questões cinematográficas
Eduardo Escorel 21 Out 2026
4 min de leitura
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Ao terminar a projeção de Naza na 83ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, em 10 de setembro, a plateia aplaudiu o filme de pé durante cerca de 24 minutos – uma das consagrações mais longas da história da Mostra. Tamanha euforia atesta a sintonia total que houve naquela sessão entre o filme e o público. Resta saber se a empatia resultou tanto do valor cinematográfico do documentário quanto da perspectiva adotada pela dupla de realizadores, Yuval Abraham e Rachel Szor, ao tratarem das operações militares de Israel em reação ao ataque de militantes do Hamas em 7 de outubro de 2023, dia em que houve estimadas 1.200 mortes e captura de 250 reféns, a maioria deles israelenses, mas também alguns de outras nacionalidades.
Dois dias depois da apoteose em Veneza, Naza, único documentário exibido em competição na Mostra, recebeu o Prêmio Especial do Júri.
Algum aspecto do filme terá prevalecido sobre os demais na recepção dada pelos espectadores e o júri da Mostra? Qual terá sido? A forma narrativa ou os fatos em si, revelados por 24 militares anônimos, integrantes do setor de inteligência israelense? Suas entrevistas noturnas, gravadas nos telhados de edifícios em Tel Aviv, com a cidade ao fundo, enquanto a vida cotidiana dos moradores parece seguir seu curso habitual, revelam a prática corriqueira de causar “danos colaterais” (os chamados naza, sigla de nezek agavi) para matar integrantes do Hamas.
Em entrevista ao The Guardian, Abraham admite não ter “resposta clara [para explicar] por que tantas pessoas participaram” da morte de dezenas de milhares de civis. “E por que tão poucas – na verdade, não conheço ninguém” –, ele diz, “se recusaram a fazê-lo quando tudo acontecia. É assustador o que isso revela sobre o Estado de Israel. Quando se fala em genocídio, muitas vezes descreve-se algo que se espalha pela sociedade, uma atmosfera geral que normaliza a morte. Quando todos ao redor estão fazendo o mesmo, fica mais fácil não fazer perguntas.” Conforme diz um dos entrevistados do filme, chegou-se a autorizar a morte de quinhentos civis para matar um membro do Hamas.
Para Lindsay Poulton, chefe do setor de documentários do The Guardian e produtor de Naza, o recente prêmio em Veneza foi um “testemunho do poder da narrativa cinematográfica baseada em jornalismo independente e destemido [...]. Esperamos que esse filme traga atenção renovada ao que está acontecendo em Gaza.”
A partir daí, o êxito de Naza foi realçado mais ainda por outros dois fatores, tão imprevistos quanto marcantes. Ao estrear em alguns dos mais de cinquenta países nos quais o lançamento estava previsto, o documentário teve sucesso de bilheteria. Por outro lado, passou a ser criticado com violência por Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Netanyahu exigiu que as autoridades competentes agissem “com urgência para descobrir a identidade de todos os envolvidos ou que aparecem no filme difamatório”.
Ao estrear na Itália, supõe-se que por influência da acolhida da plateia e do prêmio em Veneza, Naza “superou 3 milhões de euros na bilheteria em pouquíssimas semanas [...], recorde para um documentário”, segundo o Corriere Della Sera. Nos Estados Unidos e no Canadá, na segunda semana em cartaz, o documentário passou a ser exibido em 85 salas e já rendeu mais de 800 mil dólares, enquanto ultrapassou, no mercado internacional, receita de 6,1 milhões de dólares.
Já no Brasil, depois de estrear, em 24 de setembro, em 8 salas de 7 cidades, Naza passou, na segunda semana, a ocupar 23 salas de 8 cidades e se manteve no mesmo número de salas e cidades de 8 a 14 de outubro. No entanto, apenas 5.700 pessoas assistiram ao documentário nesse período, segundo dados do Box Office Brasil do portal Filme B. Como entender essa performance de bilheteria tão fraca? Atenções voltadas para a campanha eleitoral e o Festival do Rio, este de 1º a 11 de outubro, terão sido prejudiciais?
É provável, mas quaisquer que tenham sido os motivos, o que o fracasso parece reafirmar é o grau de distorção atingido pelo mercado exibidor brasileiro, no qual não há lugar nem para um documentário premiado e bem-sucedido comercialmente que trata de tema relevante da atualidade – mesmo depois da assinatura de um cessar-fogo, em outubro de 2025, Israel continua a alvejar palestinos na Faixa de Gaza, sejam ou não militantes do Hamas. Já são 74 mil palestinos mortos, sendo mais de 1.400 deles depois do cessar-fogo. Quem sabe a responsabilidade pela falta de público para assistir a Naza seja de haver entre nós certa indiferença em relação ao contexto político internacional?
Abraham e Szor ganharam um Oscar por seu documentário anterior, Sem chão (2024), que trata da resistência palestina na Cisjordânia ocupada e foi exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. “Sem chão documentou crimes horríveis”, disse Abraham na mesma entrevista ao The Guardian. “Mas, ao mesmo tempo, ofereceu às pessoas... não quero dizer esperança, mas uma espécie de luz à qual se agarrar. Não é por acaso que este filme [Naza] se passa inteiramente na escuridão. Estamos vivendo um momento muito sombrio.”
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Até 25 de outubro, Anatomia do Caos, dirigido por Dandara Ferreira, comentado aqui em 1º de julho, estará disponível gratuitamente e na íntegra no YouTube. O link é este. Dedicado “à memória de todos os brasileiros que morreram na pandemia”, o documentário continua atual.