questões cinematográficas

BUENOSAIRES

Os sonhos dos moradores da cidade homônima argentina em Pernambuco
Uma certa melancolia perpassa os desejos e as fantasias dos moradores da Buenos Aires pernambucana - Crédito: Divulgação
Uma certa melancolia perpassa os desejos e as fantasias dos moradores da Buenos Aires pernambucana - Crédito: Divulgação

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Duas citações, feitas no início da narração de BuenosAires, deixam claro o propósito da diretora e roteirista Tuca Siqueira. A intenção dela é tratar dos sonhos, ou expectativas, de moradores de Buenos Aires, município situado na Zona da Mata de Pernambuco, com cerca de 13 mil habitantes, homônimo da capital da Argentina, metrópole com população aproximada de 3,1 milhões.

Primeiro é mencionado, em voz off, o título da famosa obra de Calderón de La Barca, A vida é sonho, do século XVII. Em seguida, é reproduzido o que Waly Salomão teria dito no século XX: “Sem essa de que o sonho acabou: A Vida é Sonho. A Vida é Sonho. A Vida é Sonho” (versão gravada, disponível no YouTube, mostra ligeira diferença no que Salomão diz: “Chega de papo furado de que o sonho acabou. A vida é sonho, a vida é sonho.”

A breve narração no prólogo acompanha imagens que variam entre um tom onírico e outro mais documental – em contraluz, um homem, com um detector de metais e uma picareta, faz prospecção em meio à plantação e próximo ao canavial. Surgem dois personagens do Maracatu, vestindo trajes típicos, e como que ensaiam sua coreografia perto dele sem que tomem conhecimento um do outro. Siqueira reafirma, por sua vez, a premissa do filme – a preservação dos sonhos – ao declarar no press release que, após ter passado a frequentar a cidade em 2016,

a cada ida a Buenos Aires, enxergava um pouco mais daquela pequena cidade simples que me mostrava uma realidade vestida de sonho e graça. Pessoalmente, acredito que, desde 2016, sofremos politicamente de uma tentativa constante de roubar nossos sonhos. Roteirizar, dirigir, produzir e, sobretudo, estar em contato com esses personagens me proporcionou o exercício da manutenção do sonho. E é disso que esse filme fala.

O detector de metais que permite encontrar moedas antigas enterradas talvez possa ser tomado como metáfora do próprio filme que não deixa de também estar à procura de tesouros escondidos. Sem se preocupar em esclarecer a origem do nome da cidade – uma curiosidade legítima e inevitável –, mas que pode ser satisfeita consultando matéria publicada em 2007 –, Siqueira se concentra em apresentar os sonhos de um rol de moradores da Buenos Aires pernambucana, além dos sinais da presença da metrópole argentina na cidade de Pernambuco. Uma certa melancolia perpassa os desejos e as fantasias relatados. Alguns guardam vínculo com o nome da cidade – visitar a capital portenha, ter um time de futebol chamado Boca Juniors, viver na Argentina. Outros independem dessa relação – o próximo desfile de carnaval do Maracatu Estrela Dourada, continuar provendo casa e comida para a mulher e o filho, ser roqueiro, ser enterrado no cemitério onde trabalha, jogar futebol em grandes equipes, criar o Museu dos Engenhos.

No final, antes da despedida na aula de espanhol e do carro com placa de PE BUENOS AIRES ir se afastando com os créditos de encerramento superpostos, o plano geral da Buenos Aires pernambucana é acompanhado por um trecho da narração eivado de didatismo, em princípio dispensável:

Em qualquer canto do mundo haverá distâncias entre o que quer ser e o que pode ser. Habitando exatamente os mesmos espaços onde vivem sonhos novos, sonhos velhos, sonhos ignorados e sonhos ainda não conhecidos.

Embora, além da curiosidade de seu tema, tenha também o mérito de ser curto – exatos 70 minutos –, BuenosAires repete e prolonga em demasia algumas sequências, em especial às relacionadas ao futebol. O que talvez se explique pela necessidade de atender a duração mínima exigida pela Ancine para ser considerado um longa-metragem. Há, por outro lado, algumas demonstrações valiosas de sabedoria popular, como a do coveiro Souza que pergunta: “Já viu morte boa? Não tem. Ter tem. A morte boa é aquela que a gente morre em casa, né? Sem acontecer nada, igual aqui esse [referência a um falecido enterrado em um túmulo ao seu lado]. Estava em casa dormindo. Massa de homem, olha! E pá, pá.”

Após ser exibido na Mostra de Cinema de Gostoso, em 2025, e participar, este ano, do Cine/PE Festival do Audiovisual, de 1 a 7 de junho, a estreia em cinemas de BuenosAires está marcada para o próximo dia 11 no Rio de Janeiro e São Paulo, além de Recife, João Pessoa e Niterói.


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Eduardo Escorel é cineasta. Dirigiu os documentários Antonio Candido, anotações finais, Imagens do Estado Novo 1937-45 e 1968 – Um ano na Vida, entre outros filmes