questões cinematográficas

TEMPO DE INCERTEZA

Cinco tipos de medo e o Brasil de 2026
O violinista Murilo, interpretado no filme por João Vitor Silva - Crédito: Druzina Content
O violinista Murilo, interpretado no filme por João Vitor Silva - Crédito: Druzina Content

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A dez dias do primeiro turno da eleição presidencial, vivemos um tempo de incerteza. Sensação que veio causando angústia crescente à medida que dois dos candidatos foram se aproximando do empate técnico em que se encontram agora nas previsões para o segundo turno. A um mês da votação decisiva, inquieta a possibilidade de 01, filho mais velho do ex-presidente que é uma nulidade intelectual de direita vir a ser eleito presidente da República.

Angústia é antessala do medo que tem se manifestado de formas variadas, tanto no ápice da desmoralização do Supremo Tribunal Federal atingido na recente sessão de 15 de setembro, na qual em meio ao bate-boca dos senhores ministros foi decidido não decidir nada, quanto no episódio de violência desabrida em que Cláudio Landeiro Moreira, de 37 anos, saiu para dar uma volta de bicicleta e foi assassinado na noite de 12 de agosto, em uma calçada de Copacabana, a cacetadas, socos e chutes, por seguranças particulares, entregadores de aplicativo e um motorista que passava pelo local.

Em horas como essa vale lembrar o célebre testemunho de Antonio Candido, publicado primeiro n’O Estado de S.Paulo, em 1943, em pleno Estado Novo, durante a Segunda Guerra Mundial, e dois anos depois no livro Plataforma da Nova Geração: “ [...] eis que o tempo é de inquietude e de melancolia; de entusiasmos nervosos que se gastam por nada; de desesperos bruscos que quebram uma vida.”

Caso lhe perguntassem “qual poderia ser [...] um rumo a seguir pela mocidade intelectual no terreno das ideias”, Antonio Candido diz, no livro, que responderia, “sem hesitar, que a nossa tarefa máxima deveria ser o combate a todas as formas de pensamento reacionário”. E antes de concluir seu depoimento indicando o “problema sério” existente para sua geração, traça o perfil dos conservadores: “Nos domínios da inteligência, [...] a Reação assume os aspectos mais díspares e mais cavilosos. Se insinua por todo canto. E, num trabalho monumental de obstrução – tanto mais monumental quanto exercido inconscientemente por muitos intelectuais – breca em todas as curvas a expansão do progresso humano e da inteligência livre.”

Antonio Candido explica:

Porque há para todos nós um problema sério, tão sério que nos leva às vezes a procurar meio afoitamente uma “solução”: a buscar uma regra de conduta, custe o que custar. Este problema é o do medo. Do medo que nos toma a todos de estarmos sendo inferiores à nossa tarefa; ou de não conseguirmos fazer algo de definitivamente útil para o nosso tempo, como, de um modo ou de outro, fizeram os rapazes de Vinte. Você tem algum critério para afastar esse medo? Eu não posso bem dizer que tenha, mas confesso que esse combate a todas as formas de Reação, que eu apenas sugeri, nos ajudaria muito a ficar livres dele. E a podermos dormir em paz.



Carlos Drummond de Andrade publicou o poema O Medo, dedicado a Antonio Candido, em A Rosa do Povo, no mesmo ano de 1945. Como epígrafe, citou duas frases do depoimento de Antonio Candido em Plataforma da Nova Geração: “Porque há para todos nós um problema sério... Este problema é o do medo.”

Guardadas as devidas diferenças entre épocas separadas por oito décadas, estamos correndo o risco na atualidade de sermos dominados pelo temor do que poderá ocorrer na votação de 25 de outubro e a partir da posse de um novo presidente.

Ao assistir há apenas uma semana a Cinco tipos de medo, filme lançado em abril, chamou minha atenção, em especial, além dos seus numerosos e inegáveis méritos, o tratamento dado ao tema do medo pelo roteirista, diretor e montador Bruno Bini, ainda mais por ser “inspirado em histórias reais”, conforme uma legenda informa.

Creio ser do violinista Murilo (João Vitor Silva) a voz em off que descreve na abertura do filme a reação física ao medo e enumera os cinco “maiores medos do homem”, referidos no título: de médico, lugar fechado, solidão, falta de dinheiro e de morrer. Para terminar o minuto e meio dessa primeira sequência, Murilo questiona a ordem dos maiores medos indicada por uma reportagem porque, naquele momento, um tiroteio estilhaça o vidro da janela acima dele e seu maior medo é mesmo o de morrer.

Pouco depois, na porta do hospital, ao se despedir de Murilo, a auxiliar de enfermagem Marlene (Bella Campos) lhe dá de lembrança um pingente com uma imagem religiosa e diz: “Para sua proteção. Minha avó que faz. São Jorge vai cuidar de você. Você não precisa ter medo de mais nada.”

Adiante, quando Murilo insiste para Marlene explicar qual é o seu “problema”, ela responde: “Quer saber o quê, Murilo? Que ele é um traficante? Que ele mata gente, que ninguém consegue falar não pra ele? É isso que você quer saber? Eu tenho medo. Eu não queria ter medo, mas eu tenho…”

E no final de Cinco tipos de medo, a pedido do advogado Ivan (Rui Ricardo Diaz), Luciana (Bárbara Colen), capitã do Bope de Mato Grosso, canta para a bebê recém-nascida que está na incubadora. A música que causa uma reação saudável na menina é Coração, de Gonzaguinha:

Coração, abre essa porta/ E pouco importa se é p’ra sofrer/ Deixa entrar a vida/ Vale mais é viver/ [...] Coração, não tenha medo/ Pela porta aberta vai entrar a vida/ Com tudo a que ela tem direito e você também.

Fica delineado assim um fio condutor da narrativa de Cinco tipos de medo, que, em face da incerteza predominante entre nós, assegura sua atualidade, resultante da regressão política que poderá ocorrer na próxima eleição.

A carreira de Cinco tipos de medo em festivais teve início em agosto de 2025, quando recebeu, em Gramado, os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem e Melhor Ator Coadjuvante. O filme foi exibido depois na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e em Havana, Manchester, Paris, Barcelona e Chicago. Neste mês de setembro, foi premiado no Inffinito Brazilian Film Festival, em Miami, onde recebeu quatro troféus Lente de Cristal: Melhor Filme, Direção, Roteiro e Júri Popular.

Com esse perfil, quando foi lançado no Brasil em abril deste ano, em 337 salas de mais de cem cidades, pode-se presumir que havia justificada expectativa favorável quanto ao resultado de bilheteria. No entanto, o resultado foi muito aquém do esperado, reafirmando de maneira clara o impasse que filmes brasileiros vêm enfrentando no mercado exibidor. Os números falam por si: na primeira semana, em 337 salas, 14.742 ingressos foram vendidos. Média sofrível de 44 espectadores por sala. Na semana seguinte, em 113 salas, 1.817 ingressos. Média de 16 espectadores por sala. Na terceira semana, 24 salas e 464 ingressos. Média de 19 pessoas por sala. Na quarta semana, 6 salas, 191 ingressos. Média de 32 por sala. E o número de salas e espectadores foi diminuindo semana a semana até chegar a apenas duas salas e 7 ingressos vendidos na décima semana completada em 24 de junho (dados do Box Office Brasil do Portal Filme B).

A que atribuir tamanha derrocada? À estrutura narrativa complexa, que lembra filmes de Christopher Nolan? À violência realista que remete a Cidade de Deus? Se essas forem, entre outras, algumas das razões do fracasso comercial, Cinco tipos de medo parece ter sido vítima de seus próprios méritos.

No Brasil, Cinco tipos de medo está disponível no catálogo do Telecine, acessível pela Globoplay e pelo Prime Video.


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Eduardo Escorel é cineasta. Dirigiu os documentários Antonio Candido, anotações finais, Imagens do Estado Novo 1937-45 e 1968 – Um ano na Vida, entre outros filmes