30 Out 2026
1h 2 min de leitura
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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:
Conteúdos citados neste episódio:
"Plano de fuga de Flávio Bolsonaro já estava organizado semanas antes da derrota", coluna de Bela Megale no Globo.
"A previsão de Palocci sobre quem será o ministro da Fazenda do governo Lula 4", coluna de Bela Megale no Globo.
"Eleição no Brasil é a mais importante para o mundo fora dos EUA em 2026, diz Daron Acemoglu", entrevista de Daron Acemoglu para a BBC.
"Em mensagens internas, Meta admite que contas de Lula foram prejudicadas por restrições; engenheiros falam em falhas técnicas", reportagem de Patrícia Campos Mello para a Folha.
"Após privilegiar Flávio, IA da Meta cessa criação imagens de senador e Lula", reportagem de Patrícia Campos Mello para a Folha.
"Campanha de Lula decide pedir cassação de chapa de Flávio por 'manipulação algorítmica' da Meta", reportagem de Patrícia Campos Mello para a Folha.
"The Oligarchs Lose a Big One", artigo no Substack de Paul Krugman.
"Bukele parabenizou Lula por vitória em carta no próprio dia da eleição", reportagem de Patrícia Campos Mello para a Folha.
"A Global Anti-Right Backlash", reportagem de Ishaan Tharoor para a New Yorker.
"A bet de Flávio Bolsonaro", reportagem de Allan de Abreu, Felícia Cabrita e Mário Gouveia para a piauí.
"O esgrimista", reportagem de Breno Pires para a piauí.
"Da derrota para Lula à fuga a Miami: saída de Flávio Bolsonaro do Brasil teve jatinho à espera, despiste de Eduardo e contato com governo Trump", reportagem de Luísa Marzullo para O Globo.
"Exclusivo: Tarcísio diz que aconselhou Flávio Bolsonaro a não sair do Brasil após derrota para Lula", entrevista de Tarcísio de Freitas para o Estadão.
"Eduardo Bolsonaro capitaneou mentiras e desinformação para despistar fuga de Flávio", reportagem de Bela Megale para o Globo.
"EUA atuaram para Flávio retirar 'presidente eleito' de carta golpista", reportagem de Mariana Sanchez para o Uol.
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO
Sonora: Rádio piauí.
Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da revista piauí.
Sonora: Eu penso que esses idosos que tiveram a coragem de dizer ao mundo: o Brasil não é quintal de ninguém.
Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!
Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi pessoal!
Sonora: Muchas, muchas, muchas felicidades al presidente Lula, al pueblo de Brasil. Es una bocanada de aire fresco para América Latina y el Caribe.
Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de baleia!
Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.
Sonora: Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração que é uma clara tentativa de me intimidar. Mas ninguém vai me calar.
Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira. Antes dos assuntos da semana, eu quero agradecer a vocês pela audiência no domingo histórico da apuração dos votos. A gente recebeu muitas mensagens e eu agradeço em nome do Foro e da piauí pela parceria que a gente criou. Muito, muito, muito obrigado a cada um de vocês.
Fernando de Barros e Silva: Vamos então aos assuntos da semana. Foi uma vitória avassaladora da democracia. Avassaladora porque obtida em circunstâncias históricas muito adversas. E era até o dia da votação, tida como um resultado improvável. Todos os institutos de pesquisa, ou ao menos os mais credenciados, apontavam vantagem numérica de Flávio Bolsonaro, ainda que dentro da margem de erro. As ruas, no entanto, estavam dizendo algo diferente. Na véspera do segundo turno, manifestações em várias partes do Brasil, mas sobretudo na Avenida Paulista, em São Paulo, impressionaram pela força, pela quantidade de gente e pela energia que ali se exprimiu. Havia um contraste evidente entre a frieza dos números e o calor da avenida. No final, deu Lula. Dois dias antes de completar 81 anos, o petista obteve a mais extraordinária vitória política de sua vida. Ganhou com mais de 64 milhões e 200 mil votos. 4 milhões e 400 mil votos a mais que seu adversário. No primeiro turno, o primogênito de Jair Bolsonaro tinha chegado à frente do petista por uma diferença de 2 milhões e 200 mil votos. Em três semanas, Lula conseguiu atrair mais de 10 milhões do que havia obtido em 4 de outubro. Teve, no final, 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Isso sem nenhum apoio político dos demais candidatos. Quase todos bandearam para Flávio. Caiado, Augusto Cury e Zema, a exceção ficou por conta de Renan Santos, do Missão, ex-MBL, que se manteve distante e crítico às duas candidaturas, mas pesou mais a mão sobre as debilidades de Flávio, que ele ridicularizou com gosto. A grandiosidade do feito se traduz em vários números. No país inteiro, a abstenção caiu de 21,08% para 19,22. Quase 3 milhões de pessoas que tinham ficado em casa no primeiro turno foram votar no segundo. Houve também a redução de 1 milhão e 800 mil votos brancos e nulos. Lula melhorou seu desempenho em quase 97% dos municípios brasileiros e virou o jogo em 211 cidades que tinham dado maioria a Flávio no primeiro turno. Entre as viradas do petista estão as cidades do Rio de Janeiro e de Macapá. Minas Gerais, estado estratégico, foi o único da Federação a trocar de lado, dando maioria ao petista. No Nordeste, onde Lula já tinha larga vantagem, ele ganhou 3 milhões de votos entre os dois turnos. A conta do presidente eleito agora será outra. Lula terá pela frente um Congresso amplamente dominado pela direita. Terá de enfrentar também a crise instalada no Supremo, com a fragilização da legitimidade da Corte e alguns de seus ministros envolvidos no escândalo do Banco Master. A gente vai falar desses assuntos, mas antes vamos nos deter no que aconteceu com o eleitor brasileiro nessas três semanas históricas. É o nosso primeiro bloco. No segundo bloco, a gente olha para o impacto da vitória de Lula no mundo. Se em 2022 se dizia, com razão, que o petista havia salvado a democracia brasileira. Tem-se agora a percepção de que Lula e o Brasil viraram uma referência global na luta contra o avanço da extrema direita e de governos permeáveis ao fascismo. É assim que o mundo democrático passou a nos enxergar. Dias antes do segundo turno, o grupo de ativistas britânicos Everyone hates Elon, Elon Musk, colocou num ponto de ônibus perto do Parlamento em Londres. Um cartaz com Lula segurando a Constituição nas mãos e os dizeres "O mundo precisa de Lula. A América Latina não é o quintal de Trump". Depoimentos de artistas como Pedro Almodóvar, Tilda Swinton, Mark Ruffalo e muitos outros se espalharam pelas redes com referências à defesa da democracia e da floresta amazônica. Após a vitória de domingo, surgiram movimentos inspirados no exército de Janones, que mobilizou a campanha lulista no WhatsApp e nas redes sociais. Na Argentina, foi criado o grupo Ejército del Peronismo, que reúne os jovens da ala mais à esquerda do movimento peronista. Na França, criou-se o L'équipe de Mélenchon officielle, a equipe oficial de Mélenchon, reunindo apoiadores de Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda francesa e fundador do partido França Insubmissa. Na Espanha, por sua vez, surgiu La Fuerza de la Gente, a força das pessoas. Em apoio a Pedro Sanches, atual primeiro ministro do país que está em pré-campanha eleitoral pelo Partido Socialista Operário Espanhol. A vitória de Lula foi logo reconhecida e saudada por vários líderes mundiais. A mexicana Claudia Sheinbaum era uma das mais emocionadas e suas palavras correram as redes. As exceções ficaram por conta de Javier Milei, que não se manifestou. E Donald Trump que disse, sem apresentar provas, obviamente, que a eleição pareceu fraudada. Com a reeleição de Lula, o Brasil frustra o projeto norte-americano de alinhar politicamente às Américas a cartilha de Trump. A gente vai falar de tudo isso. No terceiro bloco, o assunto é o fujão. Depois de não reconhecer a derrota no domingo, alegando fraude eleitoral numa pantomima patética, Flávio Bolsonaro foi tirando a fantasia. E para quem ainda precisava de evidências, não era o nosso caso. revelou por inteiro, em poucas horas, o que ele sempre foi: um golpista vagabundo. Após a eleição, o ministro Alexandre de Moraes mandou o senador entregar o passaporte e proibiu sua saída do Brasil. Decisão que se justificava à luz dos fatos. Havia o risco de ele fugir do país, o que acabou ocorrendo. Mas decisão que revela mais sobre a situação do próprio Xandão, também enrolado no caso do Master, do que colabora para o avanço da investigação sobre Flávio. O senador é alvo de inquéritos envolvendo o financiamento de Dark Horse por Daniel Vorcaro e também por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Em parceria com o advogado Willer Tomaz, seu amigo do peito e de mutretas. Antes de escapar, o senador derrotado divulgou um vídeo em que dizia: "Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes". No dia seguinte, desapareceu, despistando a própria segurança. Aliados espalharam versões falsas sobre seu paradeiro para ajudar na fuga que se deu no final da noite de terça pela Argentina, rumo a Miami, com escala no Equador. A fuga, como revelou a jornalista Bela Megale, já vinha sendo preparada havia semanas. Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo haviam articulado com integrantes do governo Trump a saída pela porta dos fundos em caso de derrota. Já em Miami, veio a carta infame, provavelmente o pior momento dos registros epistolares do golpismo. Um documento entre ordinário e delirante que parece ter sido produzido nas coxas de Marco Rubio por um analfabeto em história. As postagens de Carluxo ganharam um rival à altura na peça de seu irmão mais velho. Foram, como se sabe, três as versões. A primeira apresentava um brasão com a inscrição Estados Unidos do Brasil com Z, e nela Flávio se auto declarava o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Na segunda, corrigiu-se o brasão para a República Federativa do Brasil e só na terceira o meliante substituiu o termo presidente eleito por líder do Brasil. A repercussão, como se sabe, foi muito ruim, inclusive entre lideranças da extrema direita brasileira, como o governador Tarcísio de Freitas. É muito cedo, porém, para dizer que o bolsonarismo ficou para trás. O próprio Tarcísio é um exemplo eloquente de político que ensaia sair do casulo, mas volta logo à condição de larva do clã Bolsonaro. Essa história ainda vai longe. Mas de uma coisa a gente tem certeza: Brasil se escreve com S e não, não somos quintal de ninguém. É isso. Vem com a gente.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ana Clara, super Ana Clara. Está de amarelo hoje.
Ana Clara Costa: É...
Celso Rocha de Barros: Não é verde, não?
Ana Clara Costa: É verde, amarelo. Eu deixei a pauta livre para quem quiser.
Fernando de Barros e Silva: Pauta livre. Tá certo.
Ana Clara Costa: Afinal, estamos numa democracia. Cada um escolhe se quer enxergar verde ou amarelo aqui.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, você ouviu gente e pesquisou a respeito dessa votação, dessa virada histórica. Eu quero te ouvir sobre isso. Que que você apurou?
Ana Clara Costa: Bom, Fernando, essa eleição do Lula ela foi ganha não só nas grandes cidades, mas sobretudo nas grandes cidades, porque o Lula ele cresceu mais que o Flávio do primeiro turno para o segundo turno, em 5228, dos 5571 municípios brasileiros. E ele perdeu só em 79 no segundo turno. Então, foi uma vitória que veio do país. Mas onde ela foi mais relevante foi nas grandes cidades. E essas grandes cidades são sobretudo São Paulo e a Grande São Paulo. Então, assim, das 20 grandes cidades em que o Lula teve maior crescimento e não em percentual de crescimento, mas em números cinco, ficam na Grande São Paulo Em 14 dessas 20 cidades, o ganho do Lula superou todos os votos dos eliminados no primeiro turno, o que não significa necessariamente que todos os votos dos candidatos eliminados foram para o Lula, e sim que houve diminuição da abstenção e ele ganhou os votos dos brancos e nulos também. E isso foi o caso de São Paulo. Ele teve entre os dois turnos na cidade de São Paulo, mais de 800 mil votos. Esse número é maior do que todos os votos que foram liberados pelos candidatos que saíram ali no primeiro turno.
Fernando de Barros e Silva: Quando a gente fala da Grande São Paulo, a gente está falando de 39 cidades que formam quase um uma aglomeração urbana mesmo. E são cidades gigantescas. São 20 milhões de habitantes nessas cidades no entorno da Grande São Paulo. É maior que muito país.
Ana Clara Costa: Muito, muito. Deixar bem claro, tá, eu estou falando em crescimento dos dois em número de votos. Por esse parâmetro, o Lula cresceu mais que o Flávio do primeiro para o segundo turno, até em Goiânia e Curitiba, que são redutos do bolsonarismo. Ele não ganhou do Flávio, mas ele teve um crescimento maior que o Flávio. Ou seja, os votos que sobraram dos outros, mais brancos e nulos e mais abstenções, foram mais para ele. A gente está falando aqui que o Lula no país todo ganhou mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Só no Sudeste foram 4 milhões e 800 votos. Se a gente pegar São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, em que o Lula virou, né? Ele não tinha ganhado no primeiro turno e ganhou no segundo turno. Em todas essas regiões Sudeste, Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Norte, o Lula cresceu mais que o Flávio, inclusive no Sul, onde o Flávio também ganhou. No Sul, o Lula cresceu 1 milhão 332 mil votos e o Flávio cresceu 866 mil. Centro-Oeste, reduto do Flávio, o Lula cresceu 770 mil votos e o Flávio cresceu 470 mil. Tudo bem que as grandes cidades acabaram conduzindo essa vitória, mas foi uma vitória também diluída no país, né? O desempenho dele foi melhor do que o Flávio em absolutamente todas as regiões. O Flávio teve menos votos no segundo turno do que no primeiro turno em 938 municípios. Ele perdeu votos. A gente não pode aferir que ele perdeu votos para o Lula, porque essa perda de voto pode ser produto também da abstenção. Mas o fato é que o Lula não perdeu. Ele perdeu em 79 municípios, o Flávio em 938 municípios e sendo que a maior perda foi em Macapá, capital do Amapá. Em Macapá, o Flávio perdeu quase 4000 votos do primeiro para o segundo turno. Foi a cidade em que ele mais perdeu votos em números absolutos e onde o Lula virou, por sinal. No entanto, o, Flávio ganhou em Maricá, que é a cidade do prefeito Quaquá do PT, né? Achei curioso esse dado.
Fernando de Barros e Silva: Celso, deixa eu te ouvir sobre este resultado. As motivações, como é que você vê? Teve o Exército do Janones, teve as medidas do governo e teve essa mobilização de rua espetacular.
Celso Rocha de Barros: Fernando Não foram dois turnos, foram duas eleições diferentes. O primeiro turno foi uma espécie de plebiscito sobre STF e sobre a aprovação do governo Lula. E nisso o Lula se deu mal, porque um número razoável de pessoas não gostaram do governo dele. E porque o bolsonarismo conseguiu colar no Lula em popularidade do STF. No segundo turno a gente teve uma eleição para presidente. Então as pessoas olharam para o Lula e para o Flávio Bolsonaro e pensaram: "bom, um desses dois caras vai me governar nos próximos quatro anos. Se eu votar no Flávio Bolsonaro, não estou só protestando contra o Lula, contra o STF, mas eu vou ter que aguentar ele como presidente nos próximos quatro anos. Então vou ter que prestar atenção no que que ele me oferece" e as pessoas não gostaram. Eu acho que inclusive esse foco no que seria o Flávio presidente foi facilitado por uma extrema arrogância que a campanha do Flávio demonstrou.
Fernando de Barros e Silva: Sim...
Celso Rocha de Barros: De no dia seguinte do primeiro turno, o Flávio da entrevista praticamente como presidente eleito, dizendo que ia mudar a Constituição para redemocratizar o país. E todo mundo sabe o que eles querem dizer com isso, certo? É a turma que tentou um golpe quatro anos atrás e sai anunciando ministro, dizendo que vai fazer, sai conversando com o mercado como se já tivesse eleito... Enfim.
Fernando de Barros e Silva: Eu lembro inclusive do nosso primeiro Foro pós primeiro turno. Ana Clara falou: "Fui falar com o pessoal da campanha do Flávio, eles estavam todo mundo falando de governo".
Celso Rocha de Barros: Exatamente. Eu lembro disso, isso, assim, tudo bem, ele passou com vantagem para os outros candidatos da... Os caras que ficaram de fora do segundo turno eram de direita e tal. Mas cara, ele passou com dois pontos de vantagem, né? O Antônio Palocci, quem se lembra dele? Ex-Ministro da Fazenda do Lula, foi citado numa coluna da Bela Megale no Globo, dizendo uma coisa que eu concordo. O segundo turno foi uma revolução que derrubou o governo que surgiu no primeiro turno. O Flávio começou a governar e anunciar o ministério. O Lula ganhou o segundo turno porque perdeu o primeiro. O Flávio ficou com cara de governo, entendeu?
Ana Clara Costa: É, todo mundo na campanha do Lula fala isso, que ele só ganhou o segundo porque no primeiro ele ficou para trás.
Celso Rocha de Barros: Exato. Aí o medo do Flávio ficou um negócio muito mais palpável, né? E aí se você soma o seguinte, embora o Flávio tenha ficado com cara de governo, quem tinha caneta na mão para ser governo e tomar medidas de governo ainda era o Lula. A gente falou isso logo depois do primeiro turno. Uma das coisas que tornava uma virada possível é que o Lula estava disputando como mandatário e o Lula pôde anunciar medidas populares. Porque, é bom lembrar, o Bolsonaro quase virou a última eleição. Chegou no segundo turno bem mais atrás do que o Lula chegou agora. Mas ele tava com a caneta na mão. Ele pode não só anunciar medidas populares, ele pode prometer coisas para governador, para prefeito, essas coisas. Agora, essa rejeição toda do Flávio não teria sido suficiente se não tivesse sido mobilizada e transformada voto. E aí entra em cena a mudança do comando da campanha, a entrada na história dos Janones, que, enfim, é difícil exagerar a importância do Janones. Ele foi muito importante, não interessa o que você ache dele pessoalmente. Objetivamente falando, ele foi muito importante.
Fernando de Barros e Silva: Além de outras lideranças, como a deputada Ana Elisa, essa jovem de Minas.
Celso Rocha de Barros: A Ana Elisa, a Ana Júlia.
Fernando de Barros e Silva: A Ana Júlia do Paraná. E o Lula ganhou em Minas, né? No segundo turno ele virou em Minas. A própria Érika Hilton, que fez também uma campanha muito aguerrida. Enfim, figuras ligadas ao que tem uma repercussão enorme no mundo digital.
Celso Rocha de Barros: Foram importantíssimas e pessoas de gerações mais jovens, né? Assim, nativos digitais, né? Gente que já nasceu sabendo fazer isso. Eu sempre penso nisso quando eu vejo as redes da deputada Tabata Amaral são incomparavelmente melhores do que da maioria dos políticos que eu sigo. Entre outros motivos, porque ela é da geração que nasceu vendo isso, né? Nasceu já nas redes. É uma coisa muito mais natural.
Fernando de Barros e Silva: Ela também fez muita campanha. Tábata Amaral.
Celso Rocha de Barros: Fez sim. Foi importantíssimo. Importantíssimo. Quando chegar a hora de compor o governo, vai ser interessante ver um monte de grupos diferentes, se engajou e se mobilizou. E vai ser interessante ver como é que cada um vai ser representado, né? No quarto governo Lula. De qualquer maneira, essa mobilização matou as pesquisas. Quando a gente chegou aqui para fazer o programa do dia da eleição, eu tava falando assim "olha só a disputa hoje é a abstenção contra a mobilização", porque o quadro geral das pesquisas era de empate, quase todas elas com o Flávio numericamente na frente. Mas isso também é bom para a gente entender que margem de erro é para ser levado a sério, né gente? O quadro era de empate, só que a direita contava com a abstenção, que tinha sido importantíssima para tirar voto do Lula no primeiro turno nas últimas eleições. E a esquerda contava com a mobilização, contava com a possibilidade de reduzir essa abstenção, com essa mobilização toda que aconteceu.
Ana Clara Costa: E as imagens são maravilhosas.
Celso Rocha de Barros: As imagens são maravilhosas.
Ana Clara Costa: É o que vai ficar pra a história.
Celso Rocha de Barros: Exato. Foi uma lavada da mobilização contra a abstenção, entendeu?
Ana Clara Costa: Tanto as imagens das manifestações quanto as imagens dos idosos indo votar.
Celso Rocha de Barros: Quem não chorou com aquilo não tem coração, né gente? Pelo amor de Deus.
Ana Clara Costa: Isso é negócio que ficou.
Fernando de Barros e Silva: É isso mesmo.
Ana Clara Costa: É isso que vai ficar para a história.
Celso Rocha de Barros: Exato. E é isso que impressionou o mundo, inclusive, né? Então, a mobilização foi realmente muito importante. E aí as pesquisas erraram fora da margem de erro no segundo turno. Mas eu vou dizer eu não sei se tinha como eles pegarem, entendeu? Assim, pesquisa não foi feita para pegar essas coisas excepcionais que acontecem de vez em quando, entendeu?
Ana Clara Costa: As pesquisas estavam prevendo logo antes, na semana anterior ao segundo turno, que o Lula não estava conseguindo crescer no Nordeste. E eu falei isso, não sei se no programa ou na nossa. No dia da apuração, é o que os números mostram. É que ele cresceu absurdamente no Nordeste. Ele teve 63,77% dos votos no primeiro turno e as pesquisas da véspera estavam mostrando que ele não tinha conseguido sair disso. E quando chega no segundo turno....
Fernando de Barros e Silva: Sim, exatamente.
Ana Clara Costa: Ele passa a ter 69,37% dos votos, ou seja, 70. Ele cresceu sete pontos.
Celso Rocha de Barros: Maluquice, né? Alguém ter 70% numa região, né?
Fernando de Barros e Silva: Eu lembro que na GloboNews, na véspera, eles estavam falando desse dado do Nordeste que o Lula não conseguia com os dados da véspera.
Ana Clara Costa: Exato. Eles não estavam conseguindo verificar o Nordeste nas pesquisas.
Celso Rocha de Barros: É verdade.
Fernando de Barros e Silva: Sim, o Datafolha, que no meio da semana tinha dado empate 50 a 50. Na véspera voltou a dar 51 a 49 para o Flávio, então isso também foi tomado como um grande revés etc. Muita gente usou a imagem banho de água fria.
Celso Rocha de Barros: Exato. Mas é porque, enfim, interpretou errado o negócio. A pesquisa pega um intervalo. O fato de estar dentro da margem de erro é importante mesmo. Mas aí teve os erros fora da margem de erro que aconteceram no dia da eleição. E aí a gente teve duas coisas diferentes. Primeiro, as pesquisas fizeram mais ou menos como aqueles generais que se preparam para a guerra passada. Então, assim, por que eu perdi a última guerra? Porque os caras tinham um tanque de guerra melhor. Só que agora passou 20 anos, não é mais tanque de guerra que é importante, entendeu? Então as pesquisas estavam preparadas para corrigir a superestimação do que tinha acontecido nas outras pesquisas. Eles estavam dando voto demais para o Lula, porque o Lula tinha intenção de voto, que não virava voto por causa da abstenção. Então eles trouxeram o modelo likely voters, trouxeram várias ponderações para tentar pegar um peso da abstenção e aí eles para ponderar isso, eles usaram a abstenção nas eleições passadas.
Ana Clara Costa: E no histórico de que a direita sempre avança.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Ana Clara Costa: No segundo turno do que as pesquisas esperam.
Celso Rocha de Barros: Exatamente. E aí eles deram azar mesmo, porque eles fizeram essa correção nesse ano, onde o que aconteceu foi o exato contrário da tendência histórica recente. Eu vou ser honesto, obviamente, agora você vê que eles fizeram errado. Mas se eu tivesse no comando de uma empresa dessas, 15 dias atrás, eu não sei se eu não faria a mesma coisa. Talvez o mais prudente mesmo fosse usar essa mesma taxa de abstenção que já vinha vindo. Agora, era para ter prestado atenção também na mobilização que estava acontecendo. Vou dar um exemplo para vocês, todo mundo ficou muito impressionado com os cálculos do Rodrigo Mahlmeister, do Estado de São Paulo, que no dia da apuração, com 2% dos votos.
Fernando de Barros e Silva: Menos de três.
Celso Rocha de Barros: Ele cravou que o Lula ia ganhar e depois ele deu entrevista dizendo: "Eu até já sabia antes, mas aí fiquei meio com medo de errar". E a propósito, para quem assistiu a live e perguntou, sim, eu já tinha recebido isso e não tive coragem de falar isso por alguns minutos ainda. Só falei com o pessoal quando já tinha mais voto no negócio.
Fernando de Barros e Silva: Mas você falou para gente fora do ar e você estava quase não se contendo ali porque...
Celso Rocha de Barros: Exato. Agora, isso aí a gente vai dizer "olha só, então esses caras são bons e o cara da pesquisa é ruim?". Não, eu não conheço as contas do Rodrigo que ele tinha feito antes. Mas até no dia do debate que eu e a Ana fomos lá, a gente estava conversando com o pessoal antes e tinha muita gente falando de várias pessoas fazendo projeção estatística, ninguém dava menos de 60% de chance para o Flávio. E, curiosamente, a empresa de consultoria que mais chegou perto de prever a vitória do Lula foram os caras que no final ponderaram a movimentação de rede. Eles olharam, "ó, mas nas redes está muito diferente o peso do que o Lula está fazendo do que o Bolsonaro fazendo. Isso deve ter algum impacto eleitoral". E mesmo assim eles botaram o Lula com 47% de chance de ganhar. Mas isso era muito melhor para o Lula do que os outros estatísticos que estavam usando dados de pesquisa. Então, assim, realmente foi uma coisa muito impressionante O tamanho do que a campanha do Lula fez nesses últimos dez dias. Não é um negócio normal, não é um negócio que você vê todo dia. E isso é, em grande parte, mérito da campanha do Lula, do pessoal todo que se incorporou à campanha do Lula. Mas não se pode deixar de dar um certo crédito ao bolsonarismo por inspirar nas pessoas um pavor tão gigantesco que o sujeito basicamente faz qualquer coisa sai de casa com respirador de muleta, andador e tal para votar contra isso.
Ana Clara Costa: Isso é um pouco que a campanha estava percebendo nos grupos focais, que tinha muita gente, sobretudo no Nordeste, que estava insatisfeita com o governo Lula, que não tinha votado no Lula, que estava descrente na política, mas que ia votar no segundo turno porque ia ajudar o Lula por gratidão. Então, assim, eu não gostei do seu governo. Não foi ótimo para mim, não votei em você, mas cara, vou fazer isso por você. E eles estavam notando esse comportamento nos grupos focais logo no início da campanha no segundo turno. Isso já era percebido.
Celso Rocha de Barros: E nos grupos focais, o que eu ouvi de alguns pesquisadores também é que tinha eleitores de classe mais baixa que ficavam muito incomodados com a arrogância do Flávio quando ele falava com o Lula. Não só o negócio do nove dedos, mas era um negócio desrespeitoso e tal que estava pegando muito mal. E gente que até podia não gostar do governo Lula, mas achava o máximo um cara que nasceu pobre ter sido presidente e achava o Flávio desrespeitoso.
Ana Clara Costa: É, tem a questão da idade. É muito feio. É muito agressivo para algumas pessoas, para outras para outras...
Celso Rocha de Barros: É o maior barato.
Ana Clara Costa: Claramente, claro, com 60 milhões de votos, muita gente.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Ana Clara Costa: Isso não tem problema nenhum. Tanto que eles comemoravam esse tipo de ataque.
Celso Rocha de Barros: Quando a gente saiu do debate, eles saíram de lá em clima de bloco de carnaval.
Fernando de Barros e Silva: Sim, tinha uma euforia desses caras com agressividade inclusive.
Ana Clara Costa: Eles consideravam um strike, né?
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Ana Clara Costa: Tipo, a gente bateu nele, é isso aí e tal. Para você ver o espírito desse tempo, né?
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Ana Clara Costa: É muito assustador.
Fernando de Barros e Silva: Ana Clara, deixa eu te ouvir sobre os bastidores da campanha para a gente encaminhar a parte final deste primeiro bloco.
Ana Clara Costa: Bom, o sucesso dessa campanha se deve a vários fatores. Não é só ao Janones, mas também à própria coordenação política que se acertou no segundo turno com o Rafael Fonteles, o Sidônio e o Camilo Santana, com o próprio Lula, sobretudo, que abraçou o digital. Parte do fracasso da campanha do primeiro turno se deve ao Lula. Depois ele reconheceu isso em uma das entrevistas que ele deu. Ele não estava considerando o Flávio um adversário à sua altura. Tanto que a campanha não focava tanto em bater no Flávio, até por desconsiderar o Flávio, por achar que esse cara jamais não tem a menor condição de esse cara vencer. Então tinha uma certa soberba nesse aspecto da campanha do Lula e do Lula em especial. E assim, até entendo porque você tem uma história política ali de 40 a 50 anos, vivendo tudo o que você viveu. E você olhar para o Flávio e falar "Putz, esse cara tá querendo competir comigo?". Então isso fazia com que o Flávio apanhasse menos do que ele poderia apanhar por essa conduta do Lula de não querer tratá-lo como um igual. Isso mudou completamente no segundo turno, né? Pela força dos acontecimentos. Então, assim, o engajamento do Lula, a vontade do Lula de ganhar também foi um fator fundamental. E os Janones que acabou entregando essa base digital para ele, que ele não tinha, né? Então, o Janones conseguiu engajar diversos grupos com interesses múltiplos, mas todos eles contra uma vitória do Flávio num projeto, né? Então, você tem muita gente jovem de 16, 17, 18 anos que não tinham nenhuma conexão com o com Lula, entendeu? Simplesmente nunca tinham votado no Lula. Os Janones ele foi fundamental para canalizar toda essa turma de jovens de todas as idades, mas sobretudo de jovem, e manter essas pessoas mobilizadas na rua e nas redes, dominando o debate nas redes na maior parte do tempo. E o resultado disso é uma coisa já previsível, né? A gente que fala de política tanto tempo, você já sabe que isso vai acontecer, né? Uma vez que houve vitória, o que acontecerá com os Janones, né?
Celso Rocha de Barros: Sim.
Ana Clara Costa: E essa é a grande pergunta, né? Qual vai ser a parte dele nesse bolo? Isso ainda está sendo discutido. Os Janones foi recebido num jantar essa semana na casa da Paula Lavigne, aqui no Rio, com vários artistas, Anitta, enfim, vários globais e tal. Todo mundo ali amando muito ele. E aí eles estão decidindo o que ele quer, né? Porque ele tem o direito de querer tudo nesse momento. Ao mesmo tempo, ele também não quer deixar a Câmara, não quer deixar de ser deputado. Ele poderia assumir um cargo como se fosse uma Secretaria de assuntos de Redes e ligada diretamente ao Lula, ou seja, que ele não tivesse que responder para ninguém além do Lula. Isso é uma possibilidade. Ele quer fazer algo mais com o Lula, entendeu? Ele não quer responder a uma hierarquia de governo. E aí uma das coisas que ficou definida agora é essa live semanal que o Janones vai fazer com o Lula, que é uma forma de o Lula pautar o debate, porque isso não acontecia, né? Mas no final, agora, no segundo semestre, que ele começou a ir em podcast e tudo mais. Então isso vai mudar. Vai ter essa live. A ideia por trás dessa é você ter a principal autoridade dizendo o que é verdade, que é mentira, né? Podendo pautar mesmo o que está acontecendo. Poder responder diretamente as redes e tal, um pouco no estilo em estratégia do que a Claudia Sheinbaum faz no México. Só que ela faz diariamente e não uma vez por semana. Mas para o Lula diariamente seria impossível. Mas ela faz diariamente uma coletiva de imprensa de manhã para pautar a imprensa para justamente impedir ou tentar pelo menos mitigar o efeito da atuação de redes da extrema direita.
Fernando de Barros e Silva: Claudia Sheinbaum que é uma figura muito admirável.
Ana Clara Costa: Eu estou fascinada por ela assim.
Celso Rocha de Barros: É fantástico.
Ana Clara Costa: Eu poderia ouvir ela por horas e horas assim.
Fernando de Barros e Silva: E ela tá ali na fronteira com o laranjão. Não é fácil.
Celso Rocha de Barros: É rapaz.
Ana Clara Costa: E para a gente ter uma ideia de quão fundamental é essa conversa direta do Lula com a população. Vejam o que aconteceu essa semana. Logo depois da eleição, a extrema direita começou a divulgar uma fake news de que a escala 6x1 ia ser revogada e que o Bolsa Família ia acabar. E aí, o que aconteceu? O pessoal foi dormir, né? Depois da campanha. Então, o Janones, coitado, está sem dormir há três meses. Foi dormir.
Celso Rocha de Barros: Foi hospitalizado no fim.
Ana Clara Costa: Exato. Enfim, todo mundo foi tirar um dia de folga, né? Que foi a segunda-feira. E aí essa fake news se espalhou. Que que o governo fez? Soltou uma nota nota do gov.br dizendo que é fake news. Mas essa nota chegou, não chegou nas pessoas porque a mobilização dos Janones lá no exército do Lula tava meio de folga também, entendeu? Então, para a gente ver que logo no dia seguinte a vitória, eles não estavam usando o Exército do Lula lá em benefício do governo ainda, porque justamente as coisas estavam sendo definidas. Qual vai ser a função tal? Tem toda essa burocracia. Ou seja, o governo não conseguiu responder. Eu imagino que agora já deva estar esclarecido, mas era uma coisa que se tivesse na hora alguém trabalhando com isso já teria subido 500 hashtags, entendeu?
Fernando de Barros e Silva: Sim.
Ana Clara Costa: E não aconteceu. Outra coisa. Toda essa questão do Flávio que a gente vai falar novamente no terceiro bloco, tudo isso aconteceu e o grupo do Janones parado ali, entendeu porque toda a ideia de perseguição política. Tô saindo fugido do Brasil por perseguição política, porque isso não é mais uma democracia. Isso virou Venezuela e não sei o quê. A gente dá risada porque é ridículo. Você precisa explicar porque não necessariamente todo mundo vai achar ridículo, entendeu? E não tinha ninguém explicando porque a lógica do governo é eu não vou descer até ali para ficar brigando com esse povo, sendo que a campanha mostrou pra gente que tem que descer ali para ficar brigando com esse povo.
Fernando de Barros e Silva: Exato.
Ana Clara Costa: Nessa questão do Flávio, eles até conseguiram, de certa forma, né? As redes organicamente sem estratégia do governo, eles conseguiram rebater porque é ridículo, porque aquela carta foi ridícula, porque várias coisas foram ridículas, né? E então as redes acabaram absorvendo sozinhas o absurdo da situação. E pelos levantamentos que saíram, toda a carta, a fuga e tudo que veio junto foi visto como negativo para o Flávio. Pelo menos eu vi relatórios falando em 70% das menções negativas para o Flávio em relação àquilo. Então parece que foi uma vitória, pelo menos momentânea, né? Mas não havia estratégia por enquanto.
Fernando de Barros e Silva: Antes da gente encerrar, eu acho importante fazer uma nota aqui sobre a imprensa de maneira geral. Houve uma pasteurização do pluralismo e uma espécie de isentismo quase patológico para mim, numa disputa que não comportava esse tipo de atitude que eu considero omissa e covarde. Agora, quem está ridicularizando o Flávio Bolsonaro estaria cobrando em editorial, esfregando as mãos e cobrando ajuste fiscal como se estivesse tudo bem se ele tivesse ganhado a eleição. Eu acho que houve uma espécie de aceitação, de falsa equivalência, que para mim foi um elemento sintomático do que é capaz, onde é capaz de chegar à elite brasileira. Eles erraram feio. Estão correndo atrás do prejuízo. Eu acho que a ninguém era dado o direito de desconhecer quem era o Flávio. Acho também que sobrou muito apetite para falar do Lulinha e do STF. Faltou apetite para investigar o irmãozão do Vorcaro, que era candidato à Presidência da República e quase virou presidente da República. Queria deixar registrado esse meu meu ponto de vista aqui, depois que vocês brilharam neste primeiro bloco. Então encerramos o primeiro bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, vamos falar da repercussão mundial da vitória de Lula. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, vou começar com você. Não há nenhuma dúvida de que a repercussão internacional da vitória do Lula nessa circunstância histórica foi diferente. Queria te ouvir sobre isso.
Celso Rocha de Barros: É isso mesmo, Fernando. É óbvio que quando for escrever a biografia do Lula, daqui a alguns anos, é possível que enfatizem mais, enfim, os primeiros mandatos em que ele teve aquelas realizações todas contra a pobreza, desmatamento, etc. Mas a conjuntura histórica em que essa eleição aconteceu é muito singular. No último dia 20, o Daron Acemoglu a Prêmio Nobel de Economia, deu uma entrevista para a BBC dizendo que a eleição brasileira era mais importante do mundo esse ano, depois dos Estados Unidos, que é na semana que vem, as midterms americanas, a eleição para o Congresso americano que podem impor uma derrota pesadíssima para o Trump. A primeira questão é que, assim, a quarta vitória do Lula deu a ele uma dimensão internacional realmente gigante. Se você pegar eleições democráticas, só tem outros dois presidentes na história que ganharam quatro eleições, uma é ninguém menos que o Roosevelt, provavelmente o presidente mais importante da história americana. E o outro foi o Tommy Remengesau Jr, de Palau, uma pequena nação ilhéu na Oceania que tem menos de 20.000 habitantes e que me parece ser um reduto eleitoral da família Remengesau, porque ele é o Júnior. O pai dele já tinha sido presidente duas vezes.
Ana Clara Costa: É uma grande democracia.
Celso Rocha de Barros: Mas olha, eu chequei aqui pelos índices de democracia e Palau tem nota de democracia, entendeu? Então, aparentemente o cara ganhou mesmo. Agora, por que essa eleição foi tão importante? Porque ela foi a maior porrada até agora na Doutrina Donroe, que é a Doutrina Monroe do Donald Trump. E sim, esse nome é muito imbecil. Ela estava sendo implementada com um grau razoável de sucesso pelo Marco Rubio, o secretário de Estado americano que pretende se qualificar como candidato a presidente, entregando para o Partido Republicano, uma América Latina quase que inteira laranja, como se convencionou chamar os governos que apoiam o Trump. E, naturalmente, se esse era o objetivo, a vitória do Lula no Brasil foi uma derrota imensa para o Marco Rubio. Porque não é só que os Estados Unidos torcia pelo Flávio Bolsonaro. Os Estados Unidos impôs sanções econômicas contra o Brasil para prejudicar o governo Lula e favorecer Flávio Bolsonaro. Os Estados Unidos classificou as facções criminosas brasileiras como terroristas para dificultar a vida do Lula e para facilitar a intervenção, porque eles têm muito mais poderes para atuar externamente contra a ameaça terrorista.
Fernando de Barros e Silva: Seria a consagração do tal Escudo das Américas, do qual a Ana Clara falou programas atrás quando teve encontro na ONU.
Celso Rocha de Barros: Exato. Se o Brasil tivesse caído para a extrema direita na América do Sul, sobrariam fora da esfera trumpista Uruguai, Guiana e Suriname. E o México seria o único país grande fora da esfera trumpista. E assim, isso não é importante pela questão de quem ganhou essa esquerda ou direita, entendeu? Assim, de vez em quando tem uma onda vermelha e todos os governos são de esquerda. Mas aí passa quatro anos, troca, vem uma onda azul. Isso é tudo normal, entendeu? Alternância de poder. O problema não é esse. O problema é a percepção generalizada na comunidade internacional de que o Trump quer aproveitar essa onda eleitoral favorável à direita para trancar o continente em acordos de longo prazo que sejam difíceis de serem desfeitos com Estados Unidos, por exemplo, acordos para exploração de minérios... Bases militares. Os Estados Unidos têm bases militares no Paraguai, por exemplo, e é aquilo você negar para os Estados Unidos o direito de botar uma base militar no seu território é relativamente fácil. Você tirar uma base militar americana do seu território, uma vez que ela tenha sido instalada, é incomparavelmente mais difícil. Então o medo não era tanto assim "ah, ganhou outro governo de direita". Enfim. Felizmente já teve bastante alternância de poder na América Latina. O medo é que, como os Estados Unidos estão agressivamente cooptando governos de direita no hemisfério ocidental, isso resultasse em certos realinhamentos permanentes, entendeu, que sobreviveriam mesmo se amanhã ganhar um governo de esquerda, um governo de centro, enfim, outra coisa qualquer. Os casos mais óbvios seriam exploração de terras raras, bases militares americanas, acordos referentes à inteligência artificial, acordos referentes a big techs que depois que você faz para desfazer, não é fácil. Então o medo era muito que o Trump trancasse o continente sob a influência americana de maneira difícil de reverter, mesmo se for eleito um governo depois que queira fazer outra coisa. E, evidentemente, para esse plano, o Brasil tinha que ter caído na esfera do Trump e não caiu. O Marco Rubio se ferrou.
Fernando de Barros e Silva: O Brasil e o México são a segunda, se não me engano, a segunda e a terceira maior economia das Américas, o Brasil, maior economia da América Latina e o México, a segunda. Então você tem realmente dois países não alinhados com esse projeto regressivo.
Celso Rocha de Barros: É muito diferente. A outra questão que vinha preocupando o mundo é que um Brasil sob influência americana abandonasse o multilateralismo, que é uma coisa que o Trump vem tentando fazer o Milei e outros caras mais puxa sacos dele romper com a Organização Mundial da Saúde, entendeu? Desmoralizar de vez a ONU, desmoralizar todos esses esforços multilaterais que o Brasil defende e sempre defendeu em governos de esquerda e de direita. A linha oficial da diplomacia brasileira, independente de quem ganha a eleição, sempre foi o multilateralismo. E se o Brasil abandonasse a briga pelo multilateralismo, ficaria bem mais complicado para o resto do mundo. E em terceiro lugar, o Lula mostrou que é possível derrotar a extrema direita que vem acumulando vitórias. O resultado do Brasil veio logo depois da derrota do direitista Aleksandar Vučić, na Sérvia, em Israel, o Netanyahu teve um resultado até melhor do que muitos esperavam. Mas a gente ainda não sabe se ele vai ter votos suficiente para formar a maioria. A gente não sabe como é que vai ser o novo governo. E semana que vem tem as midterms americanas, as eleições de meio de mandato, que podem tirar do Trump não só a maioria da Câmara. É praticamente certo que ele vai perder a maioria na Câmara, mas as pesquisas indicam agora a possibilidade de ele perder também o Senado, que aí deixariam a presidência dele muito fragilizada. Então, enfim, é um período que tá todo mundo prestando atenção nessa série de eleições. A do Brasil era a segunda mais importante e o resultado foi isso tudo que a gente falou. Foi uma surpresa, foi uma virada, Enfim, não é à toa que você vai achar a gente fazendo L em vídeos por toda a América Latina. Como disse o meu amigo Maurício Santoro no texto que ele fez de Tijuana, Ushuaia tem gente também na França fazendo, na Espanha, em diversos outros lugares em que a luta contra a extrema direita está acirrada. E eu só queria chamar a atenção para um fato interessante é que uma das coisas que o resto do mundo tá querendo olhar como que o Lula fez isso, né? E aí começou a passar pelo meu feed as matérias em espanhol falando de Jamones, as matérias em francês falando de Janonês, as matérias em inglês falando Janons, e todo mundo está querendo saber quem é esse cara.
Fernando de Barros e Silva: Em alemão Yanones..
Celso Rocha de Barros: É uma coisa dessa.
Fernando de Barros e Silva: Ana Clara, deixa eu te ouvir sobre isso. Vamos começar por onde?
Ana Clara Costa: Eu queria pegar a deixa do Celso sobre os Janones para começar por isso. Ele está sendo convidado para compartilhar o conhecimento dele de redes com candidatos de partidos de esquerda social democratas da Europa, como Pedro Sanchez, da Espanha, que vai para uma reeleição agora. E aí o Pedro Sanchez convidou ele para ir para a Espanha para ficar lá. E ele queria, né? Mas aí não dava para conciliar ele ir para Espanha, trabalhar com Pedro Sanchez e fazer o trabalho dele aqui. Então, o que ficou decidido é que ele vai ajudar online. Assim, imagino que prestando algum tipo de consultoria.
Fernando de Barros e Silva: Como que é? Explode e exploda. Exploda! Não é isso?
Ana Clara Costa: Exato. Então ele vai ajudar, mas online, não vai pra lá. Mas o Pedro Sanchez queria importar os Janones. Imediatamente, né?
Celso Rocha de Barros: Olha só!
Ana Clara Costa: Eles estão até fazendo o L na Espanha, né? Para ver se atrai, né? Bom, o ponto central do que foi essa campanha e do que será esse pós campanha, que não ainda não é início de governo é os Estados Unidos. Não só pelo papel que eles desempenharam na pré-campanha que o Trump nega. Inclusive ele falou....
Celso Rocha de Barros: Isso foi incrível.
Ana Clara Costa: Na imprensa falando que não tinha, ele não tinha preferido, que eles não se meteram, né? Pois é. Mas qual que é a avaliação do governo sobre essa questão específica? Eles acham que o Trump, sobretudo o próprio Marco Rubio, porque essa é uma agenda muito peculiar dele, né? Tentou fazer o presidente no Brasil. Ele tentou interferir diretamente, mas conforme o negócio foi avançando, ele foi percebendo que ele já não tinha mais o que fazer. E aí a Meta entrou. Então, a Meta, na avaliação do governo, teria entrado como o braço do governo americano nessa interferência. E assim, todo mundo pode ver isso pelas reportagens feitas pela Patrícia Campos Mello na Folha, que revelou até mensagens internas da meta em que eles admitem o favorecimento do Flávio. A recomendação algorítmica do perfil do Flávio, não só no Instagram, como também na ferramenta de inteligência artificial, no impulsionamento de conteúdos do Nikolas, que acabam tendo um alcance desproporcional à quantidade de seguidores que ele tem. Enfim, a Patrícia Campos Mello fez várias reportagens mostrando como que foi essa interferência que obviamente a Meta não admite, né? Ela fala que sempre há questões técnicas, questões técnicas, como não se sabe o que tem nesse algoritmo, fica por isso mesmo, né? É muito curioso isso, porque eu lembro que em dado momento se discutia no mundo que essas empresas estavam ficando tão grandes que elas estavam se assemelhando a Estados, né? Que elas, elas eram tão poderosas quanto Estados. Mas veja só, a gente tem uma empresa hoje se submetendo a um Estado para interferir na soberania de outro Estado. Ela está sendo instrumentalizada. Há suspeitas de que ela esteja sendo. E até o Paul Krugman fala isso no texto que ele publicou no Substack, que até o Celso sugeriu para a gente ler.
Celso Rocha de Barros: Que é muito bom
Ana Clara Costa: Não há prova, né? Você não tem um memorando da Meta dizendo "vamos fazer o Lula perder", né? Mas você tem todo um arcabouço de atitudes dessa empresa nas suas redes sociais. Eque mesmo depois que isso foi descoberto, foi revelado, a campanha do Lula continuou reclamando que não tinha o alcance devido os seus perfis e as suas postagens. Até o final da campanha, eles reclamavam que tinha alguma coisa errada porque as coisas não estavam tendo a dimensão ali que eles estavam esperando. Houve problemas em que os likes desapareciam, então isso continuou acontecendo. É gravíssimo porque mostram uma suspeita de aparelhamento de uma big tech por um país, né? Acho que um outro ponto é que todos os líderes de direita da América Latina que apoiaram a candidatura do Flávio, inclusive, reconheceram a vitória do Lula, menos o Milei. E até o Bukele, que também a Patrícia Campos Mello teve acesso ao comunicado privado que ele mandou para presidente. Não foi o reconhecimento público e talvez essa própria. Estou falando como hipótese a atitude desses líderes que fazem parte do tal escudo das Américas que o Trump criou. A própria atitude deles de reconhecimento da vitória tenha feito com que o Trump não desse nenhuma declaração mais absurda sobre isso. Ele falou que foi estranha a eleição e depois ele falou que há suspeita de fraude, mas que não vai se intrometer.
Celso Rocha de Barros: Porque se dá bem com o Lula.
Fernando de Barros e Silva: O que já é uma declaração absurda.
Sonora: É absurda.
Fernando de Barros e Silva: O ecossistema é de tal forma deformado que a gente acha que isso não é tão absurdo. Você tem toda razão. Ele poderia ter falado coisa pior, mas é muito absurdo ele falar isso e Milei é um bichinho de estimação dele, né?
Celso Rocha de Barros: É porque a Milei ganhou grana, né? O Milei ia perder uma eleição legislativa, ganhou 20 bilhões dos Estados Unidos para equilibrar a economia argentina e ganhou.
Ana Clara Costa: Mas a situação é a seguinte o governo nem espera que o Trump reconheça formalmente num comunicado ou numa carta enviada pela Casa Branca. Mas a gente viu que o Steve Bannon e aí, por aí cê já mede o incômodo que a reeleição do Lula causou porque o Steve Bannon fez naquele podcast que ele tem War Room chama, se não me engano, fez várias declarações sobre isso, dizendo que essas eleições foram fraudadas, que foi fraude completa e que o Trump deveria cortar relações diplomáticas com o Brasil, fechar a embaixada. Ele fala em parar 100% do comércio, enfim, ele é um lunático. Ele não tem ideia do que está dizendo, assim no sentido de como é na prática, fazer isso que ele está dizendo, né? Mas o fato é que eles consideraram realmente uma derrota importante para eles essa vitória do Lula, né? Mas o governo, como eu ia dizendo, eles não esperam que ele reconheça numa carta ou nada oficial, mas eles esperam uma sinalização um pouco mais consistente do Trump para liberarem o embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Eles ainda não fecharam o agrément sobre aceitar o nome que o Trump indicou, justamente porque havia essa avaliação do governo que o Trump usaria esse embaixador contra a eleição e que depois da eleição eles fariam a agrément, que é o documento em que o país aceita o corpo diplomático ou embaixador especificamente de outro país. O Trump chegou a fazer um estardalhaço sobre isso antes da eleição. E aí o governo está esperando uma sinalização um pouco mais concreta para liberar. Mas assim, de fato, foi uma eleição fundamental para o mundo. Não foi a primeira eleição em reação ao Trump, porque no Canadá isso aconteceu também na Hungria, com a queda do Orbán. Mas claramente foi uma vitória que deu gás para os movimentos de oposição a extrema direita no mundo. Até a New Yorker fez uma reportagem sobre a vitória do Lula, falando que na Índia os opositores do Narendra Modi estão se inspirando no que aconteceu no Brasil para ver se eles conseguem algum tipo de vitória no parlamento, ali e tal. Estavam acompanhando a eleição no Brasil na unha e até um bastidor que na última Assembleia Geral da ONU que o Lula esteve, né? O Guterres, António Guterres, que é o secretário geral da ONU, ele está saindo agora e ele teve uma reunião fechada com o Lula em setembro, durante a Assembleia em que ele fala para ele Olha, boa sorte na sua, na sua campanha, porque a sua eleição é fundamental para o multilateralismo no mundo, fundamental para a ONU. E, bem ou mal, Lula é uma grande voz do multilateralismo. Durante esse governo, inclusive, ele parecia uma voz sozinha no deserto, defendendo...
Celso Rocha de Barros: Totalmente voz sozinha no deserto.
Ana Clara Costa: Os organismos multilaterais e sem apoio prático em lugar nenhum. Enfim, a gente ainda vai ver se de fato isso que está acontecendo agora que aconteceu na Sérvia, é um movimento para algo maior, uma reação maior à extrema direita ou algo do Lula, né?
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, então a gente encerra o segundo bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, nós vamos falar do fujão, candidato da milícia que teve quase 60 milhões de votos e depois fugiu do país. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Ana Clara, eu vou começar com você. O golpista que sempre esteve ali, aflorou, né? Já tinha aflorado antes dessa semana patética que ele está protagonizando, mas fugiu. Se declarou presidente, depois líder do Brasil. Errou na carta. Uma carta realmente de um sujeito muito desqualificado. Não consegue nem fazer... Ele desmoralizou a carta golpe. Ele é vagabundo até para ser vagabundo, como disse o Zé Henrique Bertolucci.
Ana Clara Costa: A carta foi feita por Chat GPT.
Celso Rocha de Barros: Desmoralizou o Chat GPT.
Ana Clara Costa: Fugiu, né? Mas antes da fuga.
Celso Rocha de Barros: Fugiu, né? Tava aqui, fugiu. Foi embora. Quer dizer.
Ana Clara Costa: Ai, vamos voltar umas horas antes da fuga. Algumas muitas horas. Bom, acabou a eleição, toda a classe política já se movimenta imediatamente pensando na presidência da Câmara e do Senado. Na verdade, acabou o primeiro turno. Eles já estavam pensando nisso porque já estava definido no Senado e Câmara. Mas é claro que o presidente referenda determinada estratégia. Então, na hipótese de vitória do Flávio, a possibilidade da presidência da Câmara e do Senado ir pro Pl crescia, sobretudo no Senado. Essa era a grande movimentação ali e é a grande movimentação que apavora o Alexandre de Moraes. Porque o presidente pauta o processo de impeachment. E o Davi Alcolumbre, que é amigo do Alexandre de Moraes, além de também envolvido no escândalo do Master, o Davi Alcolumbre quer ser reconduzido à presidência do Senado e o PL, quer a presidência do Senado para si. A presidência do Senado seria hipoteticamente um cargo para o senador Rogério Marinho, do PL. Sobretudo com a derrota do Flávio, ele não teria cargo de ministro. Então, esse era o cenário ali na noite de domingo, quando o Alexandre de Moraes, poucos minutos depois de saber do resultado, mandou apreender o passaporte do Flávio. Veja bem, a gente sabe muito bem das suspeitas que pairam sobre o Flávio Bolsonaro. A própria piauí revelou muitas delas, sobretudo....
Ana Clara Costa: Você revelou muitas delas.
Ana Clara Costa: Sobretudo as suspeitas do envolvimento dele com o Willer Tomaz no negócio de Betts. Ele é tido como sócio indireto de empresas de bets, via Willer Tomaz. Willer Tomaz que já está nos Estados Unidos há várias semanas. Ele está lá e não apareceu mais no Brasil. Então, quando as notícias sobre ele começaram a circular, ele se escafedeu e não voltou. Então o Flávio de fato é investigado em dois inquéritos da Polícia Federal, né? Mas não podemos ser ingênuos de achar que esse pedido de apreensão de passaporte tem a ver com apenas a suspeita sobre o Flávio. Existe um jogo que está sendo jogado pelo Alexandre de Moraes, junto com o Davi Alcolumbre, com todo mundo que está envolvido no caso Master. Os outros ministros do Supremo, Tóffoli e tal, talvez não o Kássio e o André Mendonça, que estão correndo em outra raia. Eles estavam contando com outra coisa para se livrar. Mas enfim, o jogo do Alexandre é esse. Não é o mesmo jogo do governo nesse momento. Então quando ele decide por essa apreensão de passaporte, ele não tava combinando nada com o governo, com o PT, com Lula e etc. Era um jogo dele para se alavancar diante da possibilidade de o PL conseguir a presidência do Senado. A estratégia é usar esse poder que ele tem sobre esse caso específico das bets, que acabou sendo sorteado para ele. Para o azar do Flávio. Ele queria usar isso como alavancagem para conseguir negociar o próprio futuro dentro do Supremo, porque independente da presidência não ser do Flávio, o Senado continua sendo do PL.
Fernando de Barros e Silva: O Alexandre de Moraes é uma figura tóxica há muito tempo já, esse episódio reforça isso. Isso que está me falando, essa apuração que você tem, que é o que eu, que eu também penso, reforça esse esse aspecto, que ele é uma figura insustentável. Não só ele, tem outros ministros também que...
Ana Clara Costa: Sem dúvida, né? Acho que Cássio é insustentável. O Tófoli é insustentável. O André Mendonça é insustentável. A reportagem que o Breno Pires publicou na piauí na véspera da eleição torna o André Mendonça insustentável no Supremo.
Celso Rocha de Barros: Com certeza. E essa matéria, acho que o pessoal não deu tanta atenção porque saiu junto com a eleição. Mas vale muito a pena ler.
Ana Clara Costa: É dramático o que ele fez, né? Mas só eu queria colocar esse aposto que ele pensou só nele quando ele tomou essa decisão, que teve todos esses desdobramentos. E tomada essa decisão, o Flávio Bolsonaro não quis pagar para ver e organizou um plano de fuga que, segundo a Bela Megale, já estava acertado há muito tempo, que não é uma coisa que ele inventou naquele dia, né? E até há uns memes na internet que plano de governo ele não tinha, mas de fuga ele tinha.
Fernando de Barros e Silva: É muito bom. Bela Megale, nossa colega do jornal O Globo. Grande repórter.
Ana Clara Costa: E o próprio Eduardo Bolsonaro, falou isso publicamente numa live dias antes da eleição, ele tinha falado que ele tinha aconselhado o irmão a sair do Brasil caso ele não vencesse a eleição, o que vai deixando cada vez mais claro que o Flávio mais queria esse cargo para.
Celso Rocha de Barros: Se livrar da polícia.
Ana Clara Costa: Do que por qualquer outra razão.
Fernando de Barros e Silva: Exatamente.
Ana Clara Costa: E aí ele toma a decisão de fugir. Essa cronologia da fuga está bem detalhada na imprensa, sobretudo numa reportagem do Globo, reportagem da Luisa Marzo que mostra as conversas que ele teve com Tarcísio, com a Tereza Cristina, com a Maria Claudia Bucchianeri, que era advogada eleitoral da campanha dele, em que ele foi desaconselhado a sair do país e até depois o Tarcísio deu uma entrevista para o Estadão falando que desaconselhou e tal. Segundo a minha apuração, pouca gente sabia. Esse núcleo político da campanha não sabia e não achava que ele ia ter coragem de fazer isso naquela noite. Mas tinha algumas pessoas que sabiam. entre elas o Vicente Santini, que é um comparsa dele e trabalhou na Casa Civil do Bolsonaro e que é muito próximo do Derrite também. E o Frederick Wassef, que era aquele advogado do Bolsonaro que tantos problemas criou no governo anterior e que inclusive escondeu o Queiroz.
Celso Rocha de Barros: Ele mesmo.
Ana Clara Costa: No seu sítio, né? Bom, e aí depois de ter essas conversas, ele decidiu fugir. E aí a imprensa argentina, muito perspicaz, soube da fuga antes dele fugir, porque a imprensa publicou, na madrugada de segunda para terça-feira, uma notícia partindo da informação que eles tinham do plano de voo do jatinho que levaria ele de Puerto Iguazú, na Argentina, para os Estados Unidos. Então esse jatinho foi reservado e havia um plano de voo com os nomes dos passageiros. E foi com base nisso que a imprensa argentina descobriu. E aí a imprensa argentina publicou. Isso repercutiu no Brasil, obviamente. E o que que a turma dele fez? Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, eles odeiam a imprensa publicamente, mas falam com a imprensa nos bastidores. Eles não gostam de falar em on porque pega mal falar com jornalista quando você defende o fim do jornalismo, eles têm uns asseclas ali que ficam fazendo plantação de notícia na imprensa e tal. E aí, o que eles fizeram? Fizeram esses caras mentirem para a imprensa dizendo que eles já estava em voo e com isso a imprensa desmobilizou de tentar saber de onde ele veio, como que ele saiu de casa, etc. E focou ali na chegada dele nos Estados Unidos. Mas era mentira. Ele só foi sair da Argentina na noite de terça-feira, quando esses asseclas já tinham dito que ele já estava nos Estados Unidos. Então eles usaram a imprensa para distrair do foco principal que era a partida dele. E aí ele foi justamente nesse jatinho que estava reservado até a Bela Megale, na coluna dela no Globo, revelou isso. Ela cita, inclusive, uma das fontes que estava falando com a imprensa passando informação errada, ou seja, eles operacionalizam a imprensa.
Fernando de Barros e Silva: Importante falar entre os que difundiram informação falsa para favorecer o Flávio. O Carlos Gordy, senador eleito pelo Rio de Janeiro, o Maurício Marcon, do PL do Rio Grande do Sul, o deputado federal. Estou lendo a matéria da Luísa Marzullo Rodolfo Nogueira, do PL do Mato Grosso do Sul, que anunciou que o Flávio já havia chegado aos Estados Unidos, a Carolina de Toni, do PL de Santa Catarina, o Junior Amaral, do PL de Minas Gerais. Ou seja, uma ação coordenada mesmo. Os sujeitos que mentiram deliberadamente para favorecer a fuga do Flávio. Para mim, isso seria motivo de abrir inquérito.
Celso Rocha de Barros: Tem que abrir inquérito.
Fernando de Barros e Silva: Comissão de Ética.
Ana Clara Costa: Isso acabou também desmobilizando a Polícia Federal, que também acabou entrando, embarcando no que a imprensa publicou. Tanto que o Flávio atravessou a fronteira com o passaporte italiano, mas ainda assim com o nome Flávio Bolsonaro. Ele atravessou a fronteira na terça-feira à noite, quando todo mundo já sabia que ele tinha intenções de fuga ou já tinha concretizado a fuga. E eu acho que essa essa situação, ela mostra que não dá para a imprensa confiar no off dessas pessoas. E não dá para tratar o que essas pessoas dizem pelo valor de face. Qual é o interesse que eles têm em falar com a imprensa, em dar uma informação correta para a imprensa? Nenhum interesse. Eles têm interesse em operar com um objetivo específico e não em ter uma relação, digamos, honesta entre fonte e jornalista. Isso está mais do que claro. Mas, para minha frustração, no dia seguinte, em que todo esse estratagema foi revelado, já tinha várias notinhas por aí mencionando offs de amigos do Eduardo Bolsonaro. Então nada mudou, né?
Fernando de Barros e Silva: Foi uma delinquência orquestrada. Não foram mentirinhas, foi uma delinquência orquestrada envolvendo pessoas que foram eleitas pela população. Esses deputados, senadores.
Ana Clara Costa: Exato. E lembrando, queria deixar bem claro que o advogado, melhor amigo dele e que paga coisas para ele jestá nos Estados Unidos. Ele teve bloqueio de contas autorizado no Brasil, mas quando isso aconteceu, ele já estava nos Estados Unidos fazia tempo. Então, assim, ele pode ter deslocado recursos tranquilamente para fora antes disso, né? Se de fato as suspeitas da polícia se confirmarem e Willer Tomaz for o caixa do Flávio, o Flávio está tranquilo nos EUA.
Celso Rocha de Barros: Nossa!
Ana Clara Costa: Nesse aspecto, né? E aí, tendo chegado, rle divulgou aquela carta ridícula se auto declarando presidente eleito do Brasil. A Mariana Sanchez no UOL, publicou uma reportagem dizendo que o governo Trump, o Departamento de Estado na hora recomendou que ele tirasse esse termo e substituísse. A Mariana Sanchez falou com mais de três fontes do governo americano que confirmaram para ela que foi pedido do governo americano para ele retirar isso. Ou seja, primeiro Milei trabalhando ativamente na ida dele para os Estados Unidos e o Trump trabalhando ativamente no receptivo dele nos Estados Unidos, inclusive na confecção da carta golpe. Agora o Otávio Guedes falou uma coisa que até viralizou nas redes sociais que esse discurso de golpe dele, esse discurso de que no Brasil não há democracia, que ele é um perseguido político, etc. É um discurso que morre por si, porque ele estava num país em que o partido dele tinha a maioria do Senado ou a quase maioria, somando os aliados, em que a maior bancada da Câmara é do partido dele, então ele tinha grandes chances de conseguir fazer o presidente da Câmara, em que a madrasta dele foi eleita senadora, em que o irmão dele foi eleito senador, o irmão, outro irmão dele eleito deputado, em que ele tem dois ministros na Suprema Corte, claramente aliados dele. Ou seja, se ele quisesse ficar, e pelo poder que ele teria como suposto líder dessa oposição ao governo Lula, com o tamanho do PL hoje, com o tamanho da bancada aliada deles hoje, ele poderia. Se ele acha que a justiça contra ele não seria justa, que é o que ele diz, eu não estou dizendo isso. Ele disse que no Brasil não tem justiça, né? Então, se ele acha que não tem justiça por meio de uma articulação política com a grande maioria parlamentar que ele tem e com os apoios no Supremo que ele tem, ele poderia conseguir reverter essa situação para ele no Supremo. Mas ele não sabe fazer política. O Flávio como senador, ele gostava de uma coisa ganhar dinheiro. Isso é dado público, né? O escritório dele faturou milhões durante o governo Bolsonaro, com ele sendo senador e não advogando, não tendo substabelecimento em nenhum processo. Ele ganhava dinheiro prestando consultorias. Que tipo, a gente não sabe? Então, assim, o que ele soube fazer? E ele era, de certa forma, considerado o único boa praça dos irmãos, o mais político dos irmãos. Mas na verdade, a política que ele fazia era para ganhar dinheiro, não era para fazer política. Então ele tinha a oportunidade de ter ficado no Brasil e feito política para conseguir colocar para frente a grande pauta da vida dele, que é o impeachment do Alexandre de Moraes. Ele teria musculatura partidária para isso, mas ficou óbvio com essa fuga, você não foge se você não tiver realmente culpa no cartório, né? Medo de ser preso de fato. ficou claro que fazer política não é a dele, entendeu? Então, assim, a presidência do país quase foi parar na mão de um cara que, com uma maioria estrondosa como essa, não saberia governar claramente.
Celso Rocha de Barros: Exato.
Fernando de Barros e Silva: Exato. Ele é bom a gente sempre lembrar. Ele foi, durante quatro mandatos, deputado estadual da Alerj.
Celso Rocha de Barros: Aí já é para prender, já é para prender.
Fernando de Barros e Silva: De rachadinha e condecoração de matador da banda podre da polícia. Ficou condecorando gente assassina e vivendo de rachadinha. Se projetou na sombra do pai em 2018, virou senador e ampliou a área de predação dele. Usou as mesmas práticas numa escala infinitamente maior. Flávio Bolsonaro é isso. É um vagabundo que se projetou à sombra do pai. Nada mais do que isso. Celso, você, como eu dizia há muito já, que Dark Horse não era um filme, mas um caixa dois. O Flávio, pelo jeito, pode estar usufruindo do dinheiro desse caixa dois lá nos Estados Unidos.
Celso Rocha de Barros: E é um caixa dois gordinho, né? Bom, os dias depois da eleição provaram que vários diagnóstico que a gente vinha fazendo aqui estavam certos. Primeiro, o Flávio tinha mesmo prometido aos ricos cortes de gastos drásticos. Você vê que isso é verdade porque a bolsa despencou na segunda-feira. Se o mercado achasse que o Flávio ia só fazer o que ele disse em público, o mercado não se importaria, porque o que ele disse em público não era tão diferente do que o Lula vai fazer.
Ana Clara Costa: Não, ele disse que ia fazer mais, né?
Celso Rocha de Barros: Exato. A queda da bolsa na segunda prova que para o mercado, o Flávio estava contando uma história completamente diferente. Segundo, o Flávio Bolsonaro concorreu a presidente para fugir da polícia. Ele é um sujeito enroladíssimo com um monte de coisa. Quem assistiu o último episódio do Foro aqui, que é a edição de colecionador, cá entre nós, viu aqui a quantidade de rolo que esse cara tá metido. A solução que esse sujeito encontrou para não ser preso foi concorrer a presidente da República, entendeu? E quase deu certo, gente, quase deu certo. Quase que o malandro que tá enrolado nessas coisas todas aqui se livra de investigação porque virou presidente da República. Terceiro, o Flávio concorria com o apoio direto do governo dos Estados Unidos. Se eu chegar agora, pegar um aviãozinho amigo meu, não tenho amigo que tem avião. Mas enfim, se eu tivesse, aparecesse do nada lá nos Estados Unidos lá dizendo me dêem asilo, não sei o que lá. Os caras me mandavam para aquela prisão de El Salvador lá, entendeu? Ele foi para lá porque sabia que já tinha conchavo com os caras lá lá do Marco Rubio. Quarto, o Dark Horse era mesmo um caixa dois, né gente? O Flávio pretende para os EUA para viver de grana que foi mandada pelo Vaccari para o Eduardo usando o Dark Horse como desculpa. E Willer Tomás que já tá lá um tempão.
Ana Clara Costa: Aliás, patrimônio do Willer Tomás dá para fazer 200 Dark Horses.
Celso Rocha de Barros: Claro. Exatamente. Pelo amor de Deus, Espero que ele gaste com outra coisa, porque o mundo não merece isso. Não dá ideia não.
Ana Clara Costa: É um grande advogado de sucesso mesmo. Direito realmente...
Celso Rocha de Barros: É um negócio. Você vê, os jovens estão procurando uma carreira aí. Parece que essa aí dá dinheiro mesmo. O último, mas não menos importante o Flávio é golpista, porra! Todo mundo sabia que o Flávio era golpista. Você só notou que o Flávio é golpista quando ele foi lá e falou assim "Não reconheço o resultado da eleição. Sou presidente do Brasil eleito não sei o quê". Cara, eu não prevejo um Nobel no seu futuro, entendeu? Assim, porque cá entre nós, era bem fácil ver que o Flávio era golpista, né cara? Pelo amor de Deus, né? Assim que que você não tinha visto ainda para entender que o Flávio é golpista, né? Ele não. Enfim, como todo mundo que já tava prestando atenção no que estava diante de seus olhos já sabia o Flávio era golpista, então ele não aceitou o resultado. Na noite de domingo, fugiu para os Estados Unidos, se declarou presidente da República eleito. Entendeu? Aliás, eu devo dizer isso não é novo no PL, porque tem um idiota lá, deputado que mente, que é príncipe aquele Orleans e Bragança. Então agora eles tem um cara que mente que é príncipe, um cara que mente que é presidente e eles podiam chamar aquele Inri Cristo lá, sabe? Para ser deputado do PL eles podem virar o partido do maluco que acha que é alguma coisa importante, mas não é, entendeu? Que é uma absoluta vergonha. E assim a Ana terminou do mesmo jeito que eu vou terminar. Gente, esse troço quase se elegeu presidente, gente! Esse cara aí que foi pego em flagrante nesses rolos todos, que concorreu para se livrar da polícia, que soltou carta golpista com a ajuda do Departamento de Estado americano dois dias depois de perder a eleição. Esse negócio quase ganhou, gente. Então, assim, acho que o Brasil realmente precisa parar para ter uma conversa nacional aqui, para saber o que deu errado aqui com a gente para um negócio desse quase ter sido eleito presidente da República.
Fernando de Barros e Silva: Ana, para a gente completar o bloco, por favor.
Ana Clara Costa: Bom, a direita, o Tarcísio, sobretudo, tentou se distanciar disso, né? A gente viu claramente nas entrevistas que ele deu, que ele está tentando se distanciar desse aspecto golpista, né? O Valdemar Costa Neto também, até o Silas Malafaia, a Malu Gaspar revelou que tinha criticado o Flávio pela fuga. Mas olha, eu devo dizer que eu sou muito cética quanto a essa intenção da direita de se dissociar do bolsonarismo, porque a precedente a gente achou que quando houve o golpe de 8 de janeiro, eles iriam se dissociar porque o Bolsonaro tinha ficado tóxico. Isso não aconteceu. Quando houve a prisão do Bolsonaro, a gente achou que eles iriam se dissociar, porque agora o Bolsonaro estava preso e o patrimônio político dele ia ficar aí. E que daí eles iam se apropriar e tal. Isso não aconteceu. Então, assim, eu sou muito cética com esses primeiros movimentos. Assim, o histórico da direita brasileira, o histórico recente, pelo menos mostra que na primeira oportunidade que ela tem, ela volta a compor com o bolsonarismo, entendeu? Então, o fato do Tarcísio tentar se dissociar e nos bastidores, ele tem dito que acha que já cumpriu a missão dele, ajudou no que pôde o Flávio, não se omitiu... E, de fato, não se omitiu. Ele participou bastante, sobretudo do segundo turno e que estaria zerado. Eu não confio na posição dessas pessoas, porque foi o que elas fizeram no 8 de janeiro. Inicialmente, elas criticaram 8 de janeiro e tal democracia, depois voltaram a compor com eles. Tarifaço. Tarifaço foi a mesma coisa. Aconteceu o tarifaço, eles colocaram o pé no freio e depois abraçaram tarifaço, defenderam a anistia. Então, assim, não acho que dá para confiar na palavra deles nesse momento.
Fernando de Barros e Silva: Assino embaixo, Relatora. É exatamente isso.
Ana Clara Costa: Quero me retratar em relação a uma coisa que eu falei e que o Celso concordou, mas eu quero desfazer o que eu falei. Quando eu falei que o Flávio quis se candidatar para se livrar da cadeia, não é real. O Flávio não queria ser candidato. Quando as coisas estavam sendo definidas, ele não queria ser candidato justamente porque ele sabia o que ele tinha. Tanto quando o Bolsonaro escolhe ele. O que mais se falava nos bastidores era "Putz, o Bolsonaro escolheu justamente o cara que mais tem telhado vidro", né? E ele era a última opção, porque o Carlos não tem condições psíquicas.
Fernando de Barros e Silva: Última opção porque as outras não existem.
Ana Clara Costa: Então, assim, ele era o filho que tinha sobrado, mas era o filho que todo mundo do entorno dizia que era o mais problemático porque estava enrolado. Então o Flávio não queria, na verdade. E como ele não queria. Foi difícil emplacar ele no início. Ele só começou a, de fato, investir no próprio nome quando ele passou a acreditar que ele tinha alguma chance. Então, me retratando sobre o que eu disse, não acho que ele se candidatou para fugir da polícia. Acho que justamente o contrário. Ele não queria essa exposição porque ele sabia que ele tinha telhado de vidro. Mas as coisas aconteceram do jeito que elas aconteceram e eu acho que em dado momento ele realmente acreditou que ele podia ganhar. Eu também acreditei, confesso. Na véspera do segundo turno, eu estava acreditando que ele podia ganhar.
Fernando de Barros e Silva: Todos nós, né?
Ana Clara Costa: Dito isso, ele não ganhou.
Fernando de Barros e Silva: Eu tenho dúvidas sobre isso e sobre se ele não queria. Tenho dúvida realmente.
Ana Clara Costa: É, a apuração que eu tinha na época era de que ele estava assim. Sabe quando você fica no fim da fila rezando para não te olharem assim? Era um pouco isso.
Fernando de Barros e Silva: Havia uma incredulidade geral. Se era viável, não era viável. Falava "o Bolsonaro quer ganhar tempo. Prefere perder com o Flávio a ganhar com o Tarcísio" e tal.
Ana Clara Costa: Mas, ô Fernando, o Flávio nunca brigou pela própria candidatura. Quando havia aquela questão de o Tarcísio ser um nome, não sei, etc. O Flávio nunca foi o cara que falou "não, indica o Tarcísio não, que eu quero", entendeu?
Fernando de Barros e Silva: Bom, então é isso. Assim, a gente encerra o terceiro bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo na volta Kinder Ovo. Sempre se lembrem que coisas improváveis acontecem. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Mari Faria, diretora, vamos ver o que você aprontou para a gente nessa semana. Primeira semana do resto das nossas vidas. Vamos lá! Solta aí!
Sonora: E eu brigo muito pelo Brasil, porque o Brasil é um avião que eu estou dentro. Mas quem tá pilotando o avião? O piloto, eu não gosto. Eu torço para.
Fernando de Barros e Silva: O Zezé Di Camargo.
Sonora: Porque eu não gosto do piloto, mas só que eu tô dentro de dentro desse avião, né? Esse avião hoje chama se Brasil.
Ana Clara Costa: Pô, Fernando!
Fernando de Barros e Silva: Eu acertei? Mentira!
Ana Clara Costa: Nossa, Fernando.
Celso Rocha de Barros: Rapaz! Começou a hegemonia.
Ana Clara Costa: Nossa, eu jamais acertaria. Jamais!
Fernando de Barros e Silva: Porra! Caraca! Isso depõe contra a minha pessoa num nível, vou perder o vínculo. Vou perder.
Ana Clara Costa: Ele vai querer ter perdido.
Fernando de Barros e Silva: E a reputação foi pro brejo.
Ana Clara Costa: É, cara, e ele falava que não conhecia o Thiaguinho.
Celso Rocha de Barros: Rapaz, estamos vendo aí exatamente.
Fernando de Barros e Silva: Cacete, por que que eu fui ganhar no Zezé di Camargo.
Sonora: No silêncio da noite, ele bota um sertanejo aí, fica ouvindo.
Ana Clara Costa: É o amor...
Fernando de Barros e Silva: Caraca, quem fala é o cantor de Zezé Di Camargo pedindo votos para Flávio nas suas redes sociais. Vejam só o que Fernando Barros, essa farsante que fala que tem Adorno aqui atrás dele tudo e tá lá fora. Zezé Di Camargo. Impostor. Vigarista! Muito bem.
Ana Clara Costa: Essa era para eu saber. Eu tenho lastro para saber essa.
Fernando de Barros e Silva: Bom, depois deste momento épico, vamos aqui para o melhor momento do programa o momento das cartinhas. Correio Elegante, momento de vocês. Vamos lá. O Antônio Carlos diz o seguinte: "Amigos, acompanhar vocês é sempre um prazer, mas lidar com a ansiedade que a política brasileira nos proporciona ao mesmo tempo que me preparo para um transplante renal no próximo dia 28 de outubro não foi fácil, mas a companhia de vocês sempre ajuda. Peço boas energias para minha recuperação e em especial para a Cristiane, minha doadora. E vejam só, esposa também".
Ana Clara Costa: Caramba!
Fernando de Barros e Silva: "Cada um tem a mega-sena que lhe cabe na vida, né? Na torcida para um dia dividir uma mesa de bar com vocês. Vida longa ao Foro". Antônio Carlos, que carta linda!
Ana Clara Costa: Antônio! Caraca, boa sorte!
Fernando de Barros e Silva: Boa sorte!
Celso Rocha de Barros: Boa sorte, cara.
Sonora: Você e Cristiane maravilhosa. Só repito o que ela fala. Mas enfim.
Fernando de Barros e Silva: Vida longa! Vida longa a vocês.
Ana Clara Costa: Vida longa.
Celso Rocha de Barros: Sensacional! Vida longa para vocês, gente! Boa sorte mesmo!
Ana Clara Costa: O Daniel Campos comentou: "Sou policial e trabalho diariamente com pessoas horríveis. Os colegas mesmo fascistas e bolsonaristas. Escuto o podcast e vocês me dão uma pequena luz". Daniel... Cara, a gente tem um ouvinte policial, meu Deus!
Celso Rocha de Barros: Pô, cara, valeu mesmo.
Ana Clara Costa: A gente ganha o dia com uma dessa.
Celso Rocha de Barros: Muito legal mesmo. A Camila de Lorena escreveu: "Acompanhei a apuração pelo Foroe me deu uma vontade de preparar um chá de camomila, um escalda-pés e uma cama cheirosa de lavanda para a Ana Clara. Gente, essa moça precisa dormir".
Ana Clara Costa: Preciso.
Celso Rocha de Barros: "Trabalhou incansavelmente para salvar a democracia". Trabalhou mesmo, Camila Todos nós vimos ela trabalhando.
Ana Clara Costa: Todos nós trabalhamos. Que isso!
Fernando de Barros e Silva: Mas segunda-feira ela já tava no beach tênis. Ela não dorme. Ela já tava no beach tênis arrasando lá, fazendo os marmanjos correrem pra lá e pra cá.
Celso Rocha de Barros: Isso aí. Já o Vinícius Hildebrand Andreoli mandou um agradecimento especial: "Fico muito feliz que minha assinatura da piauí está pagando vocês para assistirem as coisas que eu não quero assistir".
Ana Clara Costa: Pagando o Celso sobretudo.
Celso Rocha de Barros: Muito bom. Muito boa, Vinicius. Pode deixar que a gente vai vendo aqui. Dark Horse já tá na minha fila aqui para ver se é que vão acabar, né? Porque eu não sei se agora eles não vão precisar do dinheiro do filme para se sustentar lá.
Fernando de Barros e Silva: Gente, antes de acabar eu quero mandar um abraço carinhoso para o Juca Kfouri e para Leda Kfouri, pais da Camila Kfouri, psicanalista que nos deixou essa semana dedicar o programa a Memória dela. Um grande abraço para o Juca e para a Leda.
Ana Clara Costa: Puxa! Um abraço apertado.
Celso Rocha de Barros: Grande abraço, grande Juca. Que Deus lhe dê força nessa hora difícil.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. E assim a gente vai encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars para a gente no Spotify. Você ouve o Foro de Teresina toda semana no Spotify e nas demais plataformas de áudio. Também no Spotify, o assinante piauí eassinante do Clube da Novelo podem ouvir as reportagens da piauí narradas pelos seus autores. O Foro de Teresina é uma produção do estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é do Paulo Victor Ribeiro. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitski. A edição é da Mariana Leão e do Paulo Victor Ribeiro. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisola. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, e no Estúdio Rastro, do grande Danny Dee. Eu me despeço então dos meus amigos. Tchau, Ana.
Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal.
Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.
Sonora: Tchau, Fernando. Até semana que vem.
Fernando de Barros e Silva: É isso gente! Ótima semana a todos e até semana que vem.