OS ROLOS DE FLÁVIO, AS ARTICULAÇÕES DE LULA E A JOGADA DE CIRO

Imagem Os rolos de Flávio, as articulações de Lula e a jogada de Ciro

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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:

Conteúdos citados neste episódio:

"Cid aliado ao PT, Ciro em acordo com PL: eleições de 2026 renovam rixa entre irmãos Ferreira Gomes", matéria  de Leonardo Igor, Samuel Pinusa para o G1.

TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO


Sonora: rádio piauí.

Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da revista piauí.

Sonora: Não vou entrar em mais detalhes, mas só pra deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas em eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana.

Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!

Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi, pessoal!

Sonora: Muita gente pensa que o PT é uma coisa. Na verdade não é. PT é uma delícia de atuar.

Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.

Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.

Sonora: Acabo de receber a notícia, muito feliz e profundamente honrado, de que a Convenção Estadual do PL acaba de homologar o apoio do partido à nossa candidatura ao Governo do Estado do Ceará.

Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira. Mas antes dos assuntos da semana, eu quero falar uma coisa importante em nome de todos da nossa equipe. Nas últimas semanas, alguns de vocês entraram em contato com o Foro para reclamar da veiculação de anúncios de casas de apostas no programa. Esses anúncios não são inseridos por nós e estão sendo veiculados à nossa revelia. Nós, o Foro e a Piauí, não veiculamos propaganda de bets. A gente configura os filtros das plataformas de áudio para que esses anúncios sejam bloqueados. No entanto, a despeito disso, as próprias plataformas controlam parte do sistema de publicidade dos episódios e deixam passar alguns desses anúncios. A equipe da piauí está em contato com as plataformas, cobrando para que isso deixe de acontecer. Eu quero insistir nesse ponto: a piauí e o Foro não tem qualquer associação com esse tipo de publicidade. A gente considera inaceitável que elas continuem sendo exibidas apesar das restrições que a gente estabeleceu. Essa é a nossa posição institucional. Não aceitamos ter o nome do podcast associado à propaganda de Bets. A gente devia essa satisfação a vocês, nossos ouvintes.

Fernando de Barros e Silva: Dito isso, mais um par de recados, agora mais felizes. A gente está na semana da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. E quem estiver por lá vai poder comprar em pré-venda a Antologia dos 20 Anos da Piauí em seis livros feitos em parceria com a Companhia das Letras. É para ler e guardar. A gente também vai estar lá. Tem Foro de Teresina ao vivo no palco da Praça, hoje, sexta feira, dia 24, às nove da noite, 21 horas. É de graça e a gente espera vocês. E no sábado, dia 25, às oito e quinze da noite, 20h15, também na Flip, tem Clube de leitura da piauí. Vai ser na casa da Estante Virtual, lá em Paraty. A repórter Camille Lichotti conversa com a Ana Clara sobre a reportagem "O Petróleo é nosso", que está na edição deste mês da piauí. O Clube de Leitura da piauí é exclusivo para assinantes e também tem edições online. É só acompanhar nas redes. Por último, a Ana tem mais um convite para vocês, porque agora os assinantes da piauí vão poder ouvir também as matérias que foram escritas pelos seus autores. E a Ana está inaugurando esse novo formato. É isso, Ana? Conta da sua matéria.

Ana Clara Costa: É isso, Fernando. Eu gravei a locução essa semana da reportagem "Estilhaços na sala", que reconstituiu o escândalo de assédio e importunação sexual no Ministério dos Direitos Humanos, no início do governo Lula e que envolve o ex-ministro Silvio Almeida e a então ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco. Adoraria que vocês ouvissem, porque eu levei mais de três horas falando sem parar para gravar essa locução. Então o mínimo que as pessoas me devem é ouvir isso daí. Por favor.

Celso Rocha de Barros: Tá certo. Corretíssimo. Cobrança correta.

Fernando de Barros e Silva: Bom, para quem leu, pode ouvir, para quem não leu, pode ouvir também. É muito legal essa nova iniciativa. Eu mesmo, em algum momento vou gravar alguma coisa.

Celso Rocha de Barros: Aêêê!

Fernando de Barros e Silva: Bom, agora sim, sem mais delongas aos assuntos da semana. E a gente abre o programa com os problemas que cercam a candidatura de Flávio Bolsonaro. À véspera da convenção do PL, que deve oficializar neste sábado seu nome a disputa pela Presidência da República, Flávio está isolado. O senador Ciro Nogueira, amigão de seu irmãozão Daniel Vorcaro, disse que o PP, seu partido, deve optar pela neutralidade no primeiro turno. O PP forma com o União Brasil uma federação e o fato de roerem a corda é um sintoma flagrante de que olharam o jeitão do tabuleiro e resolver apostar as fichas na reeleição de Lula. Até o momento em que gravamos o programa, Flávio segue sem vice definido na chapa. Soubemos nesta quarta-feira, em notícia divulgada pelo portal Metrópoles, que o senador recebeu no ano passado 500 mil reais suspeitíssimos de uma empresa que tem ligação estreita com o Banco Master de Vorcaro, o mecenas do Dark Horse. Flávio disse que a bufunfa tem origem em serviços de, abre aspas, "assessoria jurídica", fecha aspas e não especificou quais sejam. Sim, o filho do Jair é advogado. Você contrataria Flávio Bolsonaro como seu advogado?

Celso Rocha de Barros: Pô, cara, claro. Cara de reputação ilibada.

Fernando de Barros e Silva: Mas as coisas não param por aí. Em reunião com embaixadores e representantes de 42 países nessa semana, Flávio Bolsonaro imitou seu pai e colocou em dúvida a integridade do sistema de votação brasileiro. Como Jair, também mentiu. Citou um suposto relatório da CIA sobre a Venezuela para dizer que as urnas eletrônicas usadas no Brasil seriam manipuladas. Diante da repercussão negativa, sua campanha se apressou a dizer que Flávio não estava questionando o sistema eleitoral e blá blá blá. A vocação golpista da declaração é evidente e quanto menor a chance de vencer no voto, maior a chance de tentar melar o jogo. A gente conhece esse roteiro e de tudo isso falaremos no primeiro bloco. No segundo bloco, a gente trata da campanha de Lula. O presidente petista chega às convenções com os palanques regionais encaminhados em 25 estados e no Distrito Federal, restando apenas acertar as coisas em Goiás. A gente vai passar alguns estados em revista para mostrar aqueles em que Lula, com mais de um candidato lhe apoiando, deve evitar no primeiro turno. A despeito dos ruídos e das insatisfações aqui e ali, Lula larga na frente em relação ao seu principal rival. Por fim, no terceiro bloco, a gente trata do Ceará, onde o PSDB confirmou Ciro Gomes como candidato ao governo do Estado. Ciro lidera a pesquisa mais recente da Quaest, com 41% dos votos, contra 32% do governador petista Elmano de Freitas. Lula, enquanto isso, convenceu Cid Gomes, seu irmão, irmão de Ciro, a buscar a reeleição ao Senado na chapa petista. O racha da família Gomes ganha um novo capítulo para esta série em intermináveis temporadas. A gente vai falar sobre tudo isso mais de perto. É isso. Vem com a gente.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Celso, vamos começar com você. Eu mencionei a cesta de problemas, um pout-pourri de problemas que o Flávio Bolsonaro, que ele próprio é um problema em si, um problema essencial, mas que a sua campanha carrega aí na véspera da oficialização da candidatura, por onde a gente vai começar? Pela reunião com os embaixadores?

Celso Rocha de Barros: Pois é, Fernando, o Flávio retomou o discurso contra as urnas eletrônicas que o pai dele promoveu durante a tentativa de golpe em 2022. Antes de começar a falar nisso, é sempre bom lembrar: os bolsonaristas não diziam que as urnas eram fraudadas. Eles mentiam que as urnas eram fraudadas. E eu digo isso não só porque elas não eram fraudadas, mas também porque a gente sabe, com absoluta certeza que os bolsonaristas sabiam que elas não eram fraudadas. A gente tem na investigação sobre o golpe mensagem do Mauro Cid dizendo para outro oficial golpista que "não adianta, não achamos nada de errado com as urnas". E aí o cara fala: "então vamos assim mesmo pro golpe". E na investigação também ficou provado que o Valdemar Costa Neto mentiu sobre o resultado da auditoria que o PL pediu das urnas eletrônicas no final. A auditoria também não achou absolutamente nada. Então, aquele tempo todo que eles estavam falando de urna eletrônica, eles estavam maliciosamente dizendo uma coisa que eles sabiam que era errado.

Ana Clara Costa: Era só a urna do segundo turno, né? Curiosamente.

Celso Rocha de Barros: Ou a urna para presidencial do primeiro turno. O resto das urnas tava tudo beleza.

Ana Clara Costa: Exato. As urnas que deram a maior bancada para o PL estavam super corretas.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Bom, o Flávio falou isso num evento organizado pelo Brazilian Report, aquele podcast, site de notícias, que é especializado em análises sobre política brasileira para o público americano e pelo novo selo Comunicação. Então eles organizaram esse evento que tem como objetivo apresentar as ideias dos candidatos a presidente ali para os embaixadores. O Zema já foi lá falar, o Renan já foi lá falar. O Lula está convidado também, se ele quiser participar do negócio. E o Caiado também ainda não foi. Antes disso, curiosamente, o Kássio Nunes Marques foi lá para explicar que as urnas são totalmente seguras. E aí, o Flávio foi lá e fez essa beleza. Bom, a ideia do evento é um pouco deixar o cara meio solto para ele falar o que ele quiser. Então ele começa de onde ele quiser e todo mundo entende, o Zema fez isso, o Renan fez isso e tal, que os embaixadores estão a fim de ouvir sobre política internacional ou sobre economia internacional. Então você vai falar ou sobre posicionamento diplomáticos ou sobre coisas que podem interessar aos países de onde vieram esses embaixadores. E o Flávio não fez praticamente nada disso. Segundo uma pessoa que estava lá no dia, muita gente ficou com a impressão de que o Flávio já começou atravessando a rua para escorregar numa casca de banana, porque ele, sem provocação nenhuma, sem ninguém perguntar sobre isso, sem nada, ele saiu falando mal das urnas eletrônicas. O que ele disse foi que as urnas brasileiras têm a mesma origem das urnas feitas pela Smartmatic, uma empresa que num relatório da CIA teria sido acusada de participação em fraude na Venezuela. Bom, para começar, é mentira do Flávio. As urnas brasileiras não são feitas pela Smartmatic. Depois da palestra dele lá, o próprio Kássio Nunes Marcos fez questão de vir a público dizer: "não, não é a Smartmatic que faz as urnas brasileiras". Então o Flávio já começou mentindo por aí. Mas além disso, mesmo lá fora a história é meio mal contada. Na minha interpretação, o que o Flávio estava fazendo ali é um aceno para o Trump, que agora entrou no modo full golpista e fez um discurso no dia 16 de julho dizendo que tinha provas de que as eleições americanas era tudo roubada, que a China tinha roubado dados eleitorais para falsificar registros, para inventar eleitores, para fazer, enfim, para fraudar a eleição americana, que a Venezuela tinha descoberto, como fraudar as urnas eletrônicas da Smartmatic, que aliás, foram usadas só em um condado americano.

Ana Clara Costa: É, ele já está preparando o discurso para derrota, o Flávio.

Celso Rocha de Barros: Pois é, exatamente. Exatamente.

Fernando de Barros e Silva: Isso numa interpretação benevolente, né? Isso sim, mas ele tá já acionando o modo golpista em associação com o Trump para ver onde vai dar.

Celso Rocha de Barros: Ah, e o Trump também, obviamente, retomou um discurso que a gente já falou disso algumas vezes aqui, com uma certa profundidade. É o discurso dele de que os imigrantes ilegais votam e influenciam decisivamente as eleições. A gente já apresentou em episódios passados aqui os vários estudos que existem sobre isso, dizendo que esse fenômeno é absolutamente marginal, não tem interferência nenhuma no negócio.

Fernando de Barros e Silva: É residual.

Celso Rocha de Barros: Baixíssimo e ridiculamente baixo. Bom, e a verdade é a seguinte a AFP, a agência France Press, ela fez o fact checking do discurso do Trump e é basicamente tudo cascata. Então, por exemplo, a história da China comprar as listas de votação, as listas de votação são públicas e podem ser compradas mesmo. Você pode comprar a lista de votação para você fazer planejamento para seu partido, para se usar como negócio demográfico, para vender produto para pesquisa de mercado, você pode usar um monte de coisa. E mesmo se a China tiver tido acesso a isso, a China não hackeou nada. E, principalmente, não dá para fazer fraude com isso, entendeu? Senão, teria milhares de pessoas nos EUA já de posse desse material. Enfim, o Trump obviamente não explicou como é que isso seria usado, não deu nenhuma evidência que seria usado para fraudar eleição. Mas isso aí da história da China basicamente não é nada. E tem relatório da inteligência americana de março de 2021, dizendo que não tem indicação de que a China tentou de nenhuma maneira fazer uma manipulação técnica da eleição americana. E quanto aos votos ilegais, como a gente disse, a análise da Brooks Institution, um think thank americano bastante tradicional é que a porcentagem de votos fraudados por correspondência, que é um outro argumento do Trump que os votos correspondência não fraudados. E é interessante, ele votou por correspondência na última eleição. A porcentagem comprovada é mais ou menos de 0, - vamos lá: - 000043. Ou, quatro casos a cada 10 milhões de votos por correspondência. Então, assim, o que o Flávio está fazendo aqui? Primeiro, ele está sinalizando concordância com o discurso do Trump, dizendo: "olha só, essas eleições aí dos EUA deve ter sido fraudada mesmo. O Biden deve ter roubado a eleição que você concorreu." Sempre bom lembrar, o Bolsonaro disse que a eleição que o Trump perdeu foi roubada. E, por outro lado, o Flávio já está tentando uma sintonia com o Trump para o caso dele adotar esse discurso, caso ele perca. Então, se ele perder a eleição e tentar um golpe, ele já vai dizer "olha só Trump, aqui a eleição é tão roubada quanto aí. O que o Biden fez com você, fizeram comigo aqui". Então, é um negócio bastante grave o que Flávio Bolsonaro fez nesse negócio. Claro, vai desagradar os moderados que gostariam de ver no Flávio um moderado. Mas cara, tem que desagradar mesmo, porque um sujeito que a essa altura do campeonato ainda está comprando isso, meu amigo, entendeu? Se vira aí. Então, assim me pareceu muito mais uma estratégia mesmo de alinhamento com um discurso cada vez mais autoritário do Trump do que propriamente um erro grotesco que foi a impressão dos embaixadores. Os embaixadores saíram com uma péssima impressão do Flávio, segundo pessoas que estavam lá, inclusive os embaixadores que estavam lá meio propensos a gostar, sabe, que representam países que têm governos de direita, enfim, que gostariam de uma coisa mais neoliberal aqui no Brasil, saíram muito mal impressionados. Flávio claramente não gastou dez minutos para estudar os assuntos que interessariam àquela plateia como, segundo eles, o Zema e o Renan tinham feito, e ficou lá fazendo essa propaganda aí de extrema-direita, nas palavras de uma pessoa que estava lá: "nenhum embaixador dali saiu pensando 'Nossa, que vontade de lidar com esse cara por quatro anos'".

Fernando de Barros e Silva: É uma tragédia. Ana Clara, vamos falar desses 500 mil que o advogado recebeu.

Ana Clara Costa: Bom, há uma pilha de fatores que atrapalham a candidatura do Flávio nesses últimos dias. E aí eu não estou nem falando da Michelle Bolsonaro, né? Para pegar esse que foi o último fato, a revelação pelo site Metrópoles de que o Flávio teria recebido 500 mil reais de uma consultoria que presta serviços para o Master, ele teria, em tese, prestado serviços advocatícios para essa consultoria.

Celso Rocha de Barros: Opa! Grande jurista!

Ana Clara Costa: E uma consultoria que tinha acabado de ser criada, ela tinha sido criada poucos meses antes, com capital social de 40 reais.

Celso Rocha de Barros: Pequenas empresas, grandes negócios.

Ana Clara Costa: Poucos meses depois, estava contratando o advogado Flávio Bolsonaro por 500 mil.

Fernando de Barros e Silva: Eu acho, inclusive, que tem que ser feito uma auditoria nos cursos de direito do país. Porque se o Flávio Bolsonaro se formou é que existe um problema. Existe um problema nos cursos de Direito.

Celso Rocha de Barros: Exato.

Ana Clara Costa: Cara, e o Eduardo que fez o UFRJ. É inacreditável. Bom, sobre isso vem a explicação do digníssimo senador, de que ele prestou serviços legítimos de advocacia para essa consultoria. E sobre isso eu tenho duas coisas para dizer. A primeira coisa é o modus operandi do Banco Master que a investigação tem nos mostrado ao longo dos últimos meses. Qual era o diferencial do Master para os outros esquemas de pagamento de propina do passado? Onde que eles inovaram? Não é no pagamento de propina em si, eles inovaram numa coisa que é o seguinte, que a gente já falou aqui, eles chegam com o esquema pronto para você. Então, quando eles te procuram para oferecer o suborno, eles já têm o esquema para você receber o dinheiro do suborno lavado. Então não é você que tem que se virar para encontrar uma forma de lavar. Eles já têm o formato. Inclusive, usavam fundos para isso, então eles já tinham fundos específicos para isso, como é o caso desse fundo Harleen, do Fabiano Zettel, que fez várias compras de coisas interessantes. Enfim, é um modus operandi muito fechado. Se é o caso do Flavio, não sabemos, né? As investigações vão dizer, mas assim, a moldura é basicamente essa. O segundo ponto é a resposta do Flávio. Ele disse que prestou serviços legítimos de advocacia para essa empresa contábil. Eu fico me perguntando como, porque ele não pode advogar enquanto senador. Ah, pode ter sido algum advogado do escritório dele. Segundo o Cadastro Nacional de Sociedade de Advogados da OAB, o escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, não tem nenhum sócio, nem associado, nem advogado vinculado. A não ser que ele tenha algum freelancer, não sei. Mas segundo a OAB, o escritório dele é a empresa dele mesmo, entendeu? Ele é um microempresário, microadvogado, porque, em tese, quando você tem um escritório de advocacia, todos os advogados, associados e sócios entram até para responsabilização. Enfim, tem toda uma prestação de contas para OAB e na OAB ele é único. Ele até tem uma sócia que não é advogada, que é a Letícia Caetano. Ela faz a parte da administração do escritório, ou seja, ela administra as contas do escritório e ela é irmã do Alexandre Caetano, que é um dos caras, um dos operadores do esquema do INSS, junto com careca do INSS. Então, a única sócia que o Flávio tem não é advogada e é a irmã de um dos principais operadores de Brasília. Bom, segundo o estatuto da OAB, senadores podem advogar, desde que não seja contra ou a favor da união, contra ou a favor de estados, municípios e autarquias, contra ou a favor de empresas públicas. Ou seja, há muitas restrições. O Flávio teria que dizer para que foi essa advocacia, se ele advogou estritamente dentro do direito privado ou se é uma questão tributária. E se for uma questão tributária, talvez tenha a União como pólo. Se ele não tem um sócio que tenha assumido essa causa, porque ele não tem sócios advogados, talvez ele tenha que explicar que ação foi essa, quem ganhou ou quem perdeu? Onde é que está o processo? Qual é o número?

Fernando de Barros e Silva: Olha, essa brecha já me parece totalmente descabida Essa brecha para advogar me parece muito. Se não é ilegal, é imoral.

Celso Rocha de Barros: Tinha que ser ilegal, né cara? Pelo amor de Deus.

Fernando de Barros e Silva: Tinha que ser ilegal. Exato. A isso eu não quero fazer aqui acusações precipitadas, mas se tivéssemos diante de um, sei lá, roteiro do Dark Horse 2, essa semana, revelou um personagem, revelou não, confirmou, atualizou, um personagem que é golpista, ladrão e ruim de serviço. Basicamente, os seus atributos que se evidenciaram nessa semana desse personagem fictício, evidentemente, do Dark Horse 2.

Ana Clara Costa: Têm sido dias ruins para o Flávio, para toda a direita, de certa forma, porque ele não consegue uma candidatura para sua vice e ele quer uma vice mulher para dar o carimbo de que ele não é um machista misógino, um carimbo que não se sabe se as mulheres vão engolir.

Celso Rocha de Barros: Desses que você compra em qualquer lugar, basicamente.

Ana Clara Costa: Exato. Ele quer uma vice mulher, mas ele tem um problema que é a Tereza Cristina, que é do PP, não aceitou ser vice dele. O PP, conforme o Fernando disse na escalada, não quer se associar ao PL na eleição presidencial, aFederação PP União Brasil. Uma outra alternativa de vice para ele é a Daniella Marques, que foi uma assessora do Paulo Guedes e que tem andado com o Flávio ali o tempo todo, tentando dialogar com o mercado em nome dele. Mas a Daniella não é um nome que o Valdemar quer porque ele diz que ela não tem voto. Como ela não é política, não tem mandato, não tem nenhuma conexão com o eleitor, ela não traz voto para o Flávio, então, que ele deveria procurar uma composição partidária. E no caso da Daniella também, além da questão de ela não ter voto, tem um problema partidário, porque ela se filiou ao Republicanos e para ela ser vice, o republicano teria que aderir à chapa. Se o PP e União Brasil, que sempre foram muito mais próximos do bolsonarismo do que o Republicanos não querem, imagina o Republicanos. E a Danielle, ela tem saído por aí na Faria Lima, fazendo encontros. Foi no BTG, foi no Itaú BBA e ela tem apresentado para o mercado mais ou menos as mesmas propostas do Paulo Guedes. Então assim, lembra aquela história do vender terrenos da União?

Celso Rocha de Barros: Opa! Vamo lá!

Fernando de Barros e Silva: Um trilhão.

Celso Rocha de Barros: É um trilhão, gente, todo de um trilhão.

Ana Clara Costa: Ela não fala em trilhão, mas a gente sabe qual que é a continuação. Aí ela fica dizendo para todo mundo que é muito católica, tem reforçado essa característica religiosa nas conversas com a Faria Lima. E uma curiosidade, a Daniella Marques trabalhava com Paulo Guedes desde muito antes de ele entrar na campanha do Bolsonaro em 2018. Ela trabalhava na gestora dele. Durante todos esses anos, eu achava que ela tinha ido para o governo justamente por ela ser a assessora mais próxima dele no mercado. E aí recentemente eu descobri que não, que ele colocou ela ali porque ela era assim a mais bolsonarista em 2018 que havia. Assim, ela pediu para ir junto para a campanha porque ela ideologicamente se identificava muito. Então, assim, o que a levou para o governo foi o excesso de bolsonarismo não o excesso de competência. Tanto que agora ela está aí, junto com o Flávio, apresentando seus dotes econômicos e de compreensão estrutural da economia brasileira. E por último, mas não menos importante, teve essa confusão do Zema com a Michelle, sugerindo a Michelle como vice dele, que foi uma coisa maluca, né? O Zema tem.

Celso Rocha de Barros: Tem uns negócios desse né?

Ana Clara Costa: É, aí ela teve que fazer uma nota pública para dizer que não dá, né? E aí o Zema tá cogitando, sabe Celso, levar o Girão para ser vice dele?

Celso Rocha de Barros: Opa, meu velho amigo.

Fernando de Barros e Silva: Seu velho amigo Girão.

Ana Clara Costa: Exato. E aí? Seria uma chapa puro sangue do Novo.

Celso Rocha de Barros: O Zema faz tudo para me agradar, né? Impressionante. Acorda de manhã, e fala ''o que eu vou fazer para deixar o Celso feliz?''

Ana Clara Costa: E ainda nesse campo da direita acessória do Jair Bolsonaro, o Caiado, finalmente agora, quando o Flávio se mostra cada vez mais encrencado e as pesquisas acabam refletindo isso. Agora, o Caiado resolveu criticar o Flávio publicamente, fazer... Então assim, você vê o nível desses candidatos por isso, né? O oportunismo, na verdade, só quando começa a entrar água ele começa a ficar meio inviável que você realmente resolve conceber que as características dele talvez mereçam alguma crítica. Então, quantos meses depois que o Caiado agora resolveu que o Flávio merece alguma crítica?

Celso Rocha de Barros: Justiça seja feita, acho que pelo menos vale registrar que a crítica do Caiado nessa reunião de embaixador foi razoável. Ele falou "Cara, o cara podia estar lá pedindo abertura de mercado para os produtos brasileiros, podia estar lá...."

Ana Clara Costa: Celso, mas não, não...

Celso Rocha de Barros: Não, não, não.

Ana Clara Costa: Ela. Ela é totalmente... Se o Flávio estivesse bem nas pesquisas, ele não ia falar nada.

Celso Rocha de Barros: Você tem toda razão.

Fernando de Barros e Silva: Se a gente for fazer um resumo da fotografia desse momento, a gente tem a candidatura do Flávio desidratando, mas não a ponto de tirá-lo de um eventual segundo turno que cresce a chance, aparentemente, do Lula ganhar a eleição no primeiro turno. Cresce. Não estou dizendo que é o mais provável, mas a candidatura do Lula se fortalece. A candidatura do Flávio está vivendo um péssimo momento, mas não a ponto de viabilizar esses outros nanicos que a essa altura são Caiado, Zema e o Renan Santos. Em três meses poderiam ocupar esse lugar que o Flávio hoje ocupa de ser o principal rival do governo Lula? Não acredito. Tudo pode acontecer na política, mas 40 anos de cobertura de política não vi uma reviravolta dessa numa eleição presidencial num prazo tão curto. Acho improvável que isso aconteça nesse momento. Muito bem. Então a gente encerra o primeiro bloco do programa por aqui. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, nós vamos falar da candidatura Lula e dos palanques do governo federal nos Estados. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Ana Clara, vou começar com você nesse passeio pelos estados que a gente vai fazer para falar de algumas alianças e palanques estaduais compostos pelo Lula. Talvez a gente possa começar pelo Rio. O Lula esteve esta semana tirando foto ao lado do deputado federal e candidato ao Senado, Pedro Paulo, do PSD do Kassab, não é isso? E ali está fechada a aliança com a candidatura de Eduardo Paes ao governo estadual.

Ana Clara Costa: Uma conversa minha com petista hoje ouvi dele que essa eleição vai ser cheia de constrangimentos. Eu acho que um deles foi essa foto, né?

Fernando de Barros e Silva: Se você olha a cara do Lula, o Lula tá felizão na foto. O Lula não tem esse tipo de problema. É impressionante. Eu lembro de uma foto muito remota do Lula na casa do Maluf, tirando foto com o Maluf. Aquilo escandalizou e causou um mal-estar nos petistas e muita gente e o Lula lá...

Celso Rocha de Barros: Com o Haddad, né?

Fernando de Barros e Silva: E o Lula feliz. Ele desempenha.

Ana Clara Costa: Bom, a gente está chegando no final de julho e, a despeito de toda a novela que a gente vem narrando aqui ao longo desse último ano, tantos altos e baixos, o PT conseguiu definir seus palanques em 25 estados. Antes do PL. O PL está com vários estados ainda pendentes, sendo Minas Gerais talvez o principal deles. Eles ainda não decidiram se apoiam o Cleitinho, se o Cleitinho se lança, se vai ter um outro nome, então o PT já tá com a coisa mais azeitada. Então chega nas convenções, no caso da convenção do PT, vai ser no dia 2 de agosto, com os palanques definidos, as alianças definidas, a coisa mais consolidada. Comparando com 2022, não mudou muita coisa. Entre os palanques que vão ser do PT, candidatos do PT na cabeça de chapa em relação a 2022, vai ser praticamente a mesma coisa. Mas as chapas estão mais bem amarradas nessa eleição. Ou seja, quem está com o Lula nessa eleição está mais convicto do que estava em 2022. Talvez, só talvez, seja pela melhora nas perspectivas dele para 2026 e a piora do adversário.

Fernando de Barros e Silva: Sabe o que eu vou falar sobre tudo isso? Ana Clara, a política é uma coisa maravilhosa, extraordinária. Não é maravilhosa, é extraordinária. Não é isso?

Ana Clara Costa: É bem isso. Então eu pincei aqui algumas historinhas dos Estados para a gente discutir aqui. A primeira é o Rio de Janeiro falando do constrangimento, né? E o Rio de Janeiro, eu acho que talvez seja a história mais sintomática dos nossos tempos assim, né? Até alguns meses atrás, meio do ano passado, mais ou menos, cogitava-se dentro do PSD, do Kassab, PSD, do Eduardo Paes e tal, que o Eduardo Paes faria a candidatura dele ao governo do Estado sem apoiar ninguém para presidente. Por que? Porque ele estava fechando um acordo interno com o PL do Cláudio Castro para conseguir que o PL lançasse um candidato só pró-forma no Rio, entendeu? Para a direita votar no Eduardo Paes. Naquela época, como o Flávio não era o candidato do pai, o Cláudio Castro se candidataria ao Senado em uma das vagas e o Flávio se candidataria à reeleição na outra vaga. E o Eduardo Paes seria o candidato ao governo, não lançaria ninguém ao Senado e esse era o acordo que tinha sido fechado. E aí o Eduardo Paes não poderia depois disso, uma das garantias ali era não apoiar o Lula abertamente, como ele sempre fez. E isso estava certo. Quando o Flávio se lança candidato, pré-candidato no caso, meio que embaralhou esse jogo, porque daí o Flávio precisa de um palanque no Rio. Ele não vai mais ser candidato ao Senado, ele precisa de um palanque forte no Rio, ele precisa de candidatos ao Senado no Rio e tal. E meio que isso deu uma embaralhada. Mas o acordo era aquele. Bom, as coisas mudaram de lá para cá, inclusive as perspectivas do Lula melhoraram de lá para cá, do que a gente estava vivendo naquele momento. Então, apoiar abertamente o Lula se tornou mais interessante também para o Eduardo Paes, porque ele, como governador, vai precisar muito do auxílio do governo federal depois de um governo Cláudio Castro, depois de um governo...

Celso Rocha de Barros: O próximo governador do Rio pega o governo totalmente quebrado.

Ana Clara Costa: Exato. Terra arrasada. Enfim, para o Eduardo Paes não é interessante se indispor com Lula também, mas chegou-se a se discutir neutralidade. Então assim, o Lula aceita hoje compor essa chapa com Eduardo Paes aqui e lançar o Pedro Paulo, que foi um deputado que assumiu o mandato só para ir votar pelo impeachment da Dilma, porque ele era secretário, sem contar as acusações de violência doméstica. Sem contar o fato de que o Pedro Paulo não é vice do Eduardo Paes, segundo reportagens publicadas na imprensa, porque teme-se um vídeo dele de conteúdo sexual que estaria circulando por aí.

Celso Rocha de Barros: Olha só!

Ana Clara Costa: Então assim, há vários constrangimentos ali envolvendo o Pedro Paulo, né?

Fernando de Barros e Silva: Que beleza!

Ana Clara Costa: Mas o Rio de Janeiro é o Rio de Janeiro e o Lula sabe que ele precisa, ele sabe que o PT não tem a menor condição de ter um candidato aqui. O Eduardo Paes, bem ou mal, apesar de ter vacilado ali nesses últimos meses, foi um cara que apoiou muito o Lula em 2022 e ele não esquece disso. Além de tudo isso, ele tem uma simpatia pessoal pelo Eduardo Paes e por tudo isso foi cometida aquela foto, né? Lula, Pedro Paulo e Benedita.

Fernando de Barros e Silva: Ana Clara, eu vou repetir: política é uma coisa extraordinária. Esse conteúdo sexual aí do Pedro Paulo, que é a festa dos escafandrista, tem a do Astronauta, né? E agora o Garotinho daqui a pouco vai falar da festa do Escafandrista.

Celso Rocha de Barros: Isso aí virou bagunça, né, cara? Já nem é mais notícia, né? Agora os políticos estão tudo por aí pelados...

Ana Clara Costa: Todo mundo tem sex tape, né? Bom, então o Rio tá definido, né? O que vai ter no Rio de Janeiro para o PT é o lançamento da candidatura da Benedita ao Senado, que vai ser a candidatura do campo progressista. Na verdade, a Mônica Benício, ex-companheira da Marielle Franco deve sair pelo PSOL também, ainda no campo progressista, e a direita indicou o Carlos Portinho até agora, e a segunda vaga para o Senado, não se sabe.

Celso Rocha de Barros: Porque tá todo mundo preso.

Ana Clara Costa: Uma, porque tá todo mundo preso, e outra é porque será que o Flávio...

Celso Rocha de Barros: Vai sair? É isso que eu acho.

Ana Clara Costa: Será que o Flávio vai ser candidato? Será que ele vai?

Celso Rocha de Barros: Isso que eu já ouvi várias vezes o pessoal acha assim: ele devia indicar logo alguém para o Senado do Rio só para matar a especulação de que, no fundo, ele é que quer ser o candidato, né?

Ana Clara Costa: E a convenção acontece esse fim de semana, né? Temos esse suspense. O segundo caso que eu queria falar é o caso do Rio Grande do Sul, em que o PT, pela primeira vez em décadas, não vai ter um candidato do partido cabeça de chapa. Eles vão apoiar a Juliana Brizola do PDT, porque só para ser bem mais precisa, é inédito desde a redemocratização. Assim, o PT sempre teve um candidato ao governo do Rio Grande do Sul. O que acontece é que eles precisavam entregar alguma coisa para o PDT pelo apoio nacional e a Juliana Brizola tem boas chances ou chances similares ao Edegar Pretto, que foi candidato em 2022 e perdeu para o Eduardo Leite. Então o PT aceitou abrir mão pela primeira vez dessa candidatura em nome de uma candidatura do PDT. E o Edegar ficaria como vice. E o terceiro estado que eu queria falar, é o Mato Grosso do Sul, que também pela primeira vez em muitos anos, vai ter um candidato do PT, que é o Fábio Trad, que se filiou ao PT no ano passado. Pois é, eu também não sabia. Eu fiquei sabendo dessa filiação agora quando eu estava pesquisando para esse bloco. O Fábio Trad é de uma família de políticos do Mato Grosso do Sul muito proeminente, digamos. O pai dele, Nelson Trad, foi perseguido pela ditadura, foi cassado. Era dos trabalhistas, né? O pai dele era um político do campo progressista dá para dizer, né? E ele tem três filhos, mas dois têm cargos mais proeminentes, né? O Fábio Trad foi deputado federal por dois mandatos e o Nelsinho Trad é senador. E o que aconteceu? A família rachou. Eles eram do MDB, inclusive, em vários momentos, sobretudo pré-impeachment, eles endossaram pautas bem conservadoras. O Nelsinho Trad foi até cogitado para ministro do Bolsonaro. Depois eles acabaram saindo do MDB, indo para o PSD do Kassab, mas continuaram no campo da direita. O Nelsinho Trad, sempre muito alinhado com a aliança do PL ali no Estado, e o Fábio Trad rompeu com isso e se filiou ao PT no ano passado, provocando um racha ali na família. E vocês imaginam assim, para uma família tradicional da política do Mato Grosso do Sul, você ser do PT. É uma coisa totalmente inédita. O Zeca do PT, que foi governador por duas vezes daquele estado. O Zeca do PT, por exemplo, não era de nenhuma família política do Mato Grosso do Sul. Ele era do Sindicato dos Bancários, ou seja, ele era da base do PT. O próprio Delcídio, que foi senador e tal. Ele era o político da família, né? Então, é inédito isso que uma família tradicional da política sul matogrossense tenha se filiado ao PT.

Celso Rocha de Barros: É o tipo de coisa que o PT não fazia. A gente já falou aqui, antigamente o PT ia fazer alianças e tal, mas "você fica nesse outro partido aí eu te apoio". Mas assim, o que a gente vê agora, como no caso da Kátia Abreu, também que é até bem mais estranho do que isso.

Ana Clara Costa: São os constrangimentos que o petista me falou.

Celso Rocha de Barros: O PT está filiando uns caras de perfil mais....

Ana Clara Costa: Exato.

Fernando de Barros e Silva: Celso, deixa eu te ouvir sobre os arranjos estaduais do Lula e o momento da candidatura.

Celso Rocha de Barros: Então Fernando, se a gente olhar para os partidos, o que cada partido vai fazer, a maré está favorável ao Lula nesse exato momento. Mas já vou fazer uma ressalva aqui, a maioria desses partidos aqui é uma zona, então o fato deles apoiarem ou não apoiarem o Lula ou apoiarem ou não apoiarem o Flávio não quer dizer que em um determinado estado o cara que vai ganhar o governo daquele estado não vai apoiar outra pessoa. Enfim, mas também não se pode dizer que isso não tenha efeito nenhum. Vai ter efeito para tempo de televisão, vai ter efeito para dinheiro, para campanha. Então assim, a movimentação dos partidos é muito importante. O Lula vai conseguir uma grande vitória caso se confirme o que parece que vai se confirmar, que a Federação entre União Brasil e o PP vai ficar neutra na eleição presidencial. Essa federação é o maior agrupamento partidário do Brasil no momento. Se você pensar em termos de bancada na Câmara, é um pedaço gigante da direita brasileira e o fato deles não embarcarem com o Flávio pode nem ajudar muito o Lula, porque os pedaços de União Brasil e PP que vão apoiar candidatos petistas talvez já apoiassem de qualquer jeito, mesmo se o partido apoiasse com o Flávio. Agora, isso é bom para o Lula, pelo tanto que é ruim para o Flávio, entendeu? Para o Flávio é bem ruim não conseguir juntar a direita inteira na sua candidatura na hora que ele for se apresentar, por exemplo, diante do mercado, na hora que ele se apresentar nesses eventos de embaixador e na hora que ele foi contar seu tempo de televisão, seu dinheiro de campanha, etc para ele é uma porrada grande, ele não conseguiu o apoio desses caras.

Fernando de Barros e Silva: Não é a direita inteira, né? É o cara mais próximo dele. O Ciro Nogueira era cogitado como vice presidente.

Celso Rocha de Barros: É, tirando os caras que são a mesma coisa que o PL, que é o Partido Novo, os mais próximos são ou seriam o PP e União Brasil. Então, assim, para o Flávio é uma notícia muito ruim e, por conseguinte, é uma boa notícia para o Lula. E aí começa a briga para conseguir alianças com esses caras nos Estados, né? Então, enfim, agora tá um pega pra capar em vários estados aí de gente do Lula e gente do Flávio tentando atrair gente do União Brasil e do PP para suas respectivas chapas. E essa tendência neutralidade tá com cara que vai emplacar em outros partidos, inclusive, por exemplo, no partido do Tarcísio, o Republicanos, que em Pernambuco, por exemplo, já declarou apoio ao Lula. Então tá com uma certa cara que a direita mais tradicional não vai bancar o Flávio oficialmente. Claro, se o Flávio sobe na pesquisa e fica com cara de ganhar no dia seguinte tá todo mundo lá.

Ana Clara Costa: Exato. É por puro oportunismo. Não é por convicção.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Mas por enquanto eles estão olhando para a cara do Flávio e dizendo "Olha, não sei não".

Ana Clara Costa: Não, há várias falas do Ciro Nogueira declarando apoio ao Bolsonaro nessa eleição. Ele falou em vários momentos "Estaremos com o Bolsonaro. Nós estamos com Bolsonaro". Sempre disse isso. Ele nunca aventou a possibilidade nem de neutralidade, nem de ter um candidato.

Celso Rocha de Barros: Exato. Assim, andando um pouquinho mais para o centro. O Lula teve um sucesso razoável, talvez não tão grande como ele queria, mas razoável em fechar vários acordos com o PSD do Kassab. Ele conseguiu alianças em Tocantins, no Rio de Janeiro, que a gente falou aqui, a Ana falou aqui do Eduardo Paes. Em Sergipe, no Mato Grosso e no Amazonas. A exceção do próprio PT, o PSD é o partido que mais terá a cabeça de chapa apoiado pelos petistas nessa eleição. Isso também foge muito da norma do PT nas últimas décadas, porque o PT lançava candidato próprio, nem que seja para lançar o nome do cara para a eleição seguinte. Era uma visão de longo prazo mesmo, de construção partidária. Então se consolida como a força de oposição. Mesmo que você perca cinco eleições seguidas, você vai se consolidando. Essa eleição, a estratégia do PT é bastante diferente. Não é só pela questão de eleger o Lula. É uma questão de, por exemplo, evitar o Senado totalmente golpista.

Ana Clara Costa: Como no caso de São Paulo.

Celso Rocha de Barros: Exatamente.

Ana Clara Costa: Com a Tebet e a Marina.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Então, assim, o PT de fato abdicou de cabeça de chapa nessa eleição como nunca tinha abdicado. E andando um pouco mais para a esquerda, quem voltou para aliança com o PT foi o PDT. A história do PT com o PDT é muito complexa. Nos anos 80, o PDT era maior que o PT, era mais importante que o PT, o PDT governava o Rio de Janeiro, o PDT depois governou o Rio Grande do Sul. O PT só começa a ganhar eleição em 88. O brizolismo era um movimento mais importante que o petismo nos anos 80 e a relação deles foi muito conflituosa. Mas eventualmente também teve as suas alianças. E depois, quando o Lula ganha a eleição, o Brizola morre na oposição. Ele racha com o PT no começo do governo porque ele acha que a política econômica do Palocci vai fazer a popularidade do Lula desmoronar. Então ele racha. Mesma coisa que o PPS, do Roberto Freire, fez foi exatamente por isso. Não foi por nada de de centrismo não. O PPS rompe com o PT por causa do Palocci.

Fernando de Barros e Silva: Mas essa relação é muito interessante, porque o Brizola foi vice do Lula em 98, antes do Lula ganhar.

Celso Rocha de Barros: Foi vice do Lula em 98. Então assim, eles tiveram que se engolir mutuamente em alguns momentos, mas era tenso. A relação sempre foi tensa. Mas aí quando depois que o Brizola morre e tal, acaba que o PDT mais ou menos gravita de volta para perto do PT. Quando o Ciro entra no PDT, o Ciro faz um movimento de distanciamento mesmo. "Não a gente quem construiu outro partido fora do PT. Então a gente não apoia mais o PT. A gente vai lançar os nossos próprios candidatos".

Ana Clara Costa: Ele desfigura.

Celso Rocha de Barros: É, ele muda completamente a estrutura de alianças do PDT. E se você pensasse nisso como um processo de longo prazo, o Ciro vai ficar lá 30 anos fazendo o que os petistas fizeram. O Lula ganhou a eleição, o PT tinha 22 anos, então ele vai ficar 20 anos lá, perdendo a eleição, construindo o diretório. Se você achar que é isso que ele vai fazer, fazia um certo sentido, mas o Ciro não é absolutamente capaz de fazer isso.

Fernando de Barros e Silva: A base social, trabalhismo é a base social é o Mangabeira.

Celso Rocha de Barros: Exato, entendeu? Então assim não faz mal.

Fernando de Barros e Silva: Mangabeira é a base social do Ciro.

Celso Rocha de Barros: E o Ciro acabou prejudicando bastante o PDT, porque durante um certo tempo ele conseguiu recrutar, por exemplo, jovens para o PDT. É bom lembrar. Tábata Amaral foi do PDT. Quem lembra disso?

Ana Clara Costa: Verdade.

Celso Rocha de Barros: O cirismo tinha uma militância em rede social bastante ativa.

Fernando de Barros e Silva: O Ciro tem uma coisa, uma retórica inflamada que é, particularmente, soa bem para os jovens.

Celso Rocha de Barros: Exato. Mas aí, enfim, acabou que ele foi virando um político mais antipetista do que qualquer outra coisa e isso foi atrapalhando o PDT em vários estados. A gente vai falar de um, inclusive no terceiro bloco. Então, assim, o PDT agora está voltando para as alianças junto com o resto da esquerda, o que pode ser promissor, inclusive se eventualmente surgir a proposta de uma federação de esquerda, porque se entra o PDT, que já é um pouquinho maiorzinho, já fica mais fácil dos outros entrarem sem se dissolverem no PT, entendeu? Se entra PDT e PSB juntos, o PT já não é mais tão majoritário assim, o PT já teria que negociar, porque o medo de cada um desses partidos de entrar sozinho...

Fernando de Barros e Silva: Ficar refém do PT.

Celso Rocha de Barros: É sumir. Porque aí o poder obviamente vai ser dividido por tamanho lá dentro. E o PT é muito maior do que cada um individualmente. Mas se você botar todos os outros ao mesmo tempo essa perspectiva ressuscita.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem, então a gente vai encerrar o segundo bloco do programa. No terceiro, a gente vai falar da eleição no Ceará. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Ana Clara, vou começar com você. A gente já falou um pouco do Ciro Gomes no outro bloco, o Ciro Gomes, que começou a sua carreira política, veja só, no PDS, que era o sucessor da Arena da ditadura. Isso lá nos idos de 82, 83. Depois ele foi PMDB, PSDB, onde ele foi eleito governador. PPS passou pelo PPS, pelo PSB, pelo Prós 2013-2015. Pelo PDT, o Celso falou, e agora voltou ao PSDB depois de muitos anos. Ou seja, o Ciro fez o circuito das águas, completa. É um anfíbio da política brasileira, das águas, das terras.

Celso Rocha de Barros: Querendo recomendação de partido, tem um cara aí que conhece todos.

Fernando de Barros e Silva: Exatamente. Fidelidade partidária não é muito com ele.

Ana Clara Costa: Ele é fiel ao partido Ciro.

Fernando de Barros e Silva: Vamos falar um pouco dessa candidatura. E ele é o favorito ao governo do Ceará neste momento.

Ana Clara Costa: Bom, como o Celso disse no bloco anterior que o Ciro tinha acabado se tornando antipetista, o mote do PDT virou ser anti-PT. Talvez pelo desempenho dele na eleição de 2022, em que ele foi acessório do Bolsonaro nos debates, acabou sendo colado um pouco a essa ideia, né? E aí, quero começar a partir de maio do ano passado, o que acontece? O governo do Ceará, ele é comandado pelo PT há 12 anos. Foram dois governos do Camilo Santana e agora um governo do Elmano. E no ano passado, a oposição começou a fazer um tal de café da oposição, que é tipo uma reunião da oposição que acontecia na Assembleia Legislativa do Ceará, para enfim, debater ali formas de de confrontar o governo vigente, né? E o Ciro passou a ser convidado para esse café. E aí, convidado para esse café, ele ouviu do grupo de deputados estaduais ali da Assembleia, que eles queriam que o nome dele fosse lançado para o governo de novo, para o governo do Estado, para eles conseguirem ter uma chance de tirar o PT do governo depois desses 12 anos. E foi aí que começou a conversa com o PSDB, já com esse encaminhamento para o Ciro ser o candidato ao governo do Estado. E aí ele volta para o PSDB já com esse carimbo, né? E aí, o que acontece? O André Fernandes, que é o principal nome do PL no Ceará, que é um jovem deputado, ele foi candidato a prefeito de Fortaleza na última eleição e ele quase ganhou. Perdeu, mas quase ganhou. E o fato de quase ganhar fez com que ele caísse para cima. Ou seja, ele teve uma votação tão expressiva que ele passou a comandar o PL no Ceará. E aí o Jair Bolsonaro, antes de ser preso, numa das viagens que ele fez para o Ceará, ele deu plenos poderes para o André Fernandes fazer o que ele quisesse com o partido lá e com o bolsonarismo lá. Então ele ficou com uma carta branca para montar a zona de influência do bolsonarismo lá. E aí, o que que o André Fernandes descobriu que seria difícil, Pelas características do Ceará, pela força da esquerda no Ceará. Porque além do PT, quem tinha governado era o Cid Gomes anteriormente por oito anos. Então assim, o André Fernandes tem demonstrado ser hábil, né? Viu que o PL sozinho não ia conseguir levantar um candidato e ele não poderia ser candidato porque ele não tem idade para isso ainda. E aí ele começou a compor com o PSDB, essa chapa que veio a ser essa chapa que a gente está vendo agora. Onde é que a Michelle entra nisso, né? Nessa história, ela tinha duas preferências no Estado o senador Girão, grande amigo do Celso, e a Priscila Costa, vereadora, tinha sido deputada federal e era vereadora, muito amiga dela. A Michelle quis tratorar o partido, tanto ela quanto a própria amiga dela, Priscila Costa, elas não quiseram negociar, conversar com Andre Fernandes e daí elas tentaram ir por cima assim: "Olha, a Michelle tá mandando, vai ser a Priscila Costa". E como o próprio Bolsonaro já tinha dado esse aval, e aí a gente vê como que a família não está alinhada nos mesmos propósitos, como era o Bolsonaro, que tinha dado esse aval para ele, o Valdemar manteve a palavra do Bolsonaro e a Priscila e a Michelle se dispuseram muito com o partido, sobretudo no Ceará, ao tentar uma solução truculenta de "vai ser ela porque eu mandei", entendeu? Então, por um lado, você tinha um cara que estava construindo politicamente uma solução para tentar tirar o PT do governo. E por outro, você tinha a mulher do ex-presidente mandando uma candidata que não tinha construído aquilo politicamente. Então foi mais ou menos por isso que o negócio deu errado, né? Eu até falando isso para vocês, eu não tinha entendido essas nuances, né? Quando a gente tava falando sobre esse assunto nos outros programas, eu ficava me questionando por que não deram essa vaga de Senado para Michelle? A mulher tem voto. Ela ia conseguir fazer essa senadora. Mas aí, agora, entendendo um pouco melhor os detalhes da disputa, faz sentido politicamente, ela ter criado uma grande indisposição ali, porque ela não quis compor, ela não quis conversar, ela não quis fazer política. E, por incrível que pareça, tudo indica que o PL no Ceará faz política. E aí vem para o presente, né? Uma vez que a aliança está consolidada. Tem uma questão interessante: o Ciro Gomes não vai dar palanque para o Flávio Bolsonaro nessa aliança tão improvável. O que ficou acertado no acordo entre eles é que quem vai dar palanque para o Bolsonaro, quem vai fazer campanha para o Flávio Bolsonaro vai ser o pai do André Fernandes, que vai ser um dos candidatos ao Senado dessa chapa que é o Alcides Fernandes. Ele vai ser porta voz do bolsonarismo. O Ciro avisou que não vai dividir palanque com Flávio, que não vai fazer, enfim, nenhum tipo de campanha para o Flávio, que não vai defender o Flávio. Nos bastidores, o Ciro tem falado que vai apoiar o Caiado, até porque o PSD está nessa aliança também.

Fernando de Barros e Silva: Conexão entre Merval Pereira e Ciro Gomes, o ponto de encontro entre Merval Pereira e Ciro Gomes é Ronaldo Caiado.

Ana Clara Costa: Pois é. Como ele vai operacionalizar isso? Eu não sei, né? Eu aceito o seu partido, mas com você eu não converso. Você eu não defendo. Enfim, como isso vai ser possível? Eu não sei. E eu acho que também é uma forma de ele achar que isso vai convencer alguém de que ele não compactua com o bolsonarismo, né? Mas assim, é muito difícil você convencer alguém quando a sua aliança, o principal partido que te sustenta ali é o PL, o PSDB é minúsculo hoje em dia, né? O PSDB do Ceará não tem nem deputado federal. Foi forte porque tem o Tasso Jereissati, que já foi senador por inúmeros mandatos, foi governador. Então é isso. O Ciro, ele quer esse apoio, mas ele acha que vai conseguir não sujar as mãos. E aí tem um último detalhe dessa história, que é a participação do União Brasil, da Federação União Brasil - PP. Nessa coligação, o ministro Gilmar Mendes chegou a se articular para fazer com que une a um Brasil, sobretudo União Brasil, Antonio Rueda, apoiasse a chapa do PT no Ceará.

Celso Rocha de Barros: O Gilmar Mendes do STF?

Ana Clara Costa: Gilmar Mendes do STF. O Gilmar Mendes tem boas conexões no Ceará.

Celso Rocha de Barros: Sei lá.

Ana Clara Costa: Ele tem boas conexões no Ceará. O ex-cunhado dele, Chiquinho Feitosa, irmão da Guiomar Feitosa, que é ex-mulher do Gilmar, é do Ceará. O Chiquinho Feitosa é do Republicanos, né? E enfim, eles queriam que Republicanos, que União Brasil, todos entrassem na chapa de sustentação do Elmano. E o Gilmar era um dos entusiastas dessa coligação, mas que acabou não dando certo porque, no final das contas, para surpresa de zero pessoas, o Rueda vai apoiar a chapa do Ciro com o com PL no Ceará.

Fernando de Barros e Silva: Gilmar Mendes... Eu fiquei...

Celso Rocha de Barros: Eu também. Agora que o Conrado Hilbert tem um troço ouvindo esse programa.

Fernando de Barros e Silva: Tem o dom da ubiquidade. Está em toda parte ao mesmo tempo. Tá na CBF, tá no Ceará. Celso, deixa eu te ouvir sobre o Ceará.

Celso Rocha de Barros: Bom, Fernando, é a primeira eleição estadual em que a família Ferreira Gomes vai entrar dividida, né? A família Ferreira Gomes já está parte da política do Ceará há bem mais que 100 anos. Eles já tiveram diversas autoridades lá que era da família. Agora, isso é sempre bom lembrar. Daí a você, por exemplo, chamar de coronelismo vai uma grande distância, entendeu? Está errado. Assim, eles são uma família tradicional da política cearense. Como tem família de político do Rio de Janeiro, de São Paulo, etc. Mas assim, eles, essa geração, pelo menos do Ciro e do Cid, foi formada na democracia. Eles não faziam voto de cabresto, não violavam o segredo do voto que nem os coronéis faziam. Então assim, é um negócio meio, até aí o pessoal do Nordeste reclama que quando você pega um político tradicional do Nordeste e chamo de coronel, e aí um cara igualmente ruim aqui do Sudeste, a gente trata como um político.

Ana Clara Costa: Uma família...

Celso Rocha de Barros: Exato. Tradicional.

Ana Clara Costa: Tradicional.

Fernando de Barros e Silva: Uma família respeitável do Sudeste, como a família Bolsonaro. Não é isso?

Celso Rocha de Barros: Exato. Exatamente. Numa matéria do G1, que saiu dia 14 de julho, eu conheci o cientista político José Clayton Vasconcelos Montes. Tem uma citação muito boa dele que diz o seguinte que o racha da família Ferreira Gomes aconteceu sobretudo na eleição de 2022, quando o Cid queria apoiar Izolda Cela para o governo, que era uma candidata muito forte, é uma das principais responsáveis por aqueles excelentes resultados da educação em Sobral. Essa é uma figura.

Ana Clara Costa: Secretária do Camilo.

Celso Rocha de Barros: Exato. Uma figura respeitadíssima, inclusive por gente mais liberal, etc. E teria sido uma excelente candidata. Mas o Ciro era candidato a presidente e ele não confiava muito na Izolda, porque a Izolda, lá na origem, era do PT. Ela entrou no PDT ali junto com o Cid. Então o Ciro insistiu no nome do Roberto Cláudio para governador na última eleição. Eles tentaram lá uma negociação. Foi uma briga bem feia. O Ciro ganhou a disputa. O Roberto Cláudio foi candidato, mas perdeu. E depois disso, as relações entre o Ciro e o Cid ficaram bastante abaladas. É interessante notar, inclusive nessa mesma matéria do G1, que quando a Izolda foi preterida a Gleisi Hoffmann no lançamento da chapa Lula, Alckmin reclamou publicamente. "Mas por que não lançar um Izolda? A gente já ia apoiar ela de qualquer maneira". Então, assim, basicamente por essa circunstância do Ciro querer ser candidato a presidente, queria um cara do PDT mais alinhado com ele no Ceará. Eles perderam a chance de eleger a Izolda pelo PDT com o apoio do PT.

Ana Clara Costa: E o Roberto Cláudio se filiou à União para poiar o Ciro nessa nessa aliança.

Celso Rocha de Barros: Exato. Exato. Então, assim a briga vem dali. E a propósito, depois que eu vi essa análise interessante do José Clayton Vasconcelos, eu pesquisei e descobri que ele fez uma tese de doutorado sobre as políticas de aliança do governo Cid Gomes 2007-2014, que eu comecei a ler e tô achando interessante. Depois conto mais para vocês. Tá disponível na internet.

Fernando de Barros e Silva: Muito bom!

Celso Rocha de Barros: Enfim, no fundo, o que aconteceu no Grupo Ferreira Gomes é que o Ciro Gomes resolveu colocar a sua intenção de ser candidato a presidente acima de qualquer interesse do grupo local, que é de fato muito sólido. Tem resultados eleitorais muito impressionantes nos últimos 20 anos e, deve-se dizer, entregou resultados, né cara? Esses resultados de Sobral em índices de educação são realmente excepcionais. São um negócio...

Ana Clara Costa: É, há críticas a esse modelo. Vou ser a voz das críticas, não que eu concorde com elas, porque eu não tenho conhecimento nenhum nesse assunto. Mas há a crítica de que esse modelo favorece muito o Ideb, no sentido o aluno estudapara o Ideb, não necessariamente para aprender. Você estuda para cumprir o Ideb, para o Estado se dar bem no Ideb e aí, por isso, performar bem no cáculo nacional, mas que no âmbito da educação, os educadores têm algumas questões em relação a aí sim, mas só estou levantando esse ponto que há críticas.

Celso Rocha de Barros: Esse ponto existe mesmo.

Ana Clara Costa: Eu não tenho como avaliar.

Celso Rocha de Barros: Acho a crítica totalmente válida, mas eu acho que aí é uma questão de você fazer um Ideb que meça bem.

Ana Clara Costa: Porque, por exemplo, que o Ratinho Júnior fez no Paraná, ele tava focando.

Celso Rocha de Barros: Uma coisa meio estranha de pegar aluno fraco e jogar para a turma que não é. Aí era meio estranho.

Ana Clara Costa: Mas era tudo focado no Ideb também. E eles de fato conseguiram no Paraná resultados impressionantes.

Sonora: Um negócio meio, meio...

Ana Clara Costa: Não. Sim, mas assim. E os educadores do Paraná criticaram muito essa essa política do Ratinho.

Celso Rocha de Barros: Mas o fato é que a família Ferreira Gomes tinha o grupo deles, né? Político. Tinha passado por vários partidos, mas tinha uma certa identidade assim. Porque, é bom lembrar, o Ciro começa no PDS, aí ele vai para o PMDB, no PMDB ele é recrutado pelo Tasso Jereissati. Esse é o grande momento da vida dele. Ele passa a fazer parte desse grupo que de fato, você pode ter várias opiniões sobre o Tasso, mas ele enfrentou aquele, aí sim, o coronelismo mesmo tradicional.

Ana Clara Costa: Eles tiraram o estado do coronelismo.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. O Ciro vira um adulto politicamente dentro desse processo do Tasso enfrentando o coronelismo lá dentro.

Ana Clara Costa: E agora o Tasso de novo foi o responsável pela articulação dessa volta dele para o PSDB.

Celso Rocha de Barros: O que aí já não sei se foi uma boa ideia. O Ciro Gomes foi o único governador eleito pelo PSDB em 1990, a primeira eleição para governo e Câmara de Deputados da história do PSDB, que foi um resultado muito ruim. Quando acabou aquela eleição, eu era aluno de intelectuais tucanos que achavam que o partido ia acabar.

Fernando de Barros e Silva: O partido tinha acabado de começar, né? Começou em 88, o PSDB. O partido surgiu como uma dissidência do MDB.

Celso Rocha de Barros: Exatamente.

Fernando de Barros e Silva: Em 88.

Celso Rocha de Barros: O primeiro resultado deles, eles mesmo avaliaram como um desastre. E aí só com o Plano Real é que o coiso... Mas eu me lembro de intelectuais tucano dizendo que o Ciro ia ser uma joalheria que eles iam fazer, entendeu? Que eles achavam que era um cara talentoso e que eles iam lapidar o Ciro para o Ciro ser um cara não sei o quê lá, ele briga com o Fernando Henrique no meio do processo, conhece o Mangabeira Unger, o que eu acho que foi um desastre para os dois, porque são dois sujeitos messiânicos, um alimentando a maluquice do outro durante 20 anos.

Ana Clara Costa: E ele brigou com o Tasso também, né?

Celso Rocha de Barros: Brigou com o Tasso. Exato. Mas assim, o trajeto do Ciro, eu acho até, sei lá, é difícil não ter a sensação de que ele podia ter rendido bem mais se ele fosse capaz de entrar num partido, ficar num partido e pisar barro para organizar um partido e fazer uma coisa mais, menos de oratória e tal. Mas enfim, ele acaba dessa maneira que eu acho meio melancólica assim, quer dizer, agora ele está num PSDB incomparavelmente mais fraco do que o que ele saiu, né? E meio para gerir uma certa massa falida ali, né?

Fernando de Barros e Silva: Mas sabe o que me incomoda hoje? Se o PSDB não pode ser um veículo ou uma espécie de antessala para a direita tomar conta, não digo definitivamente, mas tomar conta de maneira mais prolongada do Estado, porque um dos assuntos do Ceará hoje em dia é a violência.

Ana Clara Costa: Sim, sim.

Fernando de Barros e Silva: Tenho muito interesse em saber o que o Ciro vai dizer para a segurança pública. Saiu essa semana, inclusive o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre muitos dados que eles levantam, tá lá o ranking das dez cidades mais violentas do Brasil em 2025, com mais mortes violentas. A cidade mais violenta do Brasil no ano passado foi Maranguape, que é na Grande Fortaleza que tem nada menos que o estarrecedor índice de 100,3 mortes por 100 mil. É uma coisa assim assustadora. Desbancou a Bahia, a cidade de Eunápolis, na Bahia, o segundo colocado, terceiro colocado, é Maracanaú, também no Ceará. 80 mortos a cada 100 mil habitantes. Para vocês terem uma ideia do que isso representa, em São Paulo está abaixo de oito, se eu não me engano, a cada 100 mil habitantes.

Ana Clara Costa: E tem uma terceira cidade cearense também nesse ranking de dez, né Fernando?

Fernando de Barros e Silva: Nesses dez tem a terceira cidade cearense, que é Caucaia. Tem cinco cidades baianas. Essas cidades mais violentas se concentram todas no Nordeste. E a Samira Bueno, com quem eu conversei, fala inclusive, que é briga de facção, tráfico de droga. E são cidades que tem alguma coisa estratégica para o escoamento ou a distribuição da droga. Ou é perto de uma BR, ou é cidade portuária. E Porto Seguro, por exemplo, na Bahia, é a quarta cidade mais violenta do Brasil no ano passado, a mais violenta e muito abrangente, mas com maior número de mortes violentas de assassinatos no Brasil. Agora, é estarrecedor esse negócio do Ceará. A gente sabe que é coisa do crime organizado lá se expandiu muito. Eu tenho muita curiosidade para ver como o Ciro Gomes vai lidar com essa questão, estando ele aliado ao pessoal do PL.

Ana Clara Costa: Eu posso te antecipar que a estratégia dele para essa campanha vai ser a segurança pública e obviamente, culpando o PT por esses indicadores, sobretudo esses mais recentes do Anuário de Segurança Pública. Como ele não quer nacionalizar a campanha para não se ver obrigado a defender ou Flávio ou Lula, sendo que ele quer defender Caiado, ele vai falar só do Estado.

Fernando de Barros e Silva: É, a questão da segurança pública vai ser um discurso muito importante, não só para os candidatos ao Executivo, mas para o Senado. Acho que isso vai ser vai ter muito candidato associado a essa bandeira pela direita, né? E essa é uma questão que a gente vai tratar nos próximos, nas próximas semanas. Então a gente encerra o terceiro bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, Kinder Ovo. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Mari Faria, nossa diretora, Kinder Ovo, Mari Faria. Vamos lá.

Sonora: Não é por acaso a derrocada nossa na Copa. Nada acontece por acaso. A bola não entra ou entra por acaso e a gente está vendo aí o Brasil em frangalhos.

Celso Rocha de Barros: Não é o Girão não, é?

Fernando de Barros e Silva: É o Girão! Não é possível. Casca de Bala está terrível.

Celso Rocha de Barros: Não, mas esse eu tinha que saber. O cara já arrumou investigação da Polícia Federal contra mim. Eu sei.

Ana Clara Costa: Cara, mas o sotaque dele é totalmente, não é...

Celso Rocha de Barros: É? Então é mesmo.

Ana Clara Costa: Não, é, parece interior de São Paulo, assim.

Fernando de Barros e Silva: É senador pelo Novo Ceará, reclamando da publicidade das bets durante a Copa do Mundo na TV do Senado. E o relógio gira. Em algum momento a gente vai estar vai concordar com alguma coisa que o Girão falou na vida, não é isso.

Celso Rocha de Barros: Girão é relógio digital, não acontece isso.

Fernando de Barros e Silva: Bom, Casca de Bala levou mais essa. Essa foi sacanagem, hein, Mari?

Celso Rocha de Barros: A sacanagem foi a que a Maria Júlia botou uma vez o Girão falando de teatro experimental.

Ana Clara Costa: É verdade, essa foi foda.

Fernando de Barros e Silva: Vamos para o Correio Elegante. O momento das cartinhas, o melhor momento do programa. Momento de vocês. Vamos lá e eu vou começar aqui ler o recado da Juliana Alvry, espero ter lido o seu sobrenome de forma correta. Diz o seguinte: "Na próxima encarnação quero ser interessante que nem a Ana Clara".

Celso Rocha de Barros: Todos queremos.

Fernando de Barros e Silva: "Que apura tudo que há de mais importante nesse país. Daqui de Portugal, me mantenho informada e lúcida semanalmente, ao ouvir o Foro. Obrigada por existirem. Um salve para o meu conterrâneo Casca de Bala".

Celso Rocha de Barros: Aê!

Ana Clara Costa: Juliana, obrigada!

Celso Rocha de Barros: Valeu, Juliana!

Fernando de Barros e Silva: Tenho também uma mensagem da Larissa Locozzeli. Espero também ter lido o nome certo. "Fernando, Minas Gerais nos deu também Lélia Gonzalez e Conceição Evaristo, só para nomear duas das extraordinárias intelectuais negras mineiras". Muito boa sua menção! Muito boa porque eu falei na semana passada do Drummond e do Guimarães Rosa. Muito bem, obrigado, Larissa.

Ana Clara Costa: Adélia Prado... Se a gente for listar, aí os outros estados vão ficar com ciúme também.

Fernando de Barros e Silva: Vão.

Ana Clara Costa: A Cláudia Dias já tá pronta para prestigiar a próxima estreia da piauí: "Amo vocês! Mas hoje o meu comentário é para a queridíssima Consuelo Dieguez, visionária que enxergou o escândalo Master quando tudo era mato. Que luxo esse podcast! Beijos". Consuelo é tudo isso e mais um pouco, Claudia. Consuelo é a rainha.

Fernando de Barros e Silva: Muito bom. Muito boa mensagem. É isso mesmo. Certíssimo, Claudia. Tudo era mato. Consuelo estava lá.

Celso Rocha de Barros: Exatamente.

Celso Rocha de Barros: A arroba @fgmunhoz escreveu: "Gente, estou animada. Dei um match num aplicativo de relacionamento e o crush mencionou que curte podcasts. Então iniciei o papo perguntando o que ele gosta de ouvir e qual não foi minha alegria quando ele respondeu que curte o Foro. O selo "Foro de Qualidade" garante um bom papo e resguarda do risco de um encontro desagradável com o bolsonarista. Sem mais delongas, vou tranquila para o date". Depois você conta aí pra gente como é que foi.

Ana Clara Costa: Exato! A gente quer saber se ele é boy lixo ou não. Se é esquerdomacho.

Celso Rocha de Barros: Tem uns cara meio esquisito com esses aplicativos.

Ana Clara Costa: Cuidado!

Fernando de Barros e Silva: Bom, o que é bom dura pouco, que não é tão bom também acaba, não é isso Mari Faria? Assim, a gente vai encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars para a gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita, na Deezer e se inscreva no YouTube. Você também encontra a transcrição do episódio no site da piauí. O Foro de Teresina é uma produção do Estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Bárbara Rubira. A direção é da Mari Faria. Com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira, a checagem é da Ethel Rudnitzki. A edição é da Bárbara Rubira e da Mariana Leão. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, no Estúdio Rastro do Danny Dee, no Rio de Janeiro e em Paraty também, onde está a Mari Faria. Eu me despeço então dos meus amigos. Até hoje, né, Ana? Tchau, Ana!

Ana Clara Costa: Até mais. Até logo mais e até mais para quem vai estar com a gente em Paraty.

Celso Rocha de Barros: É isso aí.

Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.

Celso Rocha de Barros: Até mais, Fernando. Abração pra todo mundo! Até semana que vem ou até logo pra quem estiver lá na Flip.

Fernando de Barros e Silva: É isso, gente! Pra quem estiver na Flip, a gente se vê hoje, sexta-feira, para você que está nos ouvindo. Uma ótima semana a todos e até semana que vem!


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