe a narrar o cotidiano dos personagens em tom menor, sem excluir dramas pessoais, acidentes a remediar e conflitos a resolver no dia a dia de Helena (Carolina Dieckmmann) e seus dois filhos, o adolescente André (Théo Medon) e o ainda criança Dudu (Lorenzo Mello).

Uma das principais virtudes da narrativa de Pequenas criaturas é não ser, de modo geral, explícita, deixando por conta do espectador inferir o que não é mostrado nem dito, mas tão somente sugerido. Basta tomar como exemplo disso a primeira sequência do filme, na qual Helena deixa o marido, Luiz (Michel Melamed), no aeroporto de Brasília. Ele implora em voz off: “Helena, por favor.” Ela desconhece o pedido e diz apenas: “Luiz, você está atrasado.” O cigarro entre os dedos, a fumaça soprada e os olhos marejados de Helena deixam claro, porém, haver um turbilhão de emoções encobertas em jogo. O marido força um beijo de despedida na boca, sai do carro, o casal se olha pela janela sem dizer nada, e ele caminha em direção ao saguão do aeroporto. Depois de deixar cair o cigarro fumado pela metade, no momento em que vai dar partida, Helena vê um louva-a-deus no parabrisa, e um avião passa em altitude tão baixa que o plano se torna inverossímil – primeira das incursões discretas de Pequenas criaturas pelo fantástico.

Há “mais de 250 espécies” de insetos louva-a-deus no Brasil, sendo “possível encontrá-los em toda a região do Distrito Federal e arredores do Cerrado”, me informa um chat de inteligência artificial. E completa: “em várias culturas, avistar um louva-a-deus é considerado um sinal de boa sorte, prosperidade e proteção. Ele atua como um lembrete para a calma, a meditação e o autocontrole” – sendo possível supor, pois, que a inclusão de um louva-a-deus, visto por Helena na abertura de Pequenas criaturas, não é fortuita, como, aliás, é evidente.

A primeira sequência é um modelo perfeito de relato implícito com duração de apenas um minuto e dezesseis segundos. Embora não faltem outros exemplos equivalentes no filme, há também momentos em que o roteiro se torna menos sintético e procura esclarecer situações imprecisas, como ocorre no telefonema de Helena para o hotel onde Luiz está hospedado, quando uma voz feminina atende o ramal do quarto dele.

Em outra sequência, transcorrida a primeira metade de Pequenas criaturas, o diálogo se torna trivial ao servir de mero recurso transmissor de sentimentos da protagonista. A conversa de Helena e Carlos (Caco Ciocler) tem lugar quando os dois se afastam caminhando, após estarem sentados lado a lado em um banco, de frente para a sede do Supremo Tribunal Federal (STF), de costas para o Palácio do Planalto, e ao lado do Museu Histórico de Brasília:

Carlos: Há quanto tempo você mora aqui?

Helena: Há nove dias.

Carlos: Está gostando?

Helena: Não.

Carlos: É, é horrível, mas é bonito.

Helena: É triste também.

Carlos: Eu acho que tudo que é muito bonito é um pouco triste… É uma cidade futurista, né?

Helena: Nunca imaginei o futuro assim… Eu não sei o que fazer… Eu atropelei um cachorro. Sem querer. Parece que tudo que eu faço é sem quererJá reparou que quando a gente é jovem, a gente pensa no futuro o tempo todo. Aí chega um dia em que a gente para de pensar no futuro e passa a pensar no passado. Há muito tempo que eu não penso no futuro. 

Carlos: Sabe o que eu acho? A gente devia ir para um lugar mais feio. Está muito triste aqui

Pequenas criaturas termina com a comemoração do aniversário de 8 anos de Dudu no Cine Drive In de Brasília. O clímax final, para deslumbramento e felicidade do pequeno grupo reunido para a celebração, reproduz a chamada Noite Oficial dos OVNIs (Objetos Voadores Não Identificados), ocorrida em 1986 – “pontos luminosos e objetos sólidos começaram a ser vistos por pilotos e operadores de radar no Centro-Oeste e Sudeste. Em Brasília e região, os radares militares captaram o que foram classificados como alvos não identificados”, conforme se noticiou na época.

Além da premiada Direção de Arte, de Claudia Andrade, também se destacam as demais contribuições para a intensa beleza de Pequenas criaturas – como a decupagem, os enquadramentos e a fotografia de Pablo Baião. Tamanho requinte visual corre o risco de se sobrepor à simplicidade do que está sendo narrado? Essa ameaça remete à questão recorrente de saber se um filme pode ser bonito demais. Neste caso, um certo despojamento não teria sido preferível?

Cabe, por fim, um registro sobre a alta qualidade do elenco juvenil e infantil. Palmas para Théo Medon e Lorenzo Mello, realmente notáveis.

*

Estreia nesta quinta-feira, 16 de julho, A odisseia, de Christopher Nolan. Produzido com orçamento estimado em 250 milhões de dólares, prevê-se que ocupará a maioria dos cinemas do país. Tamanha desproporção de meios de produção, propaganda e difusão torna a competição com o filme de Nolan uma batalha perdida de antemão.


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Eduardo Escorel é cineasta. Dirigiu os documentários Antonio Candido, anotações finais, Imagens do Estado Novo 1937-45 e 1968 – Um ano na Vida, entre outros filmes