questões cinematográficas
Eduardo Escorel 01 Jul 2026
4 min de leitura
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Restando três meses até o primeiro turno da eleição presidencial, em 4 de outubro, não poderia ser mais oportuno o lançamento de Anatomia do caos nos cinemas, nesta quinta-feira (2), e os debates a serem realizados em várias cidades, nos dias seguintes, “sobre democracia e os impactos da pandemia no Brasil”, conforme vêm sendo anunciados.
O documentário de Dandara Ferreira é dedicado “à memória de todos os brasileiros que morreram na pandemia”. Resgata a trajetória da CPI do Senado que investigou, de abril a outubro de 2021, a atuação do governo federal no enfrentamento à Covid. Mais de 700 mil pessoas morreram por causa do vírus no Brasil. Para tanto, Ferreira recorre, em grande parte, a gravações de arquivo feitas por inúmeras emissoras de televisão, fotógrafos, cineastas e um operador de drone.
O presidente da República, na época, era Jair Bolsonaro, acusado sem meias palavras em Anatomia do caos, pelo professor e epidemiologista Pedro Hallal, de ser responsável direto por “um pedaço dessas mortes”. Atualmente, Bolsonaro está em prisão domiciliar, condenado pelo STF a 27 anos de reclusão por liderar a trama golpista que pretendia impedir a posse de Lula. O ex-presidente é pai de Flávio, atual candidato à Presidência que tem cerca de 43% das intenções de voto em um eventual segundo turno, de acordo com a pesquisa DataFolha divulgada em 20 de junho. Daí a inegável atualidade de Anatomia do caos.
Pai e filho, um como presidente da República, o outro no exercício de seu mandato de senador, têm participação desigual no documentário. Jair, no papel de eterno bufão arrogante, faz as suas habituais declarações absurdas e grosseiras, provas de ignorância que atestam seu despreparo para o cargo que ocupava. Flávio, por sua vez, figura apagada, pouco articulado, por vezes agressivo, demonstra ser incapaz de cumprir sequer o papel secundário de fiel escudeiro do pai.
Um dos méritos a se destacar em Anatomia do caos, portanto, é o de mostrar a devastadora imagem do então presidente, ao qual o senador Renan Calheiros se refere, quando apresenta o relatório da CPI da Covid, como “um homicida homiziado no Palácio do Planalto”. Isso no momento em que as mortes pela Covid haviam passado de 600 mil.
Além de rememorar, semanas antes do início da próxima campanha eleitoral, a gestão criminosa do chefe do clã Bolsonaro na Presidência da República, Anatomia do caos cumpre a nobre função de relembrar a tentativa da CPI da Pandemia de preservar a memória, ratificar a verdade e assegurar reparação, conforme uma voz feminina não identificada declara em off nos minutos iniciais do documentário.
Espaços vazios no Senado são contrapostos ao longo de Anatomia do caos, de modo sistemático, a corredores e salas movimentadas. O recurso de montagem sugere a intenção de assinalar, em retrospecto, ceticismo em relação ao efeito prático de algumas das recomendações da CPI. À medida que o relato avança, com a progressão do número de mortes, mais do que as atividades agitadas do dia a dia, o que predomina é a melancolia, resultante talvez da premonição de que as conclusões da comissão não seriam acolhidas.
Um sentimento ambíguo transparece, por exemplo, na entrevista da senadora Simone Tebet (PSB-MS) incluída em Anatomia do caos, na qual a integrante da CPI reconhece primeiro o impacto e, logo em seguida, a gravidade da investigação ainda em curso: “A CPI, ela antecipou vacina no braço do povo brasileiro. Essa, [sem] dúvida nenhuma [foi uma decorrência positiva], mas quando nós achávamos que estávamos encerrando uma etapa, veio uma tão grave quanto. A CPI desvendou e está desvendando um suposto gravíssimo esquema de corrupção no Ministério da Saúde de pagamento antecipado de vacina, de propina, de tráfico de influência, num esquema bilionário.”
No final, os sete senadores que aprovaram o relatório final da CPI da Covid reagiram com indignação quando a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento não apenas de todas as acusações feitas ao presidente Jair Bolsonaro, mas também de grande parte dos demais 78 indiciamentos de pessoas físicas e empresas.
As legendas finais de Anatomia do caos, superpostas à imagem aérea do Senado e da Câmara dos Deputados, reiteram: “Mais de 700.000 mortos. Nenhuma condenação. Nenhuma prisão. Nenhum pedido de desculpas” – pendência histórica não resolvida, como a dos responsáveis pela tortura durante a ditadura militar que permanecem impunes. Esse é um dos legados nefastos da Presidência de Bolsonaro, cuja família agora pretende voltar ao poder. Para que isso não aconteça, Anatomia do caos pode ser uma contribuição importante.