questões cinematográficas
Eduardo Escorel 09 Set 2026
4 min de leitura
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Apresentado como sendo um documentário, A fabulosa máquina do tempo, de Eliza Capai, foi lançado nos cinemas em 30 de julho. Antes, além de ter sido o filme de abertura da mostra Berlinale Generation no Festival de Berlim, em fevereiro, participou, em abril, da competição no É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários e recebeu prêmios em outros festivais no Brasil e no exterior.
O título do filme contém uma interessante ambiguidade relativa ao que costuma identificar um documentário – a ausência de encenações, por mais diluída que tenha sido a fronteira com narrativas ficcionais. Como uma máquina do tempo imaginária poderia ser a premissa de um documentário? Só mesmo sendo “fabulosa”, ou seja, “fictícia”, “maravilhosa” – algo inventado e, portanto, encenado.
Mesmo sem propor um debate semântico a esse respeito, vale comentar que, em A fabulosa máquina do tempo, Capai transita com desenvoltura entre documentário e ficção e poderia ter assumido estar fazendo um filme híbrido, sem privilegiar um dos dois gêneros dos quais lança mão, de fato, livremente. Preferiu, porém, não explicitar a origem do dispositivo que leva as protagonistas – um grupo de meninas – a fabular sobre o passado e o futuro, além de comentarem temas variados relacionados às suas experiências de vida – a diferença entre o homem e a mulher, ou entre o marido e o cachorro (“o marido é chato e o cachorro não é”, diz Manu), religião, medo de morrer etc. Conjunto de observações coloquiais do qual resulta uma visão de mundo que revela o tesouro oculto existente em cada uma das jovens personagens.
Quem são essas meninas? Onde e em que condições vivem? Seria natural que essas questões fossem esclarecidas no início ou ao longo do documentário híbrido. Em uma das primeiras sequências, as alunas respondem em coro e voz em off que estão em Guaribas, e uma aluna, também em off, esclarece que Guaribas é uma cidade. A referência mais clara, porém, é dada por Manu, pouco antes do final, depois de as meninas dizerem o que querem vir a ser e uma delas perguntar, em meio a uma encenação futurista, se o “futuro já existe”: “Oi gente, pra quem não me conhece, eu estou aqui no Rio de Janeiro. Eu não sou daqui, eu sou de Guaribas, Piauí, e eu já estou aqui há cinco anos, realizando meu sonho. Nunca tinha visto o mar e agora olha onde eu estou.”
Pouco adiante, após a última imagem, legendas informam:
Guaribas (PI) tinha um dos menores índices de desenvolvimento humano (IDH) do Brasil e taxa de analfabetismo de 59% quando se tornou a cidade piloto do Bolsa Família em 2003.
Este programa federal de transferência de renda para famílias em situação de pobreza é responsável por tirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU. Ele privilegia a entrega da renda para as mulheres, e uma das contrapartidas é que seus filhos estejam na escola.
Atualmente, mais de 98% das crianças e adolescentes de Guaribas estudam.
Todas as protagonistas deste filme recebem Bolsa Família.
Esse fecho introduz outra dubiedade no filme, por ter sido lançado dois meses antes da eleição presidencial. Embora o presidente Lula não seja mencionado no texto, é notório que o Bolsa Família não só foi oficialmente criado em seu primeiro mandato (2003-06), como é considerado a principal realização social do seu governo. Ter decidido fazer as gravações em Guaribas não foi, portanto, uma decisão inocente. Muito menos incluir as informações sobre o Bolsa Família e revelar que “todas as protagonistas” recebem os benefícios do programa. A consequência é fazer o que parecia um filme híbrido, ora documentário, ora ficcional, adquirir deliberado viés persuasivo, característico da propaganda política, tornando compreensível que o espectador possa se sentir fraudado.
A ironia cruel é o alcance restrito ao qual a maioria dos filmes brasileiros, documentários em especial, vem sendo condenada por antecipação.
Carreiras de sucesso em festivais, como a de A fabulosa máquina do tempo, não têm o dom per se de atrair público neste país, e o lançamento simultâneo em várias cidades com apenas uma sessão por dia é ilusório. Parte ponderável da produção acaba tendo acesso apenas ao que parece ser as sobras do mercado exibidor.
Lançado em doze cidades, sendo 3 das 14 salas em São Paulo, A fabulosa máquina do tempo teve 996 espectadores na primeira semana em cartaz. Na seguinte, mesmo com o circuito ampliado para dezoito salas, sendo três em São Paulo, duas em Recife e duas em Fortaleza, 489 ingressos foram comprados. A queda de frequência persistiu: 109 pessoas na terceira semana; 71 na quarta e 18 na quinta, completada em 2 de setembro. Os dados do Box Office Brasil do portal Filme B indicam que 1.683 pessoas assistiram ao filme em cinco semanas. Resultado previsível, mas ainda assim constrangedor, do qual nenhum de nós está livre, independente dos eventuais méritos ou deméritos dos nossos respectivos filmes.