questões ambientais
Maria Clara Parente e TJ Jordan*, da Ilha de Marajó (PA) 16 Jun 2026
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Quando o pescador e ativista ambiental Nelson Bastos pegou o microfone das mãos de uma funcionária da Petrobras, ele sabia exatamente o que queria dizer. “A Petrobras precisa ter respeito por nós”, disse o homem de 58 anos. “Nós, que estamos aqui no Marajó por gerações, com ancestralidade indígena e africana, sempre na miséria, na pancada, na sobrevivência mesmo, nós merecemos respeito.”
Ele acabara de interromper um evento da Petrobras para cerca de cinquenta moradores da cidade de Cachoeira do Arari, na Ilha de Marajó, no Pará, em 24 de novembro passado. O objetivo do encontro era explicar as etapas do processo recém-iniciado de exploração de petróleo na região. Bastos continuou sua fala, lamentando os impactos sobre a pesca e a devastação que um vazamento de óleo poderia causar no delicado ecossistema amazônico. A Ilha de Marajó abriga a maior faixa contínua de manguezais costeiros do mundo, com pelo menos 9,3 mil km² de recifes de corais.
Para chegar à reunião, o pescador pediu emprestado o carro de um amigo e dirigiu por duas horas, desde Salvaterra, onde ele mora, até Cachoeira do Arari. Levou mais 30 minutos para encontrar a associação de pescadores, que sediava o encontro em uma cabana de madeira sobre palafitas, escondida no fim de uma estrada. Bastos sabia que, se não estivesse lá, o discurso da petrolífera provavelmente não seria contestado.
Antes da sua chegada, as duas funcionárias da Petrobras que participavam do evento haviam dito ao público que a empresa cumprira todas as exigências do Ibama para prevenir possíveis derramamentos de óleo. Segundo elas, estudos da companhia indicavam que, mesmo em caso de vazamento no chamado Bloco 59, o óleo jamais alcançaria o trecho do litoral do Amapá mais próximo do poço, muito menos a Ilha de Marajó.
Por enquanto, o Bloco 59 é apenas uma área de perfuração em alto-mar, localizada a 175 km da Costa do Amapá e a 500 km da Foz do Amazonas e da Ilha de Marajó. A licença atual da Petrobras, concedida pelo Ibama em outubro, permite a perfuração de um único poço exploratório, chamado de Morpho (nome de uma borboleta amazônica), para verificar se existem reservas de petróleo que tenham viabilidade comercial e possam ser extraídas com segurança. A empresa iniciou a perfuração no mesmo dia da emissão da licença. Se esses testes forem bem-sucedidos, isso pode abrir caminho para a perfuração em centenas de outros blocos da Petrobras e de companhias petrolíferas internacionais ao longo da Costa do Amapá até o litoral mais ao Sul, passando por Marajó.
As funcionárias da Petrobras também listaram doze projetos ambientais que a Petrobras apoia na região e prometeram que a perfuração impulsionaria a economia local. Em dado momento, apontaram para os objetos de plástico na sala e disseram: “O ar-condicionado, as caixas de som, os computadores, os celulares, as cadeiras... O petróleo está presente em muitas áreas da nossa vida cotidiana.” Uma menção ao “efeito estufa” apareceu na apresentação e nenhuma delas se deteve no alerta de cientistas de que novas explorações de petróleo precisam ser evitadas para conter o agravamento das condições climáticas no planeta.
Bastos contou ao público uma história diferente. Ele acredita que os estudos de risco de derramamento de petróleo da Petrobras não levam em conta as correntes e marés específicas que regem as águas da região. “As pessoas que pescam lá fora, ao Norte, no que eles chamam de Foz do Amazonas, sabem que existe um vento chamado geral”, disse. Em 2017, Bastos interrompeu o seu trabalho como pescador artesanal para fazer um mestrado sobre os impactos da exploração de petróleo nos povos amazônicos e seus territórios, na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém. Agora, dedica-se a um doutorado sobre o mesmo tema. “Eu analisei com atenção o Relatório de Impacto Ambiental da Petrobras. Já vi as modelagens que dizem que o petróleo não chegaria à nossa costa. Mas, quando uma de nossas boias se solta lá no Norte, o vento geral traz a boia até a praia. É isso que poderia trazer esse petróleo até aqui, em caso de vazamento”, ele disse à plateia em Cachoeira do Arari.
Ainda não está claro se o vento geral poderia influenciar um possível vazamento de petróleo e de que maneira. Mas oito organizações ambientais e indígenas, entre elas Greenpeace, WWF (Fundo Mundial para a Natureza) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), compartilham as preocupações de Bastos. Elas contestaram a decisão do governo de conceder a licença de exploração para a Petrobras, com o argumento de que há falhas na modelagem do derramamento de óleo – a simulação por computador do que ocorreria caso houvesse um desastre, prevendo a trajetória, a dispersão e o comportamento do petróleo derramado no mar e submetido às correntes marítimas.
Uma dessas falhas, segundo ativistas, é a utilização de dados de 2013 sobre marés e correntes, apesar de já existirem dados disponíveis de 2024. A ação também alega que o Ibama, no processo de licenciamento, ignorou os impactos climáticos que podem ser produzidos com a exploração de petróleo na região, e que a Petrobras não cumpriu sua obrigação legal de consultar as comunidades indígenas e quilombolas que vivem próximas à área de perfuração (já que uma reunião inicial em 2023 com representantes locais não teve prosseguimento).
A Petrobras e o Ibama afirmaram à piauí que o argumento dos ativistas sobre as marés e correntes é “incorreto” e que a modelagem de derramamento de óleo segue as “melhores práticas do setor”. Também disseram que a exigência de consulta às comunidades locais não se aplicava ao caso, por se tratar de uma área de perfuração em alto-mar. O Ibama declarou ainda que não precisa considerar os impactos do projeto sobre o clima, uma vez que a licença se refere a uma perfuração exploratória, e não à produção comercial de petróleo e gás.
Quando Bastos terminou seu discurso, não havia dúvida sobre de qual lado a sala estava. Os moradores de Cachoeira do Arari o aplaudiram, enquanto ele devolvia o microfone às representantes da Petrobras, que agradeceram ao ativista por sua fala.
Cerca de um mês e meio mais tarde, o alerta de Bastos esteve perto de se confirmar. Em 4 de janeiro passado, 18 mil litros de fluido de perfuração – uma mistura de água e diferentes substâncias químicas injetada no poço durante a perfuração para manter a pressão e transportar fragmentos de rocha até a superfície – vazaram do poço Morpho para o mar. A Petrobras disse ter controlado o vazamento e que o fluido “atende aos limites de toxicidade permitidos”. O Ibama, porém, multou a empresa em 2,5 milhões de reais. Um relatório interno do órgão ambiental, obtido pela DW Brasil, apontou que os produtos químicos presentes no fluido poderiam afetar funções básicas, como a respiração, de peixes e outros organismos.
Dois meses depois do vazamento, no dia 4 de março, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) anunciou ter encontrado inconsistências nos planos da Petrobras para testar e manter as bombas de combate a incêndio do poço, e que poderia aplicar uma nova multa de até 2 milhões de reais. A Petrobras afirma que suas operações de segurança são eficientes e que a infração se baseou em problemas com a documentação, e não com os equipamentos em si.
Entre 2020 e 2021, a Petrobras deixou de ser sócia minoritária das empresas petrolíferas europeias BP e TotalEnergies nos seis blocos na Foz do Amazonas (entre eles o Bloco 59 da BP), passando a controlá-los integralmente. Desde então, vem ampliando ano após ano seus investimentos em comunicação, como o encontro em Marajó, a fim de difundir sua narrativa sobre as perfurações petrolíferas e se apresentar como uma empresa preocupada com a sustentabilidade. Para isso, a empresa construiu uma sofisticada engrenagem de publicidade e de estratégia de comunicação, como mostram documentos internos e dados obtidos pela piauí em parceria com o site investigativo de clima DeSmog, por meio de pedidos de acesso à informação e em portais de transparência.
Em 2023, o Ibama negou a licença à Petrobras para perfurações no Bloco 59, alegando insuficiência dos planos de resposta a emergências diante da “extrema sensibilidade socioambiental” da Bacia da Foz do Amazonas. No mesmo ano, pela primeira vez, o chefe da área de comunicação da Petrobras passou a reportar diretamente à presidência da empresa. Quando ela voltou a solicitar a licença, com um plano de resposta atualizado, dezenas de servidores do Ibama assinaram, em fevereiro de 2025, uma recomendação para que o pedido fosse novamente negado. Mas a licença acabou sendo concedida em outubro passado, às vésperas da COP30, para indignação de ativistas e cientistas climáticos. O Ibama afirmou que sua decisão foi “sustentada por sólida avaliação técnica” e que não houve interferência externa no trabalho do órgão.
A Petrobras disse à piauí que não há “relação causal” entre esse processo de licenciamento e o aumento de seus gastos com publicidade e patrocínios. Entretanto, em 2025, a empresa investiu 372 milhões em publicidade – cinco vezes mais que o valor gasto em 2020. Os dados mostram que também quadruplicou o valor de seu portfólio de patrocínios culturais e ambientais no mesmo período, passando de 245,4 milhões de reais, em 2020, para 1,25 bilhão de reais, em 2025. A Petrobras afirmou que seus gastos com comunicação foram menores em 2020, por ter entrado em uma fase de venda de ativos para reduzir seu endividamento, e que a partir de 2023, sob nova gestão, os gastos retornaram a “níveis compatíveis com a escala, o alcance e a responsabilidade institucional da maior empresa do Brasil”. A empresa acrescentou que seus gastos com publicidade, ajustados pela inflação, foram 55% maiores em 2012 do que em 2025.
A engrenagem publicitária inclui desde apresentações para comunidades, como a que foi feita em Cachoeira do Arari, até encontros com jornalistas e a visita de influenciadores digitais a projetos ambientais da petrolífera na Região Norte. É por isso que o logotipo da empresa tem aparecido cada vez mais associado a filmes sobre comunidades pesqueiras artesanais e exposições de poesia de mulheres indígenas, entre outras atividades. A empresa disse que passou a patrocinar projetos na região da Foz do Amazonas em 2023, “demonstrando que a Petrobras chegou previamente ao território com os projetos socioambientais de caráter voluntário”.
O portfólio de patrocínios inclui um número crescente de iniciativas na região, entre elas 16,4 milhões de reais destinados a um programa de conservação dos manguezais, justamente aqueles que, segundo comunidades locais e organizações da sociedade civil, seriam devastados em caso de um derramamento de óleo. A Petrobras e a sociedade civil estão travando “uma guerra de narrativas”, segundo Suely Araújo, que presidiu o Ibama entre 2016 e 2018, e hoje atua como coordenadora de política públicas do Observatório do Clima, uma das organizações que contestam na Justiça a licença de perfuração.
Durante meses, o presidente Lula e seus apoiadores reafirmaram publicamente que a exploração de petróleo na Foz do Amazonas representa uma oportunidade econômica imperdível para o Brasil e pode financiar a transição para fontes de energias menos poluentes. Essas mesmas mensagens têm aparecido em materiais institucionais da Petrobras. Mais recentemente alguns apoiadores do projeto, como o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), principal entidade de representação do setor de combustíveis fósseis no Brasil, acrescentaram uma nova justificativa para acelerar a perfuração na região: a guerra no Oriente Médio e a consequente alta nos preços do petróleo. “Não importa o que é realidade; importa o que se coloca nas narrativas. Então, para financiar a transição energética, eu vou piorar o problema que ela precisa resolver”, diz Suely Araújo.
Os opositores da exploração argumentam que o Brasil já supre sua demanda interna por petróleo e que o governo nunca destinou as receitas de exportação para a transição energética. Em 2024, apenas 0,16% dos 137,9 bilhões de reais arrecadados pelo Estado com o petróleo foram destinados a gastos climáticos ou ambientais, segundo um estudo do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), um think tank sediado em Brasília.
Na guerra de narrativas, a Petrobras vê a imprensa local como um campo de disputa estratégico, como demonstram documentos internos da empresa. Uma lista mostra que, em 2022, a empresa convidou 36 jornalistas do Amapá para participar de um curso online sobre os planos de perfuração. A apresentação de slides do curso não fez nenhuma menção às mudanças climáticas. Concentrou-se nos argumentos econômicos a favor da exploração de petróleo e listou os “impactos positivos no desenvolvimento socioambiental da região”.
Seles Nafes foi um dos convidados para o curso, embora sua participação não tenha sido confirmada pela Petrobras, bem como a de outras pessoas. Ele administra um site de notícias sobre o Amapá, tem 90 mil seguidores no Instagram e publicou pelo menos dez artigos apoiando os planos de perfuração e atacando os detratores, com títulos como Petróleo pode acrescentar R$ 10 bilhões ao PIB do Amapá. Nafes também compartilhou um vídeo – visto mais de 1,5 milhão de vezes –, no qual o youtuber Sérgio Sacani afirma que os preços da energia “disparariam” se o Brasil não começar a perfurar na Foz do Amazonas. Nafes não respondeu ao pedido de entrevista da piauí.
A Petrobras também ampliou sua rede de influenciadores nas redes sociais. Em 2024, contratou 72 deles, quase o dobro do ano anterior e mais de três vezes o número registrado em 2022, segundo dados obtidos pela piauí, a DeSmog e a Unearthed, a unidade investigativa britânica do Greenpeace. Os influenciadores contratados vão desde professores de biologia a apresentadores de telejornal e ativistas LGBTQIAPN+, muitos deles voltados para o público jovem, que normalmente não interage com conteúdo da Petrobras nas redes sociais.
No total, os influenciadores contratados pela Petrobras publicaram mais de 5 mil conteúdos de janeiro de 2024 até agosto de 2025, antes da concessão da licença do Bloco 59, como apontam dados internos da empresa. Essas publicações apareceram mais de 4 bilhões de vezes nos feeds de usuários nas redes sociais. Apenas os vídeos somaram 1,65 bilhão de visualizações – o equivalente a cada pessoa no Brasil assistir oito vezes a um vídeo patrocinado pela Petrobras.
Em um comunicado anunciando a campanha publicitária “Transição Energética Justa”, a petrolífera afirmou ter contratado “um squad [esquadrão] de influenciadores, cuja linguagem é voltada para a geração Z”. Essa estratégia tem se tornado comum entre empresas de petróleo no mundo todo, como Shell e bp, no intuito de se conectarem com um público mais amplo e mais jovem. Para isso, os influenciadores são peças importantes. “Eles conseguem criar uma conexão real com seu público, o que acaba dando legitimidade às mensagens corporativas que as empresas estão promovendo”, diz Bruno Araujo, geógrafo e comunicador climático.
Alguns conteúdos produzidos por influenciadores para a Petrobras – como a série de vídeos sobre combustíveis produzidos a partir de algas, realizados por Mylly Biologando, que faz divulgação científica para jovens – apresentam a empresa como inovadora em energia limpa. Outros conteúdos associam a marca Petrobras a movimentos socialmente progressistas, indígenas ou ambientais.
We’e’ena Tikuna, artista e ativista do povo Tikuna, que tem 1 milhão de seguidores no Instagram, criou e compartilhou uma versão tikuna do tradicional macacão laranja dos trabalhadores da Petrobras para a campanha “Petrohype”, que celebrou os 70 anos da empresa, em 2023. Na série de viagens Mochileiras, influenciadoras percorrem projetos culturais e de conservação patrocinados pela Petrobras, inclusive na Amazônia. Em um dos vídeos, com mais de 5 milhões de visualizações no YouTube, a influenciadora Amanda Mota sorri para a câmera diante do logotipo da Petrobras durante o Festival Choro Jazz de 2025, na Ilha de Marajó, evento ao qual a empresa dedicou um patrocínio de 6,7 milhões de reais nos últimos dois anos.
A artista We’e’ena Tikuna solicitou que seu nome não fosse incluído nesta reportagem e ameaçou adotar medidas judiciais caso não fosse atendida. Amanda Mota não respondeu ao pedido de entrevista. Mylly Biologando afirmou que sua equipe “avalia com cuidado as empresas com as quais decide se associar [...] e acredita na seriedade da Petrobras e em seus esforços para se atualizar e se preparar para a transição energética”.
A campanha “Transição Energética Justa” foi lançada em julho de 2025 pela Petrobras, que vem destinando orçamentos cada vez maiores para anúncios na tevê, no rádio e no cinema. Estrelada pela atriz Camila Pitanga e com música original de Diogo Nogueira, a campanha foi exibida pela primeira vez no intervalo do Jornal Nacional. Nela, a atriz, vestindo uma camisa verde, afirma: “A Petrobras é líder na transição energética justa.” Algumas cenas depois, Pitanga aparece em escritórios da empresa, onde encontra funcionários sorridentes e assiste a uma apresentação sobre um projeto de conservação de baleias-corcundas. “E tem que estar sempre atento ao meio ambiente”, ela sussurra, de sua poltrona no auditório. Na cena seguinte, ela e uma motorista de caminhão, enquanto passam por um campo de painéis solares, concordam que “abraçar novas formas de energia também é parte de uma transição energética justa”. Na cena final, durante o entardecer em baía idílica, Pitanga repete sua frase inicial, acrescentando: “Justa para todos. Justa para você.”
A crescente consciência sobre a crise climática coloca a Petrobras sob pressão para demonstrar que pode liderar o país na transição para energias mais limpas. Assim como a TotalEnergies, a BP e a Shell têm feito, ela tenta reinventar sua imagem: não quer mais ser vista apenas como uma petrolífera confiável, mas como uma força de desenvolvimento social e ambiental.
A campanha com Camila Pitanga foi feita pela Propeg, uma das duas principais agências de publicidade que trabalham para a Petrobras. A outra é a Ogilvy Brasil. Ambas estão sediadas em São Paulo e, tanto uma como a outra, dizem nos contratos que seu trabalho visa a “fortalecer a imagem corporativa da Petrobras [...] no Brasil e no exterior”. Em parte, isso se deve ao fato de que investidores estrangeiros detêm 47,5% da petrolífera. A Ogilvy Brasil tem um contrato de cinco anos (de 2022 a 2027) com a empresa, no valor de 488 milhões de reais. O contrato da brasileira Propeg também é de cinco anos, válido até 2027, no valor de 450 milhões de reais, de acordo com o localizador público de contratos da Petrobras.
Um ex-funcionário sênior da WPP, holding britânica de publicidade dona da Ogilvy Brasil, diz que a atual estratégia de publicidade e comunicação da Petrobras parece desenhada para conquistar a “licença social” necessária para continuar expandindo suas operações de combustíveis fósseis (ele pediu para não ser identificado com receio de ser prejudicado profissionalmente). “Licença social” é a expressão usada na indústria para descrever como empresas buscam tornar suas atividades aceitáveis para o público. Segundo o ex-funcionário, as agências da WPP costumam desempenhar papel central na forma como seus clientes estruturam estratégias de comunicação voltadas a esse tipo de objetivo. “Claro que isso significa construir a imagem que as empresas querem que o público veja, em vez de apresentar a realidade”, disse.
Em junho de 2025, ativistas climáticos estenderam uma faixa em frente aos escritórios da WPP em Londres. Chamaram as lideranças da empresa de “criminosos do clima”, em protesto contra seu trabalho para produtores de combustíveis fósseis. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), organização intergovernamental sediada em Paris, analisa atualmente uma denúncia contra a WPP, acusando a holding de violar diretrizes da organização sobre clima e direitos humanos pelo mesmo motivo. Procuradas pela piauí, a Propeg e a Ogilvy disseram que as perguntas sobre seu papel na estratégia de publicidade da Petrobras devem ser respondidas pela própria petrolífera. A WPP não atendeu aos pedidos de entrevista.
“Acho que as agências de publicidade precisam assumir uma responsabilidade muito séria pela forma como posicionam a indústria do petróleo”, diz Alana Manchineri, gerente de comunicação da Coiab. “É como acontece com a publicidade de jogos de azar. Você sabe que aquilo faz mal às pessoas. Sabe que há pessoas que vão adoecer por causa disso, e ainda assim estabelece mecanismos de comunicação para capturar a imaginação da sociedade e tornar isso popular.”
Em novembro de 2025, quatro meses depois de lançar a campanha “Transição Energética Justa”, a Petrobras anunciou que pretende investir 109 bilhões de dólares (cerca de 550 bilhões de reais) para expandir seus negócios entre 2026 e 2030. Apenas 8% desse valor será destinado à energia de baixo carbono, como biocombustíveis e solar – um número que também inclui a produção de gás, outro combustível fóssil que contribui para o aquecimento do planeta. Esse percentual representa uma queda de 1,7 ponto percentual em relação ao plano do ano anterior.
Mais de 70% desse orçamento será destinado à exploração e produção de petróleo, um aumento de dois pontos percentuais em relação a 2025. “Não dá para dizer que a Petrobras está agindo da melhor maneira possível diante da crise climática”, afirma Suely Araújo, a ex-presidente do Ibama. “Isso simplesmente não é verdade. E a empresa promove a transição energética como se ela fosse completamente justa. Justa para quem? Em benefício de quem?”
Outra frente de batalha da Petrobras é a criação de conteúdo para a internet. A empresa produziu uma coleção inteira de vídeos, “com o objetivo de esclarecer a população sobre os investimentos da Companhia na região da Margem Equatorial” (a Petrobras tem usado o termo “Margem Equatorial” para a área de perfuração, evitando “Foz do Amazonas”, que faz referência direta à floresta). Na série Petroverso, divulgada no YouTube, LinkedIn e Instagram em 2023, 2024 e 2025, um funcionário da Petrobras do município amazônico de Óbidos fala sobre o trabalho em projetos de segurança na perfuração. “Eu me imagino [no futuro] participando do grande desafio que é [perfurar na] Margem Equatorial”, diz ele, vestindo um uniforme laranja vibrante da Petrobras. “Quero ver isso acontecer. É um orgulho para mim fazer parte dessa equipe, sabe?”
Em outro vídeo, de 2023, que acumula mais de 17 mil visualizações no YouTube, o então presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, afirma que a empresa precisa perfurar na Foz do Amazonas para “viabilizar essa transição [energética], tanto do ponto de vista financeiro quanto para garantir a segurança energética do Brasil”. A atual presidente da Petrobras, Magda Chambriard, tem usado argumentos semelhantes e não se envergonhou ao repetir, em maio de 2025, durante uma conferência da indústria petrolífera nos Estados Unidos, o bordão usado por Donald Trump em favor da exploração petrolífera: Let’s drill, baby, drill! (Vamos perfurar, baby, perfurar).
Enquanto movimentos populares de oposição cresciam durante a disputa da Petrobras para obter a licença de perfuração na Foz do Amazonas, a empresa tratou de fazer com que narrativas favoráveis circulassem nas comunidades locais. O evento em Cachoeira do Arari, na Ilha de Marajó, foi uma das mais de sessenta “reuniões informativas” realizadas para as comunidades da região desde 2022, segundo as assessorias de imprensa da Petrobras e do Ibama.
Entre novembro e dezembro de 2025, depois do início de perfuração exploratória no Bloco 59, a Petrobras realizou dezessete encontros, de acordo com uma carta enviada pela empresa ao Ibama em 19 de novembro. Os encontros eram uma exigência da licença concedida para o Bloco 59, com o objetivo de garantir uma “comunicação ampla e eficaz [...], possibilitando o alinhamento de expectativas em relação [...] à atividade de perfuração”.
Um estudo publicado em março passado na revista acadêmica Global Environmental Change apontou em uma amostra de materiais de comunicação da Petrobras sobre a Foz do Amazonas produzidos entre 2022 e 2024, incluindo apresentações para comunidades, ao menos dez afirmações falsas ou enganosas. Um dos slides da apresentação da Petrobras feita para comunidades entre novembro e dezembro de 2025 dizia que a companhia havia perfurado “mais de 3 mil poços em águas profundas sem qualquer dano ao meio ambiente”. No entanto, a Petrobras reportou todos esses anos à ANP centenas de incidentes ambientais offshore (longe da costa), como o vazamento de fluidos de perfuração, segundo dados disponíveis no próprio site da agência.
A Petrobras também foi responsável por uma série de desastres ambientais em terra e no mar. Em 2000, oleodutos se romperam duas vezes, despejando milhões de litros de petróleo na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e no Rio Iguaçu, no Sul do Brasil. No ano seguinte, a plataforma offshore P-36 afundou, depois de uma série de explosões, matando onze trabalhadores e provocando um vazamento de petróleo na Bacia de Campos, na Costa do Rio de Janeiro. Uma explosão semelhante na Bacia do Espírito Santo, em 2015, matou nove trabalhadores.
Ativistas, pesquisadores acadêmicos, moradores e até o Ministério Público Federal (MPF) afirmam que as informações compartilhadas nas reuniões com comunidades são enganosas e não podem ser comprovadas. Dizem ainda que as apresentações minimizam preocupações legítimas sobre a distância do Bloco 59 em relação à costa, os programas de conservação da fauna da Petrobras, a crise climática e questões de segurança. “Em Marajó, algumas comunidades não têm acesso a essas informações. Elas simplesmente não chegam. Ou chegam de forma completamente distorcida”, afirmou a estudante de biologia Fernanda Pereira, de 23 anos, natural de Cachoeira do Arari, em Marajó, logo depois de participar de uma reunião em Soure, na costa Sul da ilha. Um participante do mesmo encontro descreveu a apresentação como “uma maravilhosa performance publicitária”.
Em fevereiro, o MPF enviou uma recomendação oficial ao Ibama para que a licença da Petrobras fosse revogada, com o argumento de que a empresa estaria induzindo o público a erro em reuniões com comunidades e em materiais de comunicação. Procuradores do Amapá e do Pará afirmaram que a Petrobras estaria minimizando os possíveis impactos do projeto ao se referir nos encontros apenas ao poço Morpho, quando planeja perfurar pelo menos outros três no Bloco 59 entre 2027 e 2029. Ativistas afirmam que tudo isso é parte de uma estratégia mais ampla para fazer da licença do Bloco 59 um teste de curto prazo com públicos que podem se opor à perfuração, omitindo deles que se trata da porta de entrada para a exploração em toda a região.
A piauí conferiu o documento de apresentação e a gravação em áudio do encontro em Soure, no Marajó, e constatou que não houve qualquer menção aos outros três poços por parte dos representantes da Petrobras no evento. Apesar disso, a empresa disse à reportagem que informou nos encontros sobre os três poços adicionais. Ao ser indagada sobre a razão de não discutir nessas reuniões como a produção e o consumo de petróleo e derivados afetam as mudanças climáticas, a Petrobras disse apenas que a maior parte das emissões de gases de efeito estufa no Brasil provém do setor agropecuário, e não do setor de energia. O Ibama afirmou que as reuniões “buscavam informar sobre os impactos do empreendimento em licenciamento, não abrangendo discussões que, apesar de relevantes, extrapolam o objeto do empreendimento em si”, como a exploração de novas frentes de exploração de petróleo e a discussão sobre impactos climáticos. O órgão não respondeu diretamente às perguntas sobre a recomendação do MPF.
Para ajudar a organizar os encontros com as comunidades, a Petrobras contratou a consultoria ambiental brasileira NAV Ocean, que tem entre seus clientes gigantes petrolíferas como Shell e Equinor. Responsável pela NAV Ocean, João Zanella mostra-se cético com relação às críticas feitas nos encontros. Ele disse já ter passado por isso quando se preparava a exploração petrolífera na Bacia de Pelotas, no Sul do Brasil. “Quando algo desse porte chega numa região, sempre gera expectativa sobre o que vai significar para o sustento dos pescadores”, diz Zanella, depois de uma reunião na associação de pescadores em Salvaterra, no Marajó. “Mas, se houver alguma queda na pesca, ela não virá desse projeto. Virá de tudo o mais que já está acontecendo: das outras pressões industriais que vêm se acumulando em torno dessas comunidades. Com o tempo, as pessoas começam a entender isso. Elas ficam mais tranquilas com relação à companhia. Só leva alguns meses.”
Além da ação com os influenciadores, a Petrobras tem ampliado anualmente, desde 2021, quando passou a deter integralmente a titularidade dos blocos na Foz do Amazonas, o número de projetos culturais que apoia na bacia amazônica e nos estados vizinhos, como filmes, shows e festivais indígenas. O total passou de apenas 2 projetos em 2020 para 19 até o fim de 2025, de acordo com dados do portal da transparência da empresa. No total, a empresa investiu mais de 108 milhões de reais nesses contratos.
O valor inclui os 16,4 milhões de reais destinados ao patrocínio do programa de conservação Mangues da Amazônia. “A pesquisa histórica mostra que, quando uma empresa tem grandes planos, se sente ameaçada ou sabe que há mais combustíveis fósseis a serem explorados, ela investe muito dinheiro antecipadamente”, disse o professor Gertjan Plets, da Universidade Utrecht, que estuda a atuação filantrópica do setor de petróleo e gás. “Essas empresas temem muito os protestos das comunidades locais, porque podem dificultar bastante a operação no território. Por isso, elas passam a atuar no setor cultural local e em grupos de preservação ambiental, para garantir que tenham aceitação social para operar.”
Para ativistas contrários ao petróleo na Foz do Amazonas, os anúncios da empresa são “manipulação”, como diz o pescador Jorge Gabriel, de 50 anos, que vive em Soure, no Marajó, e integra a campanha “Nem Um Poço a Mais”. “É como colocar uma venda nos olhos das pessoas.”
Entre 2023 e 2024, quinze casas em Pesqueiro, na costa Sul de Marajó, foram levadas por uma inundação. Hoje, o que resta são troncos de madeira irregulares cravados na areia da praia. Uma dessas casas pertencia a Álvaro Dione Santos Leal, de 34 anos, pescador e estudante de biologia no campus de Marajó da UFPA. Ele acredita que a elevação do nível do mar provocada pela mudança climática é parte da explicação do que ocorreu. Com o aumento da temperatura do oceano, pescadores experientes de Marajó dizem que a quantidade de peixe capturado diminui a cada ano.
O aquecimento do planeta está tornando a vida mais difícil em Marajó, uma região já economicamente negligenciada. Por isso, alguns dos moradores veem o dinheiro do petróleo como uma saída para as dificuldades. “Acho que ainda há pessoas que têm essa visão de que a Petrobras vai trazer coisas boas”, diz Leal, sentado na praia e olhando para o lugar onde antes ficava sua casa. “Alguns acham que vão ficar ricos”, acrescenta Patricia Faria Ribeiro, moradora de Pesqueiro que costuma representar a comunidade em questões ambientais. “O que eu digo a eles é que esse poço não vai trazer nenhum benefício para nós. Nenhum benefício em saúde, educação, trabalho, emprego. É uma ilusão.” Ao Norte, em Oiapoque, a cidade mais próxima do Bloco 59, novos assentamentos já começam a surgir, com a expectativa dos empregos que serão criados. “Existe essa ideia de que Oiapoque pode se tornar a nova Dubai. O processo de desinformação é gigantesco”, diz Luene Karipuna, ativista ambiental e de direitos indígenas.
Nas periferias das cidades mais pobres do Amapá, mesmo aqueles que conhecem os impactos da exploração de petróleo acreditam não ter alternativa senão apoiar o projeto. “Qualquer esperança de que a vida da pessoa possa mudar é esperança”, afirma Janaína Freitas Calado, professora da Fundação Universidade Federal do Amapá (Unifap) que pesquisa a percepção das comunidades locais sobre os planos de exploração de petróleo. “Como posso me preocupar se o mundo vai acabar por causa do aquecimento global se tenho três filhos para alimentar e não tenho água, não tenho comida, não tenho nada?”
O biólogo Jeronimo Dias dos Santos, morador da capital Macapá, compartilha dessa visão. Embora reconheça a urgência da crise climática e a necessidade de reduzir o uso de combustíveis fósseis, ele argumenta que a transição será gradual, e que o Brasil precisa manter sua autonomia energética nesse período. Para ele, a exploração pode “movimentar a economia de um estado historicamente esquecido pela federação”. Dias dos Santos acrescenta: “A gente pode aumentar a arrecadação sem derrubar uma árvore, sem abrir grandes áreas de monocultura, sem desmatar.”
Assim como o presidente Lula e seus aliados, a Petrobras defende há anos que a indústria do petróleo pode ajudar a tirar brasileiros da pobreza. “O petróleo significa diversificação não só energética, mas diversificação econômica, poder gerar desenvolvimento para o Amapá”, disse Clécio Luís (União Brasil), governador do Amapá, em 2024, ao pressionar o Ibama para conceder a licença de exploração à Petrobras. Em abril do mesmo ano, a empresa petrolífera afirmou a lideranças indígenas de Oiapoque que a perfuração poderia gerar até 3,3 milhões de empregos, 46 bilhões de reais em arrecadação tributária adicional e acrescentar cerca de 778 bilhões de reais ao PIB dos estados do entorno, segundo informações obtidas pela pesquisadora Marina Kuzuyabu, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas.
Municípios próximos a áreas de exploração de petróleo recebem milhões de reais em royalties, que devem ser investidos na melhoria de serviços públicos. Segundo um estudo de 2013 publicado na revista Resources Policy, esses royalties melhoraram, em média, as taxas de alfabetização, bem como o acesso à eletricidade, à água e à coleta de resíduos nos municípios petrolíferos brasileiros. Entretanto, em algumas cidades no Sudeste, como as da Bacia de Campos, no estado do Rio de Janeiro, as receitas do petróleo e do gás também aumentaram a desigualdade, de acordo com outro estudo publicado na Resources Policy, em 2015. Isso ocorreu sobretudo devido à má gestão na distribuição dos royalties. Entre os quinze municípios com maior arrecadação de receitas do petróleo entre 1999 e 2024, a maioria ainda apresentava indicadores socioeconômicos medianos ou baixos em 2025, conforme levantamento da Agência Pública.
O pescador Flavio Lontro, de 62 anos, que vive em Itaboraí, perto da Baía de Guanabara, diz que a exploração de petróleo na região trouxe apenas obras abandonadas, prejuízos à pesca artesanal e vazamentos que muitas vezes nem são notificados. Os empregos qualificados no setor petrolífero vão para trabalhadores de fora, segundo ele, enquanto a população local consegue apenas trabalhos mal remunerados. “Que desenvolvimento é esse?”, pergunta. “O benefício para a comunidade pesqueira é zero. Esquece, isso não existe”, diz Lontro, hoje coordenador nacional da Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e Povos Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos (Confrem).
Em uma das reuniões informativas da Petrobras no município de Soure, no Marajó, a ativista local Isabel Brito relembrou o que disseram pescadores de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Sergipe, em regiões com exploração petrolífera: “Eles nos contaram o que aconteceu com eles. Essa exploração é para gerar dinheiro para quem já tem dinheiro. Isso vai aumentar a desigualdade social e acabar destruindo nosso ambiente, nossa natureza.” Foi aplaudida. Mas, com a Petrobras já perfurando seu poço exploratório no Bloco 59, fica a pergunta: esses alertas não chegaram tarde demais para que os ativistas consigam barrar o avanço da petroleira?
O relógio marca 10 horas na Praia da Bernarda, em Jubim, no Sul de Marajó. A baía de areia é cercada por manguezais densos e verdes. Um grupo de quinze homens está com a água na altura dos joelhos ao redor de um barco de madeira, separando peixes de uma rede azul. O murmurinho constante das conversas só é interrompido por ocasionais gargalhadas. A cada instante, um peixe de cor diferente bate em uma caixa plástica na praia, arremessado da água com uma precisão aperfeiçoada ao longo de muitas manhãs de prática. Não muito longe, os urubus aguardam pacientemente pelos descartes.
Dois dos pescadores estão de pé desde 1 hora, quando saíram para pescar. Os outros chegaram para encontrá-los no retorno, às 6 horas, e serão recompensados com tainhas frescas no almoço, grelhadas sobre brasas na praia. Nelson Bastos, o ativista ambiental que pegou o microfone na apresentação da Petrobras, conta que aprendeu a pescar com o pai ali mesmo, aos 13 anos. Observando a cena, ele diz: “É isso que temos medo de perder.”
Por enquanto, a decisão do Ibama de permitir que a Petrobras realize testes no Bloco 59 colocou a chave na porta da Foz do Amazonas, mas ela ainda não foi aberta. Caso sejam encontradas reservas suficientes de petróleo, a produção em larga escala provavelmente só será possível daqui a sete ou oito anos. O recente vazamento de fluido de perfuração no poço Morpho pode reforçar o argumento para revogar a licença, afirma Vivian Ferreira, advogada do Observatório do Clima que atua no caso. “Nós até brincamos que pode ter sido a melhor coisa que poderia ter acontecido”, diz. “Esperamos que o vazamento evidencie que a empresa não tem o controle absoluto que afirma ter sobre a região.”
Entre os ativistas, alguns dizem que não vão desistir de tentar impedir a perfuração e continuam participando de encontros contra o petróleo, publicando nas redes sociais e organizando protestos. Outros, menos otimistas, assistem às apresentações da Petrobras para saber se serão recompensados, caso algo dê errado.
Bastos parece estar cansado de enfrentar uma empresa com recursos aparentemente infinitos. Para encontrar esperança, ele reflete sobre sua terra natal. “Marajó é especial porque é a nossa casa, nossa casa comum, nossa biosfera. E é onde vivem meus ancestrais, os encantados. Os encantados das águas, das florestas. É por isso que somos contra a exploração de petróleo. Porque ela vai acabar com a nossa vida, com os espíritos que vivem nas águas. São eles que nos dão vida.”
*Com colaboração de Naira Hofmeister.