questões cinematográficas

O TRÍPTICO DE JIM JARMUSCH

Um filme nada menos que magnífico
As irmãs Lilith (Vicky Krieps) e Timothea (Cate Blanchett), em um dos episódios que compõem o longa-metragem - Crédito: Divulgação
As irmãs Lilith (Vicky Krieps) e Timothea (Cate Blanchett), em um dos episódios que compõem o longa-metragem - Crédito: Divulgação

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Não vi Pai Mãe Irmã Irmão quando estreou nas salas de cinema, em 9 de abril, depois de ter sido exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em novembro de 2025. Por preferir comentar filmes brasileiros, deixei de assistir ao premiado tríptico de Jim Jarmusch e fiquei com a impressão de que o filme passou em branco, sem ter recebido a devida atenção da mídia especializada e dos meios de comunicação em geral. Afinal, o simples fato de se tratar de um novo filme do diretor de Estranhos no Paraíso (1984) e Daunbailó (1986) deveria causar algum rebuliço, por mais decepcionante que possa ter sido sua carreira desde então.

Quando foi premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, em setembro de 2025, Pai Mãe Irmã Irmão causou polêmica. Segundo o The New York Times, ao receber o troféu, Jarmusch declarou que “a arte não precisa abordar a política diretamente para ser política. Ela pode gerar empatia e uma conexão entre nós, o que é realmente o primeiro passo”. Agradeceu terem gostado do que chamou de “nosso filme tranquilo” e um grito da plateia se fez ouvir: “Nós te amamos, Jim!” Na Folha de S.Paulo, Bruno Ghetti escreveu que “o longa não figurava em qualquer lista dos mais cotados ao prêmio” e Jarmusch “se limitou a, humildemente, dizer que ainda hoje aprende a fazer cinema a cada novo filme”. A polêmica resultou do fato de o júri ter preterido A Voz de Hind Rajab, da tunisiana Kaouther Ben Hania – filme que retrata a violência de Israel contra os cidadãos palestinos e que, como afirmou Ghetti na reportagem, era o “franco favorito”. A Voz de Hind Rajab foi lançado no Brasil em janeiro e está disponível no Prime Video.

Assisti, finalmente, a Pai Mãe Irmã Irmão há alguns dias, na plataforma Mubi. O filme é nada menos que magnífico. 

Nos dois primeiros episódios, um filmado em New Jersey, o outro em Dublin, o Pai (Tom Waits) recebe a visita do casal de filhos, Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik), e as irmãs Timothea e Lilith (Cate Blanchett e Vicky Krieps) vão à casa da Mãe (Charlotte Rampling) para o chá anual em família. Nessas duas ocasiões, mais relevante do que aquilo que é dito de fato nas conversas, é, conforme escreveu o crítico italiano Claudio Mariani na revista online Mescalina, Jarmuch conseguir “condensar o universo das relações entre pais e filhos dizendo e mostrando... quase nada. Um grande jogo de subtração, no qual silêncios, coisas não ditas e alusões trazem à tona decepções, promessas quebradas, mentiras, falta de afeto, ressentimentos mal disfarçados, mas, acima de tudo, o ruído de fundo que rege todo relacionamento: ‘O quanto realmente sabemos sobre ele ou ela?’”

Há uma tensão permanente no ar, em especial no episódio dedicado ao Pai que chega a parecer, por um momento, que vai se transformar em filme de horror. Embora também paire certa apreensão no encontro das filhas com a Mãe, o que sobressai é a barreira que o comportamento formal impõe às três.

O terceiro episódio, situado em Paris, difere dos anteriores. Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat), irmã e irmão gêmeos, fazem uma viagem afetuosa, mas dolorida, ao passado, após perderem o pai e a mãe em um desastre de avião pilotado pelo pai. No percurso pelas ruas de Paris, a dor se soma ao afeto, com paradas no vendedor de drogas, em um café, no apartamento vazio onde os pais moravam e, finalmente, no depósito onde Billy armazenara quase tudo que eles deixaram para os filhos. Skye diz que, naquele momento, não consegue “lidar” com as coisas acumuladas e encaixotadas. É o último diálogo de Pai Mãe Irmã Irmão, que termina aberto, os gêmeos indo embora do depósito, abraçados, sem um final conclusivo, assim como os episódios anteriores.

Pai Mãe Irmã Irmão é avis rara que se destaca em um mercado como o brasileiro, no qual predominam filmes voltados para entretenimento fácil. Pela qualidade do roteiro, escrito por Jarmusch, o alto nível do elenco, a direção de fotografia dos renomados Frederick Elmes e Yorick Le Saux, e a edição de Affonso Gonçalves, para citar apenas algumas das valiosas contribuições da equipe, é um filme inusual que, mesmo sem ser voltado para um público de massa, faz jus ser visto por número amplo de espectadores.

Conforme Jarmusch declarou em entrevista ao Festival de Cinema de Nova York, reproduzida em dezembro de 2025 no site novaiorquino Vulture, Pai, Mãe, Irmã, Irmão

é definitivamente muito limitado. Para ser franco: não tem ação, violência, drama, nudez, sexo. Quase nada daquilo que estamos acostumados a esperar. E o que resta é algo muito observacional, minimalista. Ainda é cinematográfico porque é um filme e tem seu próprio ritmo musical, e conta com atuações maravilhosas dos meus incríveis colegas atores. Mas, sim, nasceu mesmo das limitações...

Em Veneza, perguntaram a Jarmusch:

‘Por que a família?’ Fiquei surpreso, porque não surgiu da necessidade de abordar a estrutura familiar. Mas a família engloba complicações universais, o que a torna interessante. Eu não estava tentando dizer nada sobre a família, nem sobre nada em particular. Eu só queria observar, sem julgamentos, essas pessoas imperfeitas a quem não temos aversão.

Lançado no Brasil em 59 salas das principais praças do país, de São Paulo a Aracajú e do Rio de Janeiro a Fortaleza, Pai Mãe Irmã Irmão teve público de 8.731 pagantes na primeira semana – média de 148 espectadores por sala, desconsiderando a disparidade entre as cidades e o número de sessões oferecidas por sala. Para um distribuidor experiente, foi um bom lançamento, melhor que o da maioria das produções brasileiras, e o resultado de bilheteria, levando em conta que é um chamado filme “de arte”, também pode ser considerado satisfatório. A fonte dos dados de bilheteria é o Box Office do Portal Filme B.

A mim, porém, sabendo que nas nove primeiras semanas Pai Mãe Irmã Irmão teve 27.044 espectadores, ocorre indagar: será mesmo esse o máximo a que um filme dessa qualidade pode aspirar? Não haverá mais pessoas que isso, país afora, interessadas e dispostas a assistir a um filme como o de Jarmusch? Não seriam remediáveis os fatores que impedem essas pessoas de ter acesso a Pai Mãe Irmã Irmão e a filmes equivalentes? 

Arriscaria responder que já deveriam ter sido equacionados há muito tempo os fatores que impedem o mercado exibidor brasileiro de propiciar receita maior para filmes que escapam do modelo consagrado de entretenimento reinante.

Para concluir, cito um trecho da entrevista de Jarmuch à Folha de S.Paulo:

A arte é uma das coisas mais importantes que os humanos criam. Minha religião é, de certa forma, a da imaginação. A arte te dá permissão para ser abstrato: ali, você não precisa ser literal [...] O poeta Lawrence Ferlinghetti dizia que você não precisa entender totalmente um poema para saber o que ele significa. Então, existe essa liberdade na arte, que acho fundamental.

Pai Mãe Irmã Irmão está disponível para assinantes nas plataformas Mubi e Prime Video.


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Eduardo Escorel é cineasta. Dirigiu os documentários Antonio Candido, anotações finais, Imagens do Estado Novo 1937-45 e 1968 – Um ano na Vida, entre outros filmes