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CADERNO DO REPÓRTER: UMA JORNADA ATÉ OIAPOQUE

Os bastidores da reportagem O petróleo é nosso
Para chegar à cidade foram 9 horas de viagem, com muita lama na estrada e engarrafamento de veículos atolados - Foto: Camille Lichotti
Para chegar à cidade foram 9 horas de viagem, com muita lama na estrada e engarrafamento de veículos atolados - Foto: Camille Lichotti

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Em dezembro do ano passado, eu estava apurando o perfil do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que seria publicado na piauí dali a quatro meses. Organizei uma viagem ao Amapá, terra natal do senador, onde faria boa parte da apuração. O plano era esse, apenas. Mas, ao comentar com uma fonte sobre a minha viagem, ela sugeriu que eu aproveitasse para dar um pulo em Oiapoque, cidade no extremo Norte do estado. Disse que a exploração de petróleo na Foz do Amazonas – ou melhor, as promessas de que a exploração iria produzir riquezas numa proporção babilônica – já tinha transformado aquele canto isolado do país. A ideia era boa: uma viagem, duas pautas. Depois que o diretor de redação da piauí, André Petry, deu sinal verde, me pus a planejar esse itinerário nada simples.

Apesar do que sugere a expressão “do Oiapoque ao Chuí”, a cidade amapaense não é o ponto mais ao Norte do país – o posto pertence a Uiramutã, em Roraima. Essa curiosidade – que aprendi com um colega de faculdade do Amapá – era tudo o que eu sabia sobre o lugar. Só descobri quão difícil seria chegar lá quando já estava a caminho, acompanhada do motorista Sebastião do Espírito Santo Gomes. Oiapoque fica a quase 600 km de Macapá, uma distância que acaba sendo ampliada pelas más condições da estrada. Foram 9 horas de carro, com muita lama e engarrafamentos de veículos atolados. Chegando ao destino, ainda precisei zanzar por meia hora em busca de um hotel que tivesse vagas (antes da viagem, havíamos tentado fazer uma reserva à distância, mas não conseguimos). Os lugares mais confortáveis estavam totalmente ocupados por funcionários da Petrobras, já que a estatal hoje está conduzindo estudos sobre a viabilidade da exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

No fim, consegui me instalar em um hotel à beira do Rio Oiapoque. Havia mofo nos quartos, e banho, só com água fria. Mas a localização era boa: da recepção do hotel, pude observar a movimentação na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. A bordo de catraias – um tipo pequeno de embarcação –, garimpeiros trafegavam de um lado para o outro carregando alimentos e combustível, insumos importantes para abastecer os garimpos da Guiana. Assim ficou clara para mim, já no primeiro dia, a simbiose entre Oiapoque e a vizinha Saint-Georges-de-l'Oyapock. No hotel, as pessoas me cumprimentavam em francês, idioma que se ouve muito por ali. No banheiro de um restaurante, encontrei um cartaz bilíngue. 

O que me interessava na pauta era descobrir as consequências reais da especulação que se via no noticiário a respeito da exploração de petróleo, e como isso vinha impactando a vida dos moradores. Que tipo de problemas estavam surgindo em Oiapoque? Que transformações? Que temores e que alegrias? 

Funcionários da Petrobras começaram a frequentar Oiapoque tão logo a empresa assumiu o processo de licenciamento ambiental para explorar petróleo naquela região, em 2021. A autorização foi concedida pelo Ibama sob forte pressão do governo e críticas de ambientalistas. Desde então, atraídos pela promessa de bilhões em royalties, brasileiros de diferentes estados se mudaram para a cidade. A migração foi tanta que, em apenas um ano, a prefeitura teve de criar sete novos bairros que se espalham floresta adentro em ocupações precárias, desmatando uma das áreas mais preservadas do país. 

Descobri que, além dos danos ao meio ambiente, a corrida do petróleo vem causando problemas sociais diversos. Um deles é a gentrificação. Com a demanda crescente por moradia em Oiapoque, os aluguéis subiram de preço – e, com isso, jovens indígenas que estudavam na cidade se viram obrigados a ir embora. O barulho dos helicópteros da Petrobras afastou a caça que alimentava algumas comunidades. Ambientalistas e indígenas, vistos como obstáculos ao progresso, passaram a sofrer hostilidades.

Na cidade, entrevistei empresários, lideranças indígenas, vereadores, ambientalistas, comerciantes e até um garimpeiro que trabalha desmatando a floresta para dar lugar a novas ocupações. Também procurei o prefeito, Breno Almeida (PP), mas, ao chegar à sede da prefeitura, descobri que ele havia perdido o cargo naquela manhã, acusado de compra de votos e abuso de poder. A posse do interino seria dali a poucas horas, na Câmara de Vereadores. Resolvi acompanhar. Enquanto gravava a cerimônia em áudio, anotei os gestos e comportamentos dos participantes, assim como os horários em que cada coisa acontecia. Minhas anotações costumam ser caóticas porque tenho o hábito de registrar qualquer detalhe que chama minha atenção, mesmo que depois ele se mostre irrelevante e seja descartado. Nesse dia eu anotei, por exemplo, que uma lâmpada branca piscava sem parar no teto da Câmara e que o início das sessões era sinalizado com uma campainha de mesa. A descrição dessa cerimônia, em que a exploração de petróleo foi mencionada diversas vezes, serviu para mostrar o contraste entre a megalomania dos políticos e a realidade precária do município.

É difícil escolher por onde começar a escrever uma reportagem, depois de horas de entrevistas, pastas repletas de documentos e cadernos de anotação abarrotados. Neste caso, pensei no que eu contaria primeiro caso estivesse numa mesa de bar. Optei, então, por abrir o texto com a cena de uma empresária feliz da vida por ter sido presenteada com champanhe francês. Era a última coisa que eu esperava ver no escritório de uma pousada no meio da Amazônia. Com esse episódio anedótico, comecei a contar as transformações em Oiapoque por meio da história dessa mulher, que se apresenta como a “rainha do petróleo” e rejeita voltar à “caverna”, palavra que usa para se referir à vida ribeirinha que experimentou na infância.

Escolher a última frase do texto foi mais fácil. No último dia de viagem, me estendi numa conversa com Valdilene Capucho da Silva, dona de uma barraca que oferecia café da manhã perto da minha pousada. Comentei algumas entrevistas que eu tinha feito, e ela listou os problemas básicos que Oiapoque precisa resolver antes de pensar em se tornar a “nova Dubai”, como dizem alguns empresários e políticos. Não há coleta de esgoto, por exemplo. Todas as escolas e creches municipais funcionam em casas abandonadas. O asfalto é precário.

Numa mesa ao meu lado, um homem e um adolescente que haviam acabado de descer de uma picape preta entraram na nossa conversa. Mencionei, nesse papo descontraído, o fato de que recentemente Oiapoque inaugurou seu primeiro prédio com elevador. Não podia imaginar que o rapaz sentado à minha frente, de apenas 15 anos de idade, era o dono do prédio, um presente de seu pai. Rimos da coincidência. Ele me disse que seu sonho era “ser rico”. Assim que ouvi a frase, soube que seria um bom resumo da ambição que cerca a cidade. Semanas depois, seu pai foi preso pela Polícia Federal com 400 mil reais em espécie, dinheiro cuja origem ele não foi capaz de comprovar. Mais um entre os muitos mistérios de Oiapoque.

Leia aqui a reportagem.


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