questões cinematográficas

UMA LONGA MARCHA

As escolhas arrojadas do documentário Não haverá mais história sem nós
O filme se apresenta como um manifesto “contra o apagamento histórico e a perspectiva colonial que, há séculos, constrói a Amazônia como território vazio, selvagem e disponível à exploração” - Crédito: Divulgação
O filme se apresenta como um manifesto “contra o apagamento histórico e a perspectiva colonial que, há séculos, constrói a Amazônia como território vazio, selvagem e disponível à exploração” - Crédito: Divulgação

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Antes de ter chegado no mês passado a algumas salas de cinema em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Maceió, Não haverá mais história sem nós cumpriu longa marcha, iniciada na Indonésia, em junho de 2024, no Bali International Film Festival (Balinale), onde recebeu o prêmio de melhor documentário de longa-metragem. Na semana seguinte, chegou à Cidade de Goiás, no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), onde voltou a ser premiado como melhor filme de longa-metragem. Nesse percurso em busca de difusão pública, passou depois por Salvador e Belém, onde houve sessões especiais de pré-estreia.

Em 2024, dias antes da exibição no Fica, Priscilla Brasil, diretora do filme e responsável também pelo roteiro, em parceria com Raphael Uchôa, além da fotografia, som, edição e produção executiva, me escreveu dizendo: o documentário “não é uma obra muito convencional – é todo narrado, um tanto didático e tem o formato de um manifesto. É bastante político, pois, no antropoceno, não me parece que tenhamos muitas outras opções. Tenho refletido muito sobre a função dos filmes neste fim de mundo. É algo que gostaria muito de debater contigo no futuro”.

Acabei assistindo a Não haverá mais história sem nós passados mais de dois anos dessa mensagem. Não dei a atenção devida ao documentário, por não ter entendido na época o sentido e as implicações do uso da expressão “antropoceno” que, conforme aprendi depois, se refere à época geológica na qual “as atividades humanas começaram a ter um impacto global significativo sobre a terra. Até os mais céticos [...] aceitam que mudanças têm ocorrido de fato, desde a frequência maior de desastres naturais quanto ao aumento médio da temperatura no planeta”, nas palavras de uma reportagem da GloboNews. Tampouco chegamos a discutir “a função dos filmes neste fim de mundo”, conforme Priscilla havia sugerido na mensagem.

Quando, há uns dez dias, finalmente assisti ao filme, minha primeira reação foi achar graça ao ler no primeiro minuto, depois dos créditos de abertura, três legendas em letras brancas sobre fundo preto: “Este documentário não é entretenimento”; “Este filme é um manifesto” e “Este filme é feito por amazônidas para amazônidas”.

Por não ser amazônida, tive ímpeto de interromper a projeção e ir cuidar da vida, mas me contive. Pode ser discutível definir de saída, em termos inequívocos, o propósito de um filme que irá se desenrolar a seguir – o que as duas primeiras legendas fazem com precisão. Por outro lado, começar o documentário assim não deixa de ser uma benfazeja ousadia.

Na sequência de abertura fica claro o deliberado viés pedagógico de Não haverá mais história sem nós, que torna o documentário um manifesto “contra o apagamento histórico e a perspectiva colonial que, há séculos, constrói a Amazônia como território vazio, selvagem e disponível à exploração”, conforme a diretora declara no press release.

Narrado do início ao fim por voz em off masculina, o filme pretende transmitir a lição controversa segundo a qual é preciso romper a tradição da Amazônia de ser descrita, pesquisada, estudada, analisada etc. por não amazônidas. Projeto meritório, mas que em parte corre o risco de suscitar medidas discriminatórias em prejuízo de contribuições relevantes feitas por não amazônidas que dominam vários tipos de saberes, essenciais para a prosperidade da região e o bem-estar de seus habitantes.

A sequência de abertura e, em seguida, o prólogo, são uma aula audiovisual, um tanto tediosa, que remonta aos séculos XVIII e XIX, com direito a referências e citações de Richard Strauss, Friedrich Nietzsche, Richard Wagner, Arthur de Gobineau, Johann Friedrich Blumenbach, na tentativa de explicar qual era o pensamento que “domina as mentes dos viajantes e dos reis… quando a Europa invade as Américas, a África e a Ásia”, conforme diz o narrador.

Em Munique, cidade alemã capital da Bavária, dois amazônidas – Priscilla e Raphael Uchôa – enfrentam “o desafio da viagem inversa”, ou seja, a tentativa de encontrar “vestígios do que foi recolhido e escrito sobre nós” pelos viajantes, “em busca de entender como esses materiais que eles recolheram construíram a imagem da Amazônia através dos tempos, para a Europa e para o Mundo”. A dupla de pesquisadores e roteiristas descobrem, no entanto, que “a maioria dos acervos não está disponível” para eles nos museus.

Aos 16’24”, depois de Uchôa propor que não levem em consideração nem a crítica ao projeto feita por e-mail “pelo cara lá, americano”, muito menos a recomendação de que o projeto tenha um consultor, tem início A Invenção do Brasil – Uma história recontada por nós, sequência seguida das demais: Belém – Europeus encontram degeneração, Notícias da América – Um outro cinema é impossível, Museus – Decolonização é uma farsa, Mestiços – O desafio civilizacional de uma ciência racista, Cultura – O outro é sempre primitivo e impuro, Amazonas – Somos nada menos que humanos, que formam, em cerca de 54’36”, o cerne de Não haverá mais história sem nós. 

Para completar há o Epílogo – Precisamos nos apropriar da palavra e a legenda final: “Chega de história sem nós.” 

Um plano lindo, inspirado e representativo do documentário como um todo, surge junto com a frase final do trecho reproduzido a seguir do longo texto em off de encerramento:

... Se perpetua a imagem da Amazônia como desprovida de sujeitos e saberes complexos, desprovida de história. O dito uso racional da floresta está pautado numa única racionalidade: a ocidental. Trata-se do mesmo sistema de pensamento que nos trouxe até aqui, à beira da extinção. As únicas alternativas a esse quadro vêm dos saberes ancestrais das populações que durante todos esses anos foram escravizadas, sequestradas, saqueadas e violentadas em nome de projetos civilizatórios e nacionais. Esses mesmos povos que foram roubados, saqueados e sequestrados por [Carl von] Martius e Therese [princesa da Baviera], os mesmos cujas memórias materiais estão e permanecerão sequestradas e encaixotadas nos porões dos museus europeus. Como dizia Chico Mendes, ‘não há defesa da floresta sem os vários povos que habitam essa floresta’. Também não haverá mais história da floresta sem nós, amazônidas. Recontar a própria história é tomar a palavra e o rumo próprio para sempre.

Depois de “…sem nós, amazônidas”, a imagem é uma estrada de terra, à noite, iluminada apenas pelos faróis de um carro. Mal se percebe a traseira do caminhão que segue à frente, mergulhado no breu ao redor. Depois de “…rumo próprio…”, faróis altos do carro iluminam melhor o caminhão e permitem ver com clareza troncos de árvores sendo transportados.

Registre-se que a trilha musical do Epílogo é de Heitor Villa-Lobos, um não amazônida, nascido no Rio de Janeiro.

Quanto ao debate mencionado por Priscilla Brasil sobre “a função dos filmes neste fim de mundo”, o tema é ingrato, mas espero que tenhamos logo uma oportunidade para tratar dele.


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Eduardo Escorel é cineasta. Dirigiu os documentários Antonio Candido, anotações finais, Imagens do Estado Novo 1937-45 e 1968 – Um ano na Vida, entre outros filmes