questões cinematográficas
Eduardo Escorel 29 Jul 2026
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Há uma semana foi a vez de Luiz Carlos Barreto, aos 98 anos. Que lástima!
Barreto chegou a São Paulo um dia, em 1963, dirigindo sua camionete DKW azul. Nelson Pereira dos Santos estava com ele. No bagageiro traziam as latas com uma cópia de Garrincha, Alegria do Povo e outra de Vidas Secas para as primeiras sessões dos dois filmes na Paulicéia, promovidas pela Cinemateca Brasileira na sala do Museu de Arte Moderna, na Rua Sete de Abril.
No ano seguinte, por volta do dia 13 de março, Miguel Arraes, então governador de Pernambuco, depois de participar do comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, assistiu ao documentário Maioria Absoluta, de Leon Hirszman, na mesa de montagem instalada no primeiro andar da edícula da casa onde Barreto morava com a família, na Rua Dezenove de Fevereiro, 138, em Botafogo. Após a exibição, Arraes disse que achou o filme “muito radical!”.
Poucas semanas depois, em 1º de abril de 1964, tendo se recusado a renunciar, Arraes foi deposto e preso no Recife pelo Comando do Quarto Exército. No mesmo dia, no Rio, Barreto e Nelson foram ao Centro da cidade no DKW azul, em busca de informações sobre o que estava acontecendo no país. Deixaram o carro estacionado e seguiram a pé até a Agência Nacional (AN), na Avenida Presidente Wilson. Ao saírem do elevador no quinto andar, viram da janela um tanque vindo pela Avenida Beira-Mar e parando na confluência com a Avenida Rio Branco, com o canhão apontado para a Cinelândia. O então diretor da AN, o jornalista gaúcho Josué Guimarães, veio vindo pelo corredor à frente de um pequeno grupo de colaboradores e parou um instante para cumprimentar os visitantes inesperados, dando a entender que estava se retirando porque “estava tudo perdido”. Recomendou ao Barreto e ao Nelson que também fossem embora por medida de segurança. Inconformados, depois de descerem, os dois foram até a Rio Branco, onde viram soldados do Exército em frente ao Clube Militar e cercando o povo concentrado na Cinelândia. Restou a ambos voltarem cabisbaixos para casa – a ditadura teve início naquele dia e iria perdurar até 1985.
No ano seguinte ao golpe, além de ter sido um dos fundadores da Difilm, empresa distribuidora de filmes, Barreto coproduziu A Hora e a Vez de Augusto Matraga e O Padre e a Moça, do qual fui assistente de direção, além de ter feito a montagem a quatro mãos com Joaquim Pedro. De Terra em Transe, filmado em 1966, Barreto foi coprodutor e diretor de fotografia, enquanto a montagem ficou por minha conta com a participação intensa do Glauber.
Não sei o que terá levado Lucy, da produtora L.C.Barreto, empresa do marido e dela, a me convidar para dirigir um curta-metragem sobre Santos Dumont, em 1973, ano do centenário de nascimento do inventor. Afinal, além de ter acumulado até então alguma experiência como montador, eu apenas dirigira com Júlio Bressane um documentário sobre Maria Bethânia, mal recebido na época, e realizara um curta-metragem da Caravana Farkas sobre a romaria de Finados, em Juazeiro do Norte. Fazer um documentário produzido por encomenda da Televisão Educativa (TVE), em que Santos Dumont – Herói da Pátria e patrono da Força Aérea Brasileira – seria o personagem central era um desafio considerável naquele período de repressão intensa.
“O tema não poderia ser mais delicado”, meu pai chegou a me escrever em uma carta enviada de Copenhague. Prova disso é terem sido feitos cortes na narração quando o filme ficou pronto. Foram suprimidas as menções aos suicídios da mãe e do próprio Santos Dumont, além da referência ao fato de ele ter se tornado um pacifista quando seu invento foi usado como arma na Primeira Guerra Mundial.
No final de 1973, Barreto produziu e dirigiu dois curtas-metragens para servirem como pilotos de uma série sobre Pelé, que acabou desistindo de levar adiante. Em vez do projeto original, resolveu produzir um filme em parceria com a TV Globo, para ser lançado antes da Copa do Mundo de 1974. No longa-metragem que veio a se chamar Isto é Pelé, Barreto aparece nos créditos como coprodutor e supervisor-geral. Fui creditado como editor e um dos comontadores, o outro sendo Gilberto Santeiro. Os meses de montagem dedicados aos pilotos e, depois, ao longa-metragem foram um período de convivência intensa.
Nessa época, assistimos no cinema Caruso, em Copacabana, talvez na mesma sessão, a O Caso Mattei (1972), de Francesco Rosi. O filme nos revelou a trajetória do empresário italiano Enrico Mattei, que, no pós-Segunda Guerra, assegurou a existência da companhia petrolífera estatal da Itália. O protagonista revivido por Gian Maria Volonté me sugeriu o apelido de “Mattei”, que dei ao Barreto. Apelido carinhoso mantido para sempre, desde então, de uso privado entre nós.
No lançamento de Isto é Pelé, em maio de 1974, um mês antes da Copa do Mundo, foram vendidos mais de 1 milhão de ingressos, segundo informa a Cinemateca Brasileira – “cifra que o colocou como o segundo documentário mais visto até então em salas de cinema do país, em posição praticamente empatada com Brasil Bom de Bola, dirigido por Carlos Niemeyer (Canal 100 Filmes), em 1971”.
O mérito do resultado comercial de Isto é Pelé cabe, em primeiro lugar, ao próprio Pelé, assim como ao acervo do Canal 100 do qual pudemos lançar mão, além de ao futebol em si. Mas também, em alguma medida, aos realizadores do filme. De qualquer forma, foi o sucesso de Isto é Pelé que me animou a propor ao Barreto que ele produzisse a adaptação do romance Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, cujo roteiro eu vinha escrevendo em parceria com Eduardo Coutinho havia algum tempo. Bem acolhido por Barreto e Lucy, o projeto foi encaminhado pela produtora L.C.Barreto à Embrafilme, com o título Lição de Amor, para obter os recursos necessários à produção. Assim, pude dirigir meu primeiro longa-metragem de ficção, filmado em Petrópolis, no início de 1975. Lançado comercialmente em maio do ano seguinte, o público total superou 600 mil pessoas. Resultado honroso na época, mas acanhado diante dos mais de 10 milhões de espectadores que Dona Flor e seus Dois Maridos, dirigido por Bruno Barreto (filho de Luiz Carlos e Lucy), acumulou a partir de 1976.
Barreto pai acalentara durante anos a intenção de adaptar para o cinema o romance de Jorge Amado que havia sido um imenso sucesso ao ser publicado em 1966. O longo processo de maturação do projeto comprovou o afiado tino comercial do produtor, que persistiu até chegar à equação ideal em termos de produção, roteiro e direção, além das demais contribuições que forjaram o êxito estrondoso do filme.
Estas linhas tomaram um rumo imprevisto. Espero que sirvam ao menos como testemunho de minha gratidão ao Mattei pela oportunidade que me deu de passar a dirigir filmes de maior porte a partir de 1975.
Nesta quarta-feira, 29 de julho, será celebrada a missa de sétimo dia em memória do Barreto. Ritos como esse me parecem cada vez mais frágeis diante do impacto das perdas. A constatação feita por Antonio Candido em um de seus cadernos de anotações é inequívoca: “O lento e incessante despovoamento do mundo a que pertencemos começa de repente a se acelerar.” Aos sobreviventes resta assegurar a memória dos que se foram e prosseguir.